José Manuel Moran

“Precisamos aprender o que conservar e o que mudar” diante das tecnologias


Em seu texto “As mudanças perto de nós”, o senhor afirma que: “A humanidade sempre aprendeu a conviver com inovações, mas atualmente a sucessão delas é alucinante e a quantidade de implicações, freqüentemente desconhecida”. Em Educação, já podemos listar algumas dessas implicações?

 

O professor aposentado pela Escola de Comunicações e Artes da USP, e diretor da Faculdade Sumaré, José Manuel Moran, conversou com os internautas do Portal EducaRede na última terça-feira (06/11). A sala de chat ficou cheia neste animado bate-papo, em que foram abordados diversos assuntos, principalmente ligados à tecnologia, área em que Moran pesquisa. A capacitação e motivação dos professores para lidarem com as inovações tecnológicas, o Ensino a Distância, a mediação e o uso dos blogs como ferramenta pedagógica estão entre os temas. Confira abaixo trechos do encontro virtual:


Renata

Moran Estamos um pouco perdidos, porque não basta mudar por mudar. Precisamos aprender o que conservar e o que mudar. Educar é sempre um processo humano, de relação entre pessoas, hoje mais mediado por tecnologias. Isso não é simples, porque implica repensar a forma de organizar o processo a que estávamos acostumados.

Profª Lu LinneuConcordo com você que a inovação incomoda aos que não querem mudar suas práticas. Mas como motivá-los a participar e se envolver em projetos novos?

Moran Envolver os outros tecnologicamente é um processo longo, que demora no mínimo dois anos até a apropriação pedagógica. O importante é mostrar resultados e fazer a iniciação tecnológica com grande afetividade e carinho. Alguns professores só falam das tecnologias em si, mas temos que falar também dos encontros, da aprendizagem humana com tecnologias.

Tiago EmmanuelComo é possível utilizar a tecnologia para melhorar a qualidade do ensino nas escolas públicas? Percebe-se uma grande defasagem dos professores em relação aos alunos quando o assunto é o acesso à informática.

Moran – Acesso e capacitação contínua é o caminho. Começam a ser implantados projetos mais consistentes dos governos (nos três níveis) para que as escolas públicas estejam conectadas, tenham mais computadores em rede, façam cursos de formação de professores, além do projeto de um computador popular para cada aluno.

Josiene VilelaComo mudar a metodologia enraizada na prática docente? E como vencer a resistência dos professores?

Moran A metodologia focada em conteúdo e no professor está dentro do DNA da escola e de todos nós, porque é o caminho que conhecemos até agora. A mudança se dá por experiências de grupos e pelo apoio de gestores inovadores. Precisamos juntar-nos aos professores inovadores e aos gestores inovadores.

Miguel Podemos falar em ganhos qualitativos com a utilização das novas tecnologias, principalmente na Educação Fundamental?

Moran Até agora conseguimos ganhos parciais no uso das tecnologias, porque também sua utilização foi parcial. O ganho fundamental se dá quando avançamos na integração do humano, do emocional e do ético, junto com o tecnológico. Essa integração tem sido deficiente, mas creio que estamos caminhando para situações melhores.

Nice Fale um pouco sobre as relações de ensino e aprendizagem que essa nova tecnologia (computador e Internet) está criando em sala de aula?

Moran – O computador e a Internet podem ser utilizados em contextos diferentes, isto é, podem reforçar o ensino convencional ou servir de apoio para situações mais ricas, focadas em aprendizagem significativa, colaborativa e baseada em pesquisa e projetos. Acredito que estamos caminhando para esta nova dimensão, mas não é fácil, muitos ainda não reconhecem a importância de trazer estas tecnologias para dentro da escola.

Vinni Meu nome é Vinicius. Sou aluno–monitor da escola Linneu Prestes. Quero saber do senhor quais tecnologias o aluno tem que ter para estar no mundo globalizado?

Moran As tecnologias que precisamos são todas, as simples e as mais sofisticadas. As melhores são as possíveis no momento. Podendo escolher, vale a pena utilizar as que sensibilizam o aluno, como a Internet, o celular, o podcast (programas digitais sonoros), os blogs e tantas outras.

Ana Estou fazendo minha monografia na área de tecnologia. Diante de tantas inovações, qual o maior desafio enfrentado hoje pelos professores?

Moran – O maior desafio é entrar em sintonia com os alunos, sensibilizá-los, atraí-los, torná-los parceiros, despertar neles o desejo de aprender. Feito isso, é facil utilizar as tecnologias e qualquer técnica.

Domingos O senhor acredita na Educação brasileira da forma como vem sendo realizada na escola pública, com as séries cada vez mais reduzidas e os professores ensinado pouco e os alunos nada estudando?

Moran Eu acredito que a Educação tende a melhorar na medida em que todos estamos mais conscientes da sua importância para mudar o país, mas isso não se faz num passe de mágica; é preciso muito esforço integrado e várias décadas.

Kelly A utilização das TICs nas escolas públicas poderão se tornar uma breve e prazerosa realidade. Qual sua opinião a respeito?

Moran Vejo com esperança o avanço da escola pública na integração das tecnologias. No próximo ano, 300 escolas estarão totalmente conectadas com os computadores populares na sala de aula; em 2009 esse número será muito maior.

Evanildo É sabido que as modernas tecnologias se tornaram ferramentas indispensáveis à Educação em todo o mundo. O senhor acredita que nós já estamos acompanhando as mudanças exigidas pelas modernas tecnologias?

Moran Estamos muito aquém do que precisamos. O Brasil é muito desigual e contraditório. Há grupos extremamente avançados tecnologicamente e outros muitos excluídos. Tendemos a melhorar, mas depende de cada um de nós.

Ana Maria Gosto muito da utilização de multimídias. Porém, um dos problemas é justamente o uso da sala de informática. Um projeto que trabalhe Matemática, por exemplo, requer várias horas com muitas turmas diferentes e variados programas. A escola pública ainda não é capaz de oferecer a nós, docentes, uma infra-estrutura para isso. Como melhorar as condições do uso dos equipamentos como política educacional, e não somente para dizer que há uma sala de informática nas escolas?

Moran Concordo com a dificuldade da utilização do laboratório. Caminhamos para a escola conectada (salas de aula conectadas, ambientes de redes sem fio) e não só o laboratório. Isso trará grandes mudanças para as possibilidades de flexibilização dos processos de ensino e aprendizagem.

Cláudia Os alunos que temos hoje dentro da sala de aula se encaixam no perfil dos alunos co-pesquisadores, ativos no processo do seu próprio aprendizado, citados em seus textos? A transição dos nossos alunos para aqueles dos textos será rápida?

Moran – O aluno chega motivado à escola quando pequeno e, com o passar do tempo, se desmotiva. Por que será? O que oferecemos é o que ele espera e da forma que ele precisa? Há um divórcio profundo nas propostas de ensino com as formas usuais de aprender, e se não quebrarmos esse fosso, a desmotivação será cada vez maior.

Marcos AurélioComo será a escola do futuro? Qual será a real participação do professor nesta nova escola?

Moran A escola do futuro será um conjunto de espaços e tempos, mais flexíveis nas propostas, mas sempre com a mediação de professores humanistas, confiáveis e competentes. O que faz uma boa escola são os bons profissionais, professores competentes e motivados. As tecnologias permitem que a informação seja acessada pelo aluno de qualquer lugar, mas a aprendizagem contextualizada, ao menos no começo, depende da mediação dos professores.

Fernanda Eu moro em Jales e estou cursando Pedagogia na modalidade a distância pela UFSCar. Estou estudando vários textos seus e experimentando suas idéias na prática. É realmente inovador e motivador. Também sou professora de Matemática no Ensino Fundamental. Como eu poderia, sem muitos recursos, transformar minhas aulas em aulas-pesquisa. No Ensino Fundamental isto é possível?

Moran Obrigado por colocar em prática algumas das idéias dos textos. Em qualquer situação é possível focar a pesquisa, o desenvolvimento de atividades, de projetos. O material pode ser diferente, ou a forma. Mesmo sem acesso à Internet é possível focar essa aprendizagem ativa e colaborativa.

Fábio Em seu texto “A Educação que desejamos”, aparece o conceito “aulas-pesquisa”. O senhor poderia falar um pouco sobre esse conceito?

Moran São aulas em que o fundamental não é o professor passar a informação, mas organizar situações em que os alunos, individualmente ou em pequenos grupos, busquem a informação (com a mediação do professor) e a contextualizem, a reelaborem, a comuniquem para todos, e a apliquem à sua realidade. Por isso o papel do professor é importante, não tanto como falante, mas como mediador.

Solange/Mogi Mirim Sou ATP no Núcleo de Informática e desenvolvo, em conjunto com meu grupo, uma proposta de Rádio Web no curso de Especialização de Tecnologia em Educação, pela PUC–Rio, para escolas de tempo integral, como recurso de interação do currículo comum e oficinas. Nosso trabalho tem como embasamento idéias para desenvolvimento de habilidades e competências dos alunos. Gostaria de conhecer o seu ponto a esse respeito, já que o senhor foi um de nossos motivadores.

Moran Fico feliz com a proposta de Rádio Web. Os alunos gostam de falar, de integrar música e voz, além de divulgar isso para todos. O rádio, nas suas várias modalidades, é barato e permite a integração de conteúdos e a motivação dos alunos. Continuem avançando no projeto.

Santos Quando falamos em produzir conhecimento coletivamente, percebo que existe o silêncio virtual. As postagens em ambientes virtuais de aprendizagem/interação por meio de debates pelos fóruns ou listas de discussão por e-mail, são mínimas. Como instigar o aluno para uma participação mais ativa?

Moran Há silêncios preocupantes e silêncios estimulantes. Existem pessoas que observam, meditam, mas nem sempre contribuem tanto quanto outras. Elas aprendem bastante, mesmo com interação pequena. Concordo com o seu receio pela falta de exposição de muitos em ambientes virtuais, além da falta de cultura da escrita em muitos professores e alunos. A escrita deixa um registro permanente e muitos não gostam de se expor. A cultura se cria com a prática, com o incentivo e com temáticas interessantes para o aluno. Nós escrevemos mais facilmente sobre temas que conhecemos bem, como, por exemplo, futebol, não é verdade?

Prof. PedroO senhor tem um blog, o Educação Inovadora, que se apresenta como uma ferramenta para dialogar sobre as grandes mudanças que estão acontecendo na Educação em todos os seus níveis. Qual sua opinião sobre o uso de blogs como ferramenta pedagógica?

Moran O blog é uma página mais dinâmica, porque as pessoas podem opinar sobre os assuntos postados. É fácil de escrever, atualizar, ilustrar e comentar. Parece-me um recurso muito rico para a aprendizagem. Eu combino uma página mais fixa com textos prontos e o blog, com uma possibilidade maior de interação.

Julieta Gouveia Estou aprendendo agora sobre as novas TICs. Quais as principais ferramentas para uma aprendizagem tecnológica?

Moran Sucesso em sua aprendizagem tecnológica! As ferramentas são as possíveis na sua situação. Vídeo, cd, softwares interessantes, saber pesquisar na Internet, organizar um ambiente de grupos na Internet, criar um blog, fazer um programa de rádio e daí por adiante, até dominar um ambiente de aprendizagem como o Moodle, por exemplo. Caminhe do simples ao complexo, no seu ritmo e de acordo com suas possibilidades.

MarceloO senhor acha que as ferramentas chat,
em>Msn, e Orkut podem ser utilizadas como forma de ensino nos laboratórios de informática?

Moran Qualquer recurso de comunicação ou página de relacionamento tem suas vantagens e desvantagens. Os programas de comunicação online, como o msn, são úteis para trabalho em grupo, para orientação dos alunos, para tirar dúvidas, mas muitos os utilizam para entretenimento e bate–papo dispersivo. Dependem de como são utilizados. O Orkut também tem sua utilidade, embora as pessoas o vejam mais como um site de relacionamento do que de aprendizagem. Pode ser um espaço inicial de colaboração, mas há muitos outros (páginas de grupo) que se adaptam melhor para o ensino e aprendizagem.

Domingos Como o senhor vê a avalanche de universidades virtuais?

Moran Realmente há uma explosão de universidades virtuais, de cursos a distância, principalmente por teleconferência (satélite e tele-aula). Se, além das aulas, existem atividades, leituras e mediação interessantes, valem a pena. A questão é se temos mediadores (tutores) bem capacitados e remunerados para essa mediação (aqui vejo um problema mal resolvido em muitas destas universidades).

Marcos Maurício Um renomado professor da Educação da USP dizia que as ciências cognitivas eram um emaranhado de disciplinas como Ciência da Computação, Neurolingüística e Semiologia, e que se transformaram em verborréia. O senhor acha que com o surgimento das novas tecnologias na escola as ciências cognitivas voltam a ter importância nas atuais questões sobre Educação?

Moran Educar é ajudar a compreender, a conhecer. As áreas de conhecimento são especializações diante de um conhecimento cada vez mais complexo. Ninguém conhece tudo, mas é importante que tenhamos instrumentos para o conhecimento autônomo, em rede e humilde. Sabemos um pouco, não sabemos muito. A Educação é fundamentalmente a organização de processos cada vez mais ricos de conhecimento. Se não for dessa forma, estaremos nos enganando.

Ângela O senhor concorda que a partir das novas tecnologias conseguimos atrair, sensibilizar e tornar nossos alunos parceiros?

Moran Concordo que a boa utilização das tecnologias nos aproxima dos alunos, mas junto com elas precisamos mostrar que somos pessoas interessantes, abertas e confiáveis. Sem dúvida os alunos estão bem atentos a todas essas possibilidades que as tecnologias nos oferecem.

Marly Entendo que a primeira grande barreira a se transpor é o professor se enxergar novamente como aluno, o que considero algo mais complicado. O professor se tornar aluno de seus alunos.

Moran Quanto mais aprendemos e estamos abertos como alunos, mais facilmente encontraremos formas de ensinar e de orientar os nossos. Quando mais aprendemos, mais podemos contribuir para a aprendizagem de todos.

Grace Estamos caminhando cada vez mais para um mundo virtual. Como essa experiência pode ser positiva tratando-se do Ensino Fundamental?

Moran O mundo virtual é uma extensão do nosso mundo físico, e se integra o tempo todo. Nós estamos agora conectados virtualmente e estamos aprendendo. O Ensino Fundamental precisa dosar o presencial, o contato físico e as atividades virtuais. O aluno pode estar fisicamente na sala de aula e muitas vezes conectado, em grupo e individualmente, pesquisando. Ainda nos falta o acesso fácil a essa realidade conectada. Mas o Ensino Fundamental também integrará a presença física e os ambientes virtuais.

Kelly Percebo em seus textos a forte preocupação em equilibrar o advento das TICs com os valores morais e éticos, porém, vivemos numa sociedade bastante competitiva e individualista. Como nós, educadores, conseguiremos alcançar tal objetivo?

Moran Não é fácil conciliar colaboração e competição, mas é nosso desafio. Podemos ser bons competidores e colaboradores, dependendo do momento, da situação, do contexto. A formação precisa incluir cada vez mais a dimensão colaboradora, o aprender juntos, a troca. Mas a competência pessoal e a capacidade de lidar com conflitos, com as contradições pessoais e sociais também serão cobradas. Temos de encontrar um caminho positivo, de esperança, mesmo diante de um contexto social bastante difícil e violento. Sermos educadores com esperanças e não catastrofistas.

Sabine Como o senhor vê o e-learning coorporativo atual? Como será o futuro desta área na sua opinião? 

Moran Acredito que estamos passando de uma primeira fase, com um e–learning focado em conteúdos prontos para outro focado em competências e colaboração. Há cursos que são instrumentais e basta acessá-los com atenção e há outros em que a mediação é mais necessária, para a aquisição das competências desejadas. As corporações precisam de muita inovação pedagógica também. Há muita mesmice.

Agradeço a todos pelas perguntas tão ricas e variadas. Desculpem-me ter que respondê-las de forma às vezes simplista, pelo tempo e poucas linhas de cada resposta. Vejo em vocês pessoas comprometidas e que estão aprendendo a mudar. Contem comigo no que precisarem e procurarei continuar atualizando a discussão com textos, experiências e incentivo. Obrigado pelo apoio de vocês e continuem avançando, ajudando uns aos outros. Grande abraço para cada um de vocês e até breve.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Programa Ação


Ação entre amigos

Programa de TV sobre educação apresentado por Serginho Groisman comemora quatro anos no ar em gravação especial longe do estúdio

Por Paloma Varón

“Juntos nós podemos mudar o Brasil através da educação”. Esse é o slogan do programa “Ação”, apresentado por Serginho Groisman, que vai ao ar aos sábados, às 7h30 da manhã, na TV Globo, e também no Canal Futura, às quartas-feiras, 22h30. O “Ação” tem como objetivo divulgar informações sobre educação e incentivar o trabalho voluntário na rede pública brasileira de Ensino Fundamental.

Além de receber convidados, Serginho apresenta reportagens e entrevistas sobre iniciativas bem sucedidas de organizações não-governamentais (ONGs), empresas e outras instituições em todo o Brasil e até em outros países (em agosto, a equipe do programa fez matérias especiais em Taiwan).

No dia 3 de dezembro, o EducaRede acompanhou a gravação comemorativa de quatro anos do programa, realizada na Fundação Gol de Letra (FGL), zona norte de São Paulo. Foi a primeira vez que o Ação saiu do estúdio da Rede Globo. O programa foi ao ar no dia 13 de dezembro.

Nos bastidores

Chamava atenção a curiosidade estampada no rosto dos moradores da Vila Albertina, bairro da periferia paulistana, quando viram chegar o carro com a equipe do programa – composta por cinegrafistas, produtores, diretor, técnicos e o apresentador, é claro.

Depois de armar o cenário na quadra de esportes da Fundação Gol de Letra, posicionar refletores, câmeras e convidados, o diretor avisa: “Silêncio: gravando”. Os vizinhos do lado, além dos garotos e garotas atendidos pela FGL, automaticamente ficam mudos e atentos.

Descontraído, Serginho olha para a câmera e começa a falar com ela. Cumprimenta e apresenta os convidados do dia: o ex-jogador de futebol Raí, presidente da FGL, a coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Zilda Arns, a diretora do Instituto Faça Parte, Maria Lúcia Reis, e o presidente do projeto Régua e Compasso, de Santo André (SP), Wilson Bianchi.

Tudo corre bem, os convidados saúdam os “futuros” telespectadores, e Serginho se dirige a um grupo de grafiteiros para fazer uma breve entrevista quando o diretor manda parar tudo. O plástico que servia de filtro para um dos refletores estava caindo.

Segura, ajeita, testa, volta a gravar, começa tudo de novo. Assim, entre pausas e retomadas, flui um programa de televisão. Depois, o material bruto ainda passa pela edição, para ser finalizado e ficar no formato de meia hora, com os intervalos comerciais (no caso do “Ação”).

As entrevistas com os convidados, cada um contando sobre os seus projetos, se alternava com os depoimentos dos meninos e meninas presentes. Crianças da FGL e adolescentes do Régua e Compasso participaram dando seu depoimento sobre o que fazem nas instituições e também apresentando números musicais (a banda do régua e Compasso). Os grafiteiros da FGL criaram uma obra especial, em homenagem ao aniversário do programa.

Segundo a equipe do Ação, a seleção das matérias que vão ao ar é feita de acordo com a proposta do projeto e a atuação de cada instituição que mais se encaixa na pauta pensada pelos produtores. Se você quiser indicar algum projeto, pode mandar sugestões pelo e-mail acao@redeglobo.com.br ou visitar o site do programa: www.globo.com/acao .

Fala, Serginho

Serginho Groisman parece nunca envelhecer. Talvez seja a identificação tão imediata da sua figura com o público jovem. Quase não dá para acreditar que Groisman estreou na televisão há 18 anos, entrevistando o piloto Christian Fittipaldi, na época um menino que corria de kart. Seu currículo na telinha abrange programas educativos e de entretenimento como TV Mix (TV Gazeta), Matéria Prima (TV Cultura), Programa Livre (SBT) e os atuais Ação e Altas Horas (Rede Globo).

A identidade do apresentador com a área de educação começou já como aluno, quando atuou como líder cultural da escola paulistana em que estudou, promovendo shows de MPB, sessões de cinema, entre outras atividades. Também ocupou o cargo de diretor e professor de Rádio e TV da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). No intervalo da gravação comemorativa do programa Ação, Groisman fez uma pequena pausa para conversar com o EducaRede:

Como nasceu o “Ação”?
Em 1999, quando a Globo estava idealizando o Projeto Brasil 500 Anos, fui convidado para colaborar na elaboração de um formato de programa sobre educação, que duraria só até abril de 2000, num total de 20 gravações. No entanto, quando estreamos, percebemos que a repercussão estava indo além do esperado, o que fez o programa crescer e se manter na grade de programação, falando sempre de educação, voluntariado, tentando não apenas apontar os problemas, como também mostrar as possíveis soluções.

Quais as dificuldades em fazer um programa cujo tema (educação) é de tamanha abrangência?
Bom, o programa cresceu, é semanal, mas tem meia hora de duração. Sei que ainda temos muita coisa a mostrar. Hoje o número de ONGs e projetos sociais que nos procuram querendo apresentar resultados de boas práticas é muito grande. Muitas vezes a ONG fica em locais muito distantes, de difícil acesso, nem sempre a equipe de produção está disponível para ir a todos os locais. Como o número de boas ações supera a quantidade de tempo e de periodicidade que dispomos, a dificuldade maior está no processo de selecionar as pautas.

Como são feitas as reportagens em tantos lugares?
Com o crescimento do programa, o “Ação” saiu do Núcleo de Produção e passou a integrar a Central Globo de Jornalismo. Isso foi uma grande e boa mudança, um enorme ganho, pois agora a gente conta com a equipe de jornalismo das afiliadas da Globo pelo Brasil para fazerem as matérias de campo.

Qual a importância de divulgar bons projetos educacionais?
É fundamental para qualquer meio de comunicação. Mostrar que existe um Brasil que caminha paralelo ao Estado, que se movimenta. Cada vez mais é preciso divulgar iniciativas da sociedade para melhorar o país e incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo.

Você concorda com críticas que apontam que as ONGs querem ocupar o lugar do Estado?
Eu não sou favorável que o Estado deixe de lado a sua responsabilidade, de assegurar aos cidadãos brasileiros o que lhes é de direito. Mas penso que as ONGs dão o sentido crítico do que o Estado deve fazer, ou seja, contribuem para que boas iniciativas possam se tornar políticas públicas.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Internet Segura

Internet Segura

A Internet oferece oportunidades sem precedentes, sobretudo para crianças e adolescentes, como comunicar-se, buscar informação, estudar e jogar. Contudo, trata-se também de um canal de transmissão de conteúdos nem sempre tão adequados e refúgio de assediadores de todo o tipo. Mas como os pais podem aprender a lidar com essa dicotomia da Rede?

Fonte: EducaRede Espanha
Tradução: Airton Dantas
Adaptação: Equipe EducaRede Brasil

O desenfreado uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), em especial a Internet, sem dúvida é o mais relevante fator de mudança social de nossos dias. Crianças e adolescentes que cresceram simultaneamente ao desenvolvimento das TICs encaram a Internet como seu território natural. Para os pais, o debate centra-se na busca pelo equilíbrio entre duas posturas complementares: os que vêem a Internet como uma extraordinária ferramenta educativa e os que temem os riscos que acompanham o acesso à Rede.

No Brasil, dados divulgados em setembro de 2008 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 32,1 milhões de brasileiros acessam a Internet em algum local – de casa, do trabalho e de centros públicos ou privados. Este número corresponde a 21% da população maior de dez anos de idade. Metade dos internautas utilizou a rede no domicílio em que morava e 39,7% em seu local de trabalho. A conexão discada é mais difundida que a banda larga.

O estudo do IBGE também mostrou que a maior proporção de usuários está entre os jovens: três de cada dez adolescentes, entre 15 a 17 anos de idade, utilizam o serviço, enquanto na faixa acima dos 40 anos o número de internautas cai para menos de um em cada 10. A principal finalidade de acesso, segundo revelou a pesquisa, é a instrução, e mais de 40% dos usuários é estudante.

Segundo o IBGE, a Internet representou o principal avanço em bens de consumo domiciliares no País em 2007. O porcentual de domicílios conectados à Internet passou de 8,6% em 2001 para 20,4% em 2007, acompanhando um aumento forte no acesso ao microcomputador, que passou de 12,6% em 2001 para 27% no ano passado. A pesquisa também mostrou que o Brasil já está em quarto lugar no ranking Latino Americano de acesso à Internet. E, de acordo com compromisso assumido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no início deste ano, até 2010 todos os alunos de escolas públicas do ensino médio e fundamental terão acesso à internet de banda larga, isso representa 83% dos alunos do Brasil.

O panorama revelado por essas estatísticas demonstra ser obrigatória a inclusão, em qualquer debate público sobre educação de crianças e jovens, da presença e do papel da Internet em suas vidas e, em especial, de quais as principais vantagens e inconvenientes derivados de seu uso.

Vantagens e inconvenientes para as famílias
A possibilidade de que os menores de idade tenham acesso a conteúdos inadequados na Rede é uma preocupação justa de pais e educadores. No entanto, é preciso fugir de atitudes radicais em relação à Internet, já que a solução não é proibir o acesso, mas incentivar seu uso responsável.

A existência de conteúdos impróprios na Rede é inqüestionável, mas é igualmente certo que muitas vezes há exageros a respeito de seu caráter nocivo, divulgados até mesmo pelos meios de comunicação tradicionais.

As oportunidades com que o ciberespaço nos brinda são quase ilimitadas, como combater a desigualdade entre classes sociais ao permitir o acesso universal à informação, contribuir para o intercâmbio cultural, ser um elemento integrador para os portadores de necessidades especiais e uma porta aberta a todo o tipo de conhecimento, multiplicar as possibilidades de entretenimento e, sobretudo, ser uma ferramenta-chave para a educação. Não é em vão que numerosas pesquisas demonstram que os estudantes com maior habilidade em lidar com a Internet obtêm melhores resultados escolares do que aqueles que têm acesso à Rede somente na escola.

Em geral, a percepção dos pais acerca da relação dos filhos com a Rede é contraditória. De um lado, vêem os filhos como os “sabichões da casa” em relação às novas tecnologias, já que, no caso das TICs, são os mais novos que superam os mais velhos em conhecimento – um fenômeno denominado “brecha digital” (do inglês digital divide), que faz referência à distância que separa certos grupos, como pais e filhos, segundo sua capacidade para utilizar as TICs de forma eficaz, relacionada a diferenças no nível de alfabetização e de aptidão tecnológica. De outro lado, os pais se preocupam com a vulnerabilidade dos pequenos ante sua exposição aos potenciais perigos da Internet.

A Internet representa uma oportunidade extraordinária para os pais, uma vez que lhes permite participar da educação dos filhos e compartilhar com eles todo o tipo de atividades de formação e entretenimento.

Sem dúvida, o risco existe e é necessário enfrentar o desafio de minimizar os danos que os conteúdos inadequados podem causar em crianças e adolescentes. Mas é preciso saber que esses riscos se limitam a uma ínfima parcela dos conteúdos que circulam na Rede. O acesso a materiais de caráter pornográfico, violento ou xenófobo, a interação com desconhecidos e delinqüentes virtuais por meio dos programas de mensagem instantânea e o alcance facilitado às drogas são os mais comuns e, por sua vez, os mais temidos pelos pais.

A percepção de crianças e adultos em relação à InternetA investigação sobre a relação com as TICs no lar, Infancia y Adolescencia en la Sociedad de la Información, publicada pelo Observatorio Nacional de las Telecomunicaciones y de la Sociedad de la Información, em junho de 2005, destaca que a percepção de crianças e adolescentes de até 17 anos em relação às novas tecnologias é mais favorável que a dos adultos.

Algumas conclusões do estudo feito pelo IBGE referem-se à divergência de opiniões entre ambos os grupos quanto à função que a Internet desempenha e desempenhará na educação:

• Adolescentes e adultos valorizam de maneira muito similar a importância que o conhecimento das TICs terá na educação.
• A percepção da Internet como uma ferramenta com mais desvantagens que vantagens é 30% maior entre os adultos.
• Enquanto crianças e adolescentes vêem as TICs como ferramentas de apoio à sua formação, os adultos estão ligeiramente menos de acordo com essa afirmação.
• A maior desigualdade de opiniões entre esses grupos (quase 5 pontos de diferença) refere-se à influência da Internet na comunicação: é significativamente superior o número de adultos que consideram que as TICs não promovem maior comunicação.

O impacto das novas tecnologias na vida social provocou uma profunda mudança no comportamento e nos hábitos de lazer de crianças e adolescentes em relação às gerações anteriores. Hoje, o tempo dos pequenos é curto para que possam desfrutar da grande quantidade e variedade de possibilidades de diversão que o mercado oferece, principalmente a partir do advento da Internet. O exemplo mais patente é o boom dos videogames e dos jogos online. Até poucos anos atrás, bonecas e jogos de mesa eram os presentes mais ansiosamente esperados por nossos filhos. Hoje, os videogames são os campeões de preferência.

A desenfreada expansão da indústria de videogames e a crescente popularidade dos programas de mensagem instantânea impõem novos desafios aos pais. E suscitam, sobretudo, inúmeras incógnitas, algumas das quais não são de fácil solução. Muitas vezes, os educadores não possuem nem o conhecimento, nem os instrumentos necessários para avaliar se essas novas formas de entretenimento são benéficas ou prejudiciais aos menores de idade.


Uso e abuso das novas tecnologias
O tempo que os jovens dedicam às comunicações, aos videogames e à navegação na Internet aumenta a cada ano a um ritmo alucinante. No Brasil, a maioria dos que se conectam à Rede passam de 1h a 5h diárias em frente ao computador. Em outros países, como a Espanha, o caso dos adolescentes é ainda mais sintomático: boa parte deles passa mais de seis horas por dia exposta às novas tecnologias (Internet, celular, videogames, MP3 player etc.), e um de cada quatro madrilenos entre 10 e 17 anos considera imprescindível conectar-se à Rede e enviar mensagens de texto. Esses dados deixam os especialistas alarmados, mesmo que concordem que as TICs não são nem más, nem boas em si mesmas. Abusar dos jogos online, por exemplo, pode causar dependência, problemas ergonômicos e até mesmo visuais, mas seu uso racional pode ter função reabilitadora, estimulando, por exemplo, determinadas funções reflexas e psicomotoras. A chave está, pois, no uso que se faça desses novos meios de informação e entretenimento.

Segundo Claudemir Edson Viana, doutor em ciências da comunicação pela ECA/USP, autor da tese O lúdico e a aprendizagem na cibercultura: jogos digitais e Internet no cotidiano infantil (2005), feita a partir da análise de um grupo de 30 crianças entre 8 e 10 anos de idade, “ao brincar também com os jogos digitais e ao acessar a internet, a criança desenvolve diversas habilidades físicas e mentais, e mesmo quando brinca com jogos digitais cujos conteúdos são considerados violentos não ocorre necessariamente uma transferência deste conteúdo violento para a sua vida real”.

Há estudos que até apontam o contrário, ou seja, que ao brincar com jogos digitais violentos ocorre uma cartase na criança, isto é, seus impulsos violentos são ‘satisfeitos’ com a projeção que ela faz para as situações virtuais que um determinado jogo oferece. “Entretanto, isto não quer dizer de forma alguma que as crianças não precisam de atenção e alguma forma de acompanhamento por parte dos adultos, sobretudo dos pais. A mediação destes é de fundamental importância não só como mais uma forma de se conhecer melhor quem são seus filhos e de participar na formação global dos mesmos, mas também para se colocar limites neste tipo de brincadeira, seja quando a criança utiliza o computador de casa, ou de amigos, ou numa lan house, pois assim como tudo na vida os exageros podem viciar e causar diversos males para o desenvolvimento das crianças, no caso”, alerta o pesquisador.

Uma das grandes preocupações dos pais é se essa nova forma de conceber o entretenimento pode afetar as relações sociais dos filhos. Vivemos em dois mundos paralelos: o real e o virtual. O ambiente virtual – que, queiramos ou não, já faz parte de nossa vida – é muito tentador. Envolve infinitas oportunidades, mas também algumas ameaças. Os especialistas assinalam que os novos meios de lazer e sua “cultura de simulação do mundo real” são uma válvula de escape muito eficiente para alguns de nossos menores, algo que desconcerta muitos pais e educadores: Do que nossos filhos sentem falta no mundo real? Interagir na Internet e por meio de videogames é altamente estimulante para os pequenos, uma vez que podem tomar decisões continuamente e recebem recompensas imediatas. Precisamos, contudo, garantir que nossos filhos conheçam e desfrutem também dos valores tradicionais do mundo real, nosso conhecido desde a infância. Do contrário, correm o risco de enclausurar-se em um ambiente que muitos adultos desconhecem, perdendo, assim, o contato com a realidade.

As novas tecnologias exigem pouca interação social e há o risco de ocuparem excessivo tempo do processo de desenvolvimento da criança, levando uma parte da população ao isolamento. Os programas de mensagem instantânea (Messenger etc.) são um dos instrumentos que mais criam dependência entre os mais jovens e, ao mesmo tempo, uma das vias de contato mais utilizadas pelos “ciberassediadores”. Além disso, há videogames com conteúdos impróprios para determinadas faixas etárias, embora essa crítica seja relativa devido ao contexto sociocultural e familiar em que a criança vive.

Os pais devem tomar decisões fundadas no próprio critério com o fim de proteger seus filhos, do mesmo modo que fazem na hora de escolher um filme para ser visto em família. “Mas sempre de forma dialogada, pois censura pela censura não é o melhor caminho para se educar”, explica o professor Claudemir Viana.

Sugestões para os pais

O centro de proteção contra conteúdo malicioso (malware) da Microsoft oferece algumas orientações básicas aos pais para que seus filhos joguem e usem a Internet de uma forma segura, divertida e educativa:
Videogames Internet
Observe como e com quem seus filhos jogam: posicione a TV ou o computador de forma que possa supervisionar o comportamento dos menores enquanto jogam. Assegure-se de que seus filhos não conversem com desconhecidos por meio dos programas de mensagem e/ou de chats.
Supervisione a comunicação que seus filhos estabelecem nos jogos online: incentive-os a lhe comunicar quando um jogador utilizar linguagem inapropriada. Ensine-os a detectar quando houver possibilidade de estarem diante de um “abusador” e faça-os saber como se comportar diante deles.
Procure os canais adequados para denunciar aos administradores dos jogos as atitudes que considera nocivas aos menores. Certifique-se de que seus filhos conhecem procedimentos seguros para navegar no ciberespaço e se são capazes de lhe comunicar quando se sentirem incomodados com algo que lhes ocorra enquanto jogam ou navegam.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

World Wide Web faz 20 anos e o mundo inteiro está convidado para a festa

World Wide Web faz 20 anos e o mundo inteiro está convidado para a festa

Por José Alves

“Uma idéia vaga, mas altamente interessante”, essa foi a resposta por escrito que Tim Berners–Lee recebeu de seu chefe no CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear), Mike Sendall, ao apresentar, numa sexta–feira, 13 de março de 1989, o documento “Information Management: A Proposal” (gerenciamento de informação: uma proposta), em que descrevia o seu projeto elaborado em parceria com Robert Cailliau: um conjunto de documentos de hipertexto interligados e acessíveis pela Internet.
Hoje, a “idéia vaga” mantém conectadas 1,5 bilhão de pessoas e hospeda 215 milhões de sites pelo mundo afora, segundo dados da Netcraft em fevereiro de 2009. Vinte anos depois, o papel com a resposta de Sendall a Berners–Lee encontra-se exposto numa vitrine do CERN como se fosse uma certidão de nascimento da World Wide Web. Os inventores da WWW já imaginavam no que a proposta poderia se tornar? “Sim, senão não a teríamos chamado de World Wide Web (rede mundial) antes mesmo de ter qualquer código em funcionamento”, disse Robert Cailliau em entrevista à Folha de São Paulo.

World Wide Web e Internet

É muito importante esclarecer que World Wide Web e Internet não são a mesma coisa, mas complementares. A Internet é um sistema global de comunicação de dados que nasce no auge da Guerra Fria, no final da década de cinquenta, por meio do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que concebeu a ARPA – Advanced Research Projects Agency, para liderar as pesquisas de ciência e tecnologia aplicáveis às forças armadas. Com o objetivo de desenvolver projetos em conjunto, sem o inconveniente da distância física nem o risco de se perder dados e informações de uma base destruída em caso de combate, foi criada a ARPANET – ARPAnetwork, ampliada nos anos seguintes com novos pontos em todo os Estados Unidos, além de incluir também as universidades.

Já a World Wide Web, responsável direta pela democratização do acesso à Internet, é um dos serviços que o sistema global de comunicação de dados possui, com páginas interligadas, que combinam texto, imagem, áudio e vídeo. Pode-se dizer que a WWW lincou com o mundo uma forma de comunicação que era restrita às universidades e às forças armadas, possível a partir do momento que o CERN abriu a web ao público e renunciou ao pagamento de licenças ou a um patenteamento da invenção de Berners-Lee e Cailliau. Se os pesquisadores tivessem pedido altas taxas de licença de uso, provavelmente a World Wide Web e a Internet não teriam se tornado o sucesso que são hoje.

As ferramentas necessárias para o funcionamento da rede, o protocolo HTTP (HyperText Transfer Protocol), a linguagem HTML (HyperText Markup Language), o primeiro software de servidor HTTP, o primeiro navegador (chamado WorldWideWeb) e as primeiras páginas, ainda rústicas, de textos e links que explicavam o funcionamento da própria WWW foram desenvolvidas por Berners-Lee em 1990.

Em 1993 surgia a versão 1.0 do navegador Mosaic, criado pelo estudante de computação norte-americano Marc Andreessen. O programa inovou por ser totalmente gráfico, tornando a navegação na rede mais amigável e acessível. Em 1994, o Mosaic virou software comercial e foi rebatizado como Netscape Navigator. Anos mais tarde, o Internet Explorer, da Microsoft, tornou-se o principal navegador da rede. Hoje, além dos navegadores desenvolvidos comercialmente, existem aqueles projetados para serem usados gratuitamente, como o Mozilla Firefox.

Na esteira da popularização da web, surgiram os sites que organizavam e tornavam possíveis as consultas às informações disponíveis na rede, como o Yahoo! e o Altavista, mais tarde engolidos pelo Google. Na década de 90, no Brasil, o buscador Cadê? também esteve presente na vida dos internautas.

Web 1.0, 2.0 e as redes sociais dentro da rede

A intenção original dos criadores da web era a interação e a colaboração. A definição dos termos no ambiente virtual ainda não existia, mas a idéia já rondava as cabeças de Berners–Lee e Cailliau. Isso significaria que os usuários passariam a ser produtores e socializadores de conteúdos ao invés de meros receptores de informação. Mais uma vez eles estavam certos. O que se vê hoje é a disseminação de ferramentas que possibilitam a produção, colaboração e troca de experiências no mundo virtual. É o que chamamos de web 2.0,  jargão criado pelo editor norte-americano Tim O’Reilly. Alguns exemplos que fortalecem esse conceito são os blogs, as comunidades virtuais de aprendizagem e a enciclopédia colaborativa wikipédia, entre outros; além das grandes vedetes, principalmente para os jovens, adolescentes e crianças, que são as redes sociais, como o Facebook, Orkut e o Youtube.
Sérgio Amadeu, um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros de Comunicação Mediada por Computador e da Teoria da Propriedade dos Bens Imateriais, e diretor de conteúdos da Campus Party Brasil, diz que as redes sociais lideram a web, ou seja, compõem o grupo de sites mais acessados da rede. Amadeu afirma que “esse fenômeno acontece porque uma parte considerável dos internautas não se contentam em somente navegar pelo ciberespaço, querem participar, opinar, criar, recombinar, construir e compartilhar novos conteúdos. Por isso, o Youtube tornou-se o terceiro site mais visitado, ficando atrás apenas dos mecanismos de busca Google e Yahoo!”.

Em relação à proibição ao acesso a essas redes nas escolas e telecentros, o pesquisador diz: “uma das piores coisas que vejo ocorrer em uma escola ou telecentro é a proibição do uso livre pelos jovens. Absurdo! A proibição do uso de redes sociais, por exemplo, não garante o interesse do jovem para algo que seja considerado mais culto ou apropriado. Será disputando a atenção do jovem a partir de inúmeras aplicações inovadoras e sites interessantes é que vamos ampliar a bagagem cultural dos jovens”.

Amadeu termina com um resumo sobre a evolução na relação do internauta com a rede mundial: “A chamada web 1.0 foi a primeira fase do modo gráfico da Internet, onde os sites exploravam timidamente a interatividade e toda a lógica de navegação ainda era baseada na competição e no bloqueio do acesso. Com a web 2.0, a colaboração e a livre distribuição de conteúdos mostrou-se mais eficiente do que simplesmente competir”.

Web 3.0 e o futuro da rede mundial de computadores

Ao prever o que será da WWW, Berners–Lee afirmou que “a web é uma tela em branco, as pessoas estão sempre inventando coisas novas e maravilhosas que não poderíamos imaginar”. É verdade, ter exatidão em relação ao que surgirá é praticamente impossível, mas a tendência, segundo Sérgio Amadeu, é a evolução na forma do internauta interagir com o mundo virtual, a chamada web 3.0, que tende a ser a continuidade dos avanços colaborativos que por sua vez desembocará na Web Semântica. Com ela, os mecanismos de busca e a estruturação dos servicos na rede serão mais rápidos e mais eficientes.

Além disso, possivelmente haverá um crescimento de aplicações para celulares e tecnologias móveis. Outras projeções de Amadeu são a crise no ensino formal, se levarmos em consideração a estrutura em que está baseada a Educação oficial, e a expansão da banda larga, com a conseqüente melhoria das tecnologias de conexão, que apontaria para a web 3D, abrindo assim caminho para o avanço da estética dos games e sua transposição para diversas outras áreas. Quem viver, verá!

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Professores de São Paulo recebem diploma

Graduação ponto com


Secretaria Estadual de Educação de São Paulo utiliza novas tecnologias em curso de formação universitária para professores efetivos de 1ª a 4ª séries

Por Iva Oliveira*

Aos 69 anos, a professora Reiko Takei mal pode segurar as lágrimas. Ela será homenageada no dia 18 de dezembro por ser a mais velha da turma de quase 7 mil efetivos de 1ª a 4ª série da rede pública estadual de São Paulo que vai receber o diploma de nível superior. “Hoje elas estão assim… começam cantando e daqui a pouco estão chorando”, revela a tutora de Reiko, Carolina Mendes, do pólo Arthur Alvim, um dos 46 ambientes de aprendizagem em que se realizou o Programa Especial de Formação de Professores (PEC). Idealizado pela Secretaria Estadual da Educação, o curso teve duração de 18 meses, seguindo indicação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB – 1996), para que todos os professores de ensino fundamental tenham grau universitário até o fim de 2006.

Tanta emoção se justifica, afinal foram mais de 500 dias juntos numa jornada tão árdua que alguns até chegaram a adoecer. “Enganou-se quem pensou se tratar de um cursinho simples. Foi tão puxado que toda semana uma de nós caía de cama”, atestou Maria dos Anjos Pacheco Costa e Silva que, como todas as outras formandas (95% dos participantes eram mulheres), tem mais de dez anos de magistério e continuou trabalhando normalmente enquanto estudava.

A jornada dupla fez parte de um acerto com a Secretaria, que considerou 800 horas de aula para serem aproveitadas no curso, contadas como carga-horária. Ou seja, a experiência em sala de aula funcionou como estágio obrigatório. Segundo a coordenadora-executiva do PEC, Beatriz Scavazza, da Fundação Vanzolini, exatamente 6.233 participantes estão concluindo o curso.
“No começo, sentia que os nossos professores não imaginavam que a gente tivesse tanta capacidade e experiência”, observa a professora-aluna Maria dos Anjos. O comentário da educadora faz todo sentido quando Arlete dos Santos Oliveira, outra tutora, revela: “Com 28 anos de idade tive a oportunidade de trabalhar com gente que tem muito mais experiência que eu. Não tinha idéia sobre o valor delas na sala de aula e como são fundamentais para a educação”.

Além das aulas presenciais, o principal destaque do PEC foi o formato em que foi concebido, baseado no uso de novas tecnologias. Cada unidade de ensino foi equipada com uma sala de videoconferência (aula interativa pelo computador), outra para computadores e um ambiente de estudos. Diariamente, os professores-alunos tinham videoconferências com professores universitários e, aos sábados, a jornada era ainda maior, com vários profissionais dando aula nas teleconferências (debates com especialistas transmitido pela TV). As salas de informática ficavam à disposição para pesquisa e bate-papo. A maioria das educadoras não fazia idéia de como poderiam ficar tão familiarizadas com veículos como a Internet. “O meu marido chegou a comentar que o computador passou a ser o meu amante”, brincou a professora-aluna Margarete Buzon dos Reis.

 

Números do PEC
  • 186 grupos de aproximadamente 40 alunos
  • 95% dos participantes eram mulheres – idade média de 45 a 55 anos
  • 28 horas aula por semana, totalizando 3.100 horas
  • 2.000 horas aula divididas em:
    – 300 horas de atividades prática de ensino
    – 800 horas de reconhecimento do exercício profissional

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Inteligência tecnológica?

Novas tecnologias instigam mudança
na forma de pensar

Mais do que simples entretenimento, videogames, jogos multimídia,
televisão e Internet desempenham papel relevante no desenvolvimento
cognitivo de crianças e jovens

Por Guilherme Azevedo*

A jornalista Mirna Feitoza tinha sérias restrições aos videogames e jogos multimídia. Ela, que jamais havia tido formação específica em psicologia e educação, possuía muitas dúvidas sobre a importância pedagógica – haveria mesmo alguma? – das novas diversões eletrônicas na vida da criança.

Por isso, em seu dia-a-dia como redatora e repórter do caderno infantil de um grande jornal brasileiro, relutava em escrever reportagens sobre o assunto, apesar da insistência de seus leitores específicos, as crianças. Os textos que contemplavam os novos jogos eletrônicos eram, invariavelmente, alvo de protestos do público adulto, mas de comemorações por parte da audiência infantil. O que fazer? A prática, as entrevistas, as reuniões de trabalho com as crianças cuidaram de responder à questão.

Formada, como costuma dizer, “através do livro”, principal causa de sua resistência inicial às novas mídias, Mirna intuiu que estava diante de um processo novo, onde os videogames não eram em si um mal, o motor de uma instigação à violência, como quase todos – inclusive ela – acreditavam; muito pelo contrário, tratava-se, na verdade, da inauguração de um novo modo de pensar.

“O grande desafio hoje para a escola é saber lidar com a capacidade de diversidade que a criança tem desde pequena”

“A criança contemporânea tem essas brincadeiras, videogames, jogos multimídia, assim como, antigamente, existiam as brincadeiras de roda”, reconhece hoje a doutoranda, cuja tese na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, “Porcarias, inteligência e cultura: o papel das diversões eletrônicas na formação da criança”, vai investigar o assunto mais a fundo.

A jornalista, e agora também pesquisadora, explica que novas mídias como os jogos eletrônicos abriram caminho para um processo cognitivo baseado no autodidatismo e na experimentação lúdica. Isso quer dizer que a cognição, no universo infantil, se dá sem a mediação de adultos e a partir de erros e acertos, do teste de possibilidades. Mirna explica que, por meio dos jogos, “a cognição passa pelas mãos”. Não é apenas uma atitude de observação, há também um processo físico envolvido. Surge, então, um novo paradigma de “leitor”, permitindo que a criança seja também co-autora, co-protagonista da história.

Ela ressalta ainda o fato de os jogos eletrônicos estimularem a criança a interagir com a diversidade de códigos. Antes de se alfabetizar, a criança já é capaz de lidar, simultaneamente, com os códigos sonoro, visual e gráfico presentes nos games. Mirna é categórica: “O grande desafio hoje para a escola é saber lidar com a capacidade de diversidade que a criança tem desde pequena”.

A descoberta “na prática” de Mirna vem ao encontro das recentes pesquisas acadêmicas. O pesquisador e educador Claudemir Edson Viana, do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação (Lapic) da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), relativiza a questão entre a violência na TV e nos jogos e a violência real. Para ele, relacionar as duas de forma direta “é uma leitura muito equivocada do processo de comunicação e educação nos seres humanos”.

Viana lembra que o maior prejuízo que uma criança pode sofrer é a violência real. “Quantos desses jovens vêem seus pais brigando entre si? Quantos deles sofrem essa violência constantemente nas ruas? Isso é até ruim em termos de discussão nacional, porque reduz um problema de caráter social ao aspecto meramente tecnológico”, conclui.

O educador argumenta que a violência sempre existiu na humanidade, de um jeito ou de outro, e, portanto, os desenhos e os jogos que a exploram não são os responsáveis por ela. “Por que toda história de fada tem bruxa? Porque a bruxa representa o lado mau de todo ser humano e é nos desenhos, nas brincadeirinhas, nos contos de fadas que a criança começa a ter referenciais do que é o bem e do que é o mal”, explica. Viana, que prepara a tese de doutorado “Jogos em multimídia e aprendizagem infantil: reflexões sobre a pedagogia da imagem eletrônica”, insiste que a ciência já comprovou “que a criança, desde os quatro anos, tem consciência que ficção não é a mesma coisa que realidade”.

A grande questão, da qual depende o surgimento de uma sociedade mais justa, segundo Viana, é formar alunos cada vez mais aptos a olhar criticamente para os conteúdos que a TV e a Internet, por exemplo, apresentam. Ele afirma ser “fundamental que as escolas estejam alertas para a necessidade de o professor trazer para as atividades em sala de aula conteúdos que são do cotidiano da criança e do jovem”, como a novela televisiva, o telejornal e os jogos multimídia. E que o professor os conheça para fazer com que as crianças aprendam a utilizá-los não só para ampliar conhecimentos, mas também para ser mais críticas ao “ler” esses próprios produtos.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Você está Seguro(a) Online?

Você está Seguro(a) Online?

Pesquisa que pretende identificar hábitos de uso das TIC deve ser respondida por adolescentes de 11 a 19 anos de idade. Adultos também podem conhecer conteúdo do questionário online

CPP Brasil (Child Protection Partnership) deseja saber o que você, adolescente de 11 a 19 anos de idade, acha das TIC e como as usa. As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) incluem equipamentos como computadores e telefones celulares, usados para buscar informação, jogar ou conversar com alguém. Para isso, um questinário foi elaborado. Suas respostas (somente para adolescentes de 11 a 19 anos de idade) são anônimas, o que significa que seus nomes não serão identificados. Os dados coletados serão somados e um resumo dos resultados da pesquisa será relatado na edição de 2010 de Because I Am A Girl, uma iniciativa da Plan, organização internacional sem fins lucrativos. Adultos com mais de 19 anos não podem participar, mas é possível conhecer o questionário online.

A Child Protection Partnership (CPP), Parceria para a Proteção da Criança e Adolescente, é um programa internacional que tem também como parceiros no Brasil a SaferNet, Childhood Brasil, NECA e Plan. O programa CPP é coordenado pelo International Institute for Child Rights and Development (IICRD), Instituto Internacional para os Direitos e Desenvolvimento da Criança e Adolescente, situado na Universidade de Victoria, no Canadá.

Objetivos da pesquisa

• Coletar as perspectivas de adolescentes brasileiros sobre a TIC em suas vidas;

• Compreender melhor as suas perspectivas, experiências e comportamentos em relação aos perigos e proteções apresentadas pelas TIC;

• Identificar as formas possíveis de proteção para os adolescentes, dada a constante expansão das TIC.

Suas respostas ajudarão a contar uma história sobre adolescentes e as TIC no Brasil. Essa pesquisa é parte da iniciativa “Adolescentes Brasileiras e sua Realidade no Mundo Virtual”, que conta também com um levantamento feito com adolescentes em São Paulo por meio de grupos focais. A história também vai contribuir para que a CPP, SaferNet, Childhood Brasil e a Plan ajudem às crianças e adolescentes a utilizar as TIC de forma segura.

Se você tiver alguma dúvida sobre esta pesquisa entre em contato com Luiz Rossi em cppbrasil@uol.com.br.

Convidamos você que tem de 11 a 19 anos de idade a responder a pesquisa.

Se você tem mais de 19 anos e tiver interesse em conhecer o questionário online, clique aqui.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Produção dos alunos na rede


O mundo é aqui

Publicar o trabalho dos alunos na Internet torna a aprendizagem mais significativa, pois permite que a produção seja vista e apreciada por muitas pessoas de fora do espaço escolar


Jaciara de Sá

Quando a turma ouviu do professor que o projeto sobre globalização deveria ser apresentado em um programa de computador (Power Point), foi difícil conter a empolgação.

Dias depois, a euforia tomou conta da classe. “Sugiro que o trabalho seja publicado no site da escola”, anunciou Edinilson Q. dos Santos, titular de Geografia e responsável pela atividade.

“Tudo havia mudado. Era a possibilidade de muita gente saber o que tínhamos produzido. O mundo todo poderia ver”, lembra com carinho Marcel B. Pinto de quando realizou, com outros alunos, o estudo sobre resistência à globalização.

O trabalho poderia ter virado um livro, sido publicado em forma de revista ou jornal, mas o alcance seria menor e o gasto com gráfica e papel estava fora de cogitação. A Internet foi o veículo ideal para a produção que foi transformada no Atlas Virtual. E os desdobramentos do estudo não pararam por aí. O professor de Geografia do ano seguinte, Clodoaldo G. A. Júnior aprofundou o tema. Os alunos, então no segundo ano do Ensino Médio, aperfeiçoaram o Atlas e o transformaram no vídeo Resistências à Globalização, para nova inserção na Internet e apresentação na Semana de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

“A possibilidade de os alunos se expressarem, tornarem suas idéias e pesquisas visíveis, confere uma dimensão mais significativa aos trabalhos. A escola se abre para o mundo, o aluno e o professor se expõem, divulgam seus projetos e pesquisas, são avaliados por terceiros, positiva e negativamente”, afirma José Manuel Moran*, especialista do MEC em avaliação de cursos a distância.

Tanto o Atlas quanto o vídeo podem ser vistos no site da Escola Estadual Condessa Filomena Matarazzo, que fica em Ermelino Matarazzo, bairro da periferia de São Paulo. A escola não tem apenas um endereço na web, mas também um núcleo de cinema, TV, jornal e um estúdio de rádio, com transmissão para a comunidade pela FM das 8h às 22h. Tudo conseguido e tocado pelos alunos sob a coordenação de um funcionário pouco comum nas escolas: o coordenador de projetos, Wagner Batista.

Mudança de “hábito”

A “Filó”, como é carinhosamente chamada, é uma das 20 mil escolas que têm sala de informática, das 170 mil públicas no país. Mais ainda: está entre as 10 mil que possuem acesso à Internet, segundo informações do presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), ligado à Casa Civil, Sérgio Amadeu da Silveira. Essa situação, porém, não garante o pleno uso dos computadores: as escolas ainda têm que conviver com problemas técnicos e de acesso à rede mundial. Isso faz com que muitos docentes desanimem. Tanto que apenas dois, entre mais de cem docentes da “Filó”, solicitaram a publicação dos trabalhos dos alunos no site. Um dos muitos desafios do coordenador de projetos Wagner é incentivar a mudança de hábito dos professores para que, além de retirar, também destinem conteúdo à Internet.

Para que os estudantes pudessem expor os resultados de um trabalho, fizessem e recebessem comentários, a professora de Português Maria Teresa B. da Silva, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Des. Amorim Lima, de São Paulo, criou um blog em 2004. A idéia era que os alunos da 8ª série escrevessem seus comentários, ilustrações e até o entendimento sobre a obra de Machado de Assis, Dom Casmurro?.

Os blogs, como o da professora Maria Teresa, fotologs e videologs são ambientes mais fáceis de usar, atualizar e que permitem a participação de internautas, além dos sites. Eles são usados por professores que desejam algo mais personalizado ou querem que os estudantes se responsabilizem pela publicação de seus conteúdos.

“Quando focamos mais a aprendizagem dos alunos do que o ensino, a publicação da produção deles se torna fundamental”, diz José Moran. Segundo o especialista, ao estimular essa publicação na Internet, a escola contribui para divulgar as melhores práticas, ajudando outras a encontrar seus caminhos, além de agilizar as trocas entre alunos, professores e instituições. “A escola sai do seu casulo, do seu ‘mundinho’, e se torna uma instituição onde a comunidade pode aprender contínua e flexivelmente.”

Função social da escola

Transmitir o conhecimento acumulado pela humanidade e preparar o aluno para a sociedade, com a expectativa de transformação da realidade, são algumas das funções sociais da escola. Sob esse aspecto, a publicação da produção dos alunos na Internet pode ser uma aliada.

“Quando falamos em papel social da escola, estamos entendendo que a escola prepara o aluno para produzir conhecimento e divulgá-lo de forma que aquele conhecimento seja útil para outras pessoas, outros grupos, outras realidades. É um modo de socializar o conhecimento”, explica Zilá A. P. Moura e Silva**, ex-professora de Didática e Prática de Ensino da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A socialização na Internet também pode acontecer por meio de ferramentas colaborativas como fóruns e ambientes virtuais de aprendizagem. O EducaRede disponibiliza esses recursos e outros, como a Galeria de Arte, onde é possível expor imagens e textos de acordo com um tema. Criado para o aprimoramento e a reflexão da produção escrita, o ambiente da Oficina de Criação conta com um mediador que tece comentários sobre o texto do aluno/participante para que o estudante reflita sobre o processo da linguagem. O alcance, a agilidade e a temporalidade seriam os grandes diferenciais de uma oficina virtual.

Para a professora Stela C. Bertholo Piconez, livre-docente da Faculdade de Educação da USP (FEUSP),*** a utilização da Internet na escola revela as potencialidades do trabalho colaborativo, em rede, habilidade que em sua opinião deveria ser a prioridade número um do ensino. “A velocidade com que ocorre a socialização do pensamento e das idéias do aluno, o contato com idéias diversificadas e a sincronia de interação por chats ou fóruns têm conseqüências para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da própria democracia (convivência com as diferenças) e do trabalho cooperativo.”

Auxílio na avaliação

Para Stela Piconez, uma outra grande vantagem refere-se à possibilidade de o professor “aprofundar o modo pelo qual os estudantes constroem conhecimentos. A publicação (postagem) dos debates e opiniões dos alunos permite que sua avaliação pelo professor forneça aos alunos o apoio e o incentivo necessário à ampliação e ao aperfeiçoamento de suas aprendizagens”. A livre-docente explica que a atividade reflexiva é ampliada e incentivada com a publicação na Internet dos conhecimentos construídos pelos alunos. Numa situação de colaboração, alunos estabelecem e fortalecem suas habilidades de auto-avaliação, compartilham a auto-aprendizagem e melhoram sua capacidade de reflexão. “E pela perspectiva do professor, a publicação e a dinâmica dos debates dos alunos permitem aperfeiçoar o projeto pedagógico do curso e atender as reivindicações e expectativas dos alunos. E o interessante é observar também que os alunos assumem a responsabilidade pelo seu próprio caminho de aprendizagem.”

A avaliação dos alunos da 8ª série de 2005 pela professora de Português Marli Fiorentin vai contemplar a participação deles no blog criado por ela. Marli leciona no Colégio Estadual Pe. Colbachini, em Nova Bassano (RS) e está trabalhando a relação entre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e a falta de chuva no Estado. Neste ano, aqui no meu Estado, vivemos uma situação difícil, que é a seca. A vida de todos acabou sendo afetada com a alteração do clima”, relata.
A idéia do projeto, que está apenas começando, é fazer uma ponte entre a ficção, por meio de obras literárias como o livro e filme Vidas Secas, com a realidade observada na localidade ao redor e a do Nordeste. “Como é minha primeira experiência com blog, preciso concentrar esforços não apenas na prática, mas também na reflexão sobre essa prática para que seja bem sucedida e possa estimular futuros desdobramentos”, explica.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 30/03/2005

* Prof. dr. José Manuel Moran é coordenador de Ensino a Distância da Faculdade Sumaré, professor de pós-graduação da Universidade Bandeirante e professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP. Página pessoal: www.eca.usp.br/prof/moran. E-mail: jmmoran@usp.br

** Zilá A. P. Moura e Silva é doutora em Didática pela Faculdade de Educação da USP. Atuou como professora de Ensino Fundamental I, foi coordenadora pedagógica e diretora de escola pública. E-mail: zilamourah@uol.com.br

*** Profª. drª Stela C. Bertholo Piconez é livre-docente da Faculdade de Educação da USP nos cursos de graduação (licenciaturas) e pós-graduação, além de coordenadora científica do NEA (Núcleo de Estudos de Educação de Jovens e Adultos e Formação Permanente de Professores). E-mail: spiconez@uol.com.br

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Inclusão social online

Inclusão social online
Usando recursos da web 2.0, ação desenvolvida em escola da Rede Social Minha Terra encontra vagas de emprego e ajuda a recuperar autoestima de pais e alunos

Por Vanessa Rodrigues

 

Se você for ao Google e procurar “informações sobre Santo Amaro em São Paulo” vai encontrar nos primeiros resultados um mapa de localização em inglês e um link para o Wikipédia dando conta de que este distrito da zona sul da capital paulistana “é, em boa parte, composto por loteamentos de alto padrão”. Com base nisso,  é perfeitamente possível chegar à conclusão de que este é um bairro de classe média alta, onde as pessoas vivem com conforto e sem grandes sobressaltos financeiros.

No entanto, se você pedir à professora Patricia Lopes a localização da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Professora Isabel Vieira Ferreira, onde trabalha, ela dirá: “Na região de Santo Amaro, periferia da zona sul de São Paulo”.  No bairro que ela conhece e onde moram os alunos de sua escola, a maioria dos pais estão desempregados, segundo ela “vivendo de programas sociais do governo”. Com nível de escolaridade que muitas vezes não passa do Ensino Médio incompleto, aqueles que ainda conseguem manter um ofício relativamente regular desempenham funções como auxiliar de serviços gerais, profissionais de limpeza ou camelôs.

Foi com esses dados que a escola se deparou quando resolveu participar da Rede Social Minha Terra, em 2009. Tocada por estas informações e sentindo na pele os impactos dessa realidade, a comunidade escolar do “Isabel Vieira Ferreira” resolveu trabalhar com a pauta Cidade e Trabalho, buscando mudanças concretas e palpáveis em sua realidade.

Com isso em mente, venceram de uma só vez as primeiras etapas propostas pelo Minha Terra: identificar um problema ou situação relacionada à sua escola ou comunidade e propor uma atividade de intervenção. A escolha da pauta já levava em conta os resultados esperados. A ideia era desenvolver uma ação que favorecesse uma reviravolta na vida dos alunos: conseguir trabalho para os pais desempregados e para os estudantes já em idade de buscar o primeiro emprego.

Eles traçaram e executaram um plano que envolveu vários atores, especialmente empresas da região, que poderiam ajudá-los na empreitada. E foi assim que depois de registrar seu problema em forma de reportagem na Galeria de Imagens do Minha Terra, o projeto Comunidade Escolar e Trabalho, da equipe “DNA – Descobertas e Novas Atitudes”, começou a ser implementado, inicialmente com dez alunos monitores (responsáveis pela gestão do projeto) e terminando com sete estudantes, todos da 8ª série: Daiane Ferreira da Silva, Kaliane Santos Oliveira, Karina Paiva da Silva, Naiara Rosa Teixeira, Samuel Monteiro Ramalho, Samuel Campos de Moura, Thiago Costa dos Santos.

Primeiro, foram ao “Clube Mamãe – Associação de Assistência à Criança Santamarense”, que desenvolve atividades extracurriculares, entrevistaram a coordenadora e publicaram no mural da escola todos os cursos profissionalizantes oferecidos pela instituição.

“A Coordenadora informou que muitos alunos da escola realizavam cursos no local e que naquele momento formaríamos uma parceria para divulgar e socializar o desenvolvimento deles”, conta Patrícia, que completa: “Ela também informou que muitos se tornam empregados do Centro”.

E eles não pararam por aí. Foram mais além nas pesquisas, encontrando sites de colocação profissional e estimulando muitos estudantes em idade adequada a fazerem seus cadastros e ainda darem apoio aos interessados na elaboração de seus currículos. Para coroar, fizeram parceria com um tradicional supermercado da região, divulgando vagas disponíveis por meio de um perfil no twitter.

“Resido no bairro desde 1978, quando tinha um ano, o supermercado já estava lá! Minha mãe fazia compras nele e na época eram oferecidos brindes para os clientes assíduos. Até hoje ela tem os pratos que ganhou ao se tornar freguesa”, conta a professora Patrícia. Agora, o supermercado também oferece trabalho a quem precisa.

Aos pais, foram disponibilizadas vagas de açougueiro, repositor, operador de caixa, auxiliar de limpeza, estoquista e manobrista. Mesmo sem os números exatos, Patrícia diz que é possível afirmar que muitos deles puderam voltar ao mercado e recuperar a dignidade que só o trabalho parece conferir a um ser humano adulto.

Para 2010, já conseguiram o compromisso de uma empresa de informática  para ministrar cursos e palestras sobre como fazer currículos e se comportar nas entrevistas de emprego.

Liderança e motivação

A Rede Social Minha Terra propõe

uma série de tarefas e desafios:

• identificar um problema ou situação relacionada à sua escola ou comunidade;
• registrar esse problema em forma de reportagem usando ferramentas e recursos da Web 2.0;
• planejar uma intervenção com vistas a resolvê-lo;
• executar este plano;
• e, finalmente, registrar os resultados em forma de nova reportagem e publicá-lo no ambiente virtual do Minha Terra.

A idéia principal do Minha Terra é transformar a escola numa espécie de “Agência de notícias”, onde os alunos atuem como pequenos repórteres – investigando, pesquisando, produzindo informação e publicando-a na internet.

A Rede Social Minha Terra já começou suas atividades em 2010. Saiba mais.

 

No entanto, nada disso seria possível sem a liderança de uma professora como Patrícia Lopes. Ainda que os alunos tenham sido os grandes protagonistas desta missão, foi ela quem os apoiou na elaboração e realização das ações (com total respaldo da diretora da escola, Benedita Antônia de Andrade, ela faz questão de destacar). Do alto de seus 33 anos, Patrícia já tem ampla experiência na área de educação e informática.

“Escolhi ser professora aos seis anos de idade, no meu primeiro dia de aula na pré escola. Encantei-me com a profissão à primeira vista, vendo a atenção da professora, os cuidados com os materiais, as lições, a vontade de ensinar. Comecei a lecionar aos 15 e concomitantemente fazia cursos de informática. Com isso, fui convidada a dar aulas de informática na escola onde estudava e comecei a fazer uma ponte entre as duas modalidades. Ingressei na Prefeitura de São Paulo e fui designada POIE (Professora Orientadora de Informática Educativa). Sou POIE há oito anos.”

Patrícia tem desenvolvido muitos projetos que ajudam professores e alunos a refletir sobre os temas abordados, utilizando a tecnologia como principal recurso.  Ela começou a atuar no Minha Terra no ano passado, em 2009, mas já havia tido contato em 2007 com o Projeto Memórias em Rede. A filha Gabriela, de 14 anos, sempre comenta sua motivação em participar do Minha Terra e de como em  sua própria casa ela conversa pelo twitter com os alunos monitores sobre as ações a serem realizadas.

Web 2.0 na educação

Sim, porque os alunos da EMEF Professora Isabel Vieira Ferreira utilizaram todos os recursos da web 2.0 oferecidos e estimulados pela equipe gestora do Minha Terra: o Mapa Interativo para a localização e apresentação da equipe; o blog como ambiente de interação diária entre os grupos; o chat como espaço de esclarecimentos e socialização das ações; o Voki para criar o avatar de cada repórter. No Youtube foram publicados os desafios “Pelo celular” e as entrevistas, criando um link direto no Canal Youtube Minha Terra. Na Arquivoteca, foram publicados os registros e, na Galeria, as imagens.

“Já o Twitter foi nosso norteador, utilizado em todas as ações”, conta Patricia. “Inclusive, eu ministrei uma aula de Twitter para POIEs iniciantes na DRESA – Diretoria Regional de Santo Amaro e fiz um manual explicativo sobre como utilizar o microblog, distribuindo a todos os participantes. O manual também foi entregue e socializado em uma das reuniões em DOT- CONAE”.

Para Patricia Lopes, sua experiência na EMEF Professora Isabel Vieira Ferreira tem sido gratificante e está trazendo resultados concretos baseados em pesquisas, reflexões e ações. Ela diz que os alunos monitores foram brilhantes e chama a atenção para a efetividade das intervenções, principalmente para o fato de que propiciaram a melhoria da autoestima dos envolvidos. Serviu também de parâmetro para aquelas pessoas que já não viam possibilidades em suas áreas de trabalho ou que buscavam seu primeiro emprego.

Outros impactos percebidos foram: maior interação entre os alunos monitores e alunos de todos os períodos; desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem mais satisfatório; envolvimento de toda a unidade escolar; interação e parcerias com a comunidade escolar e maior cuidado com o Patrimônio Público. “Ampliei meu campo social e de parcerias por meio de muitos trabalhos coletivos”, diz Patrícia Lopes. E conclui: “Pretendo utilizar as pesquisas, vivências, ações e resultados para o meu futuro mestrado, aprendendo e contribuindo ainda mais para o uso de novas tecnologias como recurso no desenvolvimento da Educação Pública”.

 

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

 

Vagas abertas para o Programa “Rede PEB de Coordenadores Pedagógicos”

Projeto Escola Brasil disponibiliza vagas para o Programa “Rede PEB de Coordenadores Pedagógicos”

Educadores de Recife e municípios próximos podem participar de formação gratuita via comunidade virtual de aprendizagem

Coordenadores pedagógicos, supervisores e formadores de coordenadores que atuem com a formação de professores alfabetizadores das séries iniciais da rede municipal e estadual de Recife e municípios próximos estão convidados para participarem do Programa Rede PEB de Coordenadores Pedagógicos de Alfabetização, uma ação vinculada ao Projeto Escola Brasil, do Grupo Santander Brasil.

O Rede PEB oferece vagas para uma formação continuada de Coordenadores Pedagógicos responsáveis pela orientação de professores alfabetizadores. A formação, gratuita, visa orientar os educadores a montar um plano de ação que contemple as múltiplas tarefas de um coordenador pedagógico, com ênfase na sua função de formador dos professores. O formato do curso é semipresencial, via comunidade virtual de aprendizagem e dois encontros presenciais. A atividade será realizada entre os meses de Outubro e Dezembro de 2010. Os participantes são certificados pelo Projeto Escola Brasil. Clique aqui para acessar o formulário de inscrição.

Entre os objetivos que serviram de base para a formação do Programa Rede PEB, estão: o apoio técnico, via internet, a projetos de formação continuada de professores que atuam com crianças de 6 a 10 anos em leitura e escrita; promoção do uso das novas tecnologias da informação e da comunicação (TIC) para produção, divulgação e compartilhamento de conhecimento pedagógico; e a colaboração para que os Coordenadores Pedagógicos conheçam o que está disponível na internet e para que saibam dispor desses conteúdos com responsabilidade e autonomia.

Para chegar a estes objetivos, as atividades virtuais foram divididas em quatro módulos temáticos:

Módulo 1: O trabalho do coordenador no processo de alfabetização
Módulo 2: Ambiente alfabetizador e letramento
Módulo 3: O papel do recurso multimídia na alfabetização
Módulo 4: Avaliação e o cotidiano escolar


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Serviço


Programa Rede PEB de Coordenadores Pedagógicos de Alfabetização


O que é:
Formação semipresencial para profissionais da educação das redes municipal e estadual de Recife e de municípios próximos.
Como participar:
Preencha o formulário
Valor: Gratuito
Duração: Outubro a Dezembro de 2010
Número de vagas: 11


(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)