Violência na escola

A escola é o espaço em que crianças e jovens aprendem não apenas um conjunto de conteúdos curriculares, mas também pautas de sociabilidade e comportamento cidadão. Professores devem promover o enriquecimento coletivo a partir da integração das diferenças entre os alunos.  (Tradução de Airton Dantas).  

O fenômeno da violência na escola tornou-se um tema preocupante na Argentina nas últimas décadas. O episódio ocorrido na cidade de Carmen de Patagones [sul da província de Buenos Aires, a 950 km da capital], em 2004, quando um aluno disparou indiscriminadamente contra seus companheiros, causando três mortos e cinco feridos, deu à violência na escola enorme repercussão nacional. Episódios posteriores, como o do garoto da cidade de Corrientes, que matou o colega com uma arma branca, em 2007, ou os recentes episódios trágicos ocorridos nas províncias de Misiones e Buenos Aires, recolocam o problema na pauta dos meios de comunicação.

Esse tipo de situação traumática, em que vidas são perdidas de maneira tão insólita e dilacerante, freqüentemente responde a uma situação de constante violência cotidiana. Essa violência, resultante de uma série de atitudes, condutas e situações produzidas diariamente na escola, tais como a discriminação, a marginalização, o autoritarismo etc., constitui a base do problema da violência escolar.

Não raras vezes, esse cotidiano de convivência violento, por não desencadear episódios traumáticos de agressão, é tolerado ou não é considerado problema importante, o que dificulta a possibilidade de uma convivência frutífera no âmbito escolar e estimula os jovens a incorporar determinadas condutas de violência como parte normal da vida cotidiana.

Discriminação e preconceitos como formas de violência

O Projeto para a prevenção da violência na escola de ensino médio, amplo estudo realizado em escolas de toda a Argentina (exceto as da província de Neuquén) por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Gino Germani, da Universidade de Buenos Aires, indica que mais da metade dos alunos de escolas de ensino médio rejeita declaradamente os colegas orientais, não importando se emigraram recentemente ao país ou se são cidadãos argentinos nativos, filhos de pais orientais que emigraram para a Argentina há algum tempo. Igualmente, mais da metade dos alunos rejeita os judeus.

Estas porcentagens alarmantes de atitudes xenófobas e anti-semitas são ainda mais altas quando se pergunta aos adolescentes sobre a presença de preconceitos machistas. Cerca de 75% concorda que “as mulheres que sofrem violência por parte do marido ou companheiro fizeram por merecer”, ou “o homem que parece ser mais agressivo é mais atraente”.

Esses preconceitos trazem consigo enorme carga de violência porque conduzem à rejeição de uma pessoa a partir de características que nada têm a ver com o comportamento, com as condutas ou com a forma de ser dessa pessoa. Ser rejeitado por traços físicos ou por crenças religiosas e culturais gera rancor e ressentimento. Freqüentemente, os adolescentes discriminados respondem a essa violência gratuita com outras formas de violência, que geram, por sua vez, mais rejeição, criando-se assim um clima de convivência escolar que reproduz padrões de intolerância e conflito ancorados em preconceitos característicos de nossa sociedade.

A escola tem um importante papel simbólico como o espaço em que crianças e jovens aprendem não apenas um conjunto de conteúdos curriculares, mas também pautas de sociabilidade e comportamento cidadão. Frases populares como “não lhe ensinaram nada na escola?” revelam esse lugar. É por isso que se nesse mesmo lugar reproduzem-se no tempo condutas e atitudes ligadas à intolerância e à discriminação, é muito difícil formar cidadãos que respeitem as diferenças e possam, em vez de rejeitá-las e condená-las a priori, nutrir-se delas para se desenvolver como pessoas mais plenas.

Se a escola reproduz a xenofobia, o anti-semitismo, o machismo etc., da sociedade atual, os alunos do futuro também chegarão à escola carregados desses preconceitos, por terem saído da escola sem condições de refletir sobre seus próprios preconceitos. Se, como sociedade, quisermos mudar isso, é a escola o lugar em que os adolescentes podem ser providos de elementos conceituais que lhes ofereçam a capacidade para superar as crenças ligadas à intolerância e à discriminação, promovendo estruturas que lhes permitam aprender a tolerar a incerteza e a construir a própria identidade, respeitando as diferenças.

Violência na sociedade e violência na escola

Quando os alunos discriminam um colega por ele ser judeu, coreano ou chinês; ou quando recorrem à violência para solucionar um conflito pessoal, nada mais fazem do que levar para a escola comportamentos da sociedade. A xenofobia, por exemplo, está amplamente espalhada em nossa sociedade. Na Argentina, há palavras depreciativas para os cidadãos de todos os países limítrofes: as pessoas da Bolívia não são bolivianas, são “bolitas”, os paraguaios são “paraguas” etc. Podemos notar como essa característica da nossa sociedade repercute no clima social escolar ao observar uma forma particular de violência escolar: a rejeição e a discriminação dos diferentes.

A rejeição é a única forma de maltrato mencionada abertamente por seus protagonistas: enquanto a maioria das outras ofensas e condutas violentas não são geralmente reconhecidas por parte dos adolescentes que as praticam, rejeitar os diferentes é, em contrapartida, amplamente aceito, como se fosse algo legítimo ou compreensível, o que se vincula fortemente com as altas porcentagens de alunos que expressam não aceitar colegas de outras origens, religiões ou nacionalidades.

Quando esse tipo de violência, como a discriminação por nacionalidade ou religião, é incorporado como traço característico do clima social escolar, os alunos são empurrados a reconhecer acriticamente que a violência faz parte das relações de todos os dias entre as pessoas, e a violência passa a ser vista na própria escola como algo natural. Essa naturalidade da violência é de fato observada em proporções alarmantes entre os adolescentes da escola de ensino médio, já que 75% dos alunos concordam com frases que naturalizam a violência, como “a violência faz parte da natureza humana” ou “as brigas entre jovens nos fins de semana são inevitáveis”. Naturalizar a violência na escola dificulta demais a possibilidade de trabalhar em favor de outros modos de vinculação social que permitam a integração e ofereçam ferramentas para a resolução não-violenta de conflitos.

A exposição precoce e contínua à violência no meio familiar também é um fator importante na socialização das crianças e dos jovens quanto à adoção de modalidades violentas. Pode-se supor que os alunos que afirmam viver em um meio familiar no qual as brigas e discussões são freqüentes, podem ser eles mesmos atores de manifestações de violência na escola.

O Projeto para a prevenção da violência na escola de ensino médio encontrou, de fato, diferenças notáveis nos perfis das manifestações de violência de acordo com o ambiente familiar. Em todos os casos, os perfis mais altos quanto a vítimas e protagonistas de violência revelam porcentagens mais altas em ambientes familiares marcados por muitos conflitos. Como exemplo, podemos destacar que aqueles que vivem em ambientes familiares desfavoráveis protagonizam 24 % mais atos de violência escolar do que aqueles que vivem em ambientes favoráveis.

Por conta desse mecanismo de arrasto de condutas violentas da vida social dos alunos para o clima social da escola, é necessário que as instituições educativas façam um esforço consistente para lutar contra os preconceitos que levam os alunos a internalizar a violência como algo natural, contra a qual nada se pode fazer já que faz parte da vida social.

Violência e atitudes autoritárias

A percepção de práticas autoritárias por parte dos docentes é um elemento que contribui para a criação de condutas violentas nos alunos.

Diferentes estudos demonstram que quanto maior o nível de autoritarismo dos professores e da equipe escolar, maior também são o número e a gravidade dos episódios de violência entre os próprios alunos. Isso não quer dizer que o autoritarismo produz de modo direto (no sentido de causa–efeito) as situações de violência na escola, mas sim que ele cria obstáculos ou interrompe os canais de comunicação e de mediação que fazem com que os conflitos não se expressem de forma violenta. O autoritarismo por parte dos docentes implica ausência da função socializadora da escola no que se refere à tolerância dos diferentes e à defesa dos seus direitos, criando um clima social propício às manifestações de violência.

As condutas autoritárias dos docentes promovem duplamente a violência escolar. Em primeiro lugar, quando os alunos observam que os professores impõem sua autoridade baseando-se em um conjunto de regras e atitudes percebidas como arbitrárias, atitudes que não deixam espaço para que os alunos possam expressar as razões que os levam a considerá-las desse modo; freqüentemente, por não contarem com outros canais de expressão, respondem violentamente, como forma de resistência a determinadas normas e práticas escolares. Em segundo lugar, quando os alunos recebem cotidianamente sinais autoritários por parte dos docentes, é comum que eles próprios reproduzam esta atitude na resolução de seus próprios conflitos.

Desse modo, em vez de se promover o enriquecimento coletivo a partir da integração das diferenças entre os alunos, estas diferenças podem conduzir a situações de violência quando os jovens resolvem suas diferenças reproduzindo condutas autoritárias observadas nos professores.

A resolução autoritária de um conflito por parte do docente, ao ignorar a solução coletiva que, pelo intercâmbio e pela explicação, inclui o aluno ao oferecer-lhe participação no resultado dessa resolução e o torna parte dela, fomenta as resoluções individuais dos conflitos cotidianos e dificulta a aprendizagem da integração não violenta das diferenças.

As condutas e atitudes autoritárias dos docentes, tanto no ensino curricular como no tratamento das questões de conduta, promovem o desenvolvimento de atitudes individualistas nos alunos, cerceando o crescimento dos espaços de atividade e reflexão coletivos, espaços que, além de facilitar o processo de ensino e aprendizagem, facilitam também a integração dos alunos entre si ao promover um clima social de intercâmbio e de participação que, por sua vez, ajuda desenvolver a atividade curricular em sala de aula.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

TV Web encerra temporada destacando as gerações interativas

TV Web Educar na Cultura Digital destaca as gerações interativas

Quinto e último programa deste ano traz os convidados Sidnei Oliveira e Ivelise Fortim para um bate-papo sobre os desafios de
educar crianças e jovens da era digital


Iniciada em setembro deste ano, a série de programas “Educar na Cultura Digital” na TV Web Moderna

 chega ao fim da temporada 2010 na próxima quarta-feira, 01 de dezembro, destacando o tema “Gerações Interativas: onde está o desafio ao educá-las?”.

O quinto programa mantém a linha dos quatro anteriores e aborda temas discutidos no Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital. A transmissão online ao vivo acontece a partir das 16h, e canais para interação (veja no box abaixo como interagir) estarão abertos para que os participantes do Grupo e os interessados pelo tema possam enviar comentários e perguntas. A mediadora pedagógica do Grupo de Estudos Mílada Gonçalves conduzirá o bate-papo com os convidados Ivelise Fortim e Sidnei Oliveira.

Psicóloga e mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, Ivelise pesquisa há mais de 10 anos a tecnologia nas relações humanas. Agora, para a tese de doutorado que pretende desenvolver, foca o tema “Uso Patológico da Internet”. Junto ao consultor Sidnei Oliveira, especialista em “Conflitos de Gerações” e “Geração Y”, discutirá alguns pontos-chave para a educação das gerações interativas, como “o que os jovens destas gerações, sempre conectados e acompanhados de seus apetrechos digitais, buscam aprender?” e “que contexto social produz essas gerações?”.

A mediadora Mílada Gonçalves destaca que, embora novos arranjos sociais tragam novas realidades e isso implique outro contexto de estrutura familiar, de consumo infantil e mesmo outro contexto tecnológico, “as crianças continuam sendo crianças”. Como conduzir a formação delas, portanto, continua a ser questão primordial.

A importância de refletir sobre a formação envolve também discussões sobre como potencializar as capacidades e competências que estão relacionadas de forma intrínseca aos hábitos – grande parte deles digitais – dos representantes das gerações interativas. E envolve ainda pensar sobre como administrar conflitos de características das denominadas gerações Y,  X,  Z, que já convivem em ambientes corporativos. Com este assunto, o convidado do programa Sidnei Oliveira está bastante familiarizado. Não raramente é chamado em empresas para indicar formas de se superar o “gap” entre as diferentes gerações. Sim, o que se percebe é que lidar com as gerações interativas não é desafio somente para educadores.

 

 


Vamos interagir?

Desde o seu lançamento, o programa TV Web Educar na Cultura Digital preza pela interação real com o público, o qual tem respondido com bastante participação aos canais abertos para conversa “direta” com os convidados durante a transmissão.

Nesta quarta-feira, mais uma vez teremos o chat, que pode ser acessado na mesma página do vídeo (que fica à direita e ao alto da caixa de vídeo), e a hashtag #ECDigital_TV, a qual deve ser utilizada no Twitter pelos que quiserem participar do programa. As perguntas podem também ser direcionadas para os perfis

@educultdigital e @educaredebrasil.

Todos os programas têm a gravação disponibilizada posteriormente, mas é imensa a troca de informação que ocorre nesses espaços virtuais enquanto o bate-papo entre a mediadora e os convidados acontece, como pôde ser visto nas edições anteriores da TV Web.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

RPG na educação

RPG torna a aula uma aventura

Criado na década de 70, nos EUA, o “Roleplaying Game” (jogo de interpretação) vem sendo usado por educadores em diversas disciplinas. O 1º Simpósio Brasileiro de RPG e Educação, marcado para os dias 24, 25 e 26 de maio, promete trazer mesas de
debate sobre o tema e experiências bem sucedidas

Por Mirna Feitoza Pereira

Que tal trocar as aulas expositivas por um jogo que dá asas à imaginação? É exatamente isso que estão fazendo professores de algumas escolas no Brasil. Os resultados apontados são para lá de satisfatórios: motivação para participar das aulas, assimilação dos conteúdos programáticos, integração do grupo, melhora da auto-estima, entre outros benefícios. O jogo chama-se RPG, sigla em inglês de “Roleplaying Game”, que, se fosse traduzido para o português, ganharia um nome como “Jogo de Representação” ou “Jogo de Interpretação”. Se fosse, pois o jogo manteve por aqui o mesmo título que recebeu nos Estados Unidos, país em que foi criado nos anos 70.

Trata-se de um jogo de contar histórias no qual cada participante atua como personagem, como no teatro. Só que não é preciso cenário, figurino nem palco, muito menos uma história com final definido. É assim: sentados em volta de uma mesa, os jogadores imaginam e relatam a ação de seus personagens a partir de situações expostas por um jogador que atua como mestre. A cada solução apresentada, o mestre propõe uma nova situação, e os participantes imaginam outras ações e assim vão decidindo os rumos da aventura. Ou seja, nesse jogo de contar histórias, o desenvolvimento da narrativa depende da imaginação dos participantes. E o melhor de tudo: RPG não envolve disputa. Todos ganham e se divertem ao criar uma história coletivamente.

O RPG está entrando na sala de aula por iniciativas esparsas de professores que jogam há algum tempo. Só que essas experiências estão começando a tomar corpo no Brasil. Prova disso é que este mês acontece o 1o. Simpósio Brasileiro de RPG e Educação, nos dias 24, 25 e 26, dentro da programação do 10o. Encontro Internacional de RPG, em São Paulo. O evento é a principal novidade desse encontro de jogadores de RPG que está completando dez anos de realização.

O simpósio – que vai reunir RPGistas e profissionais da educação, literatura e da psicologia que aplicam o jogo em atividades educativas – surgiu da demanda crescente no país de experiências em sala de aula e trabalhos acadêmicos que demonstravam a eficácia do RPG como ferramenta pedagógica. Segundo Douglas Quinta Reis, da Livraria Devir, um dos idealizadores do simpósio e um dos principais divulgadores desse jogo no Brasil, há pelos menos seis edições, o encontro anual reserva espaço para oficinas de RPG direcionadas a crianças e adolescentes e oferece palestras sobre como aplicar RPG na sala de aula, além de mesas com acadêmicos que discutem o potencial do jogo como narrativa.

Ao montar a programação do encontro deste ano, os organizadores verificaram que a quantidade de teses sobre RPG e de experiências com o jogo em sala de aula havia crescido tanto que merecia um simpósio só para discutir as contribuições do RPG à educação. “Estávamos certos. Desde que começamos a divulgar o evento, não passamos um só dia sem receber um e-mails de professores de todo o país que estão usando ou escrevendo algum trabalho sobre RPG, e aplicado às mais diversas disciplinas”, comemora Douglas.

Alunos criam fichas

A professora e RPGgista Rosangela Basilli Mendes Valente, da Escola Municipal Dom Pedro I, zona norte de São Paulo, é uma das educadoras que vai expor sua experiência com RPG em sala de aula no simpósio. Ela começou a adaptar as técnicas do jogo aos poucos, trabalhando o tema “família” com uma turma de 2a. série, há quatro anos. Rosangela propôs às crianças imaginar que todos eles viviam em clãs. “Pude destacar o senso de solidariedade e responsabilidade necessárias à vida social e ainda mostrei a elas uma forma milenar de organização cultural. Tudo de maneira lúdica”, conta.

No ano seguinte, com a turma já na 3a. série, Rosangela trabalhou os adjetivos da Língua Portuguesa aplicando uma técnica mais complexa: a criação de fichas para os personagens (no RPG, cada personagem tem uma ficha com várias habilidades. A cada jogada, eles adquirem atributos que o caracterizam no jogo). Os alunos de Rosangela imaginaram um personagem, inventaram uma história para ele e o desenharam em uma folha, escrevendo nela as qualidades de cada um: fadas, guerreiros, arautos do rei, high landers, jedais.

Este ano, ao começar os trabalhos com uma turma de 4a. série, Rosangela percebeu que muitas crianças ainda tinham dificuldades para ler e escrever, e por isso se sentiam inferiores aos colegas que já dominavam a leitura e a escrita. O desafio era resgatar a auto-estima desses alunos. Para isso, ela aplicou a ficha dos personagens, dessa vez incrementada com uma lista repleta de atributos, como sabedoria, raciocínio, força de vontade, respeito ao próximo, auto-estima, honra, etiqueta, higiene.

Cada vez que o aluno respondia uma questão corretamente ou tinha um comportamento que correspondia a um atributo da ficha, o personagem dele ganhava um ponto no quesito equivalente à ação de seu criador. “Hoje ainda temos crianças com dificuldades de leitura e de escrita, mas toda a turma está muito motivada a participar das aulas. Os alunos se esmeram para conquistar pontos em todos os quesitos, e a auto-estima deles aumentou muito, porque se sentem contribuindo com as aulas. Até a higiene da classe melhorou. Não há uma carteira riscada nem papel no chão em minha sala”, afirma a professora.

História e música

Na escola municipal Barão de Santa Margarida, zona oeste do Rio de Janeiro, o RPG foi aplicado no ensino de História por meio de oficinas direcionadas aos alunos da 6a. e 8a. séries. O mestre era o professor de educação musical e RPGista Marcelo Telles. Ele adaptou a história do Descobrimento do Brasil e da Primeira Guerra Mundial para RPG, “mestrando” as situações das aventuras para um grupo de alunos da classe, enquanto os demais assistiam a partida. “A cada oficina, a dinâmica ia melhorando, e vários alunos que ficavam apenas assistindo, tornaram-se membros da frota de Cabral, por iniciativa deles. Eu apenas tive que adaptar na hora. Eles deixaram, espontaneamente de ser público para se tornarem jogadores e participantes ativos da oficina”, relata Marcelo.

Nessa escola, o RPG proporcionou uma experiência muito bem-vinda à educação que se pretende alcançar nos dias hoje: a interdisciplinaridade. Para organizar as oficinas, Marcelo trabalhou em conjunto com os professores de História da escola, assim que os conteúdos sobre os temas envolvidos foram trabalhados em sala de aula. As partidas de RPG funcionaram como ponto culminante para compreensão das matérias.

Projeto pedagógico

Em Juiz de Fora (MG), no colégio Satélite, uma cooperativa formada pelos pais dos alunos, o RPG não é mais apenas uma iniciativa localizada de um professor jogador. Tornou-se um dos projetos educacionais da escola. Segundo a diretora da escola, a pedagoga e psicopedagoga Lais Helena Gouveia Pires – que vai relatar a experiência de sua escola no simpósio de RPG e Educação -, cabe ao professor decidir se quer ou não usar a ferramenta. Lá, o formato do jogo não foi alterado, o RPG é aplicado em forma de partida. Os professores apenas adaptam os conteúdos programáticos às situações do jogo.

“Percebemos mais aproximação humana e maior crescimento na confiança de um aluno com o outro com a aplicação do RPG. Os trabalhos em equipe também ganham força, pois, nesse jogo, a conquista é do grupo”, conta Lais. Como o jogador de RPG precisa dominar uma gama de informações para imaginar ações lógicas de seus personagens, houve histórias de RPG no colégio Satélite que levaram os alunos a estudar, espontaneamente, temas da Geografia, História, Artes e demais disciplinas para dar continuidade aos jogos.

Outra experiência de RPG aplicado à educação já sistematizada é a organizada por Alessandro Vieira dos Reis, em Florianópolis. Mestre de RPG e estudante do 7o. período do curso de Psicologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Alessandro desenvolveu a FLER (Ferramenta Lúdica de Ensino por Representação), após trabalhar com recursos do RPG em uma escola pública de Florianópolis. Essa experiência rendeu ao jovem uma bolsa de estudos na universidade para um projeto de extensão no qual trabalha com RPG em escolas escolas públicas e com crianças de comunidades de baixa renda de sua cidade.

A aplicação da FLER não substitui as aulas convencionais. Ela é usada como uma didática alternativa e complementar aos demais métodos da escola. O uso da ferramenta também dispensa o treinamento dos professores, pois é um mestre de RPG quem ministra o jogo em classe. “Este, sim, precisa ser qualificado”, afirma Alessandro. Para implementar a FLER na sala de aula, o estudante de Psicologia introduziu no jogo novas categorias de participantes. Além do mestre e do jogador, há o “consultor”, que permite ao professor participar da história, o ator, responsável pela dramaticidade da aventura, e o “auxiliar”, que torna possível a mais de um aluno interpretar o mesmo personagem. “Isso faz com que todos participem, evitando a formação de platéias passivas”, ensina Alessandro.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Qualidade da educação em debate

Notícias do Fórum Mundial de Educação

Por Paloma Varón, de Porto Alegre

Quarta, 22/01/03 – A ameaça da mercantilização da educação
O GATS, o acordo geral de comércio e serviços da OMC (Organização Mundial de Comércio) e a necessidade de se unir esforços para lutar contra esse acordo, que representa a mercantilização da educação, foram o mote da mesa “Educação, movimentos sociais e lutas contra a mundialização globalizante”, realizada na Faculdade de Educação da UFRGS. Louis Weber, professor e presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação da França, disse que à OMC interessa a escola aberta ao livre-mercado e a lógica das multinacionais. “Não podemos permitir que a escola seja vista como uma empresa. Dentro das reformas educacionais que estão acontecendo na Europa, por exemplo, está a gestão de escolas como empresas, o que é um absurdo”, disse. Felipe Maia, da UNE (União Nacional dos Estudantes), incitou a platéia, cheia de estudantes universitários, a ter um papel de resistência ativa ao neoliberalismo, o que inclui formular e praticar políticas alternativas, organizar a participação política popular. “A mercantilização da educação também acontece quando os programas dos currículos universitários estão mais voltados para o mercado do que para buscar soluções para os problemas do nosso país”, disse. Maia pediu que as pessoas se movam contra a inclusão da educação no GATS. Alessio Surian, educador italiano, diz que, na Itália, a tendência geral é de privatizar o conhecimento. “Não entendo como um país que apresenta crescimento econômico diz não ter dinheiro para investir na educação, mas acaba investindo na educação privada”, provocou, lembrando que o GATS é uma ameaça global. “Na Europa, 12 de março é o dia da mobilização geral contra o acordo”, conta Surian.

Quarta, 22/01/03 – Charlot provoca platéia com questões sobre educação
O professor e pesquisador francês Bernard Charlot foi talvez o palestrante mais aplaudido nas conferências do II FME. Na mesa do dia 22, com o tema “Projeto político e projeto pedagógico”, ele falou sobre as contradições entre os discursos e as práticas – que tambem são políticas – na sala de aula. Os educadores presentes foram provocados durante toda a sua exposição com questões como: “Há professores que pedem aos alunos que memorizem frases com palavras que eles desconhecem. Essa prática corresponde a sua concepção de democracia e de cidadania?” Para ele, tanto na França como no Brasil não existe coerência entre os projetos políticos e a prática. “A escola não é o programa oficial, mas o que os alunos estão aprendendo”. Ele defendeu a educação em ciclos, que já existe na França há dez anos, como sendo uma prática mais justa e democrática. “Não é com um milagre que vamos mudar a escola. É com o trabalho paciente dos professores”, afirmou. Para concluir, Charlot falou da necessidade de se enfrentar as tensões que existem no processo educacional e em cada professor para se transformar a escola. “Nós devemos enfrentar as nossas contradições para construir essa escola democrática que queremos. Não vai ser fácil, mas essa é a luta que vale a pena. Estamos aqui reunidos para transformar a realidade e a escola”, conclui, sob fortes e entusiasmados aplausos.

Terça, 21/01/03 – ONGs têm papel importante na educação
A articulação entre movimentos sociais e educação foi o tema abordado pela coordenadora da comissão de Educação da ATTAC (Associação pelas Tributações Financeiras a Favor do Cidadão), a educadora francesa Regine Tassi. Ela disse que as ONGs são agentes significativos na educação de certos países do sul. “Essas instituições são portadoras de inovações pedagógicas e podem ajudar na mobilização”, afirmou. Para ela, em países que adotam as bases neoliberais do Consenso de Washington, somente com a atuação de ONGs a situação educacional pode ser transformada.

Terça, 21/01/03 – São Paulo quer sediar 3º FME
A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, entregou hoje de manhã o convite para São Paulo sediar a terceira edição do Fórum Mundial de Educação. Eliezer Pacheco, da organização do Fórum, recebeu o convite das mãos da prefeita. Em 2004, a capital paulista completa 450 anos e o FME entraria como parte das comemorações da data. “Não é todo dia que se faz 450 anos e São Paulo tem apresentado grandes avanços na área”, disse Marta.

Segunda, 20/01/03 – Todos têm direito à educação
O segundo debate realizado pelo Cenpec foi sobre o direito à escolarização básica com qualidade para todos. Foram mostradas as intervenções realizadas pela ONG na Febem, em São Paulo, e o acompanhamento de professores e técnicos das diretorias de ensino da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo nos projetos de aceleração escolar. A educadora Edna Aoki falou do projeto “Aprendendo Sempre”, de classes de aceleração, que envolveu dezenas de escolas da capital paulista. O sociólogo Francisco Dias contou como foi implementada a proposta curricular nas 19 Unidades de Internação Provisória da Febem, onde as crianças e os adolescentes passam de um a 45 dias. A experiência foi tão satisfatória que, para este ano, há a proposta de o projeto se estendem para as unidades de internação, numa demanda que nasceu da própria instituição. ‘Onde há um ser humano, a educação é possível.” Partindo desse pressuposto, Dias ajudou a elaborar uma proposta curricular para garantir aos meninos da Febem o direito à educação, assegurado no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Segunda, 20/01/03 – Educadores defendem a educação integral no 2º FME
O tema da conferência “A cidade e a educação” foi também debatido nas mesas promovidas pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária). Com o tema “Educação Integral: articulação de espaços e projetos de aprendizagem”, foi aberto o debate da tarde. Em todas as falas ficou claro que a escola sozinha não é capaz de dar conta das demandas da sociedade atual, é necessário haver outros espaços de educação, a partir do conceito de unir cidade e educação. “A educação integral pode ser viabilizada com a articulação de escola e comunidade. O conceito de cidade educadora passa pela necessidade de reconhecê-la como sujeito e espaço de ensino-aprendizagem”, afirmou a coordenadora da mesa, Maria do Carmo Brant de Carvalho, do Cenpec. Eduardo Marino, da Fundação Vitae, lembrou que o conceito de educação integral vem desde o educador baiano Anísio Teixeira e frisou a importância de haver articulação entre escolas e iniciativas da sociedade para proporcionar a educação integral, com espaço para outras atividades, incluindo as de lazer. Nilton Fischer, consultor técnico do programa Crer para Ver (Fundação Abrinq e Natura), acredita que a comunidade deve intervir nas políticas públicas da educação, mas que as demandas devem partir das escolas. Isa Guará, do Cenpec, ressaltou que o direito à educação integral está na legislação e que uma grande reivindicação para a melhoria da qualidade do ensino público é a ampliação da carga horária das aulas. Para ela, a educação deve ser integral, mas não necessariamente na escola. “Há experiências desastrosas, com escolas burocráticas em período integral. É preciso diversificar as atividades para que os alunos sintam prazer”, disse. “Além disso, deve haver ações complementares à escola como estratégia de superação do fracasso e da evasão escolar”, afirmou. Tais ações, geralmente executadas por ONGs e movimentos sociais, geram também tensões entre a escola e o terceiro setor. “Nós sabemos da incompletude das escolas e também das ONGs, mas, se queremos uma educação integral, temos que achar o ponto de convergência entre elas”, defende. Algumas possibilidades, segundo ela, são estabelecer uma parceria efetiva com ação planejada, valorizar a escola e abri-la para a contribuição da comunidade e executar formação conjunta de professores.

Segunda, 20/01/03 – Cidade e Educação é tema da 1ª Conferência
A cidade e a educação foi o tema da 1ª conferência, realizada com a presença dos educadores Marina Subirats, presidente da Comissão de Educação e Cultura da Prefeitura de Barcelona (Espanha), de Ramón Moncada, da Colômbia, e Steve Stoer, de Portugal. A coordenação da mesa foi feita por Pablo Gentili, coordenador do Observatório Latino-americano de Políticas Educacionais (Brasil). Marina destacou a importância de outros agentes socias no provesso educativo. “A escola não pode com tudo”, disse. Para ela, a escola está extremamente burocrática, não é um espaço para se ensinar valores, hábitos, pois só privilegia o saber científico. Ela propõe um tipo de escola que rompa a divisão entre o aprendizado teórico e o prático. Para ela, a cidade e a comunidade devem atuar em conjunto com a escola para garantir que os princípios éticos sejam vivenciados integralmente. Além da conferência da manhã, durante todo dia, acontecem diversas atividades na cidade dentro da programação simultânea. As atividades completas do Fórum Mundial de Educação estão disponíveis na página www.forummundialdeeducacao.com.br

Segunda, 20/01/03 – Brasil e Argentina iniciam intercâmbio na Educação
O ministro da Educação, Cristovam Buarque, e o prefeito de Buenos Aires (Argentina), Anibal Ibarra, acertaram hoje, em Porto Alegre (RS), no FME, o início de um intercâmbio de professores para o ensino das línguas Portuguesa e Espanhola nas escolas públicas de Ensino Médio. A convite de Anibal Ibarra, o ministro Buarque vai em abril a Buenos Aires detalhar o formato do intercâmbio, sua duração e o número de professores argentinos que irão ao Brasil e vice-versa. No mesmo encontro, o prefeito Ibarra e o secretário de Educação da Província de Buenos Aires, Daniel Filmius, informaram ao ministro que há dois anos instituíram o Programa Bolsa-Escola nos moldes desenvolvidos por Cristovam Buarque no Distrito Federal entre 1995 e 1998, no valor de um salário mínimo. A novidade do Bolsa-Escola implementado por Ibarra e Filmius é que ele é destinado aos alunos das escolas públicas do Ensino Médio, no qual a evasão é muito alta. O primeiro filho matriculado, explicou o prefeito, recebe do governo 50 pesos, e o segundo filho, 25 pesos. (Ionice Lorenzoni, do MEC)

Domingo, 19/01/03 – Ministro quer criar proposta de educação para o campo
O ministro da Educação, Cristovam Buarque, afirmou, em entrevista coletiva concedida à imprensa na abertura oficial do Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, que o governo vai criar uma proposta de educação para o campo. “Não dá para reproduzir lá os mesmos modelos das grandes cidades, a realidade do campo é outra e tem que ser respeitada”, disse o ministro.
Buarque defendeu também que o combate ao analfabetismo seja feito por meio de parcerias entre os governos, as universidades e a rede pública de ensino. “Mas qualquer cidadão que saiba ler e escrever e queira ensinar será aceito”, completou. A idéia é de que todos devem se unir para erradicar o analfabetismo.
Questionado sobre o fim do Enem e do Provão, Buarque afirmou que os sistemas de avaliação continuarão e elogiou o ex-ministro Paulo Renato de Souza por ter implantado os sistemas atuais. “Eu sou tão a favor da avaliação que acho que o sistema de avaliação tem de ser avaliado”, disse.
O Bolsa-escola também continua e deve subir para R$ 65, sendo R$ 45 do governo federal, R$ 10 do Estado e R$ 10 do município. Como Bolsa-Escola e uma escola mais agradável, o ministro acha que dá para erradicar o trabalho infantil (incluindo a prostituição), uma das metas do governo Lula.

Domingo, 19/01/03 – 70 países participam do evento
Cerca de 20 mil educadores de 70 países e representantes de mais de mil entidades ligadas à Educação participam do 2º Fórum Mundial de Educação, de domingo, 19, a quarta-feira, 22, em Porto Alegre (RS). Ministros de quatro países, Brasil, Espanha, São Tomé e Príncipe e Bélgica, também estão no evento, que este ano traz como tema Educação e Transformação: a educação pública na construção de um outro mundo possível.
O Fórum Mundial da Educação nasceu da articulação de educadores, estudantes, entidades sindicais, movimentos sociais, governos, organizações não-governamentais, universidades e escolas. Os mais de 200 conferencistas e debatedores convidados representam todos os continentes, garantindo diversidade de gênero, etnia, raça, culturas e representatividade social, política e científica. De acordo com a Unesco, há no mundo 875 milhões de analfabetos, dos quais 63,7 são mulheres; e há 110 milhões de crianças de seis a 12 anos sem escola. Transformar essa realidade e implementar políticas públicas são objetivos do Fórum.
O Comitê de Organização do Fórum Mundial de Educação é composto por representantes de mais de 90 entidades de representação local, regional, nacional e internacional.
No ano passado, o Primeiro Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, aprovou a Carta do Fórum, ressaltando o conceito da Educação pública como direito social inalienável.

O site indicado neste texto foi visitado em 20/01/2003

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Prepare-se para o FME-SP


Fórum define eixos temáticos

Por Paloma Varón

A cidade de São Paulo entrou em 2004 com muitas perspectivas. Além da comemoração do seu 450º aniversário no próximo dia 25, a cidade se prepara para sediar o Fórum Mundial de Educação, de 1º a 4 de abril.

No final do ano passado, foram definidos os dez eixos temáticos do FME, que tem como tema geral “Educação Cidadã para uma Cidade Educadora”. Os temas foram definidos em reuniões semanais com o Comitê Gestor que é composto por organizações governamentais e não-governamentais, sindicatos e associações.

A partir da visão de que a educação pública e de qualidade é um direito inalienável do cidadão, o FME procura constituir-se numa plataforma mundial de educação. As discussões propostas valorizam o papel educador das cidades, mas os temas discutidos variam. Mídia, a pedagogia de Paulo Freire e ensino superior são alguns dos eixos.

A abertura do Fórum será no dia 1º de abril de 2004, no Estádio do Pacaembu, com um ato político e cultural. As conferências serão nos dias 2, 3 e 4, assim como os painéis, mesas-redondas, eventos, palestras, oficinas e debates. É esperado um público de cerca de 60 mil pessoas nos quatro dias do evento.

Haverá também encontros dos autores de trabalhos inscritos por temática, coordenados por uma entidade componente do Comitê Organizador do FME-SP. Os GTs poderão construir textos-síntese dos debates ocorridos e divulgar no site do FME-SP.

A data para inscrição de trabalhos ainda não está confirmada. Interessados podem ligar para o Instituto Paulo Freire para obter informações: (11) 3021-0670.

Confira os eixos temáticos do FME. Para conhecer as ementas de cada eixo e os subtemas, veja a parte de programação do site oficial do evento: http://www.forummundialeducacao.org.

Eixo temático 1: Educação cidadã como direito social e humano
Eixo Temático 2: Paulo Freire: Educação cidadã como prática da liberdade
Eixo Temático 3: Cidade Educadora: Identidade Cultural e Cidadania
Eixo Temático 4: Cidade Educadora e as desigualdades sociais
Eixo Temático 5: Ambiente e educação para a sustentabilidade
Eixo Temático 6: A produção e o acesso ao conhecimento
Eixo Temático 7: A Mídia na Cidade Educadora
Eixo Temático 8: Política, financiamento e gestão educacional nas Cidades Educadoras
Eixo Temático 9: Educação e as políticas públicas para a infância
Eixo Temático 10: O papel social do ensino superior na perspectiva de uma educação cidadã

O site indicado neste texto foi visitado em 11/03/2004

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

A água é um dos pontos mais debatidos desde a realização da Cúpula de Johanesburgo (África do Sul), em 2002, quando foram criaradas as Metas do Milênio. Trata-se de uma proposta de reduzir pela metade a falta de acesso à água potável  (hoje, 1,4 bilhão de pessoas) e a um sistema básico de saneamento (2,3 bilhões) até o ano 2015. Em março de 2003, o 3o Fórum Mundial da Água, no Japão, e o Fórum Social das Águas, em Cotia, (SP) discutiram várias ações que podem decidir o futuro da água.

Osesp dá curso para professores

Música, maestro!

 A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo oferece cursos de formação continuada para professores, com o objetivo de estimular o ensino da disciplina nas escolas

Por Rosane Storto

Num país como o Brasil, onde coexistem tantas sonoridades e uma grande diversidade de ritmos e melodias, a disciplina Educação Musical deixou de ser obrigatória no currículo da rede pública de ensino. Ela foi incorporada às aulas de Artes. Mas, em São Paulo, por exemplo, apenas 15% dos professores da área desenvolvem trabalhos de educação musical em sala de aula. Os dados são de uma pesquisa realizada pela Coordenação de Programas Educacionais da  Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (CPE – Osesp).

Com base nesse levantamento, a Osesp criou em 2001 o Programa Formação de Professores, com cursos de formação continuada em Educação Musical, que parecem contribuir para mudar essa realidade em algumas escolas.

O projeto foi implantado inicialmente em parceria com as Diretorias de Ensino Norte 1 e Centro, da Secretaria de Estado da Educação. Segundo a coordenadora do programa, Susana Ester Krüger, a experiência permitiu identificar necessidades e interesses dos professores. A partir deste curso-piloto, a coordenação pôde preparar uma estrutura capaz de atender profissionais que atuam em diferentes níveis de ensino.

Além do curso, a CPE-Osesp irá promover, em setembro, o I Seminário Osesp de Educação Musical/III Encontro ABEM – Região Sudeste. Este evento têm como objetivo divulgar e aperfeiçoar o ensino de música nas escolas.

Pesquisa

Realizada em 149 escolas públicas das duas Diretorias de Ensino da rede estadual, a pesquisa da CPE – Osesp teve como objetivo investigar a atual situação da educação musical em escolas estaduais na cidade de São Paulo. Mostrou que apenas 33% dos professores participavam de cursos de educação musical e que a grande maioria utilizava a música para trabalhar outra disciplina.

A pesquisa mostrou também que a maioria dos educadores que trabalha com música em sala de aula não tem formação musical. “São professores de Artes ou outras disciplinas e de 1ª a 4ª séries”, afirma Susana. O curso da CPE-Osesp é voltado exatamente a esses professores que querem utilizar a música, mas não têm nenhuma ou têm pouca formação. “É um curso de capacitação musical para professores, com o objetivo levar a música da Orquestra às salas de aulas, em um rico intercâmbio com as canções que as crianças escutam no seu dia-a-dia”, explica.

Os cursos, desenvolvidos por especialistas em Educação Musical, têm oito módulos, que abordam temas como os processos de ensino e de aprendizagem musical nos diferentes aspectos, tais como execução, apreciação e composição.

Os temas trabalhados são muitos: relações entre cultura, mídia e adolescência; parâmetros que facilitam a realização de atividades vocais e de grupos instrumentais; os tópicos teórico-práticos para a educação musical em sala de aula; abordagens críticas sobre a interdisciplinaridade da música com outras artes; recursos para o planejamento do ensino e avaliação musicais; e elaboração de material didático.

De acordo com Susana, os cursos são rigorosamente avaliados pelos participantes e pelos docentes. Desde o primeiro curso, em 2001, o número de participantes dobrou: de 30 professores duplicou para 60 em 2003. “Tivemos de fazer uma reestruturação, dividindo as turmas: professores da Primeira Infância e Educação Infantil; professores do Ensino Fundamental; e professores de Arte.”

Paralelamente aos cursos, acontece também o Ensaio Geral Aberto, que tem como objetivo fazer com que os professores participantes levem seus alunos aos concertos ou ensaios abertos da Osesp, na Sala São Paulo. Os ensaios recebem crianças de sete a dez anos, pré-adolescentes e adolescentes e atingiram, em 2002, mais de cinco mil alunos de 50 escolas.

Susana diz que a procura pelos ensaios é tão grande que, para este ano, já não há mais vagas e a lista de espera é extensa. As crianças adoram o programa e muitas fazem desenhos após assistir às apresentações, mostrando suas impressões acerca do que viram e ouviram.

Cadê os instrumentos?

Participar do curso da Osesp é uma experiência única, de acordo com os professores da rede estadual de ensino Luís Carlos Tozetto e Mariza Aparecida Naim Elaur. Professores de Artes do curso de 2001, eles já estão aplicando os conhecimentos obtidos em sala de aula e afirmam ter conseguido excelentes resultados nos últimos anos.

Para Tozetto, da EE João Sirineu, na Brasilândia (zona Norte de São Paulo), o curso mostrou que é possível trabalhar com música em sala de aula sem instrumentos musicais. “Foi muito bom participar do curso que proporciona um crescimento tanto profissional quanto pessoal. Hoje capacito professores de 1ª a 4ª séries para fazer o trabalho também, graças ao incentivo da Osesp”, afirma.

Tozetto conta que aprendeu a trabalhar com seus alunos e a aproximá-los a música erudita. “Sempre levo a disciplina para as aulas. No início, as crianças reclamavam um pouco do estilo musical, mas aprenderam a apreciar a música erudita”, afirma. Seus alunos foram levados ao ensaio aberto e ficaram fascinados com a apresentação. Segundo ele, a escola irá novamente neste ano, pois muitos pedem para voltar.

A professora Mariza Aparecida Naim Elaur chegou ao curso por meio de outro professor da escola onde leciona, a EE Professor Antonio Firmino, na Mooca (zona Leste de SP). Professora de Artes com habilitação em Música, Mariza já desenvolvia atividades musicais com seus alunos, que foram intensificadas após ingressar no curso da Osesp. “O curso é maravilhoso, os instrutores são excelentes e nos ensinam a aproveitar o potencial do aluno, a trabalhar a música erudita de forma diferenciada”, observa.

Segundo Mariza, o curso possibilita que os professores aprendam como envolver seus alunos nas atividades em sala de aula. A escola onde Mariza leciona recebeu músicos da Osesp em 2002 e os alunos, segundo ela, ficaram fascinados com o trabalho desses músicos e conversaram muito com eles sobre a música erudita. No final de 2003, a professora levará alguns alunos para participar de um ensaio aberto da orquestra.

Desenvolvido pela Coordenadoria de Programas Educacionais (CPE-Osesp), o curso é aberto também às escolas particulares. Neste caso, a diferença fica no valor a ser pago pelo professor. Os educadores da rede pública pagam uma taxa mínima, de manutenção do curso. “Inicialmente, não cobrávamos nada dos professores da rede pública, mas temos um custo alto, por isso cobramos uma pequena taxa que cobre os custos de uma apostila e parte do ingresso para um concerto da Osesp”, observa Susana.

Maiores informações sobre os Cursos de Formação Continuada em Educação Musical para Professores e sobre o I Seminário Osesp de Educação Musical podem ser obtidas na CPE-Osesp pelo telefone (11) 3351-8229, pelo e-mail ass.cpe@osesp.art.br  e no site da Osesp: www.osesp.art.br.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 21/08/2003

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


 

Muitos sonhos, quatro projetos e um só destino: Madri

Muitos sonhos, quatro projetos
e um só destino: Madri


EducaRede
– Como foi o encontro com o professor parceiro aí na Espanha? Os alunos enviaram presentinhos uns aos outros?

Alair – Minha parceira é a Maria, uma professora do Chile. Já havíamos nos dado bem por e-mail. Pessoalmente foi ainda melhor. Ela é uma pessoa maravilhosa e muito colaborativa. Trocamos presentes, tanto nós professoras como nossos alunos, que também se falam pelo msn. Conhecemos, inclusive, a família de uma aluna chilena pela webcam.

Antonia Lucélia – O nosso grupo começou com os contatos agora. Houve um problema de comunicação.

Gládis – O encontro foi emocionante! Quando estávamos chegando ao hotel, ainda na calçada, havia um grupo de pessoas e uma mulher veio ao nosso encontro perguntando quem era a Gládis. Eu me apresentei e ela chamou o Luis Angel, meu professor parceiro que estava junto ao grupo. Nos abraçamos como velhos amigos. Antes do encontro presencial, nos comunicávamos por e-mail e msn. Estabelecemos de imediato uma parceria muito grande, concordamos nas idéias e nos ajudamos nas dificuldades.

As professoras Alair Betti Della Coletta (SP), Antonia Lucélia dos Santos Mariano (CE), Gládis Leal dos Santos (SC) e Ingrid Kuchenbecker Broch (RS) estão curtindo um prêmio merecido. Desde o dia 24 de outubro, as vencedoras do I Concurso Internacional EducaRede passeiam pelas ruas de Madri, Toledo e Salamanca e já participaram do IV Congresso EducaRede, realizado na capital espanhola entre os dias 29 e 31 desse mês. O Portal entrevistou as professoras para saber como foi para elas conhecer presencialmente o professor parceiro, de outro país vencedor do Concurso, com quem realizam um projeto colaborativo. Confira a entrevista:

Ingrid – Foi um encontro muito agradável e tranqüilo. Nós já havíamos estabelecido um vínculo virtual. O encontro presencial reforçou a nossa parceria com vistas a desenvolver um projeto colaborativo. Parece que nos conhecíamos fazia muito tempo. Os alunos da Argentina enviaram um cartaz com mensagens positivas e encorajadoras sobre o trabalho colaborativo e a professora parceira me presenteou com um “mimo” feito por ela. Quando voltar ao Brasil, enviarei presentinhos aos nossos parceiros.

EducaRede – Você e seus alunos se comunicam durante a estada em Madri? Se sim, o que eles querem saber e o que você conta para eles?

Alair – A comunicação com meus alunos está sendo feita por e-mail e msn. Eles querem saber o que eu faço, o que estou aprendendo e, principalmente, sobre o projeto. A preocupação maior que eles demonstraram é saber quando o blog estará no ar para começarem a postar suas pesquisas já prontas.

Antonia Lucélia – Sim. Os alunos enviam e-mail e querem logo começar o intercâmbio. Também entro em contato com a coordenação pedagógica da escola e com os colegas professores que apóiam o projeto.

Gládis – Sim, eles se comunicam comigo pelo e-mail e msn. Querem saber sobre tudo: o que está acontecendo por aqui, se já conheci pessoalmente o Prof. Luis e o que estamos combinando. Os alunos estão muito envolvidos com o projeto. Num dia desses, uma aluna me disse que conversou pelo msn com o Prof. Luis Angel. Ela salvou a conversa e me passou depois por não conseguir entender direito o que ele queria, era uma nova atividade do projeto que passei depois a todos por e-mail. Ele sempre se comunica com os meus alunos e eu também converso com os alunos dele.

Ingrid – Sim, eles estão ansiosos. Diariamente enviam e–mails perguntando sobre o blog “Projeto Colaborativo”. Querem saber o que está acontecendo, como é Madri, e compartilham várias idéias. Eles já trocaram fotos e se comunicam com os alunos da Argentina por e–mail e pelo msn. Um dos meus alunos sugeriu a criação de um blog, pois as “chicas” da Argentina gostam muito de ver fotos. Achei a idéia ótima!
EducaRede – O que você mais gostou em Madri até agora? Visitou outras cidades? Quais cidades e o que você mais apreciou?

Alair – Madri é maravilhosa. Esta é minha primeira viagem internacional. Conhecemos também Toledo e Salamanca, ambas cidades com belezas indescritíveis.

Antonia Lucélia – Aqui na Espanha tudo é muito lindo e diferente da nossa realidade. Já passeamos bastante. Conhecemos Toledo e Salamanca. Em Madri, visitamos parques, museus, cafés, restaurantes e praças. Gostei bastante dos gigantescos prédios que a cidade tem, além dos monumentos. Assisti a palestras, apresentações de painéis e prossegui com o projeto mantendo contato com meus alunos pela internet. Produzi muito por aqui e aproveitei tudo para ampliar o meu conhecimento.

Gládis – Madri é uma cidade belíssima! O que mais me encanta é sua magnífica arquitetura. Aproveitei o final de semana para ir até Portugal e conhecer pessoalmente a Profa. Emília Miranda, com quem já desenvolvo projetos colaborativos desde 2005, além de outro professor que ela me apresentou via msn e que também se tornou um grande parceiro. A cidade do Porto é maravilhosa. Conheci outros lugares que apreciei muito em Portugal, mas o melhor de tudo foi encontrar pessoalmente esses dois queridos amigos virtuais.

Ingrid – Visitamos vários lugares turísticos de Madrid: museus, praças etc. A arquitetura da cidade é muito bonita. Fomos a Salamanca, uma cidade universitária, com todo grupo de professores. Gostei muito deste passeio.

EducaRede – Você acredita que é possível trabalhar em cooperação e/ou colaboração com outros professores em meio virtual? Que recomendações daria a outro professor que tem interesse em participar de uma atividade como essa? Que postura deve ter esse professor em relação ao seu colega?

Alair – Acredito, com certeza. No caso do trabalho colaborativo com outro país, o que dificulta é o idioma, mas nada que não possa ser resolvido. Quanto à minha experiência, está sendo maravilhosa. O que tenho a dizer a outros professores é que o façam sem medo, pois é uma vivência ímpar.

Antonia Lucélia – Esta é uma experiência interessante e certamente o ambiente virtual irá proporcionar uma interação maior para o intercâmbio. Conhecer outro país é um desafio que às vezes requer tolerância, paciência e interesse de ambas as partes. Espero que o nosso grupo desperte o interesse em valorizar a cultura e os valores das nações irmanadas. Temos de estar dispostos a abrir portas e romper barreiras.

Gládis – Além dos professores citados anteriormente, eu já desenvolvi projetos colaborativos com professores de diversos Estados do Brasil e também com professores de outras escolas de Joinville, minha cidade. Um projeto colaborativo pode ser iniciado na própria escola, entre turmas diferentes. O professor que trabalha em duas escolas também pode aproveitar e trabalhar com as turmas. Não é necessário começar com projetos internacionais. O importante é estar aberto para aprender, saber que não temos todas as respostas e que elas também podem vir dos alunos e de outro professor. Temos de ter humildade e saber dividir. Aceitar a opinião do outro é muito importante, é um exercício de cidadania que enriquece a todos.

Ingrid – Sim, é possível trabalhar dessa forma. Acredito que o professor que participa de um projeto colaborativo em um ambiente virtual deve ser flexível e estar disposto a aprender com o outro. Isto significa tentar compreender outros pontos de vista e muitas vezes abrir mão do seu, para a construção coletiva de algo que sirva para todos. Conhecer a cultura do outro como uma outra maneira de enxergar o mundo, e não como algo bom ou ruim, mas apenas diferente, é muito importante. Acredito que é uma oportunidade muito grande de construir conhecimento em todos os sentidos.

EducaRede – Qual a importância de participar de uma atividade como essa, conhecendo outro país e sua cultura, tendo contato com professores de outras nacionalidades, ainda que você não domine o idioma espanhol?

Alair – É ótimo conhecer pessoas de outros países com os mesmos objetivos que os nossos. Como diz minha amiga Maria: “és mui belo, mui rico”.

Antonia Lucélia – Tudo o que vivi ficará registrado no meu coração e na minha mente. O idioma é uma barreira para a comunicação. No entanto, despertou-me o interesse em aprender uma segunda língua. Na minha bagagem estou levando livros, encartes e cartões para treinar a leitura e me comunicar melhor com o meu parceiro de projeto e com todos os alunos.

Gládis – É sempre muito bom conhecer pessoalmente as pessoas com quem trabalhamos virtualmente, esta é uma das coisas boas da internet. Esta viagem nos deu esta oportunidade, além de poder conhecer outra cultura. Quanto ao idioma, as dificuldades são as mesmas tanto para nós brasileiros quanto para nossos professores parceiros, mas ganhamos em conhecimento quando os dois lados colaboram.

Ingrid – Penso que a língua pode causar um desequilíbrio, o que considero algo muito positivo, pois desacomoda. E são estas situações que nos ajudam a crescer. Pessoalmente, estou compreendendo e me fazendo compreender. Troco e–mails com professores de outras nacionalidades para futuros trabalhos colaborativos.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Inteligência tecnológica?

Novas tecnologias instigam mudança
na forma de pensar

Mais do que simples entretenimento, videogames, jogos multimídia,
televisão e Internet desempenham papel relevante no desenvolvimento
cognitivo de crianças e jovens

Por Guilherme Azevedo*

A jornalista Mirna Feitoza tinha sérias restrições aos videogames e jogos multimídia. Ela, que jamais havia tido formação específica em psicologia e educação, possuía muitas dúvidas sobre a importância pedagógica – haveria mesmo alguma? – das novas diversões eletrônicas na vida da criança.

Por isso, em seu dia-a-dia como redatora e repórter do caderno infantil de um grande jornal brasileiro, relutava em escrever reportagens sobre o assunto, apesar da insistência de seus leitores específicos, as crianças. Os textos que contemplavam os novos jogos eletrônicos eram, invariavelmente, alvo de protestos do público adulto, mas de comemorações por parte da audiência infantil. O que fazer? A prática, as entrevistas, as reuniões de trabalho com as crianças cuidaram de responder à questão.

Formada, como costuma dizer, “através do livro”, principal causa de sua resistência inicial às novas mídias, Mirna intuiu que estava diante de um processo novo, onde os videogames não eram em si um mal, o motor de uma instigação à violência, como quase todos – inclusive ela – acreditavam; muito pelo contrário, tratava-se, na verdade, da inauguração de um novo modo de pensar.

“O grande desafio hoje para a escola é saber lidar com a capacidade de diversidade que a criança tem desde pequena”

“A criança contemporânea tem essas brincadeiras, videogames, jogos multimídia, assim como, antigamente, existiam as brincadeiras de roda”, reconhece hoje a doutoranda, cuja tese na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, “Porcarias, inteligência e cultura: o papel das diversões eletrônicas na formação da criança”, vai investigar o assunto mais a fundo.

A jornalista, e agora também pesquisadora, explica que novas mídias como os jogos eletrônicos abriram caminho para um processo cognitivo baseado no autodidatismo e na experimentação lúdica. Isso quer dizer que a cognição, no universo infantil, se dá sem a mediação de adultos e a partir de erros e acertos, do teste de possibilidades. Mirna explica que, por meio dos jogos, “a cognição passa pelas mãos”. Não é apenas uma atitude de observação, há também um processo físico envolvido. Surge, então, um novo paradigma de “leitor”, permitindo que a criança seja também co-autora, co-protagonista da história.

Ela ressalta ainda o fato de os jogos eletrônicos estimularem a criança a interagir com a diversidade de códigos. Antes de se alfabetizar, a criança já é capaz de lidar, simultaneamente, com os códigos sonoro, visual e gráfico presentes nos games. Mirna é categórica: “O grande desafio hoje para a escola é saber lidar com a capacidade de diversidade que a criança tem desde pequena”.

A descoberta “na prática” de Mirna vem ao encontro das recentes pesquisas acadêmicas. O pesquisador e educador Claudemir Edson Viana, do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação (Lapic) da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), relativiza a questão entre a violência na TV e nos jogos e a violência real. Para ele, relacionar as duas de forma direta “é uma leitura muito equivocada do processo de comunicação e educação nos seres humanos”.

Viana lembra que o maior prejuízo que uma criança pode sofrer é a violência real. “Quantos desses jovens vêem seus pais brigando entre si? Quantos deles sofrem essa violência constantemente nas ruas? Isso é até ruim em termos de discussão nacional, porque reduz um problema de caráter social ao aspecto meramente tecnológico”, conclui.

O educador argumenta que a violência sempre existiu na humanidade, de um jeito ou de outro, e, portanto, os desenhos e os jogos que a exploram não são os responsáveis por ela. “Por que toda história de fada tem bruxa? Porque a bruxa representa o lado mau de todo ser humano e é nos desenhos, nas brincadeirinhas, nos contos de fadas que a criança começa a ter referenciais do que é o bem e do que é o mal”, explica. Viana, que prepara a tese de doutorado “Jogos em multimídia e aprendizagem infantil: reflexões sobre a pedagogia da imagem eletrônica”, insiste que a ciência já comprovou “que a criança, desde os quatro anos, tem consciência que ficção não é a mesma coisa que realidade”.

A grande questão, da qual depende o surgimento de uma sociedade mais justa, segundo Viana, é formar alunos cada vez mais aptos a olhar criticamente para os conteúdos que a TV e a Internet, por exemplo, apresentam. Ele afirma ser “fundamental que as escolas estejam alertas para a necessidade de o professor trazer para as atividades em sala de aula conteúdos que são do cotidiano da criança e do jovem”, como a novela televisiva, o telejornal e os jogos multimídia. E que o professor os conheça para fazer com que as crianças aprendam a utilizá-los não só para ampliar conhecimentos, mas também para ser mais críticas ao “ler” esses próprios produtos.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Fundação Telefônica credencia REDECA no Portal do Software Público

Fundação Telefônica credencia REDECA no Portal do Software Público durante a Campus Party 2010

O REDECA – sistema de informação desenvolvido pela Fundação Telefônica para fortalecer o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente – será credenciado no Portal do Software Público Brasileiro. A cerimônia que sela a parceria entre a Fundação e a Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, acontece no dia 26, terça-feira, às 16h, no estande da Telefônica na Campus Party 2010.

O REDECA – uma referência ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) – foi desenvolvido pela instituição, dentro de seu projeto de Redes de Atenção à Criança e ao Adolescente, em conjunto com oito municípios paulistas. A finalidade do software é integrar informações sobre cada criança atendida, num só registro, em que se podem observar dados sobre saúde, educação, assistência social e outros temas relativos a seu desenvolvimento. Com isto, é possível identificar a trajetória e as necessidades dos beneficiados individualmente e analisar as demandas coletivas para a definição de políticas de atendimento.

Segundo o diretor-presidente da Fundação Telefônica, Sérgio Mindlin, a inserção do REDECA no Portal do Software Público Brasileiro propiciará a milhares de municípios brasileiros conhecer a ferramenta e decidir sobre sua utilização. O programa, construído em plataforma de software livre, foi produzido de forma coletiva para contemplar os diversos formatos, necessidades e perfis das organizações governamentais e não-governamentais ligadas ao atendimento das crianças e adolescentes. “Nosso objetivo é facilitar o acesso das cidades a essa ferramenta e acreditamos que o Portal possa ser um grande mediador”, diz Mindlin.

O REDECA já está disponível, gratuitamente, para implantação em qualquer cidade brasileira, por meio do portal Pró-Menino, na seção Redes de Atenção a Crianças e Adolescentes. Nesse espaço, também estão disponíveis materiais de apoio para implantação e utilização do sistema: Manual Técnico de Instalação do Software, Manual do Usuário e Manual de Gestão da Rede.

A Fundação também vai mostrar como o REDECA funciona durante a Campus Party. A apresentação será na área dos Direitos Humanos, no dia 29, sexta-feira, às 14h, seguida de uma oficina técnica às 16h. A Campus Party acontece entre 25 e 31 de janeiro, no Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Viagens de férias


Viajar é preciso

Professores sugerem roteiros para pequenas viagens em sete Estados,
que podem ser feitas nas férias escolares

Por Paloma Varón e Rosane Storto

Professor precisa viajar. Essa frase foi dita por Nelson Pretto, diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, em entrevista concedida ao EducaRede. “O professor precisa vivenciar uma cultura diferenciada. Isso não é só uma questão de lazer, que é fundamental, mas também de formação e conhecimento que possibilite a ele crescer como professor”, explica Pretto.

Partindo dessa afirmação, o EducaRede publica sete roteiros, sugeridos por professores, para as férias. As viagens, próximas a capitais, são baratas e de fácil acesso. 

Como seria difícil colocar todos os Estados brasileiros em uma reportagem, pedimos que você mande as suas sugestões de viagens para a Galeria Viagens de Férias.

Jaguarão – RS

Fronteira com o Uruguai, a cidade abriga mais de 800 prédios antigos, uma ponte internacional construída em 1930 e a ruína da Enfermaria Militar, localizada em uma área verde “com vista panorâmica da cidade e dos rios”, comenta o professor de Matemática João Carlos Pires dos Santos.
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Garopaba – SC

É uma enseada, localizada no litoral sul do Estado de Santa Catarina, com um clima de “vila de pescador” e oito praias para visitar, que atraem principalmente os surfistas. “A passagem de ônibus não é cara, e é uma viagem rápida”, indica a professora Mariluce Leonel.
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Capela de São Miguel – São Paulo – SP

Datada do início do século XVII, é o templo religioso mais antigo da capital e fica na Zona Leste da cidade. “Para os professores de Literatura, História e Artes, é um lugar repleto de informações que podem contribuir para as suas aulas”, sugere o professor de Lingua Portuguesa Renato Santos.
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Parati – RJ

Pólo de turismo nacional e internacional, Parati conta com centro histórico bem preservado, belas praias e Mata Atlântica ao redor. “Cada igreja tem uma história e normalmente abrigam apresentações musicais”, comenta a professora Grasiele Fernandes Macedo Santoni.
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Piraputanga – MS

Distrito de Aquidauana, no Pantanal Sul, é um pequeno vilarejo, indicado para quem gosta de acampar, ter contato com a natureza e praticar esportes radicais, como rapel e rafting. “À noite, a diversão fica por conta da roda de viola”, sugere a professora Eleide da Silva Arce.
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São Cristóvão – SE

Quarta cidade mais antiga do Brasil, foi a primeira capital de Sergipe e abriga um conjunto arquitetônico de estilo colonial. “A noite de seresta, que ocorre no paço do museu noite adentro, é imperdível”, diz o coordenador pedagógico Gladston Lisboa de Menezes.
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Aracati – CE

Próxima a belas praias, como a famosa Canoa Quebrada, Aracati também tem muita história. Segundo o professor de História Reudo Sales, existe a hipótese de que o Brasil tenha sido descoberto nessa localidade pelo navegador Vicente Pizon, dois meses antes de Cabral chegar a Porto Seguro.
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(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)