Você está Seguro(a) Online?

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Pesquisa que pretende identificar hábitos de uso das TIC deve ser respondida por adolescentes de 11 a 19 anos de idade. Adultos também podem conhecer conteúdo do questionário online

CPP Brasil (Child Protection Partnership) deseja saber o que você, adolescente de 11 a 19 anos de idade, acha das TIC e como as usa. As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) incluem equipamentos como computadores e telefones celulares, usados para buscar informação, jogar ou conversar com alguém. Para isso, um questinário foi elaborado. Suas respostas (somente para adolescentes de 11 a 19 anos de idade) são anônimas, o que significa que seus nomes não serão identificados. Os dados coletados serão somados e um resumo dos resultados da pesquisa será relatado na edição de 2010 de Because I Am A Girl, uma iniciativa da Plan, organização internacional sem fins lucrativos. Adultos com mais de 19 anos não podem participar, mas é possível conhecer o questionário online.

A Child Protection Partnership (CPP), Parceria para a Proteção da Criança e Adolescente, é um programa internacional que tem também como parceiros no Brasil a SaferNet, Childhood Brasil, NECA e Plan. O programa CPP é coordenado pelo International Institute for Child Rights and Development (IICRD), Instituto Internacional para os Direitos e Desenvolvimento da Criança e Adolescente, situado na Universidade de Victoria, no Canadá.

Objetivos da pesquisa

• Coletar as perspectivas de adolescentes brasileiros sobre a TIC em suas vidas;

• Compreender melhor as suas perspectivas, experiências e comportamentos em relação aos perigos e proteções apresentadas pelas TIC;

• Identificar as formas possíveis de proteção para os adolescentes, dada a constante expansão das TIC.

Suas respostas ajudarão a contar uma história sobre adolescentes e as TIC no Brasil. Essa pesquisa é parte da iniciativa “Adolescentes Brasileiras e sua Realidade no Mundo Virtual”, que conta também com um levantamento feito com adolescentes em São Paulo por meio de grupos focais. A história também vai contribuir para que a CPP, SaferNet, Childhood Brasil e a Plan ajudem às crianças e adolescentes a utilizar as TIC de forma segura.

Se você tiver alguma dúvida sobre esta pesquisa entre em contato com Luiz Rossi em cppbrasil@uol.com.br.

Convidamos você que tem de 11 a 19 anos de idade a responder a pesquisa.

Se você tem mais de 19 anos e tiver interesse em conhecer o questionário online, clique aqui.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Um futuro para a internet

Em palestra na Universidade Federal de Pernambuco, o filósofo Pierre Lévy afirma que a mídia digital caminha para uma “esfera semântica” por volta de 2015

Por Adriana Vieira

Imagine uma internet em que todo o conhecimento esteja organizado por conceitos. Além dos endereços das páginas da Web, haja localizadores semânticos uniformes dos conteúdos, independentemente do idioma. Segundo Pierre Lévy, é para esse sentido que caminha o futuro da mídia digital: “A inteligência coletiva será mais poderosa do que é agora”, afirmou o filósofo, durante palestra que proferiu no 3º Seminário Hipertextos e Tecnologias na Educação no último dia 2, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife.

Com o tema “Do hipertexto opaco ao transparente”, Lévy iniciou sua apresentação de cerca de uma hora e meia, ao ar livre, na Concha Acústica da UFPE, abordando o seu conceito mais conhecido, o de “inteligência coletiva”. Para tanto, explicou detalhadamente o que chama de “ciclo de gerenciamento do conhecimento pessoal”, processo no qual as pessoas constroem seus conhecimentos a partir do enorme fluxo de informação. Entre as etapas desse ciclo estão: a definição de interesses e prioridades (“se não souber o que quer aprender, não vai a lugar nenhum”); a conexão com fontes valiosas; a categorização das informações; a síntese e compartilhamento/comunicação do conhecimento.

Segundo Lévy, a inteligência coletiva emerge da interação, mas também desse processo de aprendizagem individual; a base é pessoal. As pessoas estão trabalhando para uma memória comum, porém em diferentes linguagens, com metadados com distintas semânticas. “ É como se numa biblioteca nós tivéssemos 10 mil sistemas diferentes de catalogação e todos incompatíveis. Essa é a bagunça da internet. Essa é a situação da internet atualmente.”

Como então alcançar um gerenciamento do conhecimento social efetivo? O filósofo explicou as fases do desenvolvimento do mundo digital, iniciado com a invenção do computador nos anos 50, passando pela popularização da internet na década de 80 e pela criação da Web nos anos 90. Essa evolução, segundo ele, caminha para o que chama de “esfera semântica”, por volta de 2015.

Nessa “esfera semântica”, o hipertexto opaco da Web – opaco porque o endereçador dos conteúdos hoje é a URL (Uniform Resource Locator) e não explicita o significado dos dados – daria lugar a um novo código, desta vez transparente, um sistema simbólico totalmente computacional, mais poderoso até do que uma linguagem natural.

Parece impossível? Lévy vai mais longe: “vamos criar uma mente global. O cérebro global já existe. Isto é uma coisa material. O que não temos é um sistema de símbolos unificados. Vai ser muito mais poderoso do que a linguagem natural. Como uma matemática que descreva operações semânticas, operações da mente. O objetivo é aumentar essa inteligência coletiva humana pelo uso da mídia digital. Pelo uso cuidadoso e bem pensado da mídia digital” (citação extraída do blog do Professor Eli Lopes).

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Para saber mais:

IEML (Information Economy Meta Lenguage) – Projeto desenvolvido por Pierre Lévy na Universidade de Ottawa, no Canadá

Entrevista com Pierre Lévy, 01/09/2009, no G1 – o filósofo fala sobre o seu projeto IEML

Pierre Lévy (Wikpedia) – lista das obras em português e francês

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Salvador enfrenta os computadores

Todo dia é dia de aprender


Em Salvador, formação continuada de professores garante sucesso no uso
pedagógico da sala de informática

Por Paloma Váron

Em meio à conhecida polêmica de que não adianta ter computador na escola e não saber usar, a cidade de Salvador tem se destacado na preparação de educadores para a boa utilização da informática na educação. Desde 1996, o Núcleo de Educação e Tecnologia (NET) da Coordenadoria de Ensino e Apoio Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Salvador, promove a formação continuada de professores para a utilização das novas tecnologias em sala de aula. O resultado do trabalho poderá ser visto na Mostra de Tecnologia e Educação, que ocorre em Salvador no dia 3 de dezembro, com a participação do NET, de organizações não-governamentais e de outras instituições que trabalham com o tema.

Toda quarta-feira a cena se repete: professores da rede municipal se reúnem por turno (matutino, vespertino e noturno) em uma sala equipada com computadores, impressoras, scanner, TV, vídeo e antena parabólica para discutir as possibilidades de uso da informática na escola durante o curso de formação. São cerca de quatro horas de trabalho contínuo com os professores, sendo meia hora de navegação livre na Internet e as demais direcionadas para atividades práticas (com programas como Front Page e Power Point, por exemplo) e teóricas, como leitura e discussão de textos relacionados ao uso das novas tecnologias na educação. A formação ocorre nos horários destinados a atividades complementares, o que significa que os professores estão sendo remunerados para participar da atividade. “Lá, eles socializam a experiência adquirida, discutem os erros e acertos”, explica Ana Cintra, coordenadora do NET.

Um dos pontos fortes do NET está no fato de ter sido gerado num grupo de estudos que se organizava na Universidade Federal da Bahia, composto por educadores e pesquisadores. O Núcleo tem como objetivo construir projetos pedagógicos que articulem a educação à comunicação e estimulem o processo ensino e aprendizagem em ambientes interativos, contribuindo para a produção e socialização de conhecimento e cultura. Atualmente, congrega 21 escolas, mas já há mais duas inscritas para 2003. Criado em meados de 1996, quando cada escola da rede havia recebido apenas um computador, o NET implantou o Programa Internet nas Escolas, um projeto-piloto, que visava estimular o uso pedagógico da máquina pelas escolas. Isso porque geralmente, quando chega apenas um computador numa escola, imediatamente desloca-se o equipamento para a área administrativa. “Fizemos uma reunião com os professores e decidimos como as máquinas seriam utilizadas. Assim venceu o uso pedagógico”, conta Ana Cintra. A partir dessa reunião com os professores, surgiu o grupo de estudos, que daria origem ao Espaço de Formação Permanente do Professor.

A experiência de Salvador mostra que é possível começar um projeto pedagógico com apenas uma máquina. Para facilitar o acesso por todos, as escolas dividiam os alunos em grupos de dez para que cada equipe tivesse um contato semanal. “Pretendíamos, pelo menos, disseminar a cultura tecnológica na escola”, conta Ana Cintra, que teve de ignorar protestos de alguns professores que diziam: “Mas nós não temos nem cadeiras e vamos ter computador?” Apesar do estranhamento inicial, aquele primeiro contato com a informática serviu para que alunos e professores pudessem aprender a pesquisar na Internet e incrementar as aulas. O NET colocou um professor-orientador em cada escola, nos três turnos. Hoje, as escolas integrantes da NET já dispõem de laboratório de informática, recebido pelo Proinfo – Programa Nacional de Informática na Educação, do governo federal.

Para a professora Léia Casais, da Escola Municipal Novo Marotinho, situada no Novo Marotinho, um dos bairros mais pobres de Salvador, a formação permanente é muito importante para manter a qualidade do programa. Ela e os outros professores que participam da formação continuada dividem o tempo para que fiquem 20 horas semanais em sala de aula e 20 horas semanais no laboratório de informática, atuando como professores de Novas Tecnologias que auxiliam os professores das demais disciplinas e os alunos a utilizarem as ferramentas da informática.

:: Sala de informática aberta à comunidade

Na escola Novo Marotinho existe o projeto Conectando a Mulher Mãe ao Mundo, que abre o laboratório de informática da escola para as mulheres do bairro. A escola promove o encontro com as mulheres do bairro do Novo Marotinho duas vezes por semana, às quartas e aos sábados, o que garante que o laboratório de informática tenha um aproveitamento de 100%.

O projeto ensina informática para as mulheres a partir do trabalho com temas como identidade, auto-estima, família e outros, com o auxílio de programas como o Word, no qual redigem textos, e o Paint Brush, em que elas se desenham nas telas dos computadores. Tem também como mérito fazer com que as mães participem mais da vida escolar dos filhos, entrando em contato com o que eles estão aprendendo. “É muito importante saber se conectar, para instruir os filhos em casa”, diz Sandra de Souza, mãe de uma aluna da 2ª série. Ela conta que, na primeira vez em que foi ao laboratório, ficou muito ansiosa. “Quando fui para casa, já estava sorridente, parecia que eu era outra pessoa, não dá para descrever”, conta, revelando sua satisfação em participar.

Para Vera Lopes, mãe de uma aluna da 4ª série, as aulas são bastante proveitosas e, ao mesmo tempo, representam duas horas de lazer para as mães. “O projeto está nos proporcionando a entrada no mundo tecnológico”, diz. Silvia Sacramento, mãe de um aluno da Novo Marotinho, acha que todas as mães de alunos deveriam ter essa oportunidade.

Conheça os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos pelas escolas de Salvador no site www.smec.salvador.ba.gov.br.

A participação da comunidade no laboratório da escola, porém, não se resume apenas às mulheres. Quem quiser utilizar os computadores é bem-vindo no projeto Escola Viva na Comunidade, que recebeu o Prêmio Rômulo Galvão pela iniciativa e por contribuir na disseminação da cultura da não-violência. Dessa forma, professores, alunos e comunidade utilizam a informática como forma de reconhecimento, de busca de identidade. “A nossa proposta de inclusão é geral, envolve até a inclusão étnica. Trabalhamos o diferente, que não é sinônimo de desigual, e a auto-estima, não apenas dos nossos alunos, mas também das pessoas da comunidade. Temos uma parceria com o movimento negro, como o Ilê Aiyê”, explica a professora.

Nilcélia Santana, 19, é ex-aluna do colégio e atua como monitora do laboratório de informática há dois meses. Ela trabalha tanto com os professores, auxiliando-os a usar programas, como com a comunidade. “Eu fiz o curso de informática aqui mesmo na escola, e estar aqui é uma ótima oportunidade para mim e também para o pessoal do bairro”, diz.

Como tudo começou

Em 1995, a professora Lynn Alves, doutoranda em Educação e Comunicação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), era supervisora da Escola Municipal Dr. Alexandre Leal Costa quando participou de uma reunião na Secretaria Municipal de Educação para discutir como seria utilizado o único computador disponível na escola. A partir daí, formou, com outros professores, o grupo de estudos para discutir a interação entre comunicação e educação. Leia a entrevista abaixo:
Qual foi a participação da Universidade Federal da Bahia na formação do Núcleo de Educação e Tecnologia de Salvador?
Basicamente no suporte teórico-metodológico. Em 1996, fiz uma disciplina com o professor Nelson Pretto (atual diretor da Faculdade de Educação) com o objetivo de entender a articulação educação/tecnologia. Lá, conheci Arnaud Júnior que estava fazendo mestrado na área e iniciou comigo o Grupo de Estudos Permanentes (GEP) que, desde de maio de 1996, se reúne uma vez por semana para discutir educação e tecnologia. A UFBA esteve sempre presente nessa caminhada, mas Nelson Pretto teve um papel importante para o grupo crescer e amadurecer. Fizemos juntos muitos seminários e, no início, quando não tínhamos um laboratório, usamos os da UFBA.
Na sua visão de pesquisadora, o que o projeto do NET Salvador tem de diferente e inovador?
A concepção. Na verdade, o que se faz é pensar a formação do professor como algo contínuo, que precisa ser constantemente alimentado, por isso criamos um grupo de estudos (GEP). O projeto do NET inova por sair do discurso e tentar articular a prática pedagógica com a mediação dos suportes tecnológicos e, em especial, a Internet que na verdade é o grande carro-chefe do projeto. Diariamente, os professores são orientados para pensar a sua prática com essa mediação. A inovação se constitui em um fato aparentemente óbvio, mas que ainda engatinha na rede pública: abrir o laboratório para alunos e professores e acompanhar essa imersão.
Há algum estudo produzido sobre essa experiência?
Deste projeto nasceram quatro dissertações, inclusive a minha e a publicação de um livro: “Educação e Cibercultura” com artigos produzidos pelos professores, fruto do GEP, publicado pela Editora da UFBA.
Como pessoas de outras escolas e até de outros Estados podem ter acesso a produções do GEP?
Estamos abertos para socializar a nossa experiência. Temos o site: http://www.smec.salvador.ba.gov.br/. e já estivemos presentes em alguns encontros com o objetivo de divulgar o nosso trabalho.



Os sites indicados neste texto foram visitados em 29/11/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Quem conhece pode escolher melhor: a importância de bons livros para crianças


Quem conhece pode escolher melhor: a importância de bons livros para crianças


Virgínia Gastaldi


“Como levar os educadores a escolherem bons livros para suas crianças? Comecei o trabalho compartilhando com as professoras de uma instituição de educação infantil do Rio de Janeiro um
texto de que gosto muito. Arrebatadas pelo poder de Malika e outras histórias, elas iam se dando conta da importância da diversidade e qualidade dos textos. Essa experiência contribuiu para que pudessem selecionar melhores livros para as crianças”.Virgínia Gastaldi – Formadora do Instituto Avisa Lá.

Iniciei o encontro de formação fazendo com as professoras o que mais gosto e acho importante. Levei para ler Eu, Malika Ofkir, prisioneira do rei, de Malika Ofkir e Michéle Fitoussi. É um livro autobiográfico em que Malika conta sua insólita aventura de nascer e viver no Marrocos: membro da elite militar, filha adotiva do rei Mohamed V e depois prisioneira do rei Hassan 11, junto com sua mãe e cinco irmãos, por mais de vinte anos. Falei sobre o livro, minhas impressões e o forte impacto que me causou. Depois li um trecho que selecionei para a ocasião: Malika conta sobre os onze anos consecutivos em que, durante todas as noites, contou histórias a seus irmãos, sua mãe e uma empregada que os acompanhou na prisão.

Enquanto lia, via um interesse e uma emoção nos olhos e nas expressões que me deram a certeza de que a porta de entrada para a valorização do prazer de ler na formação de leitores é essa mesma: a própria leitura. No final, falamos brevemente sobre o que a leitura havia desencadeado em nós e sobre o quanto aquela referência comum, agora posta entre nós, nos ligaria sempre e poderia ser invocada a qualquer tempo em que nos reencontrássemos, porque fora compartilhada.

O segredo da formação de leitores

Terminada a leitura, chamei a atenção sobre os passos que havia seguido: a apresentação, seleção e preparação prévias do trecho lido, os motivos explicitados, a consideração do leitor, o incentivo aos comentários posteriores e o clima criado, destacando-os como intencionais, planejados, não acontecidos ao acaso. Essas são as orientações para o trabalho com leitura pelo professor. Esse o
lugar e a forma da leitura na escola, especialmente na educação infantil. Intenções claras e etapas bem definidas a cumprir, num clima de respeito e interação com o texto e o leitor.

O que tem que acontecer para isso? Eu, professora, também preciso achar o texto interessante ou ter um motivo relevante para trazê-lo para as crianças. Cada texto escolhido, cada leitura feita, cada sessão de comentários, cada realidade criada, convergem para a formação de leitores atentos, curiosos, interessados e interessantes. Essa é nossa meta, nosso contrato maior: capturar os leitores
para o prazer e a importância de ler.

Falando em contrato, propus trabalharmos para a dinamização e o enriquecimento das atividades de leitura realizadas na instituição. Isso implicaria em ações para ampliar e diversificar o acervo de livros e ações planejadas junto às crianças com objetivos bem definidos e estratégias pensadas para tal. Nosso trabalho durante o processo de formação foi conhecer e criar boas atividades para formar falantes, leitores e escritores competentes.

Elas vibraram e acharam aquela tarefa muito importante e, ao menos ao ouvi-la a como enunciado, prometeram-se com ela. Gostaram da idéia de que conhecer e dominar a língua é saber usá-la, produzir e compreender textos e temas como falante, leitor ou escritor, em diferentes situações, com diversos fins e múltiplos interlocutores. Enquanto eu falava sobre a leitura, uma das professoras disse:

– Mas também, você escolhe cada livro! – como que dizendo “assim é fácil”.

Esse segredo é exatamente o nosso trabalho – respondi, sorrindo – Escolher cada texto! Exatamente esse foi o próximo passo para aquele dia: pensar sobre os livros a serem escolhidos para ler.

Há livros e livros: quais vão para as crianças?

Pedi às professoras que levassem para a reunião os livros que haviam lido para as crianças nas últimas duas semanas, aqueles que sempre lêem. Foi o melhor que podia ter feito. Foi uma excelente situação para podermos comentar e discutir a qualidade dos livros. Observei que todas tinham separado pilhas de livros o que demonstrou o envolvimento com a leitura e a importância de investir nessas atividades em sala de aula.

Primeiros resultados do encontro de formação

As professoras dos berçários I contaram que passaram a escolher os livros com mais cuidado. Observaram que as crianças gostaram muito de rimas, por isso leram “Rimas Infantis”, um livro que tem legendas rimadas para imagens de crianças, com figuras de bola, animais etc. Disseram que as crianças, estavam mais familiarizadas com os atos de leitura e que gostaram muito desses
momentos. Elas também se sentiram mais animadas para fazê-lo.

As professoras do berçário mostraram livros de pequenas histórias com uma série de imagens com legendas. Trata-se de um conjunto que, a rigor, não é uma história, embora sejam chamados “livros de histórias”.Também separaram vários de plástico. Perguntei se os liam.

– Sim, e as crianças gostam muito, apontam as figuras, gostam muito de imagens.

É verdade. As crianças gostam muito de imagens. Então pedi que as mostrassem. Conjuntos de animais, frutas, objetos de higiene, pessoas, figuras geométricas, cada página com uma figura. Atendendo à idéia de ser “educativo”, havia uma etiqueta embaixo dizendo sabonete, esponja etc. Eu também havia levado a minha pilha de livros. Tirei da minha malinha Zuza e Arquimedes da Eva Furnari. Mostrei a capa e fui folheando, pedindo que elas descrevessem o que viam. Uma arca, um homem olhando:

Como sabem que ele está olhando? Perguntei.

– Ah, o jeito, o lado para onde a cabeça está virada – alguém respondeu. O homem próximo da arca, a arca aberta com um monstro e ele assustado…

– Como sabem que está apavorado? O cabelo e o corpo para trás, quase levantando do chão, como que encostando em algo, os olhos esbugalhados…– E assim fomos.

O monstro sem máscara. São duas crianças. Quem serão? Elas riem. Nova cena. Uma mulher e a arca. A arca se abre, ela se assusta, corre, as crianças riem. Nova cena. Epa! Um monstro

– Agora vamos ver esse.
– Não, não – responderam, entendendo tudo.
– Por que? – perguntei.
– É muito sem graça – uma delas respondeu.
– E por que os lemos? – retornei.
– Porque são para crianças – respondeu-me a outra.
– São educativos – alguém completou.
– Hum … – disse eu, continuando nossa conversa.

Então quem escreveu pensou em ensinar. O que queria ensinar? As formas geométricas, as cores, os hábitos de higiene. E como? Uma coisa por vez, tudo bem separado para a criança poder ver bem e repetir. E é assim que as coisas se apresentam no mundo? É assim que as crianças pequenas aprendem? Vocês, todos os dias com os bebês, acham que elas olham, escutam, pensam uma coisa por vez? Claro que não, eles vêem tudo ao mesmo tempo! E assim fomos refletindo o que se pensa sobre criança, ensinar e sobre ler.

– Acham que as crianças podem entender e gostar de livros diferentes dos que eu trouxe? Então porque não lêem esse tipo de livro?
– Porque não conhecemos – disse uma professora.

Chegamos, então, a um outro ponto importante: conhecer diferentes livros. Conhecer e ter, alguém acrescentou.

Quem conhece pode escolher

Com os livros na mão, fomos ainda discutindo como poderíamos levá-los às crianças, que cuidados deveríamos ter, já que estão acostumadas a puxar, morder e amassar os de plástico. Então não é mais para ter esses livros? Não, nada disso. É preciso ter o maior número e a maior variedade possíveis.

– Mas na hora da história vou ler esse – disse Nancy, apontando para o da Eva Furnari.
– Isso! Você acabou de falar algo muito importante para a segunda parte do nosso trabalho de hoje – disse eu, pedindo a Nancy que anotasse o que havia dito por que era uma orientação didática importantíssima para o trabalho com histórias – selecionar previamente os textos.

Selecionar. Não se trata de censurar, proibir, coisas do gênero. Trata-se de escolher aqueles que serão objeto de maior atenção, de ações planejadas, seqüenciadas, intencionais, com objetivo definido. Além do mais, precisamos ter e conhecer diferentes livros para possamos promover discussões, criticar nosso acervo, como fizemos juntas. Quem conhece, escolhe. Quem não conhece é escolhido pelo livro.

Nesse tom continuamos. As professoras do maternal, que estavam trabalhando o tema dos animais, haviam levado primeiramente alguns livros sobre o assunto. Outra versão dos de plástico. Um deles apresentava uma ovelha humanizada que contava como elas nascem, crescem têm o pelo cortado e se transformam em lã. Tudo muito empobrecido. Comentei o livro apontando os mesmos elementos
do livro de plástico. As mesmas idéias, as mesmas concepções, o mesmo pressuposto de que a leitura é instrumental, não tem um fim em si mesma. Para tornar isso mais evidente, eu o li com uma voz meio melosa e “educativa”. Elas morreram de rir, repetindo que era muito bobo.

Para continuar, pedi a Lena, uma das professoras, que lesse um trecho do livro, Branca de Neve, em versão condensada, que havia na instituição. Algo como:

– Havia uma menina chamada Branca de Neve que tinha uma madrasta muito má que todos os dias se olhava no espelho e perguntava: espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu? – e pronto.

Li em seguida Branca de Neve e outros contos de Grimm, com seleção e adaptação de Ana Maria Machado:

– “Há muito e muito tempo, bem no meio do inverno, quando os flocos de neve caíam do céu leves como plumas, uma rainha estava sentada costurando junto a uma janela com esquadrias de ébano. Costurava distraída, olhando os flocos de neve que caíam lá fora e, por isso, espetou o dedo com a agulha e…três gotas de sangue caíram na neve. Aquele vermelho em cima do branco… ”

– Nossa! Que lindo! Que diferente! Olha, esse livro conta por ela se chama Branca de Neve! – disse uma pessoa do grupo.

A partir daí, o grupo fez o trabalho quase que sozinho. Comparamos diferentes versões de Os três porquinhos e outros. Foi só encantamento. As professoras do jardim 1, 2 e 3 diziam que os seus alunos também não conheciam essas versões.
Como fazer para que as apreciassem? Ler direto a versão mais longa e complexa? Contar em um dia e ler em um outro? Ler a mais simples e depois a mais complexa? Existem muitas maneiras. O importante é que as crianças têm que conhecer todos esses textos.

Combinados para garantir uma boa leitura na escola
E a biblioteca, como melhorar seu acervo? Sugeri uma campanha de livros entre os pais e amigos. No próximo encontro, todas, levaríamos ao menos um livro como contribuição para a biblioteca. Não importava se novo ou usado, todas nós íamos ampliar as escolhas para educadoras e crianças. Animadas, as professoras foram listando tudo o que deveria haver na biblioteca: poesias, brincadeiras cantadas, rimas, de histórias etc.

Para terminar, exibi em vídeo cenas de crianças de 2 anos folheando livros, de um trio de crianças em que uma delas “lê” para as outras duas. Uma outra cena em que uma criança “lê”, folheando as páginas delicadamente e acompanhando com o dedinho a história que conta. Elas acharam que aquilo não era possível. Se não vissem, não acreditariam. Como tornar possível? O que o professor deve fazer? Fomos discutindo e pontuando a diferença entre desenvolvimento e aprendizagem.
Aquelas crianças do vídeo aprenderam a folhear os livros, a manuseá-los cuidadosamente, a deleitar-se com seu conteúdo etc. Aprenderam porque um professor ensinou. Como se ensina? O que o professor deve considerar ao planejar o trabalho com leitura de histórias?

Vimos que ninguém sabia que tudo isso era tão importante. Agora que sabemos, o que o professor deve fazer? As professoras então foram ditando – e eu – pondo na lousa uma lista de orientações para trabalhar histórias. Não são lindas essas professoras?

Avaliação do encontro

O que aprenderam? A selecionar livros a ter olhar mais crítico, gosto pela leitura, a conhecer e se organizar antes, a importância da atitude do educador, sua postura, a manter o interesse e a atenção das crianças, a respeitar seus limites, a ter objetivos claros e, saber a importância de trabalhar desde sempre com os pequenos. Achei que valeu o meu dia, a minha semana, antes e depois, tudo.

Orientações didáticas para a leitura de histórias

• Conhecer o texto e prepará-lo com antecedência.
• Criar sistemática de leitura na rotina diária.
• Considerar o conhecimento prévio das crianças.
• Planejar em seqüência, em ordem crescente de desafios.
• Adequar o tempo e o tipo de leitura à condição da criança.
• Diversificar títulos e versões.
• Ampliar o repertório de histórias conhecidas pelas crianças.
• Criar ambiente agradável e aconchegante.
• Ter atitude cuidadosa de quem lê para o outro é referência como leitor.
• Explicitar suas preferências.
• Explicitar o motivo da leitura.
• Preocupar-se com a qualidade literária e não com o conteúdo moral.
• Garantir na rotina contato com livros de tipos e gêneros variados, para a formação de leitor crítico.
• Fazer seqüência de planejamento ou projetos envolvendo leitura.

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Para Saber Mais

Eu, Malika Ofkir, prisioneira do rei. Malika Ofkir e Michele Fitoussi. Cia. das Letras.
Contos de Grimm. Vols. 1 e 2. Tradução de Maria Heloisa Penteado. Ed. Ática.
Contos de Grimm. Tradução de Tatiana Belinky. Ed. Martins Fontes.
Contos de Grimm. Tradução de Heloisa Jahn. Ed. Cia. das Letrinhas.
Livro de Histórias. Ed. Cia. das Letrinhas.


(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Principais regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Principais regras do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Pelo novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa essas são as novas formas de se escrever. O documento unifica o idioma em todos os países que o adota e começa a valer a partir de 1º de janeiro de 2009 no Brasil. Até dezembro de 2012, a forma atual também é aceita. O resumo tem como colaboradora a professora Stella Bortoni, linguista da Universidade de Brasília (UnB). Confira:

Alfabeto
Antes do acordo, tinha 23 letras, agora passa a ter 26. O k, w e y voltam ao alfabeto oficial, porque o acordo entende que é um contra-senso haver nomes próprios e abreviaturas com letras que não estavam no alfabeto oficial (caso de kg e km). Além disso, são letras usadas pelo português para nomes indígenas (as línguas indígenas são ágrafas, mas os linguistas estudiosos desses idiomas assim convencionaram). Na prática: nenhuma palavra passa a ser escrita com essas letras – “quilo” não passa a ser “kilo” – por serem “pouco produtivas” ao português, na opinião da linguista.

Somem da Ortografia

Trema
Desaparecem de toda a escrita os dois pontos usados sobre a vogal “u” em algumas palavras, mas apenas da escrita. Assim, em “linguiça”, o “ui” continua a ser pronunciado. Exceção: nomes próprios, como Hübner.

 

Acento diferencial
Também somem da escrita. Portanto, pelo (por meio de, ou preposição + artigo), pêlo (de cachorro, ou substantivo) e pélo (flexão do verbo pelar) passam a ser escritos da mesma maneira. Exceções: para os verbos pôr e pode – do contrário, seria difícil identificar, pelo contexto, se a frase “o país pode alcançar um grande grau de progresso” está no presente ou no passado.

 

Acento circunflexo
Não é mais usado nas palavras terminadas em êem (terceira pessoa do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo de crer, ver, dar…) e em oo (hiato). Caso de crêem, vêem, dêem e de enjôo e vôo.

 

Acento agudo
1 – Nos ditongos abertos éi e ói, ele desaparece da ortografia. Desta forma, “assembléia” e “paranóia” passam a ser assembleia e paranoia. No caso de “apóio”, o leitor deverá compreender o contexto em que se insere – em “Eu apoio o canditato Fulano”, leia-se “eu apóio”, enquanto “Tenho uma mesa de apoio em meu escritório” continua a ser escrito e lido da mesma forma.

2 – Desaparecem no i e no u, após ditongos (união de duas vogais) em palavras com a penúltima sílaba tônica (que é pronunciada com mais força, a paroxítona). Caso de feiúra.

 

Uso do Hífen
Deixa de existir na língua em apenas dois casos:

1 – Quando o segundo elemento começar com s ou r. Estas devem ser duplicadas. Assim, contra-regra passa a ser contrarregra, contra-senso passa a ser contrassenso. Mas há uma exceção: se o prefixo termina em r, tudo fica como está, ou seja, aquela cola super-resistente continua a resistir da mesma forma.

2 – Quando o primeiro elemento termina e o segundo começa com vogal. Ou seja, as rodovias deixam de ser auto-estradas para se tornarem autoestradas e aquela aula fora do ambiente da escola passa a ser uma atividade extraescolar e não mais extra-escolar.

Em Portugal
Caem o “c” e o “p” mudos, como “óptimo” e “acto”. Passam a ser grafadas como o Brasil já fazia. Palavras como “herva” e “húmido” também passam a ser escritas como aqui: erva e úmido.

 

Fonte: Ministério da Cultura

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Parangolés na nova escola

Parangolés na nova escola

Especialistas discutem a Educação e o papel do professor em tempos de cibercultura


Por Leandro Quintanilha e Verônica Couto

Revista A Rede

A renovação da escola passa pelo casamento da Pedagogia com a Teoria da Comunicação

O apresentador do telejornal da noite, o político fazendo discurso no comício, o professor dando aula. Todos têm algo em comum: o modelo de comunicação em que um fala e muitos escutam. E é esse modelo, ou paradigma, há décadas utilizado pela sociedade para transmitir informação, que promete estar chegando ao fim, segundo os educadores presentes ao III Congresso Ibero-Americano EducaRede: Educação, Internet e Oportunidades, promovido pela Fundação Telefônica, no final de maio. No seu lugar, o que se espera são novas formas de produzir conhecimento em conjunto com os alunos, baseadas na dialógica ou na interatividade, surgidas a partir do uso de interfaces digitais – computadores conectados à Internet, comunidades virtuais, games, blogs, flogs e videoblogs, fóruns, sites colaborativos.

“Não é uma mudança pequena. Na internet, nos fóruns, a pessoa está atuando, respondendo, presente em pensamento; diferente daquele aluno que pode estar fisicamente na sala, mas pensando em outra coisa. O ambiente do silêncio é substituído pelo do diálogo, pela comunicação intensa”, afirmou Vani Moreira Kenski, diretora do Site Educacional, empresa incubada no Cietec/Ipen, da USP. Os grandes inspiradores dessa “nova escola” são autores como Paulo Freire ou Pierre Lévy.

E por que, agora, a escola poderia mudar? Porque só agora, diz Marco Silva, professor da Uerj e da Unesa-Rio, a tecnologia tornou disponíveis as interfaces para quebrar o paradigma da comunicação, e oferecer a professores e alunos a perspectiva da autoria dos conteúdos. “A cultura do on-line, a cibercultura, vai desenvolvendo uma postura nova — fazer Skype, Orkut, Messenger, postar suas coisas, colocar seus interesses. Cria-se uma comunidade internacional de colaboração.” Essa demanda, na opinião de Marco e de Vani, colocou sob pressão a pedagogia da transmissão, em que um fala, o outro escuta. “Esses teóricos importantes da Educação sempre nos chamaram a atenção para esse problema, mas não desenvolveram uma teoria da Comunicação para dar suporte a suas propostas. Com a cibercultura, temos uma convocatória prática. É preciso fazer o casamento da Pedagogia com a teoria da Comunicação”, diz Marco.

Por isso, o professor da UERJ destaca que a inclusão digital do professor deve ir além do e-mail e da declaração do IR. “Se ele aprender a lidar com blogs, chats, fóruns, trazê-los para a sala de aula, vai potencializar sua prática docente.” E esse processo de inclusão requer, diz ele, incentivos de ordem salarial, de infra-estrutura e de capacitação que incluam oficinas práticas.

No novo modelo, há um papel fundamental reservado ao professor: “criar a ambiência para que o conhecimento se construa”, afirma Marco. “A contribuição mais importante da escola para a formação do cidadão é o exercício da participação. Por que a cidadania é tão precária na nossa sociedade? As pessoas são fechadas nos seus consumos, porque não aprenderam, na escola, a participar. E é lá que se aprende, não há outras instâncias. Estamos num momento bastante favorável à revitalização da escola.”

Nesse processo de renovação, em que o ambiente do silêncio é substituído pelo diálogo, Vani adverte que é também preciso “disciplina e compromisso”. “Faltam valores na Educação, mais importantes do que o conteúdo. No começo de uma aula, sempre tento criar um código de ética com os alunos. Escola aberta é acesso à informação, onde ela estiver. Mas são necessários valores, regras, compromissos. Como em qualquer comunidade.” Essa formação de valores, explica a educadora, envolve, inclusive, “a análise crítica do que os jovens vivenciam na Internet”. Para a diretora da Fundación para el Desarrollo de los Estudos Cognitivos da Argentina, María Irma Marabotto, que participou da reforma da Educação pública argentina em 1995, o professor deve desenvolver uma mediação equilibrada entre a tecnologia e a didática. “Com a hiperinformação, vivemos hoje uma profunda crise de significado.”

A ênfase no reconhecimento de saberes não-formais e na participação dos alunos é a base do que o professor Marco chama de Pedagogia do Parangolé. Os parangolés são capas labirínticas, em camadas, criadas, na década de 60, pelo artista plástico Hélio Oiticica. A idéia era questionar o quadro estático, o suporte tradicional – e o modelo da apresentação. “O parangolé não é para você contemplar. É para você completar”, declarava Oiticica. “Esse é o princípio da Pedagogia do Parangolé”, resume Marco.

O professor Fernando Moraes Fonseca Júnior, coordenador do Laboratório de Tecnologias na Educação da Fundação Vanzolini e responsável técnico do EducaRede Brasil, acredita que a forma mais produtiva de trabalhar as interfaces digitais em sala é a organização por projetos, que estruturam, de alguma forma, a construção do conhecimento. “Com a Internet, abre-se uma porta pela qual entra grande quantidade de luz; sem óculos adequados, ficamos cegos.”

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

No Reino de Valmaar, criança não trabalha

No “Reino de Valmaar”, criança
não trabalha


Livro virtual com jogos de RPG auxilia educadores a discutir trabalho
infantil com crianças e adolescentes

Por José Alves

“Provença é um reino distante, fundado por magos de Valmaar há mais de duzentos anos. Lá, os níveis de Educação são excelentes – praticamente todos os habitantes vão para a escola e aprendem a usar os Talismãs”. O trecho acima é parte da história “A Poção de Valmaar”, uma das nove que compõem o livro virtual “Histórias do Reino de Valmaar”, produzido pelos participantes do Programa de Formação de Núcleos Socioeducativos e Escolas das regiões de M´Boi Mirim e Grajaú – Combate ao Trabalho Infantil, no EducaRede.

O livro, concebido na Comunidade Virtual Pró-Menino, foi lançado no último dia 11, durante evento em São Paulo, e utiliza o jogo RPG (Role-Playing Game) como pano de fundo para discutir um assunto essencial para a vida de crianças e adolescentes: a erradicação do trabalho infantil.

Em inglês, RPG é a sigla de Role-Playing Game, que pode ser traduzida como “jogo de interpretação de papéis”. Pense em uma história em que cada jogador interpreta um dos personagens, só que, ao contrário das histórias convencionais, nos RPGs o final não está definido desde o começo. Os jogadores decidem como seus personagens vão agir no decorrer da partida e coisas diferentes podem acontecer a cada decisão tomada.

Mas, de que forma um jogo pode contribuir para a erradicação do trabalho infantil?  Segundo Sônia Dias, responsável pelas estratégias de Educação a Distância e coordenadora da oficina de criação do livro, “o RPG foi escolhido por combinar com a concepção de aprendizagem que permeia o projeto, a produção coletiva e colaborativa, além de possuir a linguagem dos jogos, próxima das crianças e dos adolescentes”.  A educadora da ONG Serviço Social Bom Jesus, um dos Núcleos Socioeducativos participante do programa, Ruth Ferreira Camboim, concorda: “O RPG traz o lúdico para um tema que é muito difícil de ser trabalhado com crianças e adolescentes. Quando a fantasia e as brincadeiras passam a fazer parte do processo, o objetivo pode ser atingido com mais rapidez”.

O Secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Floriano Pesaro, sugere possibilidades de utilização do livro virtual: “Cada educador pode vivenciar a história que criou e a dos colegas de formação em sua escola ou núcleo. Pode também imprimir, se for mais conveniente, passear com seu livro, ou, ainda, jogar pela Internet com seus educandos. Os educadores também são convidados a criar outras histórias com suas crianças ou colegas”, conclui.

A produção e o lançamento do livro virtual é uma das ações do Programa de Formação de Núcleos Socioeducativos e Escolas das regiões de M´Boi Mirim e Grajaú – Combate ao Trabalho Infantil, cujas ações a distância foram realizadas na Comunidade Virtual Pró-Menino. O projeto é resultado de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo (SMADS), por meio do  Programa São Paulo Protege, e a Fundação Telefônica, com o Programa Pró-Menino.  Professores da rede pública e educadores de núcleos socioeducativos construíram coletivamente, nos encontros presenciais, as histórias que deram origem à obra. Fora dos encontros, a comunicação entre os participantes se deu a distância, por e-mail, fórum, blog e outras ferramentas na Comunidade Virtual.

O ambiente Comunidade Virtual de Aprendizagem é um espaço aberto disponível no EducaRede para projetos geridos pelo internauta. Outro ambiente disponível aos usuários é a Oficina de Criação, espaço interativo destinado à produção de textos, em diversos gêneros, sob orientação de um mediador, que dá dicas e faz propostas específicas para o trabalho dos participantes.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

 

Interatividade nas salas de leitura

Salas de leitura ganham novo status
em São Paulo

Projeto da Secretaria Municipal de Educação começa a promover treinamento de professores da rede para utilização do espaço nas escolas

Por Beatriz Levischi

Imagine um lugar onde todos têm a palavra, lêem e escrevem o mundo em conjunto. Um espaço para troca, expressão e produção. Utopia? Pois é esta a proposta do programa “Círculo de Leituras”, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, que pretende atingir todas as 449 escolas de Ensino Fundamental, e mais de 600 mil alunos, até 2004.

É fato que as “Salas de Leitura” – ambientes com mesas redondas e acervo inicial de mil títulos de literatura infanto-juvenil (ampliado por meio de compras da Secretaria, da própria escola ou doações) – já existem há 30 anos. Mas, nos últimos tempos, seus coordenadores, conhecidos como “orientadores” – professores eleitos para trabalhar com as questões de leitura -, se viam obrigados a substituir os colegas faltosos e o projeto foi sendo deixado de lado.

Agora, com novo fôlego, as antigas salas se transformarão em locais onde se pode trabalhar múltiplas linguagens (como o teatro, a dança, as artes plásticas, o cordel e a música) e diversas possibilidades de leitura (como permite a televisão, o rádio, o vídeo e a Internet). A idéia é inter-relacionar as diferentes áreas e fontes do conhecimento – seja ele cotidiano ou formal -, evitando a fragmentação do saber.

“A escola constitui para muitas crianças a única oportunidade de aproximar-se do livro. Por isso mesmo, sua eficácia depende do uso que dele faz a escola”
Edmir Perrotti (ECA-USP)

Fazem parte, ainda, do “Círculo de Leituras” os seguintes projetos: “Educom”, que busca instalar nas escolas sistemas de comunicação usando a tecnologia das ondas de rádio; “Ciência Hoje”, que pretende aproximar a linguagem cientifica dos alunos e “Sala Interativa”, em que o espaço da sala de leitura é alterado para trabalhar a linguagem multimídia.

Segundo o “Estatuto do Magistério Municipal” (legislação que rege as escolas municipais), regulamentado pela Lei 11434/93, todas as crianças devem passar pelas salas ao menos uma vez por semana, acompanhadas de um professor (de qualquer matéria), responsável por dar continuidade às atividades na sala de aula.

Cerca de 680 professores orientadores receberão treinamento, por meio de oficinas, como parte do Programa de Formação Permanente dos Professores Orientadores. A prática será trabalhada em conjunto à teoria. As oficinas com autores nacionais (Marina Colasanti, Ignácio de Loyola Brandão e Ziraldo, entre outros) acontecem entre os dias 5 e 30 de agosto. Em setembro, os professores se reunirão nos NAEs (Núcleos de Ação Educativa) para discutir a importância do trabalho realizado. Em outubro, é a vez dos autores internacionais – Adriano Duarte (português), Manuel Casteles (espanhol) e Michelle Petit (francesa) – abordarem a questão da leitura. E, finalmente, em novembro, acontece um novo encontro regional para debater sobre a segunda leva de oficinas.

A escolha dos autores oficineiros foi difícil. “A prefeitura reuniu as 40 editoras, das quais compra livros durante o ano, e apresentou o projeto; houve 100% de adesão”, conta Paulo Gonçalo dos Santos, coordenador do programa. Todos os escritores, escolhidos por seus trabalhos com múltiplas linguagens, aceitaram o convite e serão pagos pelas próprias editoras – que também cederão os auditórios para as oficinas.

Se os professores sentirem dificuldades em aplicar o que aprenderam na sala de aula, parcerias com universidades, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), serão estabelecidas para instruí-los melhor, uma vez que, segundo Gonçalo, o público é heterogêneo. “Possuem leituras de mundo diferentes, idades diferentes e enormes frustrações”, comenta Santos.

Publicação

Pegando carona com a publicação bem sucedida de poesias feitas por alunos sobre o estudo da vida e obra de Paulo Freire (“Poetizando Paulo Freire” – livro que será traduzido para o espanhol, possibilitando o seu uso na rede pública da Cidade do México), Santos conta que o próximo passo do programa é divulgar o trabalho de professores e funcionários, desenvolvido nas salas de leitura no livro “Sala de Leitura – 30 anos fazendo escola”. Trata-se de uma coletânia de crônicas sobre as experiências vividas no espaço, escritas pelos próprios educadores. O edital sai até o fim do mês e a entrega do material deve acontecer em setembro. Interessados, comecem a rabiscar.

A idéia é que a salas de leitura passem ainda por mais uma transformação, constituindo-se em “salas interativas”. “Até o ambiente físico será alterado, para aliar múltiplas linguagens e leituras às novas tecnologias; criando assim um espaço multimídia”, explica Santos, frisando que não só a busca, mas também a produção de informação serão possíveis – por meio de computadores, aparelhos de vídeo e som.

Essa primeira fase do programa atingirá 26 escolas (duas por NAE) até o fim do ano, mas até o final da gestão, todas as instituições devem ser alcançadas. “Os computadores já foram comprados e estão chegando; cada sala de leitura receberá quatro máquinas, conectadas à Internet; os laboratórios de informática receberão outras 20. Será a maior rede de ensino da América Latina, com mais de um milhão de alunos conectados”, orgulha-se Santos. Existe ainda a idéia de publicar tudo o que a garotada produzir.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 02/08/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Game On

Game On

O tema Jogos Eletrônicos está presente em série de encontros internacionais transmitidos online, programa na TV WEB Educar na Cultura Digital e feira no Rio de Janeiro

 

Games eletrônicos estão definitivamente na moda. Do telejogo, console de conexões frágeis e pouca definição gráfica em seus jogos, comercializado timidamente a partir de 1977, aos dias de hoje, muito foi aperfeiçoado. Trinta e três anos depois, a realidade é outra. O mercado apresenta uma imensidade de jogos, muitas vezes com cenários dignos de um filme hollywoodiano, com riqueza de detalhes e definição gráfica impressionantes. Celulares, computadores, internet e consoles de última geração conquistaram a população mundial de todas as idades e, como consequência, os games passaram a adquirir importância em diversos outros segmentos.

No âmbito educacional, por exemplo, professores já estão descobrindo o potencial que esta ferramenta tecnológica apresenta, já que atrai a atenção dos estudantes e, portanto, pode ser muito útil para os educadores associarem aprendizagem e ludicidade. O mercado de trabalho também adotou os profissionais da área de games, e presente e futuro reserva aos trabalhadores deste segmento uma ampla possibilidade de ótimos salários e carreira promissora.

Nesta semana, dois eventos sobre o tema estão programados. O primeiro, uma série de mesas-redondas, oficinas e palestras com especialistas, acontecerá na Espanha, em Madri, e terá transmissão online diariamente. Trata-se da Semana del Videojuego, com agenda que prevê discussões sobre games, educação e mercado de trabalho. Já o Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital apresenta o terceiro programa TV Web na Cultura Digital, que discute o tema “Games e Jogos Eletrônicos: o que podemos aprender com eles?”.

Em novembro, acontecerá a 3ª edição da Brasil Game Show, no Rio de Janeiro, evento com aproximadamente 60 expositores que apresentam as mais recentes novidades do mercado de games. Confira as ações:

Semana del Videojuego

A série de encontros Internet e novas tecnologias criam novas profissões, organizada pela Fundação Telefônica da Espanha, conta com especialistas na área de games e faz parte da Semana del Videojuego. O evento, que acontece entre os dias 25 e 29 de outubro, anuncia transmissão online das atividades. Veja programação completa.

Games e jogos eletrônicos são os assuntos da vez na TV Web Educar na Cultura Digital

Para falar sobre os diversos usos dos games com finalidades pedagógicas, o terceiro programa TV Web na Cultura Digital, que acontece na próxima quarta-feira, 27/10, às 16h, terá como tema “Games e Jogos Eletrônicos: o que podemos aprender com eles?”

Neste terceiro programa, a TV Web conta com a participação de Roger Tavares, professor e pesquisador de mídias interativas e doutor em Comunicação e Semiótica, e Paula Carolei, doutora em educação e especialista em educação à distância. A mediadora pedagógica do Grupo de Estudos Online Educar na Cultura Digital, Mílada Gonçalves, vai conversar com eles ao longo de uma hora.

3ª edição da Brasil Game Show

A 3ª edição da BGS será realizada nos dias 20 e 21 de novembro no Centro de Convenções SulAmérica – RJ. A expectativa é receber um público de 20.000 pessoas, que pode transitar entre ambientes como a Exposição do túnel do tempo dos videogames, palestras com profissionais da área e um palco com atrações musicais. A organização anuncia transmissão online de algumas ações.

Informações sobre o evento

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Viva os mestres!

Por que é bom ser professor?

Professores de todo o Brasil estiveram reunidos em Cajamar (SP) no 6º Encontro do Programa Crer para Ver, que apóia iniciativas para a melhoria da qualidade da escola pública brasileira. O EducaRede aproveitou a ocasião para perguntar aos educadores sobre as vantagens da profissão. Confira algumas repostas abaixo:

Por Paloma Varón

“A gente pode ampliar possibilidades, transformar vidas. No meu caso, o que me gratifica é a mudança de postura, o fato de os jovens acreditarem que é possível ler e escrever. Assim, eles conseguem romper uma barreira social e passam a acreditar em si.”
Ana Cristina Falcão (Salvador – BA)
“Ser professor está ligado ao projeto de vida das pessoas. Quem trabalha com semeadura tem que estar sempre semeando. E nós semeamos coisas em que acreditamos.”
Djalcir Ferreira (Rio Branco – AC)
“Ser professor é, antes de qualquer coisa, uma atitude profissional. A gente precisa resgatar esse caráter. A nossa profissão tem algumas particularidades: está ligada à nossa vida, aos nossos valores, sonhos e desejos. E necessariamente tem um caráter político e afetivo. Nós podemos socializar a aprendizagem e aprendemos com os alunos. É uma grande troca de experiências. A experiência docente modifica o professor, impõe desafios, nos faz repensar valores e buscar outros olhares.”
Paulo Roberto Silva (Fortaleza – CE)
“Tem um momento em que, quando você está lidando com o aluno, percebe como eles pensam. E tem a possibilidade de intervir, de ajudá-los a refletir sobre o que eles estão pensando, vivendo. Assim, eles podem ampliar o olhar e você pode contribuir para isso. Acho que a condição para ser professor é acreditar na capacidade do aluno.”
Cybele Amado de Oliveira (Palmeiras – BA)
“Em primeiro lugar, você consegue fazer uma integração sócio-cultural com as pessoas. A profissão nos desafia para a formação permanente, crítica e reflexiva e impulsiona a nossa revisão dos princípios profissionais e acionadores da aprendizagem – articulada com o local e o global.”
Armgard Lutz (Ijuí – RS)
“Ninguém na vida conseguiu passar sem um professor. É a semente da vida de cada um. Ser professor é importante porque seu trabalho está sempre em movimento, lidando com a dinâmica da vida, com o mundo. E a nossa possibilidade de aprender sempre, aprender com o aluno. O professor não pode parar de observar a vida, estudar.”
Joelma de Souza Vieira (Rio de Janeiro – RJ)
“A principal vantagem é acompanhar o crescimento diário dos alunos. Uma das coisas que me leva a não desistir nunca da profissão é a possibilidade de se reconstruir como profissional sempre. A gente sempre avalia a prática e busca melhorar constantemente.”
Márcia Farinella (Concórdia – SC)
“No meu caso, que trabalho em escolas públicas da zona rural, ser professor é ter a dor e o privilégio de trabalhar com os excluídos. Como a atividade econômica no campo está esfacelada, tenho o desafio de acompanhar e aconselhar as crianças que passam pelo êxodo para as zonas urbanas.”
Maria Lúcia Prado Costa (Paraguaçu – MG)
Os sites indicados neste texto foram visitados em 11/10/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)