Sonho Digital


Sonho digital

Entre aplausos e críticas, o governo testa em escolas brasileiras
um laptop de baixo custo que pode substituir o livro didático e
ampliar a inclusão digital

Fernanda Bagatini
Paulo de Camargo

Revista Pátio

 

Em uma sala de aula da 4ª série da Escola Estadual de Ensino Fundamental Luciana de Abreu, em Porto Alegre (RS), Jéssica da Silva Bortoluzzi, de 10 anos, manuseia seu laptop XO. No início, Jéssica teve dificuldades, mas agora já o faz com naturalidade. “Eu gosto de trabalhar com o computador, porque ficou mais interessante a forma de aprender”, explica. Poderia ser uma simples aula com uso da informática, contudo é bem mais do que isso. Jéssica está entre os protagonistas de uma das mais ousadas experiências de inclusão digital no Brasil recente. Sua escola foi uma das escolhidas para testar laptops de baixo custo, que podem ser encampados pelo governo brasileiro e distribuído para milhares de escolas.

Sim, milhares. É justamente para escalas amazônicas como essa que o equipamento foi desenvolvido pela organização não-governamental OLPC (sigla, em inglês, de Um Laptop por Criança), fundada por Nicholas Negroponte, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Sob aplausos de entusiastas, que vêem a inclusão digital massiva como uma condição para a inserção social das camadas menos favorecidas da população, e o olhar cético de especialistas que criticam iniciativas do gênero, o processo caminha rápido.

Assim como a Escola Luciana de Abreu, que já recebeu 274 laptops, há pelo menos outras 10 escolas em diferentes regiões brasileiras que testam os XO e equipamentos similares, como o Classmate, da Intel, e o Mobilis, da Encore. As experiências do projeto-piloto Um Computador por Aluno (UCA) serão avaliadas por grupos de pesquisadores de universidades públicas conceituadas. No Sul, o trabalho ficou sob a coordenação da pesquisadora Léa Fagundes, do Laboratório de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (LEC/UFRGS).

Léa Fagundes é quase uma militante da difusão da informática. Foi pioneira no uso da Internet em sala de aula na década de 1980, utilizando ondas de rádio. Para ela, a tecnologia digital revoluciona práticas, ajuda o homem a multiplicar rapidamente o conhecimento, expande o poder de pensar, favorece a intercomunicação e a interoperabilidade, embora também ajude a destruir. “Assim como os governos, a sociedade necessita continuamente derrubar muros e ampliar conexões, já que precisa mudar as noções de espaço e tempo”, analisa.

A experiência do XO insere-se em um momento no qual estudiosos como Leo Burd, que acaba de concluir seu doutorado sobre o tema no MIT, considera um marco na história da tecnologia. “A informática sempre ficou restrita às camadas mais favorecidas, e agora nos damos conta de que precisamos repensar a tecnologia para a realidade que temos hoje, de uma sociedade cada vez mais desigual”, afirma Burd.


Diferenças profundas

É um mundo de contradições. O Brasil aparece como campeão mundial de acessos a sites como o Orkut e o MSN, mas vive uma situação de exclusão digital, apontada em diversos estudos. No Mapa das Desigualdades Digitais no Brasil, Julio Jacobo Waiselfisz, do Instituto Sangari, mostra que o país ocupa a 76ª posição entre os 193 países do mundo pesquisados no que tange à porcentagem da população com acesso à Internet. Porém, segundo ele, as diferenças internas são ainda maiores. Corroboram esses argumentos os dados divulgados em setembro pelo IBGE. Embora haja forte crescimento do uso do computador (um crescimento de 2,5% entre 2004 e 2005), as lacunas impressionam. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, 29,2% dos domicílios têm computador e 23,1%, acesso à Internet. Na região Norte e Nordeste, esse percentual fica em torno de 6%. Ao mesmo tempo, apenas 21% dos brasileiros com mais de 10 anos acessaram a internet em 2005. A maioria dos internautas concentra-se na região Sudeste (26,3%). No Norte e Nordeste, apenas 12% acessaram a web

No mesmo sentido, a Fundação Getúlio Vargas publicou, em 2003, um amplo estudo, denominado Mapa da Exclusão Digital, reunindo dados de várias fontes. De acordo com o estudo, nesse ano encontravam-se em situação de exclusão 149,8 milhões de brasileiros. Diagnósticos como esse vem motivando o investimento em novos programas de informatização pedagógica. Há pouco tempo, o Ministério da Educação adquiriu computadores e está instalando 17 mil laboratórios de informática educativa. Crescem também os pontos de inclusão digital, como os telecentros. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), o número de telecentros passou de 12 mil em 2005 para 16,7 mil em 2006, graças a 108 iniciativas de prefeituras, secretarias de Estado e ONGs.

São Paulo é o Estado com maior oferta, com 2.500 pontos. A capital tem hoje 170 telecentros instalados pela prefeitura, cada um com 20 computadores e um total de 1,2 milhão de usuários cadastrados. “Até meados de 2008 chegaremos a 300 telecentros”, anuncia Ricardo Montoro, secretário municipal de parcerias. Para ele, a iniciativa justifica-se pelo aspecto da cidadania: “Não temos lan-houses”.

Foi no telecentro da região da Água Funda que Adriana Alves de Oliveira, de 24 anos, aprendeu a usar o computador em um dos cursos oferecidos. “Isso faz total diferença na hora de conseguir emprego”, diz ela, enquanto acessa notícias e lê seus e-mails. No computador à sua frente, a sobrinha Gabriela Alves Cordeiro, de 7 anos, joga e faz desenhos com a naturalidade de quem manuseia um lápis.

Contudo, o grande interesse espontâneo dos jovens que procuram o telecentro é a comunicação, via Orkut, e-mails e outros recursos do gênero. É isso o que faz muitos educadores e pesquisadores duvidarem de experiências de informatização em larga escala.


Inclusão e democratização


Leo Burd tem uma visão clara sobre o tema, a qual vem construindo desde que coordenou um dos projetos pioneiros e mais bem conceituados de inclusão digital no Brasil, o Comitê para Democratização da Informática (CDI), que levava salas de informática a favelas e outras regiões carentes na década de 1990. “Inclusão é muito mais do que oferecer computador. Há uma grande diferença entre democratização da informática e de informática para a democratização”, afirma Burd, que apresentou em sua tese experiências realizadas em diversos países, sempre com o objetivo de levar os jovens a se apropriar das ferramentas para transformar o espaço onde vivem.

Também defende que é necessário adaptar a tecnologia para os usuários de diferentes faixas sociais. Em um de seus projetos-piloto, por exemplo, procurou um software que permitisse mapear o bairro carente onde os jovens do projeto estavam, porém não encontrou nada do gênero. Para ele, o laptop de baixo custo é um avanço, mas apenas se houver um suporte eficiente ao professor. “Se for para bater papo via Internet, não tem muito sentido; se for para agregar valor, transformar, aí sim”, alerta.

Afira Vianna Ripper, doutora em Psicologia Educacional e coordenadora do Laboratório de Educação e Informática Aplicada (LEIA) da Universidade de Campinas (Unicamp), questiona até mesmo o uso de computadores como ferramenta didática em larga escala. “Algumas experiências pontuais em que se consegue envolvimento de professores parecem ter bons resultados, mas desconheço a existência de estudos com metodologia científica que demonstrem isso”, pondera.

A coordenadora entende que não existe uma solução mágica para resolver o problema da Educação no Brasil ou em qualquer outro lugar. Para ela, o investimento em computadores não é acompanhado de investimentos semelhantes em formação de professores, salários, infraestrutura de escolas etc. “Computadores, em algumas circunstâncias, podem ajudar, mas não considero o laptop uma boa solução. Cabe notar que as experiências feitas até agora com os pequenos laptops, tanto no Brasil quanto em outros países, são muito preliminares, com grande envolvimento de pesquisadores universitários, que não podem ser facilmente massificadas”, ressalta.

Segundo Léa Fagundes, o projeto testado pelo governo não se limita à distribuição das máquinas para alunos e professores. Desde janeiro, estão ocorrendo ações de formação com os docentes da escola e de acompanhamento dos impactos que os laptops têm causado. Ela explica que a proposta tem ainda como objetivo mudar o projeto político-pedagógico da escola, porque os professores replanejam o espaço e o tempo. Além disso, “os alunos podem levar o laptop para casa e carregá-lo para onde desejarem, o que acaba despertando ainda mais a curiosidade e o interesse, enquanto o livro didático é estático e restrito. Dessa forma, os estudantes tornam-se agentes criativos, trocando experiências e informações entre eles e entre as crianças de suas comunidades”, salienta.

As transformações ocorridas em sala de aula também estão sendo percebidas pelos educadores. A professora Tânia Oliveira, da 4ª série da Escola Luciana de Abreu, garante que os alunos tornaram-se mais autônomos, críticos e desinibidos, porque o projeto favoreceu a comunicação e a oralidade. “Os equipamentos auxiliam na realização de pesquisas, pois os alunos passam a buscar informações e respostas para seus questionamentos”, explica. Tânia afirma que os conteúdos desenvolvidos em aula partem de cada criança, que ajuda os colegas a orientar os assuntos a serem pesquisados.


Números astronômicos


A partir da avaliação das experiências, o governo poderá tomar a decisão de investir em larga escala nos laptops de baixo custo ou buscar outras alternativas. Uma das propostas em análise é a compra de 1 milhão de laptops de baixo custo, que ainda assim deixaria descoberta a maior parte do sistema. “Se o governo comprasse 1 milhão de laptops a cada ano, levaria 50 anos para entregá-los aos 50 milhões de alunos do sistema de ensino público”, destaca Léa Fagundes.

Esse é apenas um dos gargalos a serem enfrentados. Existem outros, como ressalta Carlos Seabra, diretor do Instituto de Projetos e Pesquisas Sociais e Tecnológicas (IPSO) e pesquisador da Escola do Futuro da USP. Segundo Seabra, citando dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, apenas 2% dos conteúdos da Internet são em língua portuguesa. Para ele, trata-se, portanto, de ir além de surfar na rede: “Temos de provocar a onda”. Isso envolve, a seu ver, a criação de novos conteúdos, a adaptação dos já existentes, em uma tarefa hercúlea, que deve envolver empresas, entidades sociais, ONGs, políticos, enfim, os mais diversos atores sociais.

Demanda para isso existe — e boa parte dela está fora da escola. Uma pesquisa feita pela Escola do Futuro, em São Paulo, mostrou que 79% dos entrevistados das classes C, D e E nunca usaram um computador, mas 93% declararam desejar aprender a fazê-lo pelos mais diversos motivos, que incluem obter informações, marcar consultas, procurar emprego e reclamar dos serviços públicos.

São números que demonstram que a tecnologia trouxe consigo não apenas promessas, mas desafios ainda maiores para um país que já vive às voltas com profundas contradições internas. No século XXI, não há como discutir acesso à cidadania sem também passar pelos caminhos das conexões digitais — e nenhum problema se resolverá com o clique no mouse do computador.

Juliano Bittencourt, coordenador técnico do projeto-piloto na Escola Estadual de Ensino Fundamental Luciana de Abreu, em Porto Alegre (RS), esclarece que o laptop é fruto de um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento. “Ele foi desenvolvido especialmente para a Educação de crianças e, portanto, possui características que não podem ser encontradas em outros computadores comercializados”, destaca.

Para Léa Fagundes, coordenadora do programa, tais características favorecem o uso freqüente. O computador passa a ser um instrumento para que a criança pense e interaja, porque faz com que o aluno entre em atividade mental o tempo todo. “A partir do equipamento, o estudante decide o que quer pesquisar e experimentar por meio da Internet”, afirma.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Minha Terra 2010: muitas novidades à vista

Reportagens e protagonismo juvenil voltam com força total no Minha Terra 2010  

 

Em 2009, a Comunidade Virtual Minha Terra reuniu 8.538 participantes entre alunos e professores de 1.039 escolas espalhadas por 22 Estados brasileiros. Todos com objetivo de produzirem e compartilharem conhecimento sobre a localidade que habitam por meio de reportagens que as equipes elaboraram e publicaram no ambiente virtual. O exercício do protagonismo na comunidade por meio da busca de soluções para a melhoria de situações apontadas nos trabalhos foi uma das marcas do projeto.

A apropriação de ferramentas da web 2.0, outra característica do Minha Terra, permitiu o fortalecimento do espírito cidadão nos jovens estudantes brasileiros. O Minha Terra sugeriu jogos interativos que trouxeram à tona a temática meio ambiente, além de desafios com o celular (produção de vídeos) e o Twitter, microblog que coloca internautas em contato por meio de mensagens com até 140 caracteres.

Um exemplo marcante de exercício de cidadania foi a conversa direta via microblog de jovens estudantes paulistanos com o secretário de Educação do município de São Paulo, Alexandre Schneider. Eles cobravam ações do poder público em relação aos problemas apontados nas reportagens que produziram ou parabenizavam Schneider por melhorias efetuadas na educação. O secretário conversou intensamente com os alunos durante o projeto.

Para o Minha Terra 2010, muitas novidades estão previstas! A comunidade volta com força total em abril e Claudemir Viana, gestor do projeto, avisa que novas pautas e desafios estarão disponíveis. Neste ano, além de novos participantes, foram elaboradas atividades para permitir a continuidade dos trabalhos daqueles que já faziam parte do Minha Terra em 2009. Confira a entrevista completa com Viana:

EducaRede – Quais as principais novidades do Minha Terra 2010?

Claudemir Viana – São principalmente as novas pautas, os novos desafios e as novas participações. No caso das pautas, todas que foram apresentadas em 2009 serão mantidas porque agradaram muito aos participantes, e as equipes que desenvolveram uma determinada pauta agora podem escolher outra que já estava disponível no Minha Terra 2009. Mas também teremos novas pautas especialmente preparadas para 2010.

É o caso da “Copa do Mundo: esporte e cultura”, no tema Cidade e Cultura, em razão do evento esportivo que ocorrerá na África do Sul. Outro exemplo está no tema Cidade e Participação Social, denominada “Eleições e cid@d@ni@”, devido ser este um ano eleitoral. Trazemos uma abordagem sociológica, sem ser partidária ou ideológica, destacando as práticas cidadãs pela Internet. No mesmo tema, trazemos a pauta “Internet livre e segura, como?”, uma forma de educação para o uso seguro e responsável da rede.

No tema Cidade e Qualidade de Vida, a nova pauta é sobre “Valores Humanos”, tais como respeito, solidariedade, ética, honestidade, e outros tão importantes para a sociedade e que merecem ser trabalhados na escola e fora dela, a fim de se construir uma melhor qualidade de vida.

E no tema Cidade e Trabalho trazemos a pauta “Ser empreendedor”, não tanto para tratar de grandes empresários e grandes invenções, mas sim para percebermos o quanto empreendedores são muitos homens e mulheres, e mesmo jovens, que se tornam pequenos empresários autônomos e inovam no mercado de trabalho ao abrirem seu negócio, como vendedores, artesãos, prestadores de serviços, inventores, dentre outros, dinamizando a economia local, além de garantir sua sobrevivência, é claro.

EducaRede – E os desafios e as novas participações?

Claudemir Viana – Teremos os desafios já apresentados em 2009, mas trazendo novos conteúdos, como no caso de novos jogos interativos cuja temática tem relação com as pautas sugeridas. Outro exemplo é o uso do twitter e do celular que já acontecerá desde a primeira fase, e não só a partir do meio do ano como fizemos em 2009. Além disso, incluiremos novos aplicativos e novas ferramentas da web 2.0 com o decorrer das atividades.

Quanto às participações, receberemos alunos e educadores de redes de ensino que não participaram em 2009, graças às parcerias que estamos construindo. E também teremos novas categorias de participação, pois muitas equipes de reportagem que não conseguiram concluir seus trabalhos em 2009 e que continuam no Minha Terra 2010 poderão dar continuidade aos trabalhos a partir de onde pararam.

EducaRede – Explique melhor quais são as categorias de participação.

Claudemir Viana – Temos três categorias: “Sou iniciante”, para quem começa agora a explorar o Minha Terra ; “Por novos caminhos”, para quem já andou pelo Minha Terra em outros anos, mas agora quer participar com novo projeto e “Seguindo em frente”, para quem quer dar continuidade ao projeto desenvolvido em 2009. Lembrando que as equipes de reportagem podem iniciar a participação a qualquer momento do ano, já que cada etapa pode ser realizada de acordo com o interesse e as condições de participação das equipes.

EducaRede – Qual o impacto que o Portal Global do Educarede terá no Minha Terra 2010?

Claudemir Viana – Estamos com muitas expectativas quanto aos impactos positivos no Minha Terra com o processo de globalização do Portal Educarede, que ocorrerá durante todo o ano. É que o Minha Terra será o projeto do Brasil a ser incorporado pelos demais países que fazem parte do Portal Global (Espanha, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Venezuela, México). Isto significa que o Minha Terra receberá, já neste ano, alunos e escolas daqueles países, tornando, assim, muito mais rica a interação entre os participantes, e mais ampla a repercussão das produções publicadas pelas equipes de reportagem. E isto, com certeza, viabilizará um Minha Terra internacional em 2011.

Como participar

Professores e alunos de todo o país, do Ensino Fundamental e Médio, podem participar do Minha Terra 2010. Para tanto, basta acessar a comunidade virtual (www.educarede.org.br/minhaterra), efetuar o cadastro no portal e a inscrição no projeto. Não há prazo final para a inscrição, porém sugerimos que os interessados comecem as atividades o quanto antes. Com isso, haverá mais tempo para a elaboração e execução dos projetos.

_____________________________________

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Denise Está Chamando

Denise Está Chamando

Disciplina:

Geografia

Ciclo: Ensino Médio
Assunto: Tecnologia e organização do espaço
Tipo: Filme

Onde encontrar: Locadoras de vídeo de todo o país

O filme “Denise Está Chamando”, dirigido por Hal Salwen, é uma excelente alternativa para desenvolver atividades que reflitam sobre objetivos e usos do desenvolvimento tecnológico e seus impactos na transformação da vida e da organização do espaço geográfico.

Gravado na segunda metade dos anos 90, em Nova York, o filme propicia reflexões sobre as várias transformações que o desenvolvimento tecnológico vem ocasionando: novas formas de organização espacial, relações de trabalho, administração do tempo, estilo de vida, valores, relacionamento humano.

Quanto mais desenvolvimento tecnológico existe em um território, mais as pessoas se distanciam da vida em grupo. A possibilidade de trabalhar em casa, garantida pela ligação em rede dos telefones residenciais e dos computadores, trazem inicialmente a imagem de conforto e liberdade.

Porém, o filme questiona tais “avanços”, pois quanto mais autônomos os personagens ficam em relação às suas vidas profissionais, mais se tornam solitários. Os relacionamentos vão se tornando virtuais. Até a gravidez de uma personagem ocorre sem o contato humano direto: ela engravida por meio de inseminação artificial.

Como sugestão de trabalho, o professor pode apresentar o filme em duas sessões (divididas em duas aulas) ou fora do horário regular. Em uma aula que preceda a exibição do filme, é importante dar uma aula expositiva demonstrando a concentração das densidades demográficas e técnicas no Brasil.

Para isso, pode-se trabalhar com alguns mapas que espacializam o desenvolvimento tecnológico no território brasileiro. Uma sugestão é utilizar e inter-relacionar os dados contidos nos mapas de densidade demográfica, urbanização, transportes, concentração de agências bancárias e comunicações, presentes em diversos atlas ou mesmo no livro “Brasil: Território e Sociedade no Início do Século XXI”, de Maria Laura Silveira e Milton Santos.

Em outra aula, após uma discussão geral com a classe sobre o filme, o professor pede que os alunos façam uma dissertação, relacionando os dados sobre a concentração espacial brasileira vistos na primeira aula com os padrões de relacionamento vistos no filme. Um pergunta pode nortear essa reflexão: como o desenvolvimento tecnológico está alterando os padrões de relacionamento e a organização do espaço geográfico no Brasil?

Referências:
SILVEIRA, Maria Laura & SANTOS, Milton. Brasil: Território e Sociedade no Início do Século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2000.

Denise Está Chamando, de Hal Salwen.
EUA, 1995, 80 minutos.
O filme traz uma sátira social sobre a vida nos grandes centros urbanos e gira em torno de um grupo de pessoas que sempre conversam por telefone, mas nunca se encontram. Cercados de fax, telefones e computadores, eles se relacionam unicamente por meio desses aparatos eletrônicos e a desculpa para não se encontrarem é sempre a mesma: excesso de trabalho. Seria esse o verdadeiro motivo ou eles simplesmente temem um encontro cara-a-cara? As inovações tecnológicas teriam mudado a maneira do homem se comunicar?

Texto original: Laércio Furquim Jr.
Edição: Equipe EducaRede

 (CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)
14/08/2002

Sala de informática boa é sala de informática aberta

Sala de informática boa é sala
de informática aberta

Secretária de Estado da Educação de São Paulo admite que as salas não funcionam e anuncia medidas

José Alves

A grande maioria dos cinco milhões de alunos da rede estadual de São Paulo não tem acesso aos computadores da escola. O motivo: falta de manutenção. A informação é da própria secretária de Estado, Maria Helena Guimarães de Castro, para quem o principal desafio hoje, neste assunto, é garantir o funcionamento dos equipamentos que já existem, uma vez que 80% das escolas de São Paulo possuem sala de informática com computadores conectados à Internet em banda larga.

Segundo Maria Helena, a Associação de Pais e Mestres (APM) de cada escola recebe uma verba para diversos gastos, entre eles, a manutenção dos computadores e da rede elétrica. O valor vai passar de R$ 5,40 por aluno para R$ 9,60, pagos em três parcelas ao ano. Mas as escolas não conseguem estabelecer contratos de manutenção principalmente as que estão na periferia, diz a secretária.

No vídeo acima, a secretária explica que a pasta abriu licitação para firmar um contrato terceirizado dos serviços de manutenção das máquinas, conectividade e disponibilização de uma pessoa que permaneça na sala de informática em tempo integral. A terceirização deve atingir 500 escolas de Ensino Médio na cidade de São Paulo e Grande São Paulo em caráter experimental – a rede pública tem mais de 6 mil escolas.

“Ao mesmo tempo, nós estamos testando este modelo com um outro em que nós transferimos um recurso específico para a escola fazer um contrato de manutenção. Mas as escolas estão tendo dificuldade. Muitas já tem contratos feitos por elas mesmas e que não tem funcionado. Estamos buscando alternativas: demos mais autonomia para a escola, com mais recursos para terem um contrato direto da APM com uma empresa e estamos em processo de licitação para a secretaria contratar uma empresa especializada para cuidar de 500 escolas simultaneamente.”

Um estudo de parceria com a Secretaria de Gestão para a implementação nas escolas da infra-estrutura e manutenção realizada nos Telecentros também deve ser feito, além de possíveis alianças com o poder público municipal das cidades do interior paulista.

As informações foram fornecidas pela secretária no evento de lançamento do Instituto para o Desenvolvimento e a Inovação Educativa – Idie, em 5 de março. O instituto é fruto de um convênio entre a Fundação Telefônica e a Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) e pretende atuar na assessoria, apoio técnico, capacitação e outras intervenções e projetos voltados à temática de novas tecnologias na Educação.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Meus pais têm fobia à tecnologia

Meus pais têm fobia à tecnologia

Um rato! Nããããooooo. Ainda é possível escutar o grito de uma mãe ao ouvir seu filho de 7 anos dizer despreocupadamente: “Mamãe, pegue o mouse [rato]”, e ela, tímida, não sabe que ele está se referindo ao pequeno aparato com o qual se pode mover o cursor pela tela do computador. Entenda o porquê.

Fonte: EducaRede Colômbia

Tradução: Airton Dantas

Os avanços das tecnologias têm feito a diferença entre gerações. Algumas pessoas estão sempre ligadas às novidades; outras, não conseguem acompanhar o ritmo dessas mudanças e, por isso, precisam da companhia dos filhos, que estão familiarizados com essas modernidades e acabam se tornando professores dos pais.

Alguns pais dizem que são muito velhos para aprender a lidar com computadores, e que isso não tem serventia nenhuma. Preferem ficar com as antigas máquinas de escrever e as de calcular porque não entendem termos como Word, Excel, software, hardware, e não se imaginam “navegando” pela Internet.

Mas há pessoas que, apesar da idade, são inquietas e, aos poucos, tentam aprender sobre o funcionamento dessas ferramentas, que podem facilitar-lhes a vida.

Os pais são tímidos na hora de começar a manipular os teclados do computador ou do celular, mas a vontade de não se deixar vencer pelos filhos é mais forte, e começam a passar algumas horas diante do monitor, ao lado dos filhos, perguntando-lhes absolutamente tudo: A câmera está ligada? Com quem você está falando? Por que aqui ficou amarelo? Como você movimentou essa imagem?

Além de determinar diferenças entre gerações, também é possível observar que os avanços tecnológicos podem se converter em ferramentas educativas fundamentais à aprendizagem de pais e filhos e fortalecer os vínculos entre eles, mesmo correndo-se o risco de receber uma ligação no celular, à meia-noite, e ouvir uma voz envergonhada perguntando: “Como desligo a luzinha da tela?

O interesse dos pais pela tecnologia pode ser despertado, em grande parte, quando os filhos os motivam a usá-la. Ao navegar pela Internet com os filhos, os pais vão percebendo como algumas ferramentas podem ser úteis no dia-a-dia.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Bytes? Megabytes? Gigabytes?

Bytes? Megabytes? Gigabytes?

Disciplina:

Matemática

Ciclo: Ensino Médio
Assunto: Medidas
Tipo: Metodologias

O uso de computadores muitas vezes envolve uma linguagem técnica e específica que, para a maioria das pessoas, pode parecer incompreensível. Assim, o objetivo dessa atividade é levar o aluno a compreender o significado das unidades de medida associadas ao computador, familiarizando-se com a linguagem da informática.

Para iniciar a atividade, o professor solicita previamente aos alunos que tragam de casa algumas propagandas de venda de computadores. Durante a aula, orienta-os a fazerem um círculo em torno das informações que se referem ao tamanho da memória e à velocidade do processador.

Pode ser que eles tenham uma certa dificuldade para identificar essas informações, pois esses anúncios costumam utilizar uma linguagem hermética, com muitos termos técnicos, sem a preocupação de esclarecer o consumidor.

Podemos afirmar que dois computadores se diferenciam basicamente pelo tamanho da memória e pela velocidade com que processa as informações. O tamanho da memória é medido pela unidade chamada byte e a velocidade do processador é sempre colocada em hertz. Por exemplo, em um anúncio de propaganda de venda de computadores, podemos encontrar:

Computador A:

64 Mb (Megabyte) de memória RAM (parte da memória de um computador em que são armazenados temporariamente os dados e programas) e HD (componente usado para armazenar dados e programas) de 20 Gb (Gigabyte), com 500 MHz (Megahertz) de velocidade do processador.
Preço anunciado: R$ 1.120,00.

 

Sabe-se que um bit é a menor unidade de informação digital e sua codificação utiliza os algarismos 0 ou 1. Veja a seguir a padronização de medidas:

Memória:1 byte = 8 bit
1 Kb (Kilobyte) = 1024 byte
1 Mb (Megabyte) = 1024 Kb
1 Gb (Gigabyte) = 1024 Mb
Velocidade:

1 kHz (Kilohertz) = 1000 Hz
1 MHz (Megahertz) = 1000 kHz
1 GHz (Gigahertz) = 1000 MHz

 

Para compreender melhor as informações que aparecem em uma propaganda, pode-se problematizar:

  • O que torna um computador mais caro do que outro?
  • O que é preferível: um computador com mais memória ou mais velocidade?
  • Sabendo-se que uma música em MP3 (formato que permite armazenar arquivos de som com boa qualidade e usando pouca memória) ocupa, em média, 4096 Kb e um CD comporta 650 Mb, quantas músicas podem ser gravadas em um CD?Para responder a estas questões, os alunos organizam-se em grupos e realizam entrevistas com usuários, vendedores e pessoas que trabalham na área de informática. Após a socialização dos resultados da pesquisa, o professor propõe a elaboração de um texto coletivo a partir das questões acima e sua divulgação na escola, para orientar as pessoas na compra de seu computador.Para aprofundar:

    Para obter mais informações sobre computadores e Internet, consulte no EducaRede a seção Be-a-bá da Internet, ou o glossário de termos de informática do portal Terra.

    Mais informações sobre MP3 podem ser encontradas no CanalKids ou no site Busca MP3.

    Os sites indicados neste texto foram visitados em 06/02/2003

    Texto original: Edna Aoki
    Edição: Equipe EducaRede

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Publicar ajuda a ensinar e a aprender

Publicar (na rede) ajuda a ensinar e a aprender

Professores apostam no potencial pedagógico dos blogs para incentivar
o hábito de escrever, o debate e o senso crítico

Leandro Quintanilha
Revista A Rede

Em Blogsfera Marli. professora,
reúne os links de sete edublogs
que mantém com alunos

Os blogs surgiram nos anos 90 como um ícone da liberdade de expressão na Internet. Hoje, essas páginas de livre publicação contam com cerca de 48 milhões de adeptos – e ainda mais prestígio. É que, além de serem fáceis de usar e democráticos por natureza, os blogs se revelam, agora, promissores aliados virtuais dos professores. Na era da inclusão digital, os edublogs representam uma espécie de vanguarda teórico-pedagógica, adaptável a qualquer disciplina, nos diversos níveis de ensino, em todas as camadas sociais.

Para a acadêmica Zilá Moura e Silva, doutora em Didática pela USP, o fenômeno tem feito com que alunos e professores escrevam mais e melhor. “As propostas tradicionais de escrita na escola são muito artificiais. Em geral, as pessoas têm dificuldade em discorrer de forma mais aprofundada sobre um tema”, avalia. Isso ocorre, segundo Zilá, porque os alunos não são estimulados a escrever com envolvimento. Com a possibilidade de publicação, o entusiasmo e o empenho são maiores. E a prática gera uma familiaridade progressiva com a escrita: quanto mais se produz, mais se deseja fazê-lo. “Autoria gera auto-estima”, observa.

A professora de Língua Portuguesa Marli Fiorentin concorda: “Os alunos ficam entusiasmados ao perceber que suas idéias têm valor”. Ela dá aulas para o Ensino Fundamental na Escola Estadual Padre Colbachini, em Nova Bassano, cidade com cerca de 10 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul. Descobriu a blogosfera no começo do ano passado e já mantém sete edublogs. “Com as páginas na Internet, os alunos ficam mais motivados a ler e escrever.”

Blog Contos da Escola: estudantes
de Letras colocam a educação em
debate

O cuidado com o texto também é maior “em relação à forma e ao conteúdo”, afirma Raquel da Cunha Recuero, professora dos cursos de Comunicação da Universidade Católica de Pelotas e doutoranda em Informação e Comunicação. Para ela, esses espaços-autoria são um antídoto para a chamada geração Ctrl C + Ctrl V (atalhos do teclado usados para copiar e colar textos). “O aluno passa a apurar melhor as informações disponíveis na Internet, para construir textos de qualidade”, observa a professora. Escrever seus próprios textos e ler a produção dos colegas são hábitos, afirma, que geram um ciclo positivo. “Ao tentar se superar, eles aprimoram o senso crítico”, diz.


A vida como ela é

Os edublogs favorecem o trabalho em equipe e a construção colaborativa do conhecimento, afirma Sônia Bertocchi, pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, de São Paulo, e coordenadora do Núcleo de Interatividade do portal EducaRede. Sônia é a criadora do Lousa Digital, um blog de discussões sobre o uso pedagógico da Internet. “Procuro auxiliar o professor na sua prática diária: indicar novos recursos, apresentar projetos bem-sucedidos e promover a interação entre educadores geograficamente distantes, além de divulgar eventos relacionados”, descreve.

Trabalho semelhante é realizado por uma professora em formação, a redatora e estudante de licenciatura em Letras Débora Batello, criadora do Contos da Escola. “Educação não é só lousa e giz. O professor tem que encontrar meios para estimular os alunos”, afirma. O público-alvo de seu blog são professores e aspirantes à carreira. Os temas propostos vão além da relação entre Educação e tecnologia. Polêmicas como sistemas alternativos de avaliação e a política de cotas para negros e estudantes de escolas públicas nas universidades são alguns dos assuntos abordados. Nos comentários, os leitores desenvolvem o debate.

A palavra weblog é uma junção dos vocábulos do inglês web (originalmente, teia; mas hoje também com a acepção de página da internet) com log (diário de bordo). Tradução literal: diário na rede. O blogs, como são hoje chamados, surgiram na década de 90 e, atualmente, o número de adeptos aumenta num ritmo avassalador. O site Technorati, que mantém sistema de busca específico para blogs, estima haver cerca de 48 milhões dessas páginas em funcionamento. Mas, no momento em que você lê esta reportagem, esse número já deve estar defasado – a cada dia, são criados mais de 75 mil novos blogs, segundo o instituto de pesquisa em tecnologia norte-americano Pew Internet. Cerca de 11% dos usuários de internet do mundo são leitores habituais de blogs. Estima-se que sejam publicados 1,2 milhão de novos textos, por dia, o que equivale a 50 mil atualizações por hora.
www.pewinternet.org – Pew Internet
www.technirati.com – Technirati 

A professora Marli, de Nova Bassano, criou seu primeiro blog pedagógico no ano passado, para uma turma de 8ª série: Vidas Secas – Da Ficção à Realidade, inspirado na célebre obra de Graciliano Ramos. “A idéia surgiu porque estávamos sofrendo com uma estiagem muito longa, aqui na região, que nos afetou financeira e emocionalmente”, conta ela. Os alunos analisaram o livro e pesquisaram sobre o contexto histórico em que foi escrito.

Na seqüência, Marli convidou alguns escritores profissionais para colaborar com o edublog, como o mineiro Wellington Pino e os gaúchos Caio Riter e Marcelo Spalding. Em um ano, a professora criou mais seis edublogs. E um sétimo, o Blogosfera M@rli,  reúne todos os links. Vários do alunos mantêm, hoje, blogs pessoais.

O trabalho da professora Zilá com meios de publicação na internet começou há dez anos – antes da “febre” dos blogs. Na Unesp de Bauru, ela participou da criação do site Universidade sem Fronteiras, que não era exatamente um blog, mas reproduzia o conceito de autoria-publicação ao colocar na rede os trabalhos de conclusão de curso.

Era só o começo. No correr dos anos, Zilá começou a adotar blogs propriamente ditos no curso de formação de professores da Faculdade Sumaré, em São Paulo, e no de gestores escolares da Uirapuru Superior, de Sorocaba. “Comecei com provocações”, lembra. Ela criava um blog para a turma no qual propunha problemas a resolver e discussões sobre assuntos polêmicos. Deu certo. Com o tempo, os educadores passaram a criar seus próprios diários virtuais, repassando o gosto da publicação para seus alunos. Tal como aconteceu com Marli.

Os links aqui publicados foram visitados em 29/09/06

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Larry Lessig discute Internet livre na Campus Party

Fundação Telefônica traz Larry Lessig para discutir Internet livre na Campus Party

 

A Fundação Telefônica traz o professor norte-americano Larry Lessig, um dos maiores defensores da Internet livre, para palestra durante a Campus Party 2010. Ele é um dos fundadores da Creative Commons, organização voltada a expandir a quantidade de obras criativas disponíveis, através de licenças que permitem cópia e compartilhamento na rede. Também é bastante conhecido por sua posição crítica em relação aos termos do copyright.

Lessig defende o direito à distribuição de bens culturais e à produção de trabalhos derivados, que hoje são criminalizadas pelas leis atuais. Professor da faculdade de Direito de Stanford, nos Estados Unidos, ele é autor de seis livros sobre o tema, todos disponíveis para cópia e reprodução em seu site. Em 2002, Lessig foi premiado pelo Award for the Advancement of Free Software, da Free Software Foundation e, em 2006, foi eleito membro da American Academy of Arts and Sciences.

O professor falará ao público da Campus Party sobre o conceito de cultura livre no dia 29 (sexta-feira), às 19h, no palco principal da Arena, durante o Momento Telefônica. A Campus Party acontece entre 25 e 31 de janeiro, no Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Projeto Garagem Digital mostra resultados

Jovens elaboram novo portal da Associação Meninos do Morumbi

Projeto Garagem Digital, da HP Brasil, tem por objetivo promover a inclusão digital de estudantes de baixa renda

Por Priscila Gonsales
A alegria e, por que não, o orgulho da missão cumprida ficaram evidentes nos rostos de cada um dos meninos e meninas que subiram ao palco do auditório da Associação Meninos do Morumbi para apresentar o portal na Internet criado por eles no projeto Garagem Digital, da HP Brasil. Na platéia, o grupo representado -120 jovens, entre 14 e 24 anos, da periferia de São Paulo – também fazia questão de escancarar sua satisfação, não economizando nas palmas e deixando a emoção transparecer.

De lenço na mão, a estudante Lesly Pacheco Gomes, de 18 anos, não pôde conter as lágrimas ao ver a imagem de sua filha Yasmin, de seis meses, nas fotos mostradas no telão. Lesly estava grávida quando começaram as atividades e continuou participando delas até a véspera do nascimento da menina. Quando completou 15 dias de vida, Yasmim já fazia parte do cenário da Garagem onde a jovem mãe retomava suas funções na elaboração do conteúdo da seção “Quem Somos”, a parte institucional do site.

“Foi uma experiência maravilhosa. Diferente da escola, que determina o que a gente deve fazer, nós é que éramos os responsáveis, nós que decidíamos”, declarou Lesly. O processo de tomada de decisão e as etapas para chegar a um acordo foram o grande aprendizado na opinião dela. “É muito difícil a convivência com variados jeitos de ser e opiniões diferentes. As brigas iam e vinham constantemente. Passado tudo isso, é muito bom ver que a amizade prevaleceu.”

O Garagem Digital tem por objetivo trabalhar os conceitos de cidadania, protagonismo juvenil e a capacitação profissional por meio da tecnologia da informação. A iniciativa é da HP Brasil, em parceria com a Fundação Abrinq e a Cidade Escola Aprendiz. A Associação Meninos do Morumbi foi escolhida para o plano-piloto por sua experiência bem sucedida no trabalho de integração social com jovens de baixa renda. O nome do projeto é uma menção à origem da HP, criada em uma garagem em Palo Alto, na Califórnia (EUA).

Com um investimento de R$ 600 mil, a HP montou um laboratório com computadores, impressoras, softwares e acesso à Internet. O ensino dos alunos ficou a cargo de educadores especialistas que realizaram oficinas, debates em grupo e também envolveram voluntários que apoiaram os jovens no desenvolvimento da percepção do que é padrão de qualidade no mercado de trabalho.

“O objetivo não é somente ensinar como funciona um software. O que buscamos é capacitar os jovens com competências e habilidades que extrapolam as linguagens digitais”, lembra João Ribeiro, coordenador pedagógico da Associação Meninos do Morumbi. “Ao trabalharem com os computadores, eles estão escrevendo, pesquisando, associando, interpretando, comparando. Estão também convivendo em grupo, negociando, resolvendo conflitos. A informática, nesse contexto, passa a ser uma ferramenta no processo de aprendizagem.”

O Garagem Digital também previu a distribuição de uma bolsa mensal no valor de R$50 para cada um dos jovens participantes. O portal na Internet tem todas as informações sobre a Associação Meninos do Morumbi. Desde dicas para quem quer se juntar ao grupo até as atividades desenvolvidas pelos alunos e a agenda de shows.

:: Papel dos parceiros

A HP, empresa que desenvolve tecnologia de ponta na área da informática, aporta ao projeto esta tecnologia e os recursos financeiros necessários a sua operação. O Cidade Escola Aprendiz entra com uma metodologia inovadora que utiliza arte, comunicação e tecnologia para contribuir com a educação brasileira. O Meninos do Morumbi participa com seu contexto focado nas artes, no esporte e um trabalho junto à família, às comunidades e à escola pública. Seu grupo artístico é reconhecido no Brasil e no exterior. O êxito de sua ação está no uso da música como ferramenta para a inserção social de crianças e adolescentes em situação de risco.

E a Fundação Abrinq entra, nesta parceria, com a atribuição de coordenar o projeto e registrar todo o processo, com vistas à sua disseminação em larga escala junto a outras organizações do terceiro setor e poder público.

Conheça o portal elaborado pelos jovens do Garagem Digital
http://www.meninosdomorumbi.org.br

Os sites indicados neste texto foram visitados em 19/07/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


Jornal na sala de aula

Jornais desenvolvem programas
educativos nas escolas

A utilização de jornais em sala de aula, como recurso didático, ganhou o mundo e começa a despertar o interesse das escolas brasileiras

Por Leonor Macedo

 

Em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal, 8,5 mil escolas (de um total de cerca de 200 mil estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio) estão discutindo a importância do uso diário de jornais em sala de aula. Ao todo, 38 veículos brasileiros desenvolvem um programa específico de jornal na educação, atingindo cerca de 3,5 milhões de alunos. Os dados são da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que, desde 1980, promove a atividade entre seus associados de grande ou pequeno porte.

 

 

 

Com o objetivo de motivar o gosto pela leitura nos estudantes e disponibilizar aos professores um recurso didático de fácil acesso para complementar suas aulas, o projeto de jornal na educação é um sucesso mundial. Nos EUA, mais de 700 jornais patrocinam programas do gênero. Na Suécia, Dinamarca e Noruega, todos os periódicos desenvolvem projetos educacionais. Na América do Sul, destacam-se Brasil, Argentina e Chile.

 

 

A educadora Gracia Lopes Lima, do Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Educação da USP, alerta para a importância de as escolas utilizarem jornais e outros meios de comunicação em seus projetos pedagógicos. “É preciso reconhecer que além da escola, tida como reduto de transmissão do conhecimento acumulado pela humanidade, os meios de comunicação de massa desempenham relevante papel na formação das pessoas. Eles são, cada vez mais, influenciadores diretos do modo de “ser-pensar-agir”, explica “Por isso, a escola é o local ideal para pensar e discutir como as informações são articuladas e a quem beneficiam”, diz.

 

Celestin Freinet

Pedagogo francês que viveu nos anos 20. Defendia e aplicava projetos como jornal escolar, troca de correspondência, trabalho em grupo, aulas-passeio. Observava em seus alunos a maneira como construíam seu conhecimento para saber a hora certa de intervir. Para o educador, ninguém avança sozinho em sua aprendizagem, a interação entre professor e aluno é fundamental. Freinet acreditava que a educação deve proporcionar ao aluno a realização de um trabalho real.

O uso de jornais na educação data dos anos 20, quando o pedagogo francês Celestin Freinet desenvolvia com seus alunos um jornal escolar para a divulgação dos textos produzidos. “Trabalhos como esse se baseiam na constatação de que é preciso promover na escola a compreensão de novas tecnologias e de diferentes linguagens presentes na vida da sociedade”, argumenta Gracia.

Para Gracia, a questão é urgente e há necessidade cada vez maior de as escolas incluírem a comunicação (presente na vida dos alunos, antes mesmo de nascerem) em seus planos pedagógicos e passarem a desenvolver, em sala de aula, atividades práticas, tanto no âmbito da promoção de leitura crítica quanto no de produção de veículos informativos.

 

Uma boa dica, segundo a educadora, é a elaboração de um jornal escolar com os exercícios necessários para que os alunos passem a entender como são produzidas as informações que lhes chegam prontas. “Discutir a pauta, isto é, fazê-los definir sozinhos as notícias que querem tornar conhecidas, redigir as mensagens numa linguagem que de fato seja deles, tirar fotos a partir de suas próprias perspectivas, podem se constituir situações que possibilitam aos alunos aprender também a ‘editar’ o mundo”, sugere. Ao longo do processo, que terá sido resultado de um trabalho experimentado coletivamente, a idéia é os alunos passarem a comparar os diversos modos de produzir informação e ler com olhos mais críticos os jornais de grande circulação.

 

De acordo com estudos do Núcleo de Pesquisa da USP, a utilização de jornais e outros meios torna as aulas mais significativas. Isso porque os veículos podem desencadear reflexões, ilustrando temas atuais que são abordados em diversas disciplinas. Os meios de comunicação podem estar incluídos entre as tantas fontes de pesquisa para o professor preparar suas aulas. Além de buscar apoio em livros, revistas, enciclopédias, ele pode também fazer uso de um trecho de novela, por exemplo, para explicar determinado assunto, seja de História, Geografia ou mesmo de Ética. “A formação de cidadãos críticos pressupõe o preparo para a reflexão diante de toda e qualquer realidade”, conclui Gracia.

 

 

 

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)