Tempestade de idéias

1905-2005: a Física antes e depois de Albert Einstein


José Carlos Antonio (artigo)
*

Este ano de 2005 foi escolhido pelas sociedades de Física de todo o mundo como o Ano Mundial da Física. Um leitor que não goste muito da disciplina ?Física? poderá dizer ?Grande coisa!?, mas de fato essa escolha se deu justamente pela ?grandiosidade da coisa? ocorrida há exatos 100 anos, em 1905, com as publicações de Albert Einstein (1879-1955) sobre o fóton, a Relatividade Especial, a relação massa-energia e o movimento molecular, além de sua tese de doutoramento sobre a determinação do tamanho das moléculas.

Por todas essas publicações, e pelo impacto que causaram na Ciência e nas idéias do século XX, o ano de 1905 ficou conhecido como o annus mirabilis (ano maravilhoso) da vida científica de Einstein e, claro, foi também um ano maravilhoso para a Ciência.

O impacto dessas publicações sobre a Ciência do século XX foi muito grande e, juntamente com os trabalhos posteriores sobre relatividade geral e o desenvolvimento da mecânica quântica, ocorrido mais ou menos na primeira metade do século XX, houve uma nova revolução científica de proporções colossais. Essa revolução, de certa forma, só se compara à Revolução Copernicana, iniciada por Nicolau Copérnico (1473-1543) com a publicação em 1543 de seu livro As Revoluções do Orbe Celeste, já no final de sua vida, e que culminou com os trabalhos de Isaac Newton (1643-1727), publicados em 1687, na sua obra Princípios Matemáticos da Filosofia Natural.

É claro que para entendermos melhor a grandiosidade dessa revolução, iniciada no começo do século passado, é preciso entender também como o mundo da Ciência e das idéias era antes disso, e como ele é hoje em dia, cem anos depois.

100 anos antes

A fundação de uma ?Física Moderna? no início do século passado não mudou apenas a Ciência, mas também a própria visão de mundo do homem contemporâneo que já vinha sendo reformulada desde Copérnico e que teve saltos consideráveis com os trabalhos de Charles Darwin (1809 -1882) sobre Biologia (Teoria da evolução das espécies) publicados na segunda metade do século XIX, e de Sigmund Freud (1856 – 1939) sobre Psicanálise, publicados no final do século XIX e início do século XX. Graças a esses grandes homens tivemos que mudar nossa própria concepção de mundo, nossas idéias sobre o universo e sobre nosso papel nele.

O mundo pré-relativístico e pré-quântico, ou seja, o mundo da Física clássica, já não era mais um mundo povoado meramente por mitos religiosos, mas sim um mundo com forte viés humanista e tecnicista, onde o homem já se enxergava como senhor do seu destino e responsável por seus atos, pensamentos e desejos. Contrariamente ao mundo pré-copernicano, o mundo pré-moderno já dominava a linguagem da Ciência.

Desde a fundação dos pilares da mecânica clássica, por Newton e seus contemporâneos, a Ciência do mundo ocidental, e em especial a Física, passou por uma fase de três séculos gloriosos de descobertas e de transformações. A visão de mundo dos homens que viveram esses séculos acompanhou os desenvolvimentos científicos e abandonou aos poucos o panorama místico-religioso da Idade Média para se fundamentar em um novo panorama mecanicista e determinista, onde a Ciência pareceu-se cada vez mais ser o “supra-sumo” do saber e o caminho mais viável para o desenvolvimento humano. Na esteira desse pensamento se desenvolveu o pensamento positivista dos séculos XIX e XX, que ainda influencia fortemente o desenvolvimento e o ensino das Ciências.

Ciência pronta

No final do século XIX pensava-se que havia muito pouco ainda para ser descoberto e que praticamente tudo que se referia à natureza física podia ser explicado com base na Física clássica desenvolvida até então. Além dos desenvolvimentos prodigiosos da mecânica clássica, também a termodinâmica, o eletromagnetismo e a óptica, encontravam-se suficientemente desenvolvidas para dar conta da explicação de quase todos os fenômenos conhecidos até então, e o ?pouco? que não se sabia explicar acreditava-se que seria explicado em um futuro próximo com base nas mesmas idéias centrais desenvolvidas até então.

 

Do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico, a Ciência pré-moderna havia literalmente criado um novo mundo. A termodinâmica havia permitido o surgimento da revolução industrial com o desenvolvimento das máquinas a vapor e a compreensão das transformações da energia; o eletromagnetismo permitiu o desenvolvimento tecnológico da eletricidade e das telecomunicações; a óptica permitiu o desenvolvimento dos microscópios e uma revolução gigantesca na microbiologia e, do outro lado, permitiu o desenvolvimento dos telescópios e a exploração do universo.

Surgiram nos séculos XVIII e XIX os grandes navios, os automóveis, o telégrafo e o telefone, as grandes indústrias… Enfim, um novo mundo completamente diferente do mundo de economia feudal anterior. O homem dessa época já sonhava com robôs-escravos que trabalhariam para os humanos (embora nós humanos ainda escravizássemos nossos próprios semelhantes), sonhava com viagens à lua e ao resto do universo, vislumbrava um mundo mais fraterno e pacífico e, acima de tudo, acreditava que o futuro lhe reservaria uma vida cômoda e despreocupada, que até então a humanidade nunca havia tido ou imaginado como possível. O mundo do final do século XIX era um mundo de certezas e esperanças. Um mundo ?bem resolvido? e que tinha à sua frente apenas alguns pequenos ajustes a fazer, nada mais.

De nuvens a tempestades

Do ponto de vista da Ciência também havia muito pouco a ser feito, segundo se pensava na época. Citando Lord Kelvin (1824-1907) o professor Roberto de Andrade Martins, diz ?Lord Kelvin – um dos cientistas que havia ajudado a transformar essa área (termodinâmica) – recomendou que os jovens não se dedicassem à Física, pois faltavam apenas alguns detalhes pouco interessantes a serem desenvolvidos, como o refinamento de medidas e a solução de problemas secundários?.

Para Kelvin havia apenas duas ?pequenas nuvens? no horizonte que se dissipariam logo: o fracasso de um experimento que tentava provar a existência do éter (uma substância hipotética que deveria preencher todo o espaço) e a falta de uma explicação coerente com o que se sabia até então para a energia irradiada por um corpo aquecido (esse problema famoso ficou conhecido na Física como ?catástrofe do ultravioleta? e não tinha nenhuma solução possível partindo-se da Física clássica, embora esta já fosse bastante sofisticada). Como diz o professor Martins: ?Foram essas duas ?pequenas nuvens?, no entanto, que desencadearam o surgimento das duas teorias que revolucionaram a Física no século XX: a teoria da relatividade e a teoria quântica?.

Na verdade havia muitas ?nuvens? e uma infinidade de perguntas sem respostas, mas a confiança de que ?tudo o que era importante? já estava descoberto criava um clima de otimismo e uma enorme presunção de que a Ciência já estava ?pronta?.

Einstein deu contribuições significativas para ?transformar em tempestades as pequenas nuvens do horizonte? e, além de ser considerado o ?pai? da teoria da relatividade, também ajudou a firmar os pilares da mecânica quântica, embora viesse a ?duvidar dela? durante o resto de sua vida.

* José Carlos Antonio é professor de Física, mediador do projeto As Coisas Boas da Minha Terra e escreve para a revista eletrônica Zoom, onde você encontra a continuação deste artigo.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Ricardo Sennes analisa o conflito no Iraque

O que está por trás da guerra

Especialista em Relações Internacionais analisa os motivos que levaram a coalizão anglo-americana a atacar o Iraque

Por Ricardo Sennes*

É importante salientar que a atual guerra contra o Iraque envolve aspectos de diferentes naturezas. Alguns são de ordem geopolítica, outros econômica, estratégica e até mesmo eleitoral. Além disso, falta ainda muita informação para realmente termos uma visão clara do problema. Mas vamos arriscar alguns palpites.


Por que a guerra está acontecendo?

A guerra se tornou possível pelo fato de o Iraque ser hoje um ator importante em várias arenas de interesse dos EUA e, em todas elas, representar para o governo norte-americano um foco de oposição. Em escala de prioridade, a primeira preocupação do grupo político que hoje cerca o presidente George Bush refere-se ao papel dos EUA no mundo. Esse grupo dirigente (Dick Cheney, Rumsfeld etc.) não é novato na política norte-americana, eles estiveram nos governos de Henry Ford, Ronald Reagan e Bush-pai e se caracterizam por uma visão extremamente auto-centrada dos EUA.

Defendem, por exemplo, a idéia de que os EUA têm exercido no mundo uma posição muito aquém do que deveriam e poderiam, dado o fato de serem uma superpotência. Para eles, os EUA têm a legitimidade e o dever de impor uma ordem internacional com base em seus próprios princípios e referências. Vêem uma distorção injustificável entre o poder que os EUA têm acumulado e o grau de influência que exercem nas principais questões internacionais, entre elas a de segurança e de interesses estratégicos.

Dessa forma, a decisão de iniciar uma guerra no Iraque tem certamente muito a ver com a idéia de que cabe aos EUA iniciar um conjunto de ações visando “corrigir” distorções na ordem internacional, daí a origem da famosa expressão “países do eixo do mal”, que, além do Iraque, inclui o Irã e a Coréia do Norte.


Por que o Iraque foi escolhido como a “bola da vez”?

Além de fazer parte do chamado “eixo do mal”, o Iraque tem exercido uma função na região do Oriente Médio que vai de encontro aos interesses norte-americanos, seja na proteção mais ou menos velado aos grupos islâmicos radicais, seja pelo apoio aos palestinos. Os EUA viram na chance de derrubar Saddam Hussein um passo importante na redefinição do equilíbrio político do Oriente Médio.

Outro fator relevante é o argumento de que o Iraque ainda possua armamento de destruição em massa, principalmente armas químicas e biológicas. Essa foi a justificativa oficial para se iniciar a guerra – ou uma guerra preventiva, como consta nos documentos da área de segurança do governo de Bush.

Como fica a questão do petróleo?

É difícil sustentar que essa guerra tem apenas o intuito de garantir o suprimento desse produto aos EUA, ainda que o país seja altamente dependente das importações de petróleo para manter sua economia funcionando. Esse certamente é um fator, mas não deve ser tomado como principal ou de forma isolada.

Existe alguma ligação entre esta guerra no Iraque e os ataques ao World Trade Center?
Há uma ligação política. Como todos devem se lembrar, Bush foi eleito de forma precária, tanto sua campanha foi recheada de trapalhadas e desencontros, como a ínfima (e questionável) margem de votos sobre seu opositor (Al Gore), tiraram muito da legitimidade de sua vitória.

Fora isso, a condição de uma economia em forte desaceleração e a falta de apoio no Congresso (tinha uma pequena maioria numa das casas e era minoria na outra) estavam indicando que Bush não teria condições mínimas de fazer um governo razoável.
Porém, esse cenário mudou quando ocorreram os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. A comoção social que se seguiu foi canalizada para alguns dos pontos que o grupo mais conservador de apoio a Bush gostariam de priorizar, ou seja, agir para redefinir o papel dos EUA no mundo.

A partir dai seguiu-se uma série de medidas polêmicas e fortes que forjaram uma clara agenda de governo que Bush não possuía anteriormente. Foi aumentado de maneira assombrosa o orçamento de defesa dos EUA, criou-se um ministério específico para cuidar da segurança doméstica do país (Home Land Security) e iniciou-se uma política de repressão e controle interno.

Destacam-se ainda as várias gestões internacionais para colocar alguns países na linha de frente dos problemas da instabilidade internacional (os paises do “eixo do mal”). Dessa linha fazem parte a guerra contra o Afeganistão (onde estaria o mandante dos atentados, Bin Laden) e agora contra o Iraque, assim como as pressões contra a Coréia do Norte.

Paralelamente, os EUA forçaram uma redefinição política do eixo atlântico (a aliança tradicional com os europeus) e colocou em xeque a ONU. Enfim, os ataques de 11 de setembro permitiram uma reação política em cadeia – bem conduzida pelo governo Bush – que legitimou a ação agressiva de um governo que mesmo já tendo essas idéias antes dos atentados, não tinha as menores condições de implementá-las.

Acredita que ainda há lugar para uma superpotência na atual conjuntura mundial, que tende à multipolaridade? Na sua opinião, os EUA são um império em declínio?
No aspecto estratégico-militar, existe sim uma superpotência, cujo diferencial de poder em seu favor é o maior já visto na história. Os EUA estão militarmente mobilizados, têm bases em diversos países, sua frota naval está permanentemente vigiando os oceanos e possuem um aparato de informação e vigilância combinando satélites, aviões de espionagem, monitoramento da internet, das comunicações telefônicas etc. Aqui a questão não é se existe espaço ou não para uma superpotência. A questão é: existindo uma superpotência (como é o caso dos EUA), como é possível construir uma ordem internacional estável e minimamente confiável.

Caso Al Gore tivesse sido eleito, acredita que a guerra ocorreria?
Não creio que com um presidente com o perfil de Al Gore essa guerra estaria ocorrendo. As soluções que os democratas tendem a imprimir para as crises internacionais, tende a ser mais cooperativas e baseado na anuência das instituições internacionais.

*Ricardo Sennes é formado em Economia, com mestrado em Ciências Políticas e doutorado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisador do Centro de Estudos em Negociações Internacionais da USP. 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Projeto Garagem Digital mostra resultados

Jovens elaboram novo portal da Associação Meninos do Morumbi

Projeto Garagem Digital, da HP Brasil, tem por objetivo promover a inclusão digital de estudantes de baixa renda

Por Priscila Gonsales
A alegria e, por que não, o orgulho da missão cumprida ficaram evidentes nos rostos de cada um dos meninos e meninas que subiram ao palco do auditório da Associação Meninos do Morumbi para apresentar o portal na Internet criado por eles no projeto Garagem Digital, da HP Brasil. Na platéia, o grupo representado -120 jovens, entre 14 e 24 anos, da periferia de São Paulo – também fazia questão de escancarar sua satisfação, não economizando nas palmas e deixando a emoção transparecer.

De lenço na mão, a estudante Lesly Pacheco Gomes, de 18 anos, não pôde conter as lágrimas ao ver a imagem de sua filha Yasmin, de seis meses, nas fotos mostradas no telão. Lesly estava grávida quando começaram as atividades e continuou participando delas até a véspera do nascimento da menina. Quando completou 15 dias de vida, Yasmim já fazia parte do cenário da Garagem onde a jovem mãe retomava suas funções na elaboração do conteúdo da seção “Quem Somos”, a parte institucional do site.

“Foi uma experiência maravilhosa. Diferente da escola, que determina o que a gente deve fazer, nós é que éramos os responsáveis, nós que decidíamos”, declarou Lesly. O processo de tomada de decisão e as etapas para chegar a um acordo foram o grande aprendizado na opinião dela. “É muito difícil a convivência com variados jeitos de ser e opiniões diferentes. As brigas iam e vinham constantemente. Passado tudo isso, é muito bom ver que a amizade prevaleceu.”

O Garagem Digital tem por objetivo trabalhar os conceitos de cidadania, protagonismo juvenil e a capacitação profissional por meio da tecnologia da informação. A iniciativa é da HP Brasil, em parceria com a Fundação Abrinq e a Cidade Escola Aprendiz. A Associação Meninos do Morumbi foi escolhida para o plano-piloto por sua experiência bem sucedida no trabalho de integração social com jovens de baixa renda. O nome do projeto é uma menção à origem da HP, criada em uma garagem em Palo Alto, na Califórnia (EUA).

Com um investimento de R$ 600 mil, a HP montou um laboratório com computadores, impressoras, softwares e acesso à Internet. O ensino dos alunos ficou a cargo de educadores especialistas que realizaram oficinas, debates em grupo e também envolveram voluntários que apoiaram os jovens no desenvolvimento da percepção do que é padrão de qualidade no mercado de trabalho.

“O objetivo não é somente ensinar como funciona um software. O que buscamos é capacitar os jovens com competências e habilidades que extrapolam as linguagens digitais”, lembra João Ribeiro, coordenador pedagógico da Associação Meninos do Morumbi. “Ao trabalharem com os computadores, eles estão escrevendo, pesquisando, associando, interpretando, comparando. Estão também convivendo em grupo, negociando, resolvendo conflitos. A informática, nesse contexto, passa a ser uma ferramenta no processo de aprendizagem.”

O Garagem Digital também previu a distribuição de uma bolsa mensal no valor de R$50 para cada um dos jovens participantes. O portal na Internet tem todas as informações sobre a Associação Meninos do Morumbi. Desde dicas para quem quer se juntar ao grupo até as atividades desenvolvidas pelos alunos e a agenda de shows.

:: Papel dos parceiros

A HP, empresa que desenvolve tecnologia de ponta na área da informática, aporta ao projeto esta tecnologia e os recursos financeiros necessários a sua operação. O Cidade Escola Aprendiz entra com uma metodologia inovadora que utiliza arte, comunicação e tecnologia para contribuir com a educação brasileira. O Meninos do Morumbi participa com seu contexto focado nas artes, no esporte e um trabalho junto à família, às comunidades e à escola pública. Seu grupo artístico é reconhecido no Brasil e no exterior. O êxito de sua ação está no uso da música como ferramenta para a inserção social de crianças e adolescentes em situação de risco.

E a Fundação Abrinq entra, nesta parceria, com a atribuição de coordenar o projeto e registrar todo o processo, com vistas à sua disseminação em larga escala junto a outras organizações do terceiro setor e poder público.

Conheça o portal elaborado pelos jovens do Garagem Digital
http://www.meninosdomorumbi.org.br

Os sites indicados neste texto foram visitados em 19/07/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


Por que celular na educação?

Por que celular na educação?


Claudemir Edson Viana*
Sônia Bertocchi**

O acelerado desenvolvimento tecnológico que se tem verificado recentemente nas potencialidades dos celulares  (WiFi, 3G e 3GS), aliado às suas potencialidades originais já  reconhecidas como recursos técnicos para a aprendizagem – portabilidade, interatividade, sensibilidade ao contexto, conectividade e individualidade -,  sinaliza condições mais que favoráveis para que educadores se dediquem urgentemente ao estudo e desenvolvimento de propostas pedagógicas que incluam aplicações desses equipamentos na escola.

Essas propostas poderiam incluir desde atividades simples de caráter comportamentalista até atividades de natureza construtivista, passando pela aprendizagem em situação e pelo ensino colaborativo apoiado em computador, baseado na psicologia sociocultural de Vygotsky.

Com a massificação do celular, seria de se esperar que o m-learning (mobile learning)  se tornasse um elemento importante na aprendizagem formal dos nossos alunos, uma vez que uma aprendizagem já acontece de maneira não formal, não sistematizada,  nem orientada pelos professores. A perspectiva seria que essa aprendizagem, por conta das características do celular, pudesse acontecer, cada vez mais, em ambientes interativos de forte colaboração em rede, e não necessariamente dentro da sala de aula.

Algumas possíveis aplicações de celular no processo de ensino-aprendizagem é o que o pesquisador do Laboratório de Inteligência Coletiva da PUC, dr. Rogério da Costa, citou recentemente no encontro Interdidática: “O aluno pode trocar mensagens (SMS), consultar o dicionário, criar e consultar glossários, resolver questionários, ouvir as aulas em vídeo e áudio (podcasts) e fazer fotografias”.

Ele acredita que essa forma de inteligência coletiva oferece resultados mais concretos e proveitosos do que os mecanismos de busca convencionais, por exemplo. No entanto, é bom entender que estes possíveis usos só terão sentido educativo se houver uma intencionalidade pedagógica, isto é, se estas ações forem realizadas pelos jovens em razão de um projeto pedagógico proposto pelos seus educadores e de forma articulada a ele.

“Lo más interesante de cualquier transformación tecnológica no es lo que los ingenieros dicen que va a pasar, sino lo que la gente hace con ella. Somos nosotros los que estamos cambiando, no las tecnologías las que nos hacen cambiar.”Manuel Castells em entrevista à BBC Mundo.

Afinal, a tecnologia sempre está a serviço da humanidade, e num contexto educativo não poderia ser de outra forma, se não, novamente, estaríamos incorporando o uso dos recursos de tecnologias novas na educação, como o celular, apenas para parecer moderninho, ou seja, apenas pela tecnologia em si (como fim e não meio), até mesmo com metodologias de ensino absolutamente tradicionais e incoerentes com as características naturais decorrentes desses recursos tecnologócios, o que seria um anacronismo total.

É, portanto, necessário aos educadores uma abertura inicial para estas questões e suas possibilidades, a fim de que possam vislumbrar paulatinamente o que em sua prática pedagógica seria possível aplicar com os recursos da telefonia móvel e o que em sua prática deveria mudar para conseguirem incorporar e explorar da melhor maneira estes recursos. Este processo do educador é necessário e leva certo tempo, inclusive de experimentações, já que na formação do educador, nem de longe, tratou-se de forma adequada e atualizada o uso de recursos das tecnologias de informação e comunicação em suas práticas pedagógicas.

Então, é preciso considerar este tempo do educador, e também oportunizar formações continuadas que apresentem estas novas situações de ensino-aprendizagem, as novas formas de ser e fazer dos jovens para que os profissionais da educação comecem a atuar de maneira articulada com o contexto social em que seus alunos vivem.

Esta modalidade de ensino, o m-learning, implica em modalidades de educação que utilizam os dispositivos móveis, como o celular, aplicados na educação. Cresce o número de exemplos deste uso pelo mundo. Recentemente, nos Estados Unidos, alunos de diferentes escolas da cidade de Austin, Chicago e Boston têm aulas de biologia, matemática, química, ciências e estatística com seus celulares. São atividades intituladas de “simulações participativas”, em que estudantes recebem um conteúdo do professor via celular e passam a interagir com ele, enviando em seguida suas intervenções aos colegas. Saiba mais sobre este tipo de “simulação participativa” (In: veja.abril.com.br).

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* Bacharel e licenciado em História (USP-1992), especialista em Educomunicação(USP-2003), Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP (2000-2005) e gestor da comunidade virtual Minha Terra desde 2007 do Portal EducaRede.

** Bacharel e Licenciada em Letras (FFCLSanto André — 1973), Máster em Gestão e Produção de e-Learning pela Universidade Carlos III de Madri, gestora de Comunidades Virtuais de Aprendizagem do Portal EducaRede Brasil.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Oficina conquista educadores

Oficina conquista educadores no primeiro dia de Congresso

A professora Zilda Kessel ministrou uma oficina, na tarde desta segunda, para cerca de 20 educadores de diversas partes do país, na qual apresentou os portais EducaRede  e RiSolidária, mostrando os links, ferramentas e estratégias para contribuir com a inclusão digital nas escolas. Os participantes se mostraram bastante entusiasmados com a oficina.

Estudante do último ano de Matemática, Eliandro Pereira Gomes viajou da cidade de Santa Clara do Oeste, no Mato Grosso do Sul, até São Paulo para acompanhar o Congresso e gostou do que viu. “Até 2005 não tínhamos salas de Informática na escola municipal. Os professores ainda não são capacitados para exercerem a integração da Educação com a informática, mas com esta oficina, pude ver que posso encontrar uma maneira de tornar a Matemática mais divertida para os alunos que se ‘assustam’ com os números”.

A professora de Educação Física Márcia Nunes espera que mais escolas tenham a possibilidade de implantarem um sistema de Educação que leve em conta as novas tecnologias. A oficina EducaRede será realizada novamente no III Congresso Ibero Americano EducaRede nesta terça feira, às 14 horas.
(Leonardo Pollisson)

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Meus pais têm fobia à tecnologia

Meus pais têm fobia à tecnologia

Um rato! Nããããooooo. Ainda é possível escutar o grito de uma mãe ao ouvir seu filho de 7 anos dizer despreocupadamente: “Mamãe, pegue o mouse [rato]”, e ela, tímida, não sabe que ele está se referindo ao pequeno aparato com o qual se pode mover o cursor pela tela do computador. Entenda o porquê.

Fonte: EducaRede Colômbia

Tradução: Airton Dantas

Os avanços das tecnologias têm feito a diferença entre gerações. Algumas pessoas estão sempre ligadas às novidades; outras, não conseguem acompanhar o ritmo dessas mudanças e, por isso, precisam da companhia dos filhos, que estão familiarizados com essas modernidades e acabam se tornando professores dos pais.

Alguns pais dizem que são muito velhos para aprender a lidar com computadores, e que isso não tem serventia nenhuma. Preferem ficar com as antigas máquinas de escrever e as de calcular porque não entendem termos como Word, Excel, software, hardware, e não se imaginam “navegando” pela Internet.

Mas há pessoas que, apesar da idade, são inquietas e, aos poucos, tentam aprender sobre o funcionamento dessas ferramentas, que podem facilitar-lhes a vida.

Os pais são tímidos na hora de começar a manipular os teclados do computador ou do celular, mas a vontade de não se deixar vencer pelos filhos é mais forte, e começam a passar algumas horas diante do monitor, ao lado dos filhos, perguntando-lhes absolutamente tudo: A câmera está ligada? Com quem você está falando? Por que aqui ficou amarelo? Como você movimentou essa imagem?

Além de determinar diferenças entre gerações, também é possível observar que os avanços tecnológicos podem se converter em ferramentas educativas fundamentais à aprendizagem de pais e filhos e fortalecer os vínculos entre eles, mesmo correndo-se o risco de receber uma ligação no celular, à meia-noite, e ouvir uma voz envergonhada perguntando: “Como desligo a luzinha da tela?

O interesse dos pais pela tecnologia pode ser despertado, em grande parte, quando os filhos os motivam a usá-la. Ao navegar pela Internet com os filhos, os pais vão percebendo como algumas ferramentas podem ser úteis no dia-a-dia.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Idéias do filósofo do ciberespaço

Idéias do filósofo do cyberespaço

Quais são os desafios de se trabalhar em rede? O que constitui uma comunidade virtual? Qual o papel do professor no ciberespaço? Estas são algumas questões abordadas por Pierre Lévy, principal filósofo da cultura virtual contemporânea, durante um encontro realizado em agosto. Além da gravação, o EducaRede passa a disponibilizar aos internautas a transcrição desta conversa, que teve como ponto de partida os Portais Rede Social São Paulo e o próprio EducaRede. Rogério da Costa, professor da PUC-SP, que já trabalhou com Pierre Lévy, mediou o encontro, uma iniciativa da Fundação Vanzolini e do Laboratório de Inteligência Coletiva (Linc).

Rogério da Costa:  O tom deste encontro é a cooperação e a ação humana. Ou seja, como é que se estabelece, de fato, a sinergia entre pessoas; sinergia que pode acontecer, e que esperamos que ocorra, tanto no portal EducaRede quanto no portal Rede Social São Paulo. Bom, vamos dar inicio então ao nosso processo. Com a palavra, Pierre Lévy.

Pierre Lévy:  Em primeiro lugar, gostaria de enfatizar muito firmemente que alguns de vocês têm trabalhado nestes projetos há vários meses e anos, e eu só tive conhecimento deles há uma hora. Então, vocês sabem melhor sobre eles do que eu. A inteligência coletiva está do lado de vocês. Isso é muito importante.

Vou tentar lhes dar algum tipo de retorno sobre eles que, espero, possa ajudá-los. Vocês são educadores que há muitos anos trabalham com a Educação presencial. Acho que essa é uma questão perfeitamente legítima, mas será que é somente um problema relacionado aos professores e à sua experiência pessoal e ao fato de eles não serem tão fluentes em novas tecnologias e de seus alunos usarem melhor essas novas ferramentas? Creio que um fator muito importante são as regras institucionais nas escolas e a cultura geral que prevalece na Educação em geral, na Educação tradicional, não somente presencial ou on–line. Por exemplo, tento organizar os meus alunos em grupos de trabalho para melhorar alguns artigos na Wikipédia. Ou seja, para ajudá–los a trabalhar corporativamente, e acrescentar e melhorar uma memória global do conhecimento, porque esta é a forma como nós iremos trabalhar na sociedade, em empresas, na administração e assim por diante. Então eu queria treiná–los neste tipo de inteligência coletiva, mas não foi possível. Não porque eu não fosse fluente na nova tecnologia; não foi possível porque há regras na nossa universidade que impõem limites, por exemplo, ao proibir que se dêem notas coletivas para os alunos. Como se vê, a forma como algumas instituições trabalham, às vezes, se constitui num obstáculo para a nova maneira de aprender coletivamente e usar essas redes sociais e on–line.

Não tenho certeza de que se deva opor a Educação presencial à on-line, porque nós podemos trabalhar com as mesmas regras fazendo algo no computador que será colocado on–line por exemplo, ou nós podemos ajudar uns aos outros a resolver problemas que nós estamos enfrentando on–line, presencialmente.

Comunidades virtuais

Platéia:  Como criar uma comunidade?
Pierre Lévy: Este é um problema de liderança, um problema político. Como criar um movimento social? Você não cria um movimento social ao criar um portal, o objetivo precisa ser muito atraente. Você precisa de líderes e um sentido compartilhado do que é importante, pois se trata de uma criação cultural, uma criação social. Como nós vivemos hoje na era cibernética, é claro que o suporte técnico dessas novas comunidades está on–line. É a rede, é o espaço cibernético é o ciberespaço; mas o coração, a essência das comunidades sociais, são os objetivos comuns, e isso não muda. Você não constrói uma comunidade como você constrói uma casa, um tijolo sobre o outro, ela precisa crescer.

Uma das diferenças mais importantes entre as comunidades atuais ou do futuro e as comunidades do passado é a forma da memória; porque não há nenhuma comunidade sem identidade, é claro. E não há identidade, uma identidade coletiva, sem uma memória coletiva.Hoje, acho que uma comunidade precisa organizar–se em torno de uma memória comum, e uma das funções principais de cada membro de uma comunidade da Era Cibernética é participar para ajudar o crescimento de uma memória comum e preencher com a fonte de memória. Dou e retiro algo desta memória comum, e nós todos estamos fazendo isso. De certa forma, todos estamos cultivando este valor comum. A comunidade é o círculo, e no centro há a memória comum, o conhecimento comum e cada um de nós está cultivando o que é comum a nós. Você dá e você retira. E quanto mais você dá, e quanto mais as pessoas dão, melhor é a qualidade do conhecimento que você retira de volta. Então essa é a nova regra, digamos.

Na sua apresentação você não falou tanto sobre conhecimento e o que se chama no mundo das empresas de “administração do conhecimento”, mas eu acho que “administração do conhecimento” não deve ser somente privilégio das empresas high tech. Há um corpo de metodologias, instrumentos e experiências que pode ser utilizado também pelos movimentos sociais e pelo setor público e pelo terceiro setor e assim por diante. (E, por falar nisso, aos poucos isto está se tornando uma disciplina acadêmica, muito recente ainda, por isso não está num estágio de muita complexidade).

Talvez eu esteja errado, mas vocês deveriam tentar ir nesta direção e compreender o que é “administração do conhecimento”. Basicamente, “administração do conhecimento” é ajudar as pessoas a pertencer à mesma comunidade e encontrar as informações de que elas necessitam no momento em que elas necessitam, quando a ação exige esta informação ou este conhecimento.  Encontrar as informações, encontrar o conhecimento ou encontrar as pessoas que sabem, ou encontrar as pessoas que têm o know-how. Então, obter visibilidade sobre quem sabe o quê, onde está o conhecimento, não somente em que site, mas onde estão as pessoas que sabem. Com quem eu deveria entrar em contato. Daí há a necessidade de que a comunidade se engaje na tarefa de definir qual é o seu conhecimento essencial, qual é o conhecimento importante para o funcionamento da comunidade. Com muita freqüência, este conhecimento não está nos papéis oficiais ou em manuais: ele vem da prática, de especialistas que têm experiência. Então é importante discutir com estes especialistas e ajudá-los. No vocabulário da “administração do conhecimento” isso se chama explicitação. Explicitar o conhecimento, ou seja, colocar este conhecimento num formato que pode ser usado pelos outros. Podem ser histórias, listas, tabelas, bancos de dados, depende. Mas colocar numa forma pública. E chamar a atenção de todos que tudo que é importante para o objetivo da comunidade ou para o objetivo da rede deve ser colocado numa forma pública e disponibilizado para toda a comunidade.

E a questão da estruturação desta memória comum, deste conhecimento comum, é muito importante, mas não é tão fácil de ser resolvida. Esta estruturação é chamada, no vocabulário da “administração do conhecimento”, de ontologias. Ela pode ter, por exemplo, a forma de uma taxonomia, de rede complexa, a forma de um círculo, etc. Mas ela precisa ter uma estrutura definida para ajudar as pessoas a se orientarem no conhecimento. Se pensarmos nas habilidades dos educadores, elas têm mais relação com a “administração do conhecimento” e com ajudar os outros – os aprendizes – do que com as funções on-line. Trata-se de algo muito mais complexo do que fazer algo funcionar on-line. Infelizmente não estamos indo na direção de uma sociedade menos complexa, mas sim na direção de uma sociedade mais complexa. Vamos ser claros, a tarefa do educador vai se tornar mais complexa. Não se trata só de “como entrar no Orkut?”, mas de como fazer a arquitetura do conhecimento para ajudar a todos a contribuir e a se orientar.

Foi uma surpresa para mim ouvir as três apresentações. Houve uma grande ênfase na comunicação, nas redes sociais e assim por diante. E muito pouca ênfase na memória, no conhecimento, na estruturação e assim por diante. O que não significa que isso tenha de ser organizado de uma forma tão rígida. Isso precisa ser vivo.  Mas quando eu falo sobre a arquitetura do conhecimento, estou pensando mais sobre um tipo de código genético. Cada comunidade pode ser vista como uma espécie de conhecimento, algo vivo, algo que tem a sua própria identidade. Todos somos membros, todos os membros das comunidades são as células desse organismo vivo. Mas eles compartilham o mesmo código genético, a mesma organização do conhecimento, a mesma ontologia. Estas são algumas das idéias que vieram à minha mente enquanto eu estava ouvindo as apresentações.

Sérgio Mindlin:  Na sua visão, como o nível de sofisticação das ferramentas utilizadas influem na dinâmica dos ambientes colaborativos?

Pierre Lévy:  É uma pergunta muito difícil responder, porque o nível de sofisticação não é algo absoluto, ele depende dos objetivos da comunidade, do ambiente, do conteúdo. Não sei responder uma questão tão geral. É preciso que haja uma adequação entre a interface, entre o poder do software e do hardware, a extensão da rede, o objetivo da aplicação. Então é mais uma questão de harmonia, de adequação, de equilíbrio do que, digamos, do máximo de sofisticação. É um equilíbrio qualitativo.

Bruno Aires:  Uma vez que o portal Rede Social esteja estabilizado, uma forma de dar impulso para quebrar com a inércia não seria encontrar atrações para os jovens que são entusiastas da Internet? Quais seriam estas atrações sociais? Que ações sociais falam mais ao jovem internauta numa faixa etária entre 18 e 28 anos?

Pierre Lévy:  Vocês sabem disso melhor do que eu, porque eu não sou um jovem usuário. Mas a gente sabe que compartilhar músicas, arquivos, ou tocar, ou jogar on-line, isso atrai os jovens. Isso a gente sabe.

Escolas que não usam Internet

Maria do Carmo Brant de Carvalho:  Pierre, como você sabe, o EducaRede tem feito um enorme esforço para conquistar professores e conquistar a presença, o uso, enfim, dos conteúdos e especialmente das comunidades virtuais, para o aprendizado maior das crianças e adolescentes. Cinco anos atrás, quando o EducaRede apareceu, ele era o único portal, ou quase o único portal de Educação no Brasil. Para a rede pública, especialmente, era o único. Hoje, cinco anos depois, as secretarias estaduais de Educação e outros grupos mantêm portais disponíveis também para rede pública escolar. Então, gostaria de lhe perguntar duas coisas. Primeiro: como criar um ambiente colaborativo interportais, interprogramas entre os portais que hoje são oferecidos via Internet para as escolas públicas? Como fazer para não caminharmos isoladamente uns dos outros, como acontece hoje? E uma outra questão: o Governo Federal iniciou um programa recentemente que pretende distribuir um computador para cada criança na escola pública. Algumas escolas já receberam esses computadores. Ao mesmo tempo,  aparece na mídia uma reação muito grande contra a Internet, que ela faz mal para a criança, que não é o melhor instrumento educacional para elas, o uso de tecnologias para crianças e adolescentes, que isso, ao invés de ajudar na aprendizagem, complica. Esta reação se disseminou de tal forma que as escolas públicas que já possuem seu computador, quer dizer, os municípios aos quais elas pertencem estão avaliando se é melhor ensinar com computador ou sem computador, entendendo que a Internet não é boa. E com isso, então lhe pergunto: Qual é a importância de toda essa tecnologia para crianças e adolescentes?

Pierre Lévy:  Em primeiro lugar, eu sou a favor dos computadores nas escolas, a favor do acesso livre à Internet, e acesso em alta velocidade. Primeiro, porque é uma fonte extraordinária de conhecimento, é um instrumento extraordinário de comunicação e colaboração; e, finalmente, porque em nossa sociedade os adultos utilizam as ferramentas da Internet no trabalho, o que torna completamente absurdo privar as crianças do equipamento básico que dá suporte a toda tecnologia intelectual de nossa época.

Quanto aos que a criticam, sabemos que eles a querem para si próprios e não para os outros: “A Internet é boa para mim porque eu sou educado, eu tenho razões suficientes e um espírito crítico para usar este instrumento tão poderoso, mas não para os outros, porque os outros são ignorantes e eles vão usar isso para o mal”.Mas você não pode aprender como usar este instrumento tão poderoso para o bem se você não tiver este instrumento nas suas mãos. É claro que serão cometidos erros; é claro que há coisas falsas na Internet; e é claro que há pornografia, crime e tudo mais, como há na sociedade. Mas por causa disso nossas crianças não devem se socializar? Claro que não. Há um lado escuro do ser humano, da mente humana, que pode ser encontrado em todos os lugares, não somente na Internet, mas em todos os lugares.

Para sua primeira questão, isto está ligado ao que você disse: não repetir o que já está sendo feito, o que já foi feito. Para nós, é muito difícil compreender que uma vez que algo já está na rede, está em toda parte. Porque uma instituição já fez isso, nós precisamos fazer a mesma coisa: não! Está na rede, então já está em toda parte. Então, obviamente, todas as instituições que têm os mesmos objetivos precisam colaborar umas com as outras e eliminar tudo o que for uma duplicação da mesma informação.  Isso é só redundância. É claro que é útil acrescentar novas informações se for uma nova informação, mas duas vezes a mesma informação?! Não estamos mais na época das bibliotecas. Na biblioteca de uma escola você precisa ter os mesmos livros que na biblioteca de uma outra escola, mas na Internet você não precisa disso. Mas é claro que essa idéia de pequenas acumulações de memória precisa ser realizada em todos os lugares. É um hábito que está entranhado na nossa cultura há séculos. Só há 15 anos que, subitamente, a memória se tornou global. É global de um ponto de vista técnico, porque há línguas diferentes, diferentes pontos de vista, diferentes tipos de organização de conhecimento. Mas esta multiplicidade não é mais uma multiplicidade local, é uma multiplicidade semântica. Ou, em outras palavras, é uma multiplicidade afetiva, porque nós temos diferentes objetivos, desejos, diferentes interesses, então a nossa memória pode ser organizada de formas diferentes. São diferentes espécies de conhecimento, mas todas essas espécies estão no mesmo ecossistema. Precisamos, então, aprender a viver neste mundo muito estranho em que a memória, quando ela está em algum lugar, ela está em todos os lugares.

Wikipédia

Platéia: Pierre, em vez de apenas promover a capacitação de pessoas para estar on-line, quais estratégias para promover a cultura de rede existem, quais você conhece e em que lugar?. Outra pergunta da platéia: Você pode dar um exemplo de comunidade colaborativa bem-sucedida?

Pierre Lévy: 
Certamente. O mais óbvio exemplo é a Wikipédia. Milhões de pessoas estão atualmente construindo a maior enciclopédia que já foi feita e ela é muitíssimo bem-sucedida. Hoje na Wikipédia, que foi feita em somente alguns anos, você tem mais informação que em qualquer enciclopédia impressa. Ela é muito precisa, muito atualizada, multilíngüe. E aqui a gente volta à questão da cultura e da animação. Há regras muito estritas e rígidas na Wikipédia. A maneira como você escreve um artigo é muito bem definida, e o que é um artigo bom e um artigo ruim pode ser acessado muito rigorosamente, porque você tem os critérios. É preciso ter referências, fatos precisos e datas e assim por diante. O manual para os participantes desta comunidade é muito bem feito e muito preciso. Além disso, há muitas pessoas que estão revisando continuamente a validade das informações que estão ali. E há somente 15 pessoas remuneradas; todos os outros são voluntários, do mundo todo. Então este é um exemplo. Ele é muito bem conhecido, está em todos os jornais.

Rogério da Costa: Pierre, você poderia falar algo sobre as diferenças e semelhanças que você vê entre a Wikipedia e os softwares livres? Há também uma série de regras para os softwares livres…

Pierre Lévy: Ambos são baseados na espontaneidade de muitas pessoas, portanto a maneira de integrar a multiplicidade de espontaneidades é ter regras. Não tem mistério. Mas é baseado numa relação par a par. Em ambos os casos, tanto na Wikipédia como no software livre. Mas você precisa tomar cuidado com o par a par. Todo mundo reconhece que algumas pessoas são mais especialistas do que outras. No mundo do desenvolvimento do software livre ou na Wikipédia, quem escreve um artigo sobre um assunto, escreve porque é um bom especialista neste assunto. E se alguém usa um software, é porque tem muita capacidade e elegância na codificação deste software. Então há   um gosto, uma apreciação das capacidades intelectuais dos outros, não é somente uma anarquia. Há autonomia, há espontaneidade e disciplina. É necessário um equilíbrio entre elas.

Platéia: Você acha que as universidades estão sendo capazes de acompanhar as novas formas de produção de conhecimento e de gestão da inteligência coletiva? Você veria novas formas e lugares de produção do conhecimento socialmente legitimado? Por exemplo, é possível comparar os avanços de uma comunidade de desenvolvimento de software, a própria Wikipédia, com os avanços da produção acadêmica coletiva? Ou seja, a universidade vai perder o seu lugar de excelência?

Pierre Lévy: A Internet foi construída pelos acadêmicos e muitos artigos na Wikipédia são escritos pelos acadêmicos e a gestão do conhecimento é ensinada nas universidades. Existem laboratórios de inteligência coletiva que são parte das instituições acadêmicas, por isso não acho que as universidades estão mais ou menos avançadas na construção desta nova civilização. Os construtores da civilização não são as instituições, na realidade. Há redes transversais de pessoas que compartilham alguns valores comuns e que estão, desculpe dizer isso, promovendo excelência na inteligência coletiva. Isso pode ser encontrado nas ONG’s, nas universidades, nas empresas, na administração pública. Não se trata de jogar uma instituição contra a outra: “Ah, não gosto das empresas, eles trabalham por dinheiro!”; ou “Eu não gosto das universidades, elas não estão no mundo real”, ou coisas assim. Precisamos cultivar uma visão muito aberta para visualizar a relação entre as pessoas e a colaboração.

O resultado você confere abaixo:

Então, é claro, tenho de fazer uma distinção entre habilidades dos professores individuais e a cultura geral, o trabalho de uma instituição. Não podemos separar o que nós somos como indivíduos e o que é a cultura coletiva de uma instituição, porque uma instituição é feita de pessoas. Então todas estas coisas estão interligadas; mas a evolução cultural é lenta.

Mesmo se pensarmos que toda esta nova cultura emergiu muito rapidamente, ela não emergiu rapidamente, ela levou pelo menos 30 anos: da primeira comunidade on–line, que se desenvolveu nos anos 80, e agora, 30 anos depois, estamos vendo os primeiros florescimentos desta cultura da colaboração on–line, das comunidades on–line. Então levou mais do que uma geração. Quem tem hoje 15 anos, quando for um educador, será um membro completamente integrado a esta nova cultura. Embora desejemos criar uma nova cultura, uma nova comunidade, não podemos decidir nada sobre isso, pois ela cresce espontânea e autonomamente. Podemos vislumbrar algo, oferecer instrumentos, encorajar, mas nós não podemos construir isso de fora para dentro, ela precisa crescer de dentro para fora.

E vendo seus os slides (a apresentação do EducaRede), fiquei muito feliz porque você estava dizendo exatamente o que eu dizia 15 anos atrás sobre o novo papel do educador: ajudar os outros a aprender colaborativamente, não somente ensinar e transmitir conhecimento.Eu dizia isso há 15 anos e agora isso se transformou num lugar–comum. O que você disse deve ser repetido sempre. E o trabalho é ótimo, mas demora. Quinze anos atrás quando estava dizendo isso, eu estava muito sozinho, eu me sentia só. Hoje eu sinto que não estou só, mas demora.

Platéia:  Isso acontece em outros países? Como podemos superar essa dificuldade?

Pierre Lévy: Acontece em outros países, sim. O crescimento das comunidades on–line e o crescimento de jovens nestas comunidades são um fenômeno global e o Brasil participa integralmente deste fenômeno. Não é um fenômeno brasileiro, é um fenômeno global e o Brasil é parte desta cultura global emergente. Isso precisa ser muito bem compreendido. Mas a emergência dessas redes sociais muito vibrantes é o resultado de um tipo de processo “darwiniano”.

Há muitas redes sociais emergindo em todos os locais. A maioria das quais não é bem–sucedida, apenas uma minoria consegue expandir–se. Então não é porque há algumas redes on–line muito bem-sucedidas, auto–organizadas, com pessoas interagindo o tempo todo, que ao se criar uma rede social ela também vá funcionar assim. Isso não é verdade. O que podemos fazer é estudar por que ela funciona aqui e não funciona lá. Mas cada rede social é quase como um fenômeno vivo.

Especialmente se nós tivermos objetivos sociais ou objetivos educacionais, o papel dos animadores e dos líderes e das pessoas que proporcionam regras e normas é muito, muito importante. Essas pessoas podem emergir das comunidades espontaneamente – e nós precisamos encorajá–las – ou podem ser pagos por instituições. Mas o seu papel é importantíssimo. Não acredito que haja uma pura espontaneidade quando se fala em atingir tarefas sociais complexas ou em aprendizagem em ambientes escolares. Ela precisa ser organizada. Porque todas as redes que funcionam bem geralmente são movidas pelo divertimento, pelo entretenimento, somente. Há um elemento de diversão, de entretenimento na aprendizagem, mas no ambiente escolar, nem tanto. Para resolver problemas complexos e, às vezes, muito tristes, voltados para a proteção dos jovens e dos adolescentes, elas não podem ser completamente espontâneas.

Platéia: O que esperar de um portal?

Pierre Lévy: Acho que você já sabe a reposta. O portal é só um meio, um instrumento técnico. É claro que há muito mais no que você quer fazer do que só dar um suporte para a ação. A tarefa real é feita pelas pessoas, o portal é só um instrumento técnico.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

FME-SP reúne 100 mil

Fórum reúne 100 mil pessoas

O Fórum Mundial de Educação São Paulo superou as expectativas dos organizadores e chegou a reunir 100 mil pessoas de 1 a 4 de abril, no Anhembi. A maioria do público era formada por professores e estudantes das redes municipal e estadual de ensino de várias partes do Brasil e também universitários e pós-graduandos. Eles circularam pelos auditórios e salas, pela Feira da Educação e por outros espaços onde ocorreram palestras, debates, oficinas e apresentações culturais.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Vencedores do Concurso inovam no uso pedagógico da Internet

Vencedores do Concurso EducaRede
inovam no uso pedagógico da Internet

Depois de apresentarem projetos desenvolvidos na escola, professores participam da fase internacional, elaborando com vencedores de outros países um projeto colaborativo

da Redação

Antonia Lucélia dos Santos Mariano (CE), Alair Betti Della Coletta (SP), Gládis Leal dos Santos (SC) e Ingrid Broch (RS). De norte a sul do país, estas professoras são exemplo de profissionais que inovam no uso pedagógico da Internet. E, por isso, venceram o Concurso Internacional EducaRede: Internet e Inovação Pedagógica, promovido pela Fundação Telefônica.

Na tarde desta terça (25/9), Antonia, Alair, Gládis e Ingrid foram premiadas por mostrar como a Internet pode contribuir com a Educação de crianças e jovens. Seus projetos desenvolveram a colaboração, a produção, a comunicação e a pesquisa via Web, entre outras habilidades, cada vez mais necessárias na atual sociedade. Um trabalho virtual com os pés enraizados na escola, na cidade, na cultura, no prazer de descobertas que deu a alunos e professores, juntos, a chance de experimentarem novas possibilidades pedagógicas.

O caminho percorrido pela “Estrada da Fé”, nome do projeto desenvolvido pela professora Antonia, a leva agora à Madri, para participar da fase internacional do Concurso e do IV Congresso EducaRede na Espanha. Com ela, vão as outras três ganhadoras que deixam o país já com um novo desafio: desenvolver um projeto colaborativo com os ganhadores do Concurso EducaRede da Argentina, Chile, Colômbia e Espanha. O sorteio das duplas de trabalho entre os países foi realizado na cerimônia de premiação, em São Paulo, que “conectou” os participantes dos eventos por meio de videoconferência. Antonia fará parceria com um professor do Chile, assim como Alair. O parceiro de Gládis é da Colômbia, e de Ingrid da Argentina.

 “Às vezes a gente se sente tão desacreditada… Hoje vemos que estamos no caminho certo”, comemora a professora Ingrid, de Porto Alegre. Também do sul do país, Gládis Leal deixou Joinville com o pé engessado para ir ao evento. “Fiquei muito feliz por ter encontrado pessoas com quem me relaciono há muito tempo, mas só pela Internet. Receber essa premiação foi tudo! São tantos trabalhos, de todo o país…”  Da pequena cidade de Torrinha (SP), a professora Alair dedicou o prêmio aos alunos e professores da Escola Estadual Lázaro Franco de Moraes, pelo empenho em enfrentar com ela as dificuldades de se trabalhar no “interior, com pouca infra-estrutura tecnológica”. A professora Antonia também lembrou dos desafios, mas principalmente da falta de apoio e de reconhecimento de seu trabalho. “Eu dedico esse prêmio a Padre Cícero e aos romeiros de todo o país”, já que o projeto desenvolvido por ela faz uma reflexão sobre os romeiros de Juazeiro do Norte (CE).

Mas não foram só as quatro professoras que comemoraram nesta terça-feira. No total, 12 educadores foram premiados, dos vinte projetos finalistas. Um deles foi Paloma Fernandez, de São Paulo, levou mais de quarenta alunos para a torcida. As propostas concorreram em quatro categorias: Uso do EducaRede (Ensinos Fundamental 2 e Médio) e Uso da Internet (Ensinos Fundamental 2 e Médio). Os educadores que ficaram em segundo lugar receberam um computador e os que ficaram em terceiro, um iPod. A classificação geral foi a seguinte:

Uso do EducaRede – Ensino Fundamental 2

1  
Antonia L. dos Santos Mariano
Oficina de Criação do Livro Eletrônico – “A Estrada da Fé”  Juazeiro do Norte (CE)
2
Marli L. D. Fiorentin
Vidas Secas: da Ficção à Realidade Nova Bassano (RS)
3
Paloma M.Fernandez
Monitoria Voluntária em Informática Educativa São Paulo (SP)

Uso do EducaRede – Ensino Médio

1
Alair Betti Della Coletta         
Torrinha – Pérola da Serra                  Torrinha (SP)
2
Marcia Adriana da Silva
Lixo, o que podemos fazer? Guaíra (SP)
3
Rubenita Sales da Silva
Escola Egídia: 70 anos e muita estória pra contar                  Morada Nova (CE)

Uso da Internet – Ensino Fundamental 2

1
Gládis Leal dos
Santos           
Blog Palavra Aberta – intercâmbio de idéias no ciberespaço Joinville (SC)
2
Maria Lucia Carneiro Pinto
Almanaque Indígena do Brasil – Hoje! Porto Alegre (RS)
3
Fernando José de Lima
Uso da Internet como aliada nas aulas de Português e Inglês Cananéia (SP)

Uso da Internet – Ensino Médio

1
Ingrid Kuchenbecker         Broch
Drama Club Webwriters            Porto Alegre (RS)
2
Cleber Silva de Menezes
Estudo Exploratório sobre o Uso de Ambientes Virtuais Colaborativos de Aprendizagem no Ensino Básico de Física Nova Iguaçu (RJ)
3
Maria Ap. Marconcine
Projeto Criação de Blogs Imperatriz (MA)

“O Concurso Internacional EducaRede é um levantamento de boas práticas do uso pedagógico da Internet, que valoriza a iniciativa dos professores e mostra a importância da Internet como um recurso de inclusão social”, reforça Sérgio Mindlin, diretor-presidente da Fundação Telefônica. “E ser inovador tem seu preço. Significa incomodar aqueles que não querem ser incomodados”, completa o professor aposentado  José Manuel Moran, da Escola de Comunicações e Artes (USP). Ele cumprimentou os finalistas por serem exemplos de profissionais que têm coragem de inovar. “Só vale a pena ser professor se você gosta de aprender. Para ensinar não precisa de grandes tecnologias, mas ter essa atitude aberta. Quem me ensinou a lidar com a tecnologia foram meus alunos e meus filhos”, disse Moran, finalizando: “O que me mantém vivo é aprender”.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Tecnologia e educação

 

Tecnologia e educação
dominam debates


Dois eventos de grande porte nas últimas semanas reuniram educadores
em torno de reflexões e discussões sobre o tema

Dois grandes eventos nacionais abordando a inter-relação educação e tecnologia foram destaque nas últimas semanas. O primeiro, o E-Gov Fórum III, ocorreu de 27 a 30 de maio, em Brasília, e teve como objetivo discutir a universalização do acesso à informática e à Internet com a participação de representantes de órgãos governamentais, da sociedade civil e da iniciativa privada.

 

Nos dias 13 e 14 de junho, o Instituto Ayrton Senna e a Microsoft organizaram em São Paulo o Congresso de Educação e Tecnologia para o Desenvolvimento Humano, que reuniu especialistas internacionais, como Pierre Levy e Philippe Perrenoud.

 

Confira:

:: Momento é de desafios ,da enviada especial, Mílada Tonarelli.

:: Balanço do E-Gov Forum III, do Portal Setor 3, parceiro do EducaRede

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)