José Manuel Moran

“Precisamos aprender o que conservar e o que mudar” diante das tecnologias


Em seu texto “As mudanças perto de nós”, o senhor afirma que: “A humanidade sempre aprendeu a conviver com inovações, mas atualmente a sucessão delas é alucinante e a quantidade de implicações, freqüentemente desconhecida”. Em Educação, já podemos listar algumas dessas implicações?

 

O professor aposentado pela Escola de Comunicações e Artes da USP, e diretor da Faculdade Sumaré, José Manuel Moran, conversou com os internautas do Portal EducaRede na última terça-feira (06/11). A sala de chat ficou cheia neste animado bate-papo, em que foram abordados diversos assuntos, principalmente ligados à tecnologia, área em que Moran pesquisa. A capacitação e motivação dos professores para lidarem com as inovações tecnológicas, o Ensino a Distância, a mediação e o uso dos blogs como ferramenta pedagógica estão entre os temas. Confira abaixo trechos do encontro virtual:


Renata

Moran Estamos um pouco perdidos, porque não basta mudar por mudar. Precisamos aprender o que conservar e o que mudar. Educar é sempre um processo humano, de relação entre pessoas, hoje mais mediado por tecnologias. Isso não é simples, porque implica repensar a forma de organizar o processo a que estávamos acostumados.

Profª Lu LinneuConcordo com você que a inovação incomoda aos que não querem mudar suas práticas. Mas como motivá-los a participar e se envolver em projetos novos?

Moran Envolver os outros tecnologicamente é um processo longo, que demora no mínimo dois anos até a apropriação pedagógica. O importante é mostrar resultados e fazer a iniciação tecnológica com grande afetividade e carinho. Alguns professores só falam das tecnologias em si, mas temos que falar também dos encontros, da aprendizagem humana com tecnologias.

Tiago EmmanuelComo é possível utilizar a tecnologia para melhorar a qualidade do ensino nas escolas públicas? Percebe-se uma grande defasagem dos professores em relação aos alunos quando o assunto é o acesso à informática.

Moran – Acesso e capacitação contínua é o caminho. Começam a ser implantados projetos mais consistentes dos governos (nos três níveis) para que as escolas públicas estejam conectadas, tenham mais computadores em rede, façam cursos de formação de professores, além do projeto de um computador popular para cada aluno.

Josiene VilelaComo mudar a metodologia enraizada na prática docente? E como vencer a resistência dos professores?

Moran A metodologia focada em conteúdo e no professor está dentro do DNA da escola e de todos nós, porque é o caminho que conhecemos até agora. A mudança se dá por experiências de grupos e pelo apoio de gestores inovadores. Precisamos juntar-nos aos professores inovadores e aos gestores inovadores.

Miguel Podemos falar em ganhos qualitativos com a utilização das novas tecnologias, principalmente na Educação Fundamental?

Moran Até agora conseguimos ganhos parciais no uso das tecnologias, porque também sua utilização foi parcial. O ganho fundamental se dá quando avançamos na integração do humano, do emocional e do ético, junto com o tecnológico. Essa integração tem sido deficiente, mas creio que estamos caminhando para situações melhores.

Nice Fale um pouco sobre as relações de ensino e aprendizagem que essa nova tecnologia (computador e Internet) está criando em sala de aula?

Moran – O computador e a Internet podem ser utilizados em contextos diferentes, isto é, podem reforçar o ensino convencional ou servir de apoio para situações mais ricas, focadas em aprendizagem significativa, colaborativa e baseada em pesquisa e projetos. Acredito que estamos caminhando para esta nova dimensão, mas não é fácil, muitos ainda não reconhecem a importância de trazer estas tecnologias para dentro da escola.

Vinni Meu nome é Vinicius. Sou aluno–monitor da escola Linneu Prestes. Quero saber do senhor quais tecnologias o aluno tem que ter para estar no mundo globalizado?

Moran As tecnologias que precisamos são todas, as simples e as mais sofisticadas. As melhores são as possíveis no momento. Podendo escolher, vale a pena utilizar as que sensibilizam o aluno, como a Internet, o celular, o podcast (programas digitais sonoros), os blogs e tantas outras.

Ana Estou fazendo minha monografia na área de tecnologia. Diante de tantas inovações, qual o maior desafio enfrentado hoje pelos professores?

Moran – O maior desafio é entrar em sintonia com os alunos, sensibilizá-los, atraí-los, torná-los parceiros, despertar neles o desejo de aprender. Feito isso, é facil utilizar as tecnologias e qualquer técnica.

Domingos O senhor acredita na Educação brasileira da forma como vem sendo realizada na escola pública, com as séries cada vez mais reduzidas e os professores ensinado pouco e os alunos nada estudando?

Moran Eu acredito que a Educação tende a melhorar na medida em que todos estamos mais conscientes da sua importância para mudar o país, mas isso não se faz num passe de mágica; é preciso muito esforço integrado e várias décadas.

Kelly A utilização das TICs nas escolas públicas poderão se tornar uma breve e prazerosa realidade. Qual sua opinião a respeito?

Moran Vejo com esperança o avanço da escola pública na integração das tecnologias. No próximo ano, 300 escolas estarão totalmente conectadas com os computadores populares na sala de aula; em 2009 esse número será muito maior.

Evanildo É sabido que as modernas tecnologias se tornaram ferramentas indispensáveis à Educação em todo o mundo. O senhor acredita que nós já estamos acompanhando as mudanças exigidas pelas modernas tecnologias?

Moran Estamos muito aquém do que precisamos. O Brasil é muito desigual e contraditório. Há grupos extremamente avançados tecnologicamente e outros muitos excluídos. Tendemos a melhorar, mas depende de cada um de nós.

Ana Maria Gosto muito da utilização de multimídias. Porém, um dos problemas é justamente o uso da sala de informática. Um projeto que trabalhe Matemática, por exemplo, requer várias horas com muitas turmas diferentes e variados programas. A escola pública ainda não é capaz de oferecer a nós, docentes, uma infra-estrutura para isso. Como melhorar as condições do uso dos equipamentos como política educacional, e não somente para dizer que há uma sala de informática nas escolas?

Moran Concordo com a dificuldade da utilização do laboratório. Caminhamos para a escola conectada (salas de aula conectadas, ambientes de redes sem fio) e não só o laboratório. Isso trará grandes mudanças para as possibilidades de flexibilização dos processos de ensino e aprendizagem.

Cláudia Os alunos que temos hoje dentro da sala de aula se encaixam no perfil dos alunos co-pesquisadores, ativos no processo do seu próprio aprendizado, citados em seus textos? A transição dos nossos alunos para aqueles dos textos será rápida?

Moran – O aluno chega motivado à escola quando pequeno e, com o passar do tempo, se desmotiva. Por que será? O que oferecemos é o que ele espera e da forma que ele precisa? Há um divórcio profundo nas propostas de ensino com as formas usuais de aprender, e se não quebrarmos esse fosso, a desmotivação será cada vez maior.

Marcos AurélioComo será a escola do futuro? Qual será a real participação do professor nesta nova escola?

Moran A escola do futuro será um conjunto de espaços e tempos, mais flexíveis nas propostas, mas sempre com a mediação de professores humanistas, confiáveis e competentes. O que faz uma boa escola são os bons profissionais, professores competentes e motivados. As tecnologias permitem que a informação seja acessada pelo aluno de qualquer lugar, mas a aprendizagem contextualizada, ao menos no começo, depende da mediação dos professores.

Fernanda Eu moro em Jales e estou cursando Pedagogia na modalidade a distância pela UFSCar. Estou estudando vários textos seus e experimentando suas idéias na prática. É realmente inovador e motivador. Também sou professora de Matemática no Ensino Fundamental. Como eu poderia, sem muitos recursos, transformar minhas aulas em aulas-pesquisa. No Ensino Fundamental isto é possível?

Moran Obrigado por colocar em prática algumas das idéias dos textos. Em qualquer situação é possível focar a pesquisa, o desenvolvimento de atividades, de projetos. O material pode ser diferente, ou a forma. Mesmo sem acesso à Internet é possível focar essa aprendizagem ativa e colaborativa.

Fábio Em seu texto “A Educação que desejamos”, aparece o conceito “aulas-pesquisa”. O senhor poderia falar um pouco sobre esse conceito?

Moran São aulas em que o fundamental não é o professor passar a informação, mas organizar situações em que os alunos, individualmente ou em pequenos grupos, busquem a informação (com a mediação do professor) e a contextualizem, a reelaborem, a comuniquem para todos, e a apliquem à sua realidade. Por isso o papel do professor é importante, não tanto como falante, mas como mediador.

Solange/Mogi Mirim Sou ATP no Núcleo de Informática e desenvolvo, em conjunto com meu grupo, uma proposta de Rádio Web no curso de Especialização de Tecnologia em Educação, pela PUC–Rio, para escolas de tempo integral, como recurso de interação do currículo comum e oficinas. Nosso trabalho tem como embasamento idéias para desenvolvimento de habilidades e competências dos alunos. Gostaria de conhecer o seu ponto a esse respeito, já que o senhor foi um de nossos motivadores.

Moran Fico feliz com a proposta de Rádio Web. Os alunos gostam de falar, de integrar música e voz, além de divulgar isso para todos. O rádio, nas suas várias modalidades, é barato e permite a integração de conteúdos e a motivação dos alunos. Continuem avançando no projeto.

Santos Quando falamos em produzir conhecimento coletivamente, percebo que existe o silêncio virtual. As postagens em ambientes virtuais de aprendizagem/interação por meio de debates pelos fóruns ou listas de discussão por e-mail, são mínimas. Como instigar o aluno para uma participação mais ativa?

Moran Há silêncios preocupantes e silêncios estimulantes. Existem pessoas que observam, meditam, mas nem sempre contribuem tanto quanto outras. Elas aprendem bastante, mesmo com interação pequena. Concordo com o seu receio pela falta de exposição de muitos em ambientes virtuais, além da falta de cultura da escrita em muitos professores e alunos. A escrita deixa um registro permanente e muitos não gostam de se expor. A cultura se cria com a prática, com o incentivo e com temáticas interessantes para o aluno. Nós escrevemos mais facilmente sobre temas que conhecemos bem, como, por exemplo, futebol, não é verdade?

Prof. PedroO senhor tem um blog, o Educação Inovadora, que se apresenta como uma ferramenta para dialogar sobre as grandes mudanças que estão acontecendo na Educação em todos os seus níveis. Qual sua opinião sobre o uso de blogs como ferramenta pedagógica?

Moran O blog é uma página mais dinâmica, porque as pessoas podem opinar sobre os assuntos postados. É fácil de escrever, atualizar, ilustrar e comentar. Parece-me um recurso muito rico para a aprendizagem. Eu combino uma página mais fixa com textos prontos e o blog, com uma possibilidade maior de interação.

Julieta Gouveia Estou aprendendo agora sobre as novas TICs. Quais as principais ferramentas para uma aprendizagem tecnológica?

Moran Sucesso em sua aprendizagem tecnológica! As ferramentas são as possíveis na sua situação. Vídeo, cd, softwares interessantes, saber pesquisar na Internet, organizar um ambiente de grupos na Internet, criar um blog, fazer um programa de rádio e daí por adiante, até dominar um ambiente de aprendizagem como o Moodle, por exemplo. Caminhe do simples ao complexo, no seu ritmo e de acordo com suas possibilidades.

MarceloO senhor acha que as ferramentas chat,
em>Msn, e Orkut podem ser utilizadas como forma de ensino nos laboratórios de informática?

Moran Qualquer recurso de comunicação ou página de relacionamento tem suas vantagens e desvantagens. Os programas de comunicação online, como o msn, são úteis para trabalho em grupo, para orientação dos alunos, para tirar dúvidas, mas muitos os utilizam para entretenimento e bate–papo dispersivo. Dependem de como são utilizados. O Orkut também tem sua utilidade, embora as pessoas o vejam mais como um site de relacionamento do que de aprendizagem. Pode ser um espaço inicial de colaboração, mas há muitos outros (páginas de grupo) que se adaptam melhor para o ensino e aprendizagem.

Domingos Como o senhor vê a avalanche de universidades virtuais?

Moran Realmente há uma explosão de universidades virtuais, de cursos a distância, principalmente por teleconferência (satélite e tele-aula). Se, além das aulas, existem atividades, leituras e mediação interessantes, valem a pena. A questão é se temos mediadores (tutores) bem capacitados e remunerados para essa mediação (aqui vejo um problema mal resolvido em muitas destas universidades).

Marcos Maurício Um renomado professor da Educação da USP dizia que as ciências cognitivas eram um emaranhado de disciplinas como Ciência da Computação, Neurolingüística e Semiologia, e que se transformaram em verborréia. O senhor acha que com o surgimento das novas tecnologias na escola as ciências cognitivas voltam a ter importância nas atuais questões sobre Educação?

Moran Educar é ajudar a compreender, a conhecer. As áreas de conhecimento são especializações diante de um conhecimento cada vez mais complexo. Ninguém conhece tudo, mas é importante que tenhamos instrumentos para o conhecimento autônomo, em rede e humilde. Sabemos um pouco, não sabemos muito. A Educação é fundamentalmente a organização de processos cada vez mais ricos de conhecimento. Se não for dessa forma, estaremos nos enganando.

Ângela O senhor concorda que a partir das novas tecnologias conseguimos atrair, sensibilizar e tornar nossos alunos parceiros?

Moran Concordo que a boa utilização das tecnologias nos aproxima dos alunos, mas junto com elas precisamos mostrar que somos pessoas interessantes, abertas e confiáveis. Sem dúvida os alunos estão bem atentos a todas essas possibilidades que as tecnologias nos oferecem.

Marly Entendo que a primeira grande barreira a se transpor é o professor se enxergar novamente como aluno, o que considero algo mais complicado. O professor se tornar aluno de seus alunos.

Moran Quanto mais aprendemos e estamos abertos como alunos, mais facilmente encontraremos formas de ensinar e de orientar os nossos. Quando mais aprendemos, mais podemos contribuir para a aprendizagem de todos.

Grace Estamos caminhando cada vez mais para um mundo virtual. Como essa experiência pode ser positiva tratando-se do Ensino Fundamental?

Moran O mundo virtual é uma extensão do nosso mundo físico, e se integra o tempo todo. Nós estamos agora conectados virtualmente e estamos aprendendo. O Ensino Fundamental precisa dosar o presencial, o contato físico e as atividades virtuais. O aluno pode estar fisicamente na sala de aula e muitas vezes conectado, em grupo e individualmente, pesquisando. Ainda nos falta o acesso fácil a essa realidade conectada. Mas o Ensino Fundamental também integrará a presença física e os ambientes virtuais.

Kelly Percebo em seus textos a forte preocupação em equilibrar o advento das TICs com os valores morais e éticos, porém, vivemos numa sociedade bastante competitiva e individualista. Como nós, educadores, conseguiremos alcançar tal objetivo?

Moran Não é fácil conciliar colaboração e competição, mas é nosso desafio. Podemos ser bons competidores e colaboradores, dependendo do momento, da situação, do contexto. A formação precisa incluir cada vez mais a dimensão colaboradora, o aprender juntos, a troca. Mas a competência pessoal e a capacidade de lidar com conflitos, com as contradições pessoais e sociais também serão cobradas. Temos de encontrar um caminho positivo, de esperança, mesmo diante de um contexto social bastante difícil e violento. Sermos educadores com esperanças e não catastrofistas.

Sabine Como o senhor vê o e-learning coorporativo atual? Como será o futuro desta área na sua opinião? 

Moran Acredito que estamos passando de uma primeira fase, com um e–learning focado em conteúdos prontos para outro focado em competências e colaboração. Há cursos que são instrumentais e basta acessá-los com atenção e há outros em que a mediação é mais necessária, para a aquisição das competências desejadas. As corporações precisam de muita inovação pedagógica também. Há muita mesmice.

Agradeço a todos pelas perguntas tão ricas e variadas. Desculpem-me ter que respondê-las de forma às vezes simplista, pelo tempo e poucas linhas de cada resposta. Vejo em vocês pessoas comprometidas e que estão aprendendo a mudar. Contem comigo no que precisarem e procurarei continuar atualizando a discussão com textos, experiências e incentivo. Obrigado pelo apoio de vocês e continuem avançando, ajudando uns aos outros. Grande abraço para cada um de vocês e até breve.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Uma viagem virtual à Terra do Sol Nascente

Uma viagem virtual à Terra do Sol Nascente

Marcela Trentin Grande, 12 anos, aluna da EMEF General Othelo Franco, em São Paulo, e participante do projeto Nossa Escola tem História, relata a experiência que teve a partir da utilização do e-mail, atividade proposta por sua professora para o projeto

Por José Alves

Manhã de sexta-feira. A distância entre Brasil e Japão continua a mesma, cerca de 18.000 km, o oceano que separa países tão distantes ainda é o Pacífico. A primeira aula de Marcela Grande, no Brasil, era de informática. A professora Silvia Regina de Oliveira chega com um novo trabalho, diz que é para o projeto Nossa Escola tem História, do Portal EducaRede. “Eu tinha que descobrir pessoas que não moram em São Paulo ou que vieram de outra cidade para morar aqui em algum momento da vida”, conta Marcela. “Depois que essa pessoa fosse encontrada, minha missão era conseguir informações básicas sobre sua vida: para onde foi, como foi, como é o lugar onde mora, data de nascimento etc. Pensei em uma amiga da minha mãe que mora no Paraná, mas eu ainda não estava feliz. Foi quando eu lembrei de outra amiga dela que mora no Japão”.

O contato a que Marcela se refere é Andréa Suzuki, 36 anos. Brasileira, casou-se e foi para o Japão para juntar dinheiro. Agora, divorciada, pretende voltar com os filhos ao seu país no final do ano. Essas e muitas outras informações foram passadas durante a troca de e-mails entre Andréa e Marcela. As fotografias que Andréa enviou para Marcela conhecer o Japão mostraram à estudante um país que une tradição e modernidade. Construções arrojadas misturam-se à outras com arquitetura milenar, além de ruas muito arborizadas. A população? Todos com rostos muito parecidos, olhinhos fechados e tons de pele similares. A diferença está na produção individual de cada um dos “parecidos”; muitas cores fortes nas roupas e nos cortes de cabelo pra lá de modernos. Os japoneses mais jovens gostam de acessórios. Muitos brincos, piercings, bolsas, óculos e tudo mais que possa enfeitar os habitantes da “Terra do Sol Nascente”. Segundo Marcela, “foi muito bom para ela, e principalmente para a sua mãe, rever a amiga distante por fotografia, além dos filhos crescidos”. A estudante da 6º série também descobriu o olhar que a “amiga virtual” tem do país em que vive: “Andréa considera o Japão um país muito organizado, com uma boa educação para as crianças e possibilidade constante de emprego, além da facilidade em conseguir comprar produtos que não conseguia no Brasil”. Veja o trabalho escolar da estudante a partir da seleção de algumas fotografias.

Uma troca de e-mails parece algo muito corriqueiro nos dias de hoje, levando em consideração o crescente aumento de computadores nas escolas e residências brasileiras. Parece, mas não é. Nas estatísticas, Marcela Grande faz parte das famílias que possuem computador em casa, mas segundo ela relata, “antes eu só passava e-mail para o meu pai. Eu não tenho impressora em casa e mandava meus trabalhos para ele imprimir. A partir do projeto eu percebi uma nova possibilidade de uso do e-mail. Hoje eu entro em contato com as pessoas, não importa se longe ou perto de mim”. Perguntada se agora o processo de comunicação em ambiente virtual é irreversível, Marcela responde: “a gente sempre quer mais, quer bola pra frente. Eu quero falar com outras pessoas também, usar o e-mail como forma de me comunicar com as pessoas, não somente para enviar ou receber arquivos. Agora, sempre que quer entrar em contato com sua amiga, minha mãe pede que eu envie um e-mail para o Japão”.

 

Memórias e afetividade

E como um projeto com o tema memórias, escopo do Nossa Escola tem História, impacta a estudante? Segundo a própria aluna, “é ótimo porque eu já lembrava da amiga de minha mãe desde quando ela ainda morava no Brasil. O trabalho me aproximou bastante dela, já que eu não me comunicava com ninguém que morasse fora do país. O contato com minhas primas e familiares por e-mail também aumentou”.

Para Silvia Regina de Oliveira, POIE – professor orientador de informática educativa – há 2 anos, “o projeto tem um grande valor porque trouxe a possibilidade de conhecermos as diferentes realidades dos alunos. Para a turma da Marcela, de 6º série, eu procurei encaixar o Nossa Escola tem História com o tema do projeto interdisciplinar da escola, sobre a cidade de São Paulo. Eu uni memórias com São Paulo. Eles tinham que procurar alguém que morou ou que veio morar aqui”. A partir disso, muitas descobertas. A professora Silvia lembra de outros trabalhos que mostravam para ela detalhes sobre a vida de alguns estudantes. “Alguns não têm pai, por exemplo, e os alunos guardam um objeto que traz a lembrança do pai à tona. O projeto trouxe para mim a percepção da afetividade que existe nas pessoas, afetividade essa ligada à memória das situações vividas na história de cada indivíduo”.

 

Valor na formação escolar

Marcela Grande acredita que a Internet tem um grande valor na sua formação escolar, principalmente no que se refere à pesquisa de temas propostos em sala de aula, ” o professor chega na escola e pede para a turma pesquisar um tema. Eu uso os buscadores – Google, Cadê – e monto o trabalho com as informações que encontrei, em seguida passo para o word e mando o arquivo por e-mail para o meu pai imprimir”.

Além da pesquisa escolar, a estudante usa a Internet para jogar e pesquisar paisagens para colocar como papel de parede em seu computador. A professora Silvia, orgulhosa de sua aluna, diz: “a Marcela me surpreendeu porque foi além do que eu pedi, caminhou para adiante. Quando eu pensei na proposta, imaginava que só aparecessem pessoas que vieram da Europa e que morassem aqui, já que somos um país que recebeu muitos imigrantes. Ela, por conta própria, foi atrás de alguém que está muito distante. A Internet possibilita às pessoas caminharem para longe”. É verdade, professora, a Marcela, como exemplo, atravessou o planeta em um clique no mouse.

 

Projeto Nossa Escola tem História

Realizado pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, em parceria com o Museu da Pessoa e o EducaRede, o projeto atende a 168 escolas no município e foca no desenvolvimento e realização do tema memória, envolvendo a pesquisa, comunicação e publicação na Internet. As publicações são feitas na comunidade virtual que o projeto tem dentro do Portal EducaRede.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 


Só não enxerga quem não quer

Só não enxerga quem não quer:
racismo e preconceito na Educação Infantil

As crianças negras sofrem situações de discriminação na escola e nos centros de Educação Infantil. Na maioria das vezes paira um silêncio revelador da desigualdade de tratamento oferecido às crianças brancas e negras


Por Cisele Ortiz
Revista
Avisa Lá 

Temos uma amiga negra, a Ba, que ainda hoje, aos 40 anos, lembra-se da primeira vez em que a diferença de cor foi motivo de tratamento discriminatório. No jardim da infância que freqüentava, uma criança branca perdeu sua pulseira de ouro e sua mãe foi à escola reclamar exigindo conversar com a mãe de Ba. Nossa amiga não esteve presente e nunca conversou sobre isso com a sua mãe, mas sabe que o conteúdo da conversa foi uma acusação de roubo. Na época, Ba intuiu que estava sendo acusada por ser a única menina negra da classe. 

As crianças brancas logo descobrem o poder de suas palavras e de seus xingamentos, as referências negativas à cor da pele (neguinha, carvão) e ao cheiro (fedorenta), associam a cor preta à sujeira (não toma banho) e as usam principalmente como uma arma em situações de disputa, de conflito. Como não são repreendidos pelos professores, acabam reproduzindo a situação inúmeras vezes, como que autorizados” por eles. Por outro lado, as crianças negras tendem a silenciar cada vez mais e a fugir das situações de conflito e de disputa, isolando-se.

Quando reagem, às vezes de maneira desproporcional, sem controle, são criticadas e advertidas. Assim, vão silenciando cada vez mais. Esta situação gera um círculo vicioso difícil de ser rompido sem ajuda. Entre os professores há silêncio também. Não falar sobre as situações de racismo, preconceito e discriminação na escola faz com que o problema pareça não existir.

Se, por um lado, a atitude de silêncio dos professores diante de situações de humilhação entre as crianças é uma tentativa de considerá-las como “naturais” ou “individuais”, evitando falar sobre o assunto para não “esticá-lo”, por outro lado, essa atitude também é uma valorização da não reação das crianças negras ao serem humilhadas. De qualquer modo, isso só contribui para a aprendizagem do silêncio.

Segundo ainda a pesquisa de Eliane, os professores tendem a elogiar mais as crianças brancas e a ter mais contato físico afetuoso com elas. A postura do professor no modo como se refere às crianças, sua expressão corporal e a intervenção nas atividades podem caracterizar-se como fatores de exclusão das crianças negras. Quando o professor, sem intenção discriminatória aparente, auxilia sempre as meninas brancas a se pentearem ao invés das negras, quando prefere pegar ao colo sempre as crianças brancas, está contribuindo para minar a auto-estima dos alunos afro-descendentes.

Se a dinâmica escolar não aceita e não sabe incluir a criança negra, cria uma situação geradora de desconforto e de impossibilidade de realização pessoal, na medida em que ela é o tempo todo comparada com a criança branca, humilhada, desvalorizada e inferiorizada. Como resultado, o silêncio, que pode levar ao condicionamento do fracasso em todas as esferas da vida social, perpetuado nas relações sociais desiguais.

Estas observações nos levam a constatar que é mais do que hora de encarar com seriedade e competência o problema. Precisamos mudar a mentalidade da escola, intervir para que o silêncio seja rompido, inaugurando novas práticas no cotidiano das relações escolares de modo que possamos reconhecer, valorizar e incluir a criança negra na escola, como é o seu direito.

Diferentes ações para um mesmo problema
Sensibilizar para a questão: só um começo

Recebemos um convite do Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdade (CEERT) para desenvolver em conjunto uma oficina para professores de Educação Infantil sobre o tema. Nossa intenção ao planejá-la era colaborar para que os professores colocassem a igualdade racial como pauta de suas reflexões e ações nas atividades do cotidiano escolar de forma transversal.

Considerando o curto espaço de tempo da oficina (4 horas), optamos por usar a arte como instrumento de sensibilização. Organizamos diferentes elementos que auxiliassem na construção de um olhar que considera e valoriza a diversidade e que reconhece o racismo e o preconceito como primeiro passo para procurar eliminá-lo.

Por meio da apreciação de diferentes objetos artísticos brasileiros e de uso cotidiano na África, propusemos a discussão de como nosso olhar é formado socialmente e padronizado por informações que desconsideram a diversidade cultural e racial. Assim sendo, as escolhas estéticas que fazemos são impregnadas pelo preconceito e pela falta de contato com o repertório cultural de diferentes povos. Neste caso, a apreciação da cultura africana trouxe um novo olhar sobre a capacidade de produção estética dos povos africanos e ampliou o conhecimento e o repertório dos professores.

A partir dessa vertente cultural e estética propusemos uma atividade que é sucesso garantido com as crianças: vestir bonecas ou bonecos de papel com diferentes padronagens africanas. Esta foi a estratégia utilizada para refletir sobre a diversidade. Recuperamos assim uma prática antiga, lúdica, multiplicável e de custo quase zero.

O planejamento da oficina


Decidimos que faríamos bonecos a partir de fotos de crianças negras porque, desta forma, estaríamos contemplando os afro–descendentes, cujos traços são específicos. Não queríamos fazer “caricaturas” de negros, mas respeitar seus traços originais.

Levaríamos os bonecos prontos, impressos em papel para serem coloridos pelos professores, posteriormente montados em papel cartão e finalmente recortados e “vestidos”.

Para ampliar o olhar e a reflexão sobre o tema proposto, exibiríamos revistas, livros de estórias infantis, de fotografias, pinturas, cartões, etc. das culturas africana e brasileira afrodescendente.

Faríamos também uma pequena exposição de tecidos e roupas com padrões e formas africanas, principalmente o batik, característico de alguns países daquele continente; esculturas tradicionais; bonecas típicas; etc. Apostamos que essa diversidade de estímulos de formas e imagens, de cores, padrões, proporções, texturas, tantos de materiais presentes na natureza como daqueles advindos das manifestações culturais, traria bons resultados.

Foi exatamente o que aconteceu. Depois da reflexão sobre o assunto e da apreciação, os professores produziram as roupas de papel representando diferentes culturas africanas. Mais importante que essa atividade pontual, quase uma brincadeira, eles tiveram a oportunidade de pensar em muitas outras atividades inclusivas e de valorização da diversidade cultural tendo em vista a igualdade social; aprenderam a pesquisar e olhar historicamente os assuntos a serem abordados; a procurar sempre que possível ampliar o repertório por meio da apreciação de imagens (desenhos, pinturas, esculturas, arquitetura, fotos e documentários), de músicas e costumes.

Os professores criaram bonitos trajes e recuperaram a idéia de brincar com as bonecas de papel, valorizando sua função na Educação Infantil como linguagem própria, expressiva e que aproxima a criança da cultura.


Biografia:

Educar para a igualdade racial na Educação Infantil significa, além de encarar de frente a questão, refletir e discutir no âmbito da escola e com as famílias, ter cuidado também na escolha das atividades, projetos, livros, brinquedos e materiais gráficos colocados à disposição das crianças.

Os diretores, coordenadores e professores podem ser fortes aliados no combate ao racismo e na promoção da igualdade, caso haja a incorporação da temática racial no cotidiano escolar e não apenas em momentos ou projetos e atividades pontuais, como, por exemplo, nas comemorações específicas da luta anti-racismo.

Sabemos que o tempo todo os professores colocam à disposição das crianças “objetos culturais” que agregam determinados valores à aprendizagem. Tais objetos traduzem determinadas ideologias e concepções que a criança apreende, ainda que de forma inconsciente. Os objetos culturais presentes nas creches e pré-escolas tais como livros, revistas, brinquedos, bonecas, imagens e objetos religiosos usados sem reflexão podem oferecer imagens distorcidas, muitas vezes preconceituosas e estereotipadas dos diferentes grupos raciais. É o caso das bonecas negras que não respeitam as características físicas específicas, apontando para a diferença da cor da pele como única referência ou das revistas em que negros aparecem como subalternos e em subempregos e de imagens que enfatizam uma naturalização de funções e situações que revelam a ideologia vigente – a do branco.

A inclusão dessa temática na formação dos professores se justifica pela possibilidade de trazer à tona preconceitos, para assim oferecer oportunidades para conhecer, valorizar e incorporar a cultura africana e o fundamental papel dos afro–descendentes na formação do povo brasileiro.


– 
Educação anti-racista: Compromisso Indispensável para um Mundo Melhor”. Em Racismo e Anti-Racismo na Educação: Repensando Nossa Escola, org. Eliane Cavalleiro. Selo Negro Edições.
– Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: Racismo, Preconceito e Discriminação na Educação Infantil, de Eliane Cavalleiro. Ed. Contexto.
– Racismo no Brasil, vários autores. Ed. Peirópolis.
– Revista Nossa História, ano 2, edição nº 19 

– Tirando a Máscara: Ensaios sobre o Racismo no Brasil, org. Antonio Sérgio Alfredo Guimarães e Lynn Huntley. Ed. Paz e Terra.


Conheça as experiências premiadas de Educação Infantil no site:

www.ceert.org.br

Outros sites:

www.portalafro.org.br
www.dialogoscontraoracismo.org.br
www.unidadenadiversidade.org.br
www.mundonegro.com.br

Muitos anos se passaram até que ela conseguisse falar sobre a situação sem ficar tomada pela emoção.

São poucas as pesquisas no Brasil a respeito da discriminação e do preconceito na Educação Infantil. Dentre elas destaca-se a efetuada por Eliane Cavalleiro, que revela a difícil situação das crianças negras já nos anos iniciais da escolaridade. Segundo ela, é certo que as crianças pequenas desde cedo “interiorizam idéias preconceituosas que incluem a cor da pele como elemento definidor das qualidades pessoais”. Fazendo par com essa injustiça os professores ou não sabem lidar com o problema e se calam ou, o que é pior, ajudam a discriminar com ações, palavras e atitudes.

Tanto crianças brancas como negras comumente demonstram a presença de estereótipos e preconceitos em relação aos negros, em situações cotidianas de vivências escolares e principalmente por meio de suas falas. Já aos 4 e 5 anos as crianças negras sentem desconforto quando têm que se referir a sua origem racial.

Segundo afirma Eliana Cavalleiro, “a realização de pesquisas com o objetivo de compreender a dinâmica das relações multiétnicas no âmbito da Educação Infantil representa um recurso para o avanço no combate ao racismo brasileiro, visto que estudos desta natureza revelam como se dão as relações interpessoais, seus benefícios e seus prejuízos para os indivíduos que convivem na escola, bem como fornecem subsídios para a elaboração de novas práticas educacionais, quer seja na família, quer seja na escola”.

A escola preconiza um discurso oficial de que não existe preconceito entre as crianças, mas ao mesmo tempo as professoras nos fornecem inúmeros exemplos de dificuldades de relacionamento entre crianças brancas e negras tendo como pano de fundo a diversidade racial.

Para Eliane, a escola ensina a criança negra a silenciar, o que ela chama de “aprendizagem do silêncio”, na medida em que se omite nos conflitos entre as crianças. A escola, por meio das professoras das crianças pequenas que se negam a tomar providênciasreforçam os estereótipos e preconceitos.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Reforma Ortográfica ganha game gratuito na Internet

Reforma Ortográfica ganha game gratuito na Internet

Apresentar as novas regras da escrita de uma maneira lúdica. Esse foi o ponto de partida para a produção de um game interativo e gratuito sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, com abrangência em oito países lusófonos e vigente no Brasil desde o dia 1º de janeiro de 2009, e que busca a unificação da quinta língua mais falada no planeta.

Professores e alunos da rede pública de ensino, assim como todos os internautas podem acessar o game, produzido por meio de uma parceria entre o Canal do Livro e a FMU – SP (Faculdades Metropolitanas Unidas), baseado na publicação Guia da Reforma Ortográfica, idealizada pela FMU e pelo Museu da Língua Portuguesa. Todo o conteúdo teve a chancela do professor Ataliba T. de Castilho, especialista em Língua Portuguesa.


As regras

O desafio do jogo é levar o peão até o final do tabuleiro. Para cada casa que se avança, surge uma nova pergunta sobre as mudanças ortográficas. Ao todo, são 50 questões e 25 casas a serem percorridas. Se o jogador errar a pergunta, tem a chance de respondê-la novamente. Experimente:

Clique aqui para fazer download do jogo.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Professores no limite

Professores no limite

As diversas pressões enfrentadas na escola estão levando os educadores a adoecer. Entenda o estresse e saiba quais são as atitudes que podem ajudar a lidar com ele.


Cida de Oliveira
Revista Pátio

Derivado do latim, o termo estresse já teve conotação de adversidade ou aflição. Depois ganhou o sentido de força, pressão ou esforço. Mesmo sendo antigo, somente no século XX os estudiosos começaram a investigar seus efeitos na saúde física e mental. O estresse surge como uma conseqüência direta dos persistentes esforços adaptativos da pessoa à sua situação existencial. Nem sempre é um fator de desgaste emocional e físico, tratando-se de um mecanismo natural de defesa do organismo. Recebem-se os estímulos internos e externos através do sistema nervoso e, dependendo da maneira como esses estímulos são encarados, eles podem ou não provocar alterações psicológicas e biológicas negativas e levar ao estresse crônico, este, sim, prejudicial.

O estresse, portanto, é um agente neutro, capaz de tornar-se positivo ou negativo conforme a percepção e a interpretação de cada pessoa. Tanto o positivo (eustresse) quanto o negativo (distresse) causam reações fisiológicas similares: mãos e pés tendem a ficar suados e frios, a freqüência cardíaca e a pressão arterial podem elevar-se, assim como haver aumento da tensão muscular. No nível emocional, porém, as reações são diferentes. O eustresse motiva e estimula a pessoa a lidar com a situação. O distresse, ao contrário, acovarda o indivíduo, intimidando-o e levando-o a fugir da situação. As suas emoções e a sua saúde física dependem quase que exclusivamente da sua interpretação do mundo exterior. “Quanto mais você entender as pressões e situações que o influenciam, melhor se adaptará às exigências”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi (foto ao lado), presidente no Brasil da International Stress Management Association, entidade que estuda o estresse.

Um estudo do sindicato dos professores da rede estadual paulista, a Apeoesp, apontou que 46% desses profissionais estão estressados. “Os professores têm mais riscos de sofrimento psíquico de diferentes matizes, e a prevalência de transtornos menores é maior entre eles quando comparados a outros grupos”, afirma Ada Ávila Assunção, doutora em ergonomia do departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Ada é co-autora de uma análise sobre os motivos de afastamento de professores por razões de saúde. Ela e seus colegas estudaram 16.556 relatórios de atendimentos feitos pela gerência de saúde do servidor e perícia médica da prefeitura de Belo Horizonte (MG) no período entre abril de 2001 e maio de 2003.

A médica conta que foi possível descobrir o número de afastamentos, mas não o de professores afastados. A certeza, no entanto, é que os transtornos psiquiátricos ficaram em primeiro lugar entre os diagnósticos que motivaram as licenças médicas. “Os dados não expressam os problemas de saúde e muito menos os associam a problemas no trabalho. Porém, tais fatores coincidem com os encontrados em outras pesquisas científicas”, diz a especialista.

Dupla Jornada


Em Vitória da Conquista, no interior baiano, pesquisadores da Universidade Federal da Bahia estudaram a saúde dos professores da Pré-Escola ao Ensino Médio da rede particular. No estudo, 60% dos entrevistados relatavam que seu maior problema era o cansaço mental e 52% trabalhavam em mais de uma escola. Segundo Fernando Martins Carvalho, médico epidemiologista ocupacional do departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, a situação é tão séria que a instituição criou um grupo de pesquisa que está dando prosseguimento aos estudos.

Em Sergipe, o sindicato dos professores fez um levantamento que revelou que 25% dos educadores são afastados da sala de aula temporária ou definitivamente por problemas emocionais, como estresse, depressão e esgotamento mental. “Em alguns casos mais graves, são afastados por incapacidade mental”, diz Joel Almeida, presidente da entidade. Outro fato grave, segundo o sindicalista, é a inexistência de legislação específica para esse tipo de doença ocupacional. No serviço público, o profissional geralmente passa por diversos transtornos para conseguir ser avaliado por uma junta médica. Outro levantamento do sindicato sergipano revelou que apenas 7% dos professores com recomendação de licença médica conseguiram tal benefício no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Em Tocantins, uma pesquisa mostrou que 42,5% dos professores declararam já ter sofrido algum problema de saúde, sendo que apenas 14% conseguiram licença médica.

Problema Oculto


Se, por um lado, ocorre a dificuldade de diagnóstico e de licença para o tratamento, por outro, há professores que relutam em comunicar que estão estressados. Em alguns estados, existe a chamada licença-prêmio, benefício que consiste em até três meses de férias para os efetivos que completam cinco anos sem faltar. Quem se afasta por doença, mesmo com atestado médico, perde o direito.

Roberto Leão (foto ao lado), secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), diz que a situação é grave, embora ninguém queira tocar no assunto. “Nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, é impossível tirar licença para se tratar. Há localidades em que, para usufruir do direito à saúde, o professor é quem deve arranjar substituto e tirar o salário do próprio bolso”, afirma. “Assim, o jeito é trabalhar, mesmo doente.”.

Já os professores paulistas admitidos em caráter temporário, os ACTs, que correspondem a metade de toda a rede, também temem a comunicação pelos prejuízos que pode trazer em caso de aprovação em um concurso. “A doença é acompanhada por psiquiatras do Hospital do Servidor Público Estadual. Não adianta nada passar nos exames escritos e ser reprovado no exame médico”, diz José Roberto Guido, secretário adjunto de comunicação da Apeoesp. “É mais um caso em que o profissional prefere trabalhar doente.”.
Segundo o dirigente sindical, o estresse afeta igualmente professores do Ensino Infantil, Fundamental e Médio. E, exceto iniciativas isoladas em algumas universidades, não há um programa de prevenção e tratamento extensivo a toda a categoria no país. Como se não bastasse o fato de o magistério reunir condições desfavoráveis de trabalho, baixos salários, indisciplina e violência, observam-se ainda questões de ordem arquitetônica que exigem ainda mais do professor durante a aula.

A arquiteta Maria Lucia Oiticica, que pesquisa inteligibilidade em sala de aula na Unicamp, diz que praticamente todos os estabelecimentos escolares negligenciam a acústica desses espaços. Isso afeta a voz e leva ao estresse dos professores, além de prejudicar o nível de compreensão dos alunos. Maria Lucia é co-autora de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Alagoas em duas escolas de Natal, no Rio Grande do Norte, uma pública e outra particular. Ambas revelaram problemas acústicos.

Para se ter uma idéia, um ruído de 55 decibéis, limite indicado para pátios escolares e regiões residenciais urbanas, pode levar ao estresse leve. “Este excita o sistema nervoso central autônomo simpático, produzindo desconforto auditivo, maior vigilância e agitação, levando à perda de concentração”, explica Maria Lucia. De acordo com a pesquisadora, tanto as escolas públicas quanto as privadas têm altos índices de pressão sonora, o que é considerado insalubre.

Invista na Prevenção
Algumas atitudes podem ajudar a evitar os efeitos negativos do estresse:
  • Tenha sempre momentos de lazer
  • Reconheça seus próprios limites
  • Saiba dizer não
  • Pratique atividades físicas prazerosas regularmente
  • Tenha sempre em mente o valor social do seu trabalho, independentemente do salário
  • Organize suas atividades por ordem de prioridade; não queira fazer tudo de uma vez só
  • Crie oportunidades para reciclagem profissional
    Identifique os fatores estressantes
  • Estabeleça prioridades pessoais e profissionais
  • Tenha a certeza de que você é capaz de enfrentar os problemas
  • Organize o ambiente para minimizar a falta de recursos, como diminuir a escassez de material didático
  • Espreguice-se durante o dia
  • Tenha mais objetividade em seu dia-a-dia
  • Procure ajuda quando tiver problemas de saúde
  • Alimente-se de forma saudável, evitando gorduras e massas em excesso

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Pelo Celular…lá na escola!

Pelo celular…lá na escola!

Mobilidade e convergências nos projetos pedagógicos

 

Claudemir Edson Viana*
Sônia Bertocchi**

 

Os “mais vividos”, com certeza, devem se lembrar do samba “Pelo Telefone”, autoria de Donga, de 1916. E do verso que diz que “o chefe da polícia, pelo telefone, mandou avisar…”. Unanimemente, entendemos que avisou via fala, serviço de comunicação verbal próprio desta tecnologia. Parece muito óbvio para nós – mas lembremos o espanto geral que a invenção do telefone causou poucos anos antes: D. Pedro II, ao ver o invento pela primeira vez, durante a feira de Filadélfia nos Estados Unidos em 1876, disse :  “Meu Deus, isto fala!”, e logo comprou 100 aparelhos telefônicos para trazer ao Brasil.

Mas, 133 anos depois, falar por meio do celular é apenas uma das ações que esta tecnologia nos permite fazer. Aliás, é a mais simples e corriqueira atividade: falar pelo celular é o que faz aproximadamente 86% da população brasileira possuidora de celular. Com um custo cada vez menor e tecnologias mais avançadas, encontramos celulares que permitem muito mais que simplesmente falar. Em agosto de 2009, segundo a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), atingiu-se o impressionante número de 164,5 milhões de celulares no país, o que representa um índice de densidade de 85,91 celulares para cada 100 habitantes.

Nova sociabilidade: a portabilidade

O histórico da evolução material da telefonia, aponta uma nova sociabilidade que emergiu sob o suporte do aspecto portátil do celular. A partir da história do telefone, podemos vislumbrar, sob a perspectiva da materialidade da comunicação, as afetações que um artefato técnico pode trazer à tona em uma determinada cultura, como a da presença significativa do celular na contemporaneidade.

Hoje, pelo celular se pode também escrever, fotografar, filmar, editar, jogar, navegar na Internet, enviar e-mail, torpedos, ouvir música ou rádio. São tantas as possibilidades impensáveis há alguns anos, que podemos imaginar o que diria D. Pedro II se pudesse conferir esta evolução. Este avanço tecnológico da telefonia é mais um exemplo claro do que pensadores da Escola de Toronto (Harold Innis, Eric Havelock, Marshall McLuhan) destacavam sobre o fato das tecnologias comunicacionais possuírem o poder de transformar as culturas e as subjetividades, e de estas, por sua vez, provocarem novos ciclos de mudanças tecnológicas, numa dialética sem fim.

Conforme a 4ª Pesquisa sobre o uso das Tecnologias da Informação no Brasil (TIC Domicílios 2008), realizada pela Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), cada vez mais no Brasil utiliza-se o celular para enviar ou receber imagens, acessar músicas ou vídeos. Esta pesquisa anual pela primeira vez incluiu a análise da área rural e mostrou que, mesmo com a maioria da população utilizando os planos pré-pagos (91%), de 2005 a 2008 subiu de 4% para 24% a utilização do celular com o envio ou recebimento de imagens, e de 9% para 23% com o uso de músicas e vídeos, tendo ocorrido um crescimento mais significativo nos dois últimos anos em razão das conexões 3G e da presença no mercado de celulares mais potentes. Isto demonstra como o uso mais multimídia do celular vem ocorrendo entre os brasileiros graças à sua evolução técnica.

Em outra pesquisa também se constata a forte presença dos celulares entre estudantes brasileiros: dados da publicação A Geração Interativa na Ibero–América: crianças e adolescentes diante das telas – um estudo feito em parceria entre a Universidade de Navarra, na Espanha, a Fundação Telefônica e o EducaRede – apontam para o sucesso do aparelho celular entre os jovens de 6 a 18 anos de idade. Em São Paulo, nada menos que 82% dos estudantes que participaram da pesquisa afirmaram possuir um telefone móvel.

Em alguns contextos sociais, usam-se os aparelhos móveis para outras finalidades que, de normalmente secundárias passam a principais, como câmera, tocador digital ou videogame portátil. Exemplos internacionais deste tipo de uso alternativo são o que demonstram os dados de uma pesquisa feita pela Lightspeed.

No Brasil, um exemplo dessa situação é o que ocorre na cidade potiguar de Barcelona. E são os jovens e as crianças que dão show quando o negócio é usar todos os recursos do celular ou quando mostram não terem medo de explorar o celular para aprender como utilizá-lo. E aí está a diferença. Muitos dos adultos, e em especial os educadores, não conhecem ou não usam estes recursos todos e muito menos visualizam como eles e a cultura deles decorrente podem ser associados às práticas escolares.

Atenção: desligar e guardar os celulares. Celular na escola? Pode?

 

Tem causado grande polêmica a criação de leis municipais e estaduais que propõem proibições para o uso do celular nas escolas. Nas redes de ensino onde isto já é praticado, justifica-se que só mesmo com a proibição legal garante-se a autoridade do professor que, desta forma, amparado pela lei, pode se fazer respeitar durante suas aulas, proibindo o uso do celular. “Celular na escola, não!”, ou como dizem os não tão radicais, “celular durante a aula, não!”.

Mas por que mesmo não pode? O vilão da vez

Para responder a esta pergunta, sataniza-se o equipamento, o celular, e destaca-se o quanto os alunos, crianças e jovens, envolvem-se por tudo o que esta tecnologia de informação e comunicação possibilita, deixando assim de se interessarem pelas aulas dos seus professores. Então, neste caso, a opção melhor é mesmo proibir, censurar, pois se trata de uma concorrência desleal, argumenta a maioria. E por isso, os professores aplaudem tal legislação.

No entanto, com este tipo de censura, perde a educação e perde a sociedade. Sérgio Amadeu, pesquisador de Comunicação Mediada por Computador e da Teoria da Propriedade dos Bens Imateriais, diz que “não tem sentido você proibir que os estudantes tenham acesso a um meio de comunicação que cada vez mais vai adquirir importância na sociedade. Ao contrário, se a gente tem problemas do uso indevido nas escolas, esse é um bom lugar para ensinar como as pessoas devem se portar com o celular”. Amadeu ainda ressalta: “Se existem algumas coisas ruins, como por exemplo, a pessoa usar o celular para fazer um joguinho em sala de aula ou para fazer ligações, isso requer uma postura da escola em relação aos alunos. Se é impossível ensinar um comportamento de uso de celular a um estudante, o que será possível?”. A professora Andrea Guimarães Phebo complementa: “A lei só vê um lado da questão: o lado da falta de educação e desrespeito da utilização. Se os próprios educadores não tiverem um olhar diferenciado sobre como podem transformar a ferramenta celular de “vilão” em “mocinho”, a lei continuará impedindo que este instrumento tecnológico de múltiplas funções possa se transformar em ferramenta didática”. (In.  Educarede: As 1001 utilidades de um celular)

Essas legislações passam a seguinte mensagem: quando não se sabe o que fazer ou como lidar com algo é melhor proibi-lo pura e simplesmente! E erram feio mais uma vez: na escola já se proibiu o uso de jogos, de filmes, de gibis, dos periódicos, da televisão e mesmo do computador no processo de ensino-aprendizagem. Agora, o vilão da vez é o celular!

Definitivamente, proibir por proibir não é o melhor caminho, até porque os jovens são criativos o suficiente para burlar as proibições. Um exemplo dessa criatividade é o que estudantes ingleses inventaram:  “Eles criaram um toque de celular, semelhante a um apito, que a maioria dos adultos não consegue ouvir. Com isso, podem receber avisos de mensagens armazenadas no celular, ou até mesmo chamadas, sem que a professora se dê conta da infração cometida bem à sua frente. O segredo está na freqüência sonora em que o toque é executado: 17 quilohertz, o que resulta num som extremamente agudo. A ciência ensina que a perda gradativa da audição decorrente da idade, ou presbiacusia, começa com a menor percepção dos tons mais altos do espectro sonoro. O toque criado pelos garotos ingleses encontra-se justamente numa faixa do espectro que não é percebida pela maioria das pessoas com mais de 29 anos”. (In:  A última travessura: Adolescentes usam toque de celular numa frequência que muitos adultos não escutam. Leoleli Camargo- Veja – Edição 1961 . 21 de junho de 2006.

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* Bacharel e licenciado em História (USP-1992), especialista em Educomunicação(USP-2003), Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP (2000-2005) e gestor da comunidade virtual Minha Terra desde 2007 do Portal EducaRede.

 

** Bacharel e Licenciada em Letras (FFCLSanto André — 1973), Máster em Gestão e Produção de e-Learning pela Universidade Carlos III de Madri, gestora de Comunidades Virtuais de Aprendizagem do Portal EducaRede Brasil.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

O EducaRede em conexão com a arte

O EducaRede em conexão com a arte

Para comemorar o II Dia Internacional do EducaRede, o programa promoveu uma atividade lúdica e interativa entre estudantes dos países onde o projeto está presente tendo como tema a vida e obra de Pablo Picasso

Durante o mês de outubro, o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973) foi fonte de inspiração para cerca de quarenta alunos da EMEF Carlos Pasquale, no Itaim Paulista, São Paulo, que participaram da gincana virtual Conexão Picasso em comemoração ao II Dia do EducaRede, que aconteceu no dia 06 de novembro. O pátio, os corredores e a sala de informática da escola ganharam painéis, colagens, pinturas e outras referências da vida e obra do artista, considerado um dos grandes nomes da pintura contemporânea do século XX. Na ponta da língua de cada um dos jovens, as fases que marcaram o trabalho de Picasso, o nome de muitas de suas obras, além de detalhes de sua vida pessoal. “O Picasso torcia para o Real Madrid, você sabia?”, revela Caio Rodrigues, aluno da 8ª série. O resultado do projeto pôde ser conferido na vídeo-conferência que reuniu jovens de outros seis países onde o EducaRede está presente (Argentina, Chile, Colômbia, Espanha, México e Peru) que, juntos, solucionaram um enigma virtual.

Para Ulisses Sanches, professor de inglês e POIE (Professor Orientador de Informática Educativa) da escola, a internet e as ferramentas web 2.0 foram essenciais para a pesquisa e troca de informações entre os alunos, que superaram as expectativas propostas pelo projeto. “Eles conseguiram ser despertados para a vida e obra de Picasso. Muitos nunca tinham ouvido falar do artista e isso foi fácil por que eles trabalharam muito com o blog que foi montado para a troca de informações”, acredita.

Todas as cores de Picasso

Uma gincana virtual, uma caça ao tesouro, uma releitura dos quadros de Picasso e apresentações teatrais sobre a vida do pintor espanhol foram as atividades propostas para os jovens que participaram do projeto. Divididos em quatro equipes, com 10 alunos cada, batizadas com o nome das principais cidades onde o pintor viveu – La Coruña, Paris, Barcelona e Málaga –, os alunos se organizaram em duplas para cumprir as tarefas.

A gincana virtual foi um jogo on-line de perguntas e respostas a partir de informações disponibilizadas aos participantes no blog oficial. A cada resposta certa as equipes pontuavam. Embora fosse escrito totalmente em espanhol, a língua não foi uma barreira para os estudantes brasileiros. “Os alunos se envolveram demais no projeto. Antes que eu providenciasse uma versão traduzida para o Português para facilitar a troca, eles já estavam interagindo com crianças da Espanha e de outros países e entendendo tudo”, lembra a coordenadora do projeto, Renata Mandelbaum.

A caça ao tesouro também privilegiou a busca de informações sobre o artista. Os alunos recebiam dicas para encontrar questões sobre Picasso escondidas pela escola. Junto com a dica, uma peça de quebra-cabeça. Assim que a pergunta fosse localizada e respondida de forma correta, muitas vezes a partir de uma rápida pesquisa na Internet, os integrantes das equipes recebiam uma nova dica e com com ela outra peça do quebra-cabeça que, completo, mostrava uma obra de Picasso.

Jovens artistas

Dois alunos por equipe ficaram responsáveis por reproduzir uma obra de Picasso numa tela de pintura. Os desenhos, feitos à mão livre, retrataram quatro diferentes obras do artista. “O contato mais significativo e contextualizado com a história da arte proposto pela atividade fez com eles absorvessem as informações”, acredita Margareth Jardim, professora de Educação Artística. “A troca cultural e de informações com estudantes de outros países também será inesquecível para essas crianças”, concluiu Margareth.

O nascimento do pintor, a fase rosa, a fase azul e os amores de Picasso foram os temas propostos para o grupo responsável pelo teatro. A partir desses temas, os jovens escreveram, dirigiram e encenaram pequenos esquetes.

A festa terminou no auditório da escola com uma vídeo-conferência entre as crianças dos países participantes. A transmissão pôde ser vista via telão e o objetivo final era a solução conjunta de um enigma num diagrama virtual. Como uma espécie de caça-palavras, fotos de obras do artista foram encaixadas pelas equipes dos países participantes até que a frase “A arte é uma mentira que nos aproxima da verdade”, dita pelo pintor, foi desvendada.

Para Sérgio Mindlin, presidente da Fundação Telefônica, interação, cooperação, cultura e diversão pautaram todo o projeto. “É muito legal ver que todos estão entusiasmados em torno da Conexão Picasso. Vocês foram atrás de informações, usaram os blogs e a internet, se viraram com o espanhol, superando a barreira da língua. O mundo com a tecnologia e a Internet deixou de ter fronteiras. E queremos que as escolas tenham ferramentas para acompanhar essas mudanças”, afirmou. “A Conexão Picasso também serviu para mostrar como a escola pública pode ser boa e como as parcerias são importantes”, concluiu Ana Inês Fernandes, diretora da Carlos Pasquale. Pela participação, os alunos receberam certificado e medalhas e a escola ganhou um câmera filmadora de presente.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Jornal na sala de aula

Jornais desenvolvem programas
educativos nas escolas

A utilização de jornais em sala de aula, como recurso didático, ganhou o mundo e começa a despertar o interesse das escolas brasileiras

Por Leonor Macedo

 

Em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal, 8,5 mil escolas (de um total de cerca de 200 mil estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio) estão discutindo a importância do uso diário de jornais em sala de aula. Ao todo, 38 veículos brasileiros desenvolvem um programa específico de jornal na educação, atingindo cerca de 3,5 milhões de alunos. Os dados são da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que, desde 1980, promove a atividade entre seus associados de grande ou pequeno porte.

 

 

 

Com o objetivo de motivar o gosto pela leitura nos estudantes e disponibilizar aos professores um recurso didático de fácil acesso para complementar suas aulas, o projeto de jornal na educação é um sucesso mundial. Nos EUA, mais de 700 jornais patrocinam programas do gênero. Na Suécia, Dinamarca e Noruega, todos os periódicos desenvolvem projetos educacionais. Na América do Sul, destacam-se Brasil, Argentina e Chile.

 

 

A educadora Gracia Lopes Lima, do Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Educação da USP, alerta para a importância de as escolas utilizarem jornais e outros meios de comunicação em seus projetos pedagógicos. “É preciso reconhecer que além da escola, tida como reduto de transmissão do conhecimento acumulado pela humanidade, os meios de comunicação de massa desempenham relevante papel na formação das pessoas. Eles são, cada vez mais, influenciadores diretos do modo de “ser-pensar-agir”, explica “Por isso, a escola é o local ideal para pensar e discutir como as informações são articuladas e a quem beneficiam”, diz.

 

Celestin Freinet

Pedagogo francês que viveu nos anos 20. Defendia e aplicava projetos como jornal escolar, troca de correspondência, trabalho em grupo, aulas-passeio. Observava em seus alunos a maneira como construíam seu conhecimento para saber a hora certa de intervir. Para o educador, ninguém avança sozinho em sua aprendizagem, a interação entre professor e aluno é fundamental. Freinet acreditava que a educação deve proporcionar ao aluno a realização de um trabalho real.

O uso de jornais na educação data dos anos 20, quando o pedagogo francês Celestin Freinet desenvolvia com seus alunos um jornal escolar para a divulgação dos textos produzidos. “Trabalhos como esse se baseiam na constatação de que é preciso promover na escola a compreensão de novas tecnologias e de diferentes linguagens presentes na vida da sociedade”, argumenta Gracia.

Para Gracia, a questão é urgente e há necessidade cada vez maior de as escolas incluírem a comunicação (presente na vida dos alunos, antes mesmo de nascerem) em seus planos pedagógicos e passarem a desenvolver, em sala de aula, atividades práticas, tanto no âmbito da promoção de leitura crítica quanto no de produção de veículos informativos.

 

Uma boa dica, segundo a educadora, é a elaboração de um jornal escolar com os exercícios necessários para que os alunos passem a entender como são produzidas as informações que lhes chegam prontas. “Discutir a pauta, isto é, fazê-los definir sozinhos as notícias que querem tornar conhecidas, redigir as mensagens numa linguagem que de fato seja deles, tirar fotos a partir de suas próprias perspectivas, podem se constituir situações que possibilitam aos alunos aprender também a ‘editar’ o mundo”, sugere. Ao longo do processo, que terá sido resultado de um trabalho experimentado coletivamente, a idéia é os alunos passarem a comparar os diversos modos de produzir informação e ler com olhos mais críticos os jornais de grande circulação.

 

De acordo com estudos do Núcleo de Pesquisa da USP, a utilização de jornais e outros meios torna as aulas mais significativas. Isso porque os veículos podem desencadear reflexões, ilustrando temas atuais que são abordados em diversas disciplinas. Os meios de comunicação podem estar incluídos entre as tantas fontes de pesquisa para o professor preparar suas aulas. Além de buscar apoio em livros, revistas, enciclopédias, ele pode também fazer uso de um trecho de novela, por exemplo, para explicar determinado assunto, seja de História, Geografia ou mesmo de Ética. “A formação de cidadãos críticos pressupõe o preparo para a reflexão diante de toda e qualquer realidade”, conclui Gracia.

 

 

 

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Grupo de Estudos Online entra “em férias”

Grupo de Estudos Online entra “em férias” para voltar reestruturado em 2011

Participantes não precisarão refazer cadastro quando Grupo for reativado. Até lá, podem seguir interagindo com os perfis do Grupo nas redes sociais

Por Giulliana Bianconi

 

Com seus 2.325 inscritos em pouco mais de três meses e meio de atividades, o Grupo de Estudos Online Educar na Cultura Digital chega ao fim do ano com um vasto e rico material acumulado nos ambientes abertos na web para interação com os participantes. A movimentação diária nos fóruns e nas redes sociais do Grupo de Estudos indica que os profissionais envolvidos diretamente com educação estão dispostos e mesmo um tanto ávidos para aprender e refletir sobre a cultura digital.

Para que essas discussões e reflexões sejam ainda mais estruturadas e interessantes em 2011, o principal espaço de interação do Grupo, a plataforma Moodle – onde está o perfil de todos os inscritos e os fóruns dos cinco temas abordados – passará por uma reestruturação. Por essa razão, as inscrições no Grupo foram suspensas no dia 01 de dezembro e a plataforma segue ativa até o próximo dia 30, quando será temporariamente fechada.

As mudanças acontecem em janeiro e fevereiro. Neste período, ao tentar acessar o Grupo de Estudos Online, os inscritos chegarão apenas à home, onde haverá informações sobre o recesso. A área interna, portanto, não estará acessível.

Com o retorno das atividades, previstas para o início de março, todas as discussões já realizadas nos fóruns do Grupo de Estudos Online estarão novamente disponíveis e os participantes não precisarão refazer o cadastro para acessar o novo ambiente.

Mediadora do Grupo de Estudos, Sônia Bertocchi explica por que a equipe decidiu pela reestruturação. “A avaliação contínua, realizada durante o processo iniciado em agosto, demonstrou a necessidade de atualização dos conteúdos, de inserção de novos temas, de aprimoramento de algumas ferramentas, de integração das contribuições feitas pelos participantes e até de otimização do layout”, diz.

Sim, os participantes do Grupo de Estudos podem esperar um ambiente com muitas melhorias em relação ao que existe hoje e com mais interação. “A inserção de novas dinâmicas de interação e de novas ações de mediação também está no planejamento”, afirma Sônia. No entanto, a proposta do Grupo – muito bem aceita pelos participantes – continuará a mesma: promover, de forma dinâmica e consistente, a troca de informações entre profissionais em diferentes níveis de aprofundamento no tema “educar na cultura digital”.

Pausa: oportunidade para ampla reflexão e novos planejamentos

A ausência temporária da plataforma “oficial” do Grupo de Estudos Online Educar na Cultura Digital não é, na opinião de Sônia Bertocchi, razão para os integrantes do Grupo se distanciarem dos temas discutidos ao longo deste segundo semestre.

Ela destaca que, após tamanha troca de informação entre os participantes, o momento de pausa na plataforma é uma oportunidade para que todos pensem sobre o que foi debatido: “Sugiro que se dediquem à reflexão do que foi discutido no Grupo e ao planejamento das ações de 2011 das escolas/instituições em que atuam, com foco no que foi abordado no Grupo de Estudos”.

Os perfis do Grupo de Estudos nas redes sociais (Twitter, Facebook, Orkut e YouTube) seguem ativos e, por meio deles, os participantes podem manter a troca de conteúdos e informações.

As novidades em relação ao novo ambiente, assim como a data de “reabertura” da plataforma, serão comunicadas pelas redes sociais e por mensagem enviada ao e-mail cadastrado pelos participantes no momento da inscrição no Grupo.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Comunidades virtuais

Comunidades virtuais é tema de bate papo

Com a participação de 70 pessoas em sala de bate-papo do EducaRede, a professora Vani Kensi, da USP, esclareceu diversos aspectos ligados ao tema

Comunidades virtuais de aprendizagem foi o assunto do bate-papo que aconteceu nesta terça-feira, dia 20, no portal EducaRede com a Vani Kenski, professora da USP e diretora da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância).

Mas o que é uma comunidade virtual? “O nome comunidade virou moda. Mas a formação de comunidades de aprendizagem depende da articulação, integração, adesão de todos a objetivos comuns de aprendizagem e colaboração para chegarmos ao ideal almejado”, ressaltou Vani, que respondeu a muitas perguntas de 70 pessoas que participaram do chat.

“Não basta o fato de se montar um curso e reunir a turma para termos uma CVA (comunidade virtual de aprendizagem). Ao contrário, a comunidade tem princípios e atitudes de colaboração e preocupação com o crescimento e o aprendizado de todos”, completou.

Quando indagada sobre como fazer os participantes se envolverem numa comunidade virtual de aprendizagem, a convidada aconselhou “é preciso que o professor (tutor, moderador) esteja atento, envie um e-mail para o “ausente” mostrando sinceramente que está sentindo falta da participação dele. Esta é uma boa maneira de “acordá-lo” para a participação”.

Para finalizar a professora Vani disse: “Todos nós que atuamos na reflexão-ação sobre CVA e aprendizagem online temos que estar mais próximos, trocando realmente nossas experiências. Este é o principio da colaboração para fazermos mais e melhor o nosso trabalho em educação.”

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)