Tecnologia e educação

 

Tecnologia e educação
dominam debates


Dois eventos de grande porte nas últimas semanas reuniram educadores
em torno de reflexões e discussões sobre o tema

Dois grandes eventos nacionais abordando a inter-relação educação e tecnologia foram destaque nas últimas semanas. O primeiro, o E-Gov Fórum III, ocorreu de 27 a 30 de maio, em Brasília, e teve como objetivo discutir a universalização do acesso à informática e à Internet com a participação de representantes de órgãos governamentais, da sociedade civil e da iniciativa privada.

 

Nos dias 13 e 14 de junho, o Instituto Ayrton Senna e a Microsoft organizaram em São Paulo o Congresso de Educação e Tecnologia para o Desenvolvimento Humano, que reuniu especialistas internacionais, como Pierre Levy e Philippe Perrenoud.

 

Confira:

:: Momento é de desafios ,da enviada especial, Mílada Tonarelli.

:: Balanço do E-Gov Forum III, do Portal Setor 3, parceiro do EducaRede

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Publicar ajuda a ensinar e a aprender

Publicar (na rede) ajuda a ensinar e a aprender

Professores apostam no potencial pedagógico dos blogs para incentivar
o hábito de escrever, o debate e o senso crítico

Leandro Quintanilha
Revista A Rede

Em Blogsfera Marli. professora,
reúne os links de sete edublogs
que mantém com alunos

Os blogs surgiram nos anos 90 como um ícone da liberdade de expressão na Internet. Hoje, essas páginas de livre publicação contam com cerca de 48 milhões de adeptos – e ainda mais prestígio. É que, além de serem fáceis de usar e democráticos por natureza, os blogs se revelam, agora, promissores aliados virtuais dos professores. Na era da inclusão digital, os edublogs representam uma espécie de vanguarda teórico-pedagógica, adaptável a qualquer disciplina, nos diversos níveis de ensino, em todas as camadas sociais.

Para a acadêmica Zilá Moura e Silva, doutora em Didática pela USP, o fenômeno tem feito com que alunos e professores escrevam mais e melhor. “As propostas tradicionais de escrita na escola são muito artificiais. Em geral, as pessoas têm dificuldade em discorrer de forma mais aprofundada sobre um tema”, avalia. Isso ocorre, segundo Zilá, porque os alunos não são estimulados a escrever com envolvimento. Com a possibilidade de publicação, o entusiasmo e o empenho são maiores. E a prática gera uma familiaridade progressiva com a escrita: quanto mais se produz, mais se deseja fazê-lo. “Autoria gera auto-estima”, observa.

A professora de Língua Portuguesa Marli Fiorentin concorda: “Os alunos ficam entusiasmados ao perceber que suas idéias têm valor”. Ela dá aulas para o Ensino Fundamental na Escola Estadual Padre Colbachini, em Nova Bassano, cidade com cerca de 10 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul. Descobriu a blogosfera no começo do ano passado e já mantém sete edublogs. “Com as páginas na Internet, os alunos ficam mais motivados a ler e escrever.”

Blog Contos da Escola: estudantes
de Letras colocam a educação em
debate

O cuidado com o texto também é maior “em relação à forma e ao conteúdo”, afirma Raquel da Cunha Recuero, professora dos cursos de Comunicação da Universidade Católica de Pelotas e doutoranda em Informação e Comunicação. Para ela, esses espaços-autoria são um antídoto para a chamada geração Ctrl C + Ctrl V (atalhos do teclado usados para copiar e colar textos). “O aluno passa a apurar melhor as informações disponíveis na Internet, para construir textos de qualidade”, observa a professora. Escrever seus próprios textos e ler a produção dos colegas são hábitos, afirma, que geram um ciclo positivo. “Ao tentar se superar, eles aprimoram o senso crítico”, diz.


A vida como ela é

Os edublogs favorecem o trabalho em equipe e a construção colaborativa do conhecimento, afirma Sônia Bertocchi, pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, de São Paulo, e coordenadora do Núcleo de Interatividade do portal EducaRede. Sônia é a criadora do Lousa Digital, um blog de discussões sobre o uso pedagógico da Internet. “Procuro auxiliar o professor na sua prática diária: indicar novos recursos, apresentar projetos bem-sucedidos e promover a interação entre educadores geograficamente distantes, além de divulgar eventos relacionados”, descreve.

Trabalho semelhante é realizado por uma professora em formação, a redatora e estudante de licenciatura em Letras Débora Batello, criadora do Contos da Escola. “Educação não é só lousa e giz. O professor tem que encontrar meios para estimular os alunos”, afirma. O público-alvo de seu blog são professores e aspirantes à carreira. Os temas propostos vão além da relação entre Educação e tecnologia. Polêmicas como sistemas alternativos de avaliação e a política de cotas para negros e estudantes de escolas públicas nas universidades são alguns dos assuntos abordados. Nos comentários, os leitores desenvolvem o debate.

A palavra weblog é uma junção dos vocábulos do inglês web (originalmente, teia; mas hoje também com a acepção de página da internet) com log (diário de bordo). Tradução literal: diário na rede. O blogs, como são hoje chamados, surgiram na década de 90 e, atualmente, o número de adeptos aumenta num ritmo avassalador. O site Technorati, que mantém sistema de busca específico para blogs, estima haver cerca de 48 milhões dessas páginas em funcionamento. Mas, no momento em que você lê esta reportagem, esse número já deve estar defasado – a cada dia, são criados mais de 75 mil novos blogs, segundo o instituto de pesquisa em tecnologia norte-americano Pew Internet. Cerca de 11% dos usuários de internet do mundo são leitores habituais de blogs. Estima-se que sejam publicados 1,2 milhão de novos textos, por dia, o que equivale a 50 mil atualizações por hora.
www.pewinternet.org – Pew Internet
www.technirati.com – Technirati 

A professora Marli, de Nova Bassano, criou seu primeiro blog pedagógico no ano passado, para uma turma de 8ª série: Vidas Secas – Da Ficção à Realidade, inspirado na célebre obra de Graciliano Ramos. “A idéia surgiu porque estávamos sofrendo com uma estiagem muito longa, aqui na região, que nos afetou financeira e emocionalmente”, conta ela. Os alunos analisaram o livro e pesquisaram sobre o contexto histórico em que foi escrito.

Na seqüência, Marli convidou alguns escritores profissionais para colaborar com o edublog, como o mineiro Wellington Pino e os gaúchos Caio Riter e Marcelo Spalding. Em um ano, a professora criou mais seis edublogs. E um sétimo, o Blogosfera M@rli,  reúne todos os links. Vários do alunos mantêm, hoje, blogs pessoais.

O trabalho da professora Zilá com meios de publicação na internet começou há dez anos – antes da “febre” dos blogs. Na Unesp de Bauru, ela participou da criação do site Universidade sem Fronteiras, que não era exatamente um blog, mas reproduzia o conceito de autoria-publicação ao colocar na rede os trabalhos de conclusão de curso.

Era só o começo. No correr dos anos, Zilá começou a adotar blogs propriamente ditos no curso de formação de professores da Faculdade Sumaré, em São Paulo, e no de gestores escolares da Uirapuru Superior, de Sorocaba. “Comecei com provocações”, lembra. Ela criava um blog para a turma no qual propunha problemas a resolver e discussões sobre assuntos polêmicos. Deu certo. Com o tempo, os educadores passaram a criar seus próprios diários virtuais, repassando o gosto da publicação para seus alunos. Tal como aconteceu com Marli.

Os links aqui publicados foram visitados em 29/09/06

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Projeto Garagem Digital mostra resultados

Jovens elaboram novo portal da Associação Meninos do Morumbi

Projeto Garagem Digital, da HP Brasil, tem por objetivo promover a inclusão digital de estudantes de baixa renda

Por Priscila Gonsales
A alegria e, por que não, o orgulho da missão cumprida ficaram evidentes nos rostos de cada um dos meninos e meninas que subiram ao palco do auditório da Associação Meninos do Morumbi para apresentar o portal na Internet criado por eles no projeto Garagem Digital, da HP Brasil. Na platéia, o grupo representado -120 jovens, entre 14 e 24 anos, da periferia de São Paulo – também fazia questão de escancarar sua satisfação, não economizando nas palmas e deixando a emoção transparecer.

De lenço na mão, a estudante Lesly Pacheco Gomes, de 18 anos, não pôde conter as lágrimas ao ver a imagem de sua filha Yasmin, de seis meses, nas fotos mostradas no telão. Lesly estava grávida quando começaram as atividades e continuou participando delas até a véspera do nascimento da menina. Quando completou 15 dias de vida, Yasmim já fazia parte do cenário da Garagem onde a jovem mãe retomava suas funções na elaboração do conteúdo da seção “Quem Somos”, a parte institucional do site.

“Foi uma experiência maravilhosa. Diferente da escola, que determina o que a gente deve fazer, nós é que éramos os responsáveis, nós que decidíamos”, declarou Lesly. O processo de tomada de decisão e as etapas para chegar a um acordo foram o grande aprendizado na opinião dela. “É muito difícil a convivência com variados jeitos de ser e opiniões diferentes. As brigas iam e vinham constantemente. Passado tudo isso, é muito bom ver que a amizade prevaleceu.”

O Garagem Digital tem por objetivo trabalhar os conceitos de cidadania, protagonismo juvenil e a capacitação profissional por meio da tecnologia da informação. A iniciativa é da HP Brasil, em parceria com a Fundação Abrinq e a Cidade Escola Aprendiz. A Associação Meninos do Morumbi foi escolhida para o plano-piloto por sua experiência bem sucedida no trabalho de integração social com jovens de baixa renda. O nome do projeto é uma menção à origem da HP, criada em uma garagem em Palo Alto, na Califórnia (EUA).

Com um investimento de R$ 600 mil, a HP montou um laboratório com computadores, impressoras, softwares e acesso à Internet. O ensino dos alunos ficou a cargo de educadores especialistas que realizaram oficinas, debates em grupo e também envolveram voluntários que apoiaram os jovens no desenvolvimento da percepção do que é padrão de qualidade no mercado de trabalho.

“O objetivo não é somente ensinar como funciona um software. O que buscamos é capacitar os jovens com competências e habilidades que extrapolam as linguagens digitais”, lembra João Ribeiro, coordenador pedagógico da Associação Meninos do Morumbi. “Ao trabalharem com os computadores, eles estão escrevendo, pesquisando, associando, interpretando, comparando. Estão também convivendo em grupo, negociando, resolvendo conflitos. A informática, nesse contexto, passa a ser uma ferramenta no processo de aprendizagem.”

O Garagem Digital também previu a distribuição de uma bolsa mensal no valor de R$50 para cada um dos jovens participantes. O portal na Internet tem todas as informações sobre a Associação Meninos do Morumbi. Desde dicas para quem quer se juntar ao grupo até as atividades desenvolvidas pelos alunos e a agenda de shows.

:: Papel dos parceiros

A HP, empresa que desenvolve tecnologia de ponta na área da informática, aporta ao projeto esta tecnologia e os recursos financeiros necessários a sua operação. O Cidade Escola Aprendiz entra com uma metodologia inovadora que utiliza arte, comunicação e tecnologia para contribuir com a educação brasileira. O Meninos do Morumbi participa com seu contexto focado nas artes, no esporte e um trabalho junto à família, às comunidades e à escola pública. Seu grupo artístico é reconhecido no Brasil e no exterior. O êxito de sua ação está no uso da música como ferramenta para a inserção social de crianças e adolescentes em situação de risco.

E a Fundação Abrinq entra, nesta parceria, com a atribuição de coordenar o projeto e registrar todo o processo, com vistas à sua disseminação em larga escala junto a outras organizações do terceiro setor e poder público.

Conheça o portal elaborado pelos jovens do Garagem Digital
http://www.meninosdomorumbi.org.br

Os sites indicados neste texto foram visitados em 19/07/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


Programas pedagógicos em código aberto


Programas pedagógicos em código aberto

Projeto Classe, da UFSC, cria um repositório de programas para uso pedagógico em sala de aula

Verônica Couto
Revista A Rede

Pesquisar e catalogar programas de computador em código aberto que apóiem o projeto de ensino e aprendizado nas escolas é o que vem fazendo a equipe do Classe –Classificação de Software Livre Educativo, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Segundo o professor José Eduardo de Lucca, coordenador do projeto, já foram identificados mais de 200 programas e, destes, 50 foram pré-selecionados, por estarem de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, definidos pelo Ministério da Educação.

Desse universo de 50, a equipe do projeto Classe se debruça sobre 23 para traduzi-los (14 já estão em português) e para produzir manuais e cadernos com atividades para apoio ao professor. Atendem, segundo de Lucca, a diversas áreas de conhecimento – Matemática, Química, Geografia, línguas e até para a alfabetização básica. O trabalho da equipe da UFSC também envolve a identificação de para quais séries seriam mais adequados. “Muitos dos programas não têm nem manual e, para todos, estamos criando atividades didáticas recomendadas”, diz De Lucca.

Além disso, o coordenador do projeto explica que experiências-piloto estão sendo desenvolvidas em escolas, para verificar se os benefícios e impactos obtidos na avaliação teórica dos programas se confirmam na prática. O primeiro teste começou em março deste ano, no Colégio Estadual Simão José Hess, em Florianópolis, com 420 crianças, do pré à 4ª série. Para implantar a proposta pedagógica com os programas, foi preciso, primeiro, revitalizar o laboratório de informática, que contava com computadores com problemas operacionais e baixíssima freqüência de alunos. “Substituímos o sistema operacional proprietário por Linux e as máquinas antigas por dez terminais, conseguimos um servidor da Secretaria de Educação e instalamos esses 23 softwares educacionais, além de OpenOffice, FireFox e outros aplicativos livres”, conta De Lucca. Desde junho, outra escola, o Colégio Estadual Getúlio Vargas, também faz parte da avaliação de campo do Classe.

O trabalho do Classe teve início em 2004 (ainda com o nome de Projeto Escola Livre), com o propósito de levar inclusão digital com software livre para escolas públicas. Foi financiado, com US$ 12 mil, durante os últimos 12 meses, pelo Frida-Fundo Regional para a Inovação Digital nas Américas e Caribe. Agora, a equipe está em busca de novos apoiadores para dar continuidade ao trabalho. “Outras escolas da região estão interessadas. E o governo do Estado nos procurou com a intenção de integrar e criar um portal para todas as escolas”, diz.

Nas duas escolas em que os programas foram adotados, também foi preciso oferecer aos professores atividades prévias, para que conhecessem e entendessem as ferramentas. Com o futuro portal, De Lucca espera que os educadores possam, eles mesmos, publicar sugestões de atividades, relatos de experiências, críticas ou dúvidas no uso dos programas. O coordenador do Classe informa que o governo de Santa Catarina pretende instalar 4,5 mil computadores, impressoras e modems para equipar a base das 1.324 escolas da rede pública estadual. Todos os equipamentos deverão ser fornecidos com software livre, envolvendo desde o sistema operacional, aplicativos básicos como navegação, e-mail, multimídia, edição de textos e planilhas até os softwares educacionais avaliados pelo Classe.

“O software educativo é um recurso didático tal qual livros, revistas, imagens, música e filmes, com a vantagem de possuir muito mais recursos visuais e auditivos, além de permitir a interatividade. Também tem o importante papel de promover a inclusão digital, já que coloca os alunos em contato com o computador. Eles aprendem a usá-lo para executar os programas, completa a pedagoga Júlia Koefender, uma das pesquisadoras do Classe. Os programas selecionados estão no site do projeto (http://classe.geness.ufsc.br/index.php/CLASSE), e em um CD de demonstração. De Lucca também coordena o centro GeNESS, uma incubadora de empresas de software criada no âmbito do Departamento de Informática e Estatística da UFSC. O próximo passo, diz, é integrar o Classe com outra iniciativa do GenESS, o Via Digital, que reúne programas em software livre para informatização de prefeituras.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Programa Ação


Ação entre amigos

Programa de TV sobre educação apresentado por Serginho Groisman comemora quatro anos no ar em gravação especial longe do estúdio

Por Paloma Varón

“Juntos nós podemos mudar o Brasil através da educação”. Esse é o slogan do programa “Ação”, apresentado por Serginho Groisman, que vai ao ar aos sábados, às 7h30 da manhã, na TV Globo, e também no Canal Futura, às quartas-feiras, 22h30. O “Ação” tem como objetivo divulgar informações sobre educação e incentivar o trabalho voluntário na rede pública brasileira de Ensino Fundamental.

Além de receber convidados, Serginho apresenta reportagens e entrevistas sobre iniciativas bem sucedidas de organizações não-governamentais (ONGs), empresas e outras instituições em todo o Brasil e até em outros países (em agosto, a equipe do programa fez matérias especiais em Taiwan).

No dia 3 de dezembro, o EducaRede acompanhou a gravação comemorativa de quatro anos do programa, realizada na Fundação Gol de Letra (FGL), zona norte de São Paulo. Foi a primeira vez que o Ação saiu do estúdio da Rede Globo. O programa foi ao ar no dia 13 de dezembro.

Nos bastidores

Chamava atenção a curiosidade estampada no rosto dos moradores da Vila Albertina, bairro da periferia paulistana, quando viram chegar o carro com a equipe do programa – composta por cinegrafistas, produtores, diretor, técnicos e o apresentador, é claro.

Depois de armar o cenário na quadra de esportes da Fundação Gol de Letra, posicionar refletores, câmeras e convidados, o diretor avisa: “Silêncio: gravando”. Os vizinhos do lado, além dos garotos e garotas atendidos pela FGL, automaticamente ficam mudos e atentos.

Descontraído, Serginho olha para a câmera e começa a falar com ela. Cumprimenta e apresenta os convidados do dia: o ex-jogador de futebol Raí, presidente da FGL, a coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Zilda Arns, a diretora do Instituto Faça Parte, Maria Lúcia Reis, e o presidente do projeto Régua e Compasso, de Santo André (SP), Wilson Bianchi.

Tudo corre bem, os convidados saúdam os “futuros” telespectadores, e Serginho se dirige a um grupo de grafiteiros para fazer uma breve entrevista quando o diretor manda parar tudo. O plástico que servia de filtro para um dos refletores estava caindo.

Segura, ajeita, testa, volta a gravar, começa tudo de novo. Assim, entre pausas e retomadas, flui um programa de televisão. Depois, o material bruto ainda passa pela edição, para ser finalizado e ficar no formato de meia hora, com os intervalos comerciais (no caso do “Ação”).

As entrevistas com os convidados, cada um contando sobre os seus projetos, se alternava com os depoimentos dos meninos e meninas presentes. Crianças da FGL e adolescentes do Régua e Compasso participaram dando seu depoimento sobre o que fazem nas instituições e também apresentando números musicais (a banda do régua e Compasso). Os grafiteiros da FGL criaram uma obra especial, em homenagem ao aniversário do programa.

Segundo a equipe do Ação, a seleção das matérias que vão ao ar é feita de acordo com a proposta do projeto e a atuação de cada instituição que mais se encaixa na pauta pensada pelos produtores. Se você quiser indicar algum projeto, pode mandar sugestões pelo e-mail acao@redeglobo.com.br ou visitar o site do programa: www.globo.com/acao .

Fala, Serginho

Serginho Groisman parece nunca envelhecer. Talvez seja a identificação tão imediata da sua figura com o público jovem. Quase não dá para acreditar que Groisman estreou na televisão há 18 anos, entrevistando o piloto Christian Fittipaldi, na época um menino que corria de kart. Seu currículo na telinha abrange programas educativos e de entretenimento como TV Mix (TV Gazeta), Matéria Prima (TV Cultura), Programa Livre (SBT) e os atuais Ação e Altas Horas (Rede Globo).

A identidade do apresentador com a área de educação começou já como aluno, quando atuou como líder cultural da escola paulistana em que estudou, promovendo shows de MPB, sessões de cinema, entre outras atividades. Também ocupou o cargo de diretor e professor de Rádio e TV da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). No intervalo da gravação comemorativa do programa Ação, Groisman fez uma pequena pausa para conversar com o EducaRede:

Como nasceu o “Ação”?
Em 1999, quando a Globo estava idealizando o Projeto Brasil 500 Anos, fui convidado para colaborar na elaboração de um formato de programa sobre educação, que duraria só até abril de 2000, num total de 20 gravações. No entanto, quando estreamos, percebemos que a repercussão estava indo além do esperado, o que fez o programa crescer e se manter na grade de programação, falando sempre de educação, voluntariado, tentando não apenas apontar os problemas, como também mostrar as possíveis soluções.

Quais as dificuldades em fazer um programa cujo tema (educação) é de tamanha abrangência?
Bom, o programa cresceu, é semanal, mas tem meia hora de duração. Sei que ainda temos muita coisa a mostrar. Hoje o número de ONGs e projetos sociais que nos procuram querendo apresentar resultados de boas práticas é muito grande. Muitas vezes a ONG fica em locais muito distantes, de difícil acesso, nem sempre a equipe de produção está disponível para ir a todos os locais. Como o número de boas ações supera a quantidade de tempo e de periodicidade que dispomos, a dificuldade maior está no processo de selecionar as pautas.

Como são feitas as reportagens em tantos lugares?
Com o crescimento do programa, o “Ação” saiu do Núcleo de Produção e passou a integrar a Central Globo de Jornalismo. Isso foi uma grande e boa mudança, um enorme ganho, pois agora a gente conta com a equipe de jornalismo das afiliadas da Globo pelo Brasil para fazerem as matérias de campo.

Qual a importância de divulgar bons projetos educacionais?
É fundamental para qualquer meio de comunicação. Mostrar que existe um Brasil que caminha paralelo ao Estado, que se movimenta. Cada vez mais é preciso divulgar iniciativas da sociedade para melhorar o país e incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo.

Você concorda com críticas que apontam que as ONGs querem ocupar o lugar do Estado?
Eu não sou favorável que o Estado deixe de lado a sua responsabilidade, de assegurar aos cidadãos brasileiros o que lhes é de direito. Mas penso que as ONGs dão o sentido crítico do que o Estado deve fazer, ou seja, contribuem para que boas iniciativas possam se tornar políticas públicas.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Produção dos alunos na rede


O mundo é aqui

Publicar o trabalho dos alunos na Internet torna a aprendizagem mais significativa, pois permite que a produção seja vista e apreciada por muitas pessoas de fora do espaço escolar


Jaciara de Sá

Quando a turma ouviu do professor que o projeto sobre globalização deveria ser apresentado em um programa de computador (Power Point), foi difícil conter a empolgação.

Dias depois, a euforia tomou conta da classe. “Sugiro que o trabalho seja publicado no site da escola”, anunciou Edinilson Q. dos Santos, titular de Geografia e responsável pela atividade.

“Tudo havia mudado. Era a possibilidade de muita gente saber o que tínhamos produzido. O mundo todo poderia ver”, lembra com carinho Marcel B. Pinto de quando realizou, com outros alunos, o estudo sobre resistência à globalização.

O trabalho poderia ter virado um livro, sido publicado em forma de revista ou jornal, mas o alcance seria menor e o gasto com gráfica e papel estava fora de cogitação. A Internet foi o veículo ideal para a produção que foi transformada no Atlas Virtual. E os desdobramentos do estudo não pararam por aí. O professor de Geografia do ano seguinte, Clodoaldo G. A. Júnior aprofundou o tema. Os alunos, então no segundo ano do Ensino Médio, aperfeiçoaram o Atlas e o transformaram no vídeo Resistências à Globalização, para nova inserção na Internet e apresentação na Semana de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

“A possibilidade de os alunos se expressarem, tornarem suas idéias e pesquisas visíveis, confere uma dimensão mais significativa aos trabalhos. A escola se abre para o mundo, o aluno e o professor se expõem, divulgam seus projetos e pesquisas, são avaliados por terceiros, positiva e negativamente”, afirma José Manuel Moran*, especialista do MEC em avaliação de cursos a distância.

Tanto o Atlas quanto o vídeo podem ser vistos no site da Escola Estadual Condessa Filomena Matarazzo, que fica em Ermelino Matarazzo, bairro da periferia de São Paulo. A escola não tem apenas um endereço na web, mas também um núcleo de cinema, TV, jornal e um estúdio de rádio, com transmissão para a comunidade pela FM das 8h às 22h. Tudo conseguido e tocado pelos alunos sob a coordenação de um funcionário pouco comum nas escolas: o coordenador de projetos, Wagner Batista.

Mudança de “hábito”

A “Filó”, como é carinhosamente chamada, é uma das 20 mil escolas que têm sala de informática, das 170 mil públicas no país. Mais ainda: está entre as 10 mil que possuem acesso à Internet, segundo informações do presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), ligado à Casa Civil, Sérgio Amadeu da Silveira. Essa situação, porém, não garante o pleno uso dos computadores: as escolas ainda têm que conviver com problemas técnicos e de acesso à rede mundial. Isso faz com que muitos docentes desanimem. Tanto que apenas dois, entre mais de cem docentes da “Filó”, solicitaram a publicação dos trabalhos dos alunos no site. Um dos muitos desafios do coordenador de projetos Wagner é incentivar a mudança de hábito dos professores para que, além de retirar, também destinem conteúdo à Internet.

Para que os estudantes pudessem expor os resultados de um trabalho, fizessem e recebessem comentários, a professora de Português Maria Teresa B. da Silva, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Des. Amorim Lima, de São Paulo, criou um blog em 2004. A idéia era que os alunos da 8ª série escrevessem seus comentários, ilustrações e até o entendimento sobre a obra de Machado de Assis, Dom Casmurro?.

Os blogs, como o da professora Maria Teresa, fotologs e videologs são ambientes mais fáceis de usar, atualizar e que permitem a participação de internautas, além dos sites. Eles são usados por professores que desejam algo mais personalizado ou querem que os estudantes se responsabilizem pela publicação de seus conteúdos.

“Quando focamos mais a aprendizagem dos alunos do que o ensino, a publicação da produção deles se torna fundamental”, diz José Moran. Segundo o especialista, ao estimular essa publicação na Internet, a escola contribui para divulgar as melhores práticas, ajudando outras a encontrar seus caminhos, além de agilizar as trocas entre alunos, professores e instituições. “A escola sai do seu casulo, do seu ‘mundinho’, e se torna uma instituição onde a comunidade pode aprender contínua e flexivelmente.”

Função social da escola

Transmitir o conhecimento acumulado pela humanidade e preparar o aluno para a sociedade, com a expectativa de transformação da realidade, são algumas das funções sociais da escola. Sob esse aspecto, a publicação da produção dos alunos na Internet pode ser uma aliada.

“Quando falamos em papel social da escola, estamos entendendo que a escola prepara o aluno para produzir conhecimento e divulgá-lo de forma que aquele conhecimento seja útil para outras pessoas, outros grupos, outras realidades. É um modo de socializar o conhecimento”, explica Zilá A. P. Moura e Silva**, ex-professora de Didática e Prática de Ensino da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A socialização na Internet também pode acontecer por meio de ferramentas colaborativas como fóruns e ambientes virtuais de aprendizagem. O EducaRede disponibiliza esses recursos e outros, como a Galeria de Arte, onde é possível expor imagens e textos de acordo com um tema. Criado para o aprimoramento e a reflexão da produção escrita, o ambiente da Oficina de Criação conta com um mediador que tece comentários sobre o texto do aluno/participante para que o estudante reflita sobre o processo da linguagem. O alcance, a agilidade e a temporalidade seriam os grandes diferenciais de uma oficina virtual.

Para a professora Stela C. Bertholo Piconez, livre-docente da Faculdade de Educação da USP (FEUSP),*** a utilização da Internet na escola revela as potencialidades do trabalho colaborativo, em rede, habilidade que em sua opinião deveria ser a prioridade número um do ensino. “A velocidade com que ocorre a socialização do pensamento e das idéias do aluno, o contato com idéias diversificadas e a sincronia de interação por chats ou fóruns têm conseqüências para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da própria democracia (convivência com as diferenças) e do trabalho cooperativo.”

Auxílio na avaliação

Para Stela Piconez, uma outra grande vantagem refere-se à possibilidade de o professor “aprofundar o modo pelo qual os estudantes constroem conhecimentos. A publicação (postagem) dos debates e opiniões dos alunos permite que sua avaliação pelo professor forneça aos alunos o apoio e o incentivo necessário à ampliação e ao aperfeiçoamento de suas aprendizagens”. A livre-docente explica que a atividade reflexiva é ampliada e incentivada com a publicação na Internet dos conhecimentos construídos pelos alunos. Numa situação de colaboração, alunos estabelecem e fortalecem suas habilidades de auto-avaliação, compartilham a auto-aprendizagem e melhoram sua capacidade de reflexão. “E pela perspectiva do professor, a publicação e a dinâmica dos debates dos alunos permitem aperfeiçoar o projeto pedagógico do curso e atender as reivindicações e expectativas dos alunos. E o interessante é observar também que os alunos assumem a responsabilidade pelo seu próprio caminho de aprendizagem.”

A avaliação dos alunos da 8ª série de 2005 pela professora de Português Marli Fiorentin vai contemplar a participação deles no blog criado por ela. Marli leciona no Colégio Estadual Pe. Colbachini, em Nova Bassano (RS) e está trabalhando a relação entre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e a falta de chuva no Estado. Neste ano, aqui no meu Estado, vivemos uma situação difícil, que é a seca. A vida de todos acabou sendo afetada com a alteração do clima”, relata.
A idéia do projeto, que está apenas começando, é fazer uma ponte entre a ficção, por meio de obras literárias como o livro e filme Vidas Secas, com a realidade observada na localidade ao redor e a do Nordeste. “Como é minha primeira experiência com blog, preciso concentrar esforços não apenas na prática, mas também na reflexão sobre essa prática para que seja bem sucedida e possa estimular futuros desdobramentos”, explica.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 30/03/2005

* Prof. dr. José Manuel Moran é coordenador de Ensino a Distância da Faculdade Sumaré, professor de pós-graduação da Universidade Bandeirante e professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP. Página pessoal: www.eca.usp.br/prof/moran. E-mail: jmmoran@usp.br

** Zilá A. P. Moura e Silva é doutora em Didática pela Faculdade de Educação da USP. Atuou como professora de Ensino Fundamental I, foi coordenadora pedagógica e diretora de escola pública. E-mail: zilamourah@uol.com.br

*** Profª. drª Stela C. Bertholo Piconez é livre-docente da Faculdade de Educação da USP nos cursos de graduação (licenciaturas) e pós-graduação, além de coordenadora científica do NEA (Núcleo de Estudos de Educação de Jovens e Adultos e Formação Permanente de Professores). E-mail: spiconez@uol.com.br

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Por trás das câmeras


Por trás das câmeras


Projeto de produção de vídeo estimula nos alunos a criação e a análise crítica
dos meios de comunicação

Jaciara de Sá e Rosane Storto

 

Uma câmera de vídeo para 24 alunos. Pode parecer pouco, mas foi o suficiente para que alunos de 3ª e 4ª séries da Escola Básica Municipal Vitor Miguel de Souza, de Florianópolis (SC), produzissem “Toda Criança Merece”, um documentário de 40 minutos sobre os direitos das crianças e dos adolescentes. A produção foi resultado do projeto “Cidadania, Infância e a Estética do Olhar”, desenvolvido em 2004 e 2005 pela professora Ana Lúcia Machado.

Tudo começou quando os estudantes assistiram ao filme “Mágico de Óz” para participar de uma pesquisa de doutorado, da Universidade Estadual de Santa Catarina. Interessados, pediram para a professora realizar um trabalho sobre cinema na escola. Ana Lúcia aceitou o desafio e elaborou o projeto que, em 2005, foi um dos vencedores do Prêmio Professores do Brasil, parceria entre o Ministério da Educação e as Fundações Bunge e Orsa.

O uso do audiovisual como recurso didático é comum nas escolas, mas geralmente se restringe a sessões de vídeo e discussão sobre determinado tema abordado no filme. É o que mostra, por exemplo, uma enquete que o EducaRede publicou para saber como os recursos audiovisuais são utilizados. O resultado mostra que 46% dos internautas que votaram “costumam assistir a filmes em aula”. Por isso, a novidade de projetos como o da professora Ana Lúcia é colocar os alunos no papel de produtores.

Por trás das câmeras, as crianças desmistificam os meios de comunicação

E qual a importância de produzir vídeo nas aulas? Para o professor Adílson Odair Citelli, professor da Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a criança precisa entender quais são as lógicas produtivas da TV, do videogame e/ou do cinema para poder desmistificá-los. “Ela vai aprender que para produzir vídeo tem uma porção de coisas a fazer antes de chegar lá. Inclusive tem palavras que precisam ser escritas, tem roteiro, argumento, diálogo. Ninguém vai produzir uma telenovela só com imagem, nem filme. É, inclusive, uma maneira de trabalhar e reconfigurar o signo verbal, de requalificá-lo, de revalorizá-lo”, explica Citelli.

Participando do processo de produção, a criança também passa a compreender que o mundo contemporâneo é repleto de signos audiovisuais e verbais que se misturam, o que Citelli define como “hibridização de linguagens”. Essa compreensão permite a análise crítica dos meios de comunicação, mas também a possibilidade de constituir sentidos. “Na hora em que ela vai descobrindo diferentes tipos de signos, que pode fazer diferentes composições com esses tipos, isso dá uma liberdade criativa, dá uma liberdade de percepção das coisas, dá liberdade para a produção de coisas, descobertas”, completa Citelli.

Gravando

Antes de produzirem o vídeo, os alunos da escola de Florianópolis fizeram pesquisa sobre cinema e assistiram aos filmes “O Gordo e o Magro”, “Tempos Modernos”, “Central do Brasil” e “Expresso Polar”. Foi então que surgiu a idéia de tratar sobre os direitos das crianças e dos adolescentes. “No filme Central do Brasil, por exemplo, perceberam a questão da banalização da pobreza”, explica a professora Ana Lúcia.

Os estudantes receberam cópias do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e começaram a analisá-lo nas tarefas de casa, a partir dos filmes assistidos e de notícias publicadas em jornais locais. “Eles tinham de ler os artigos do ECA abordados nas reportagens e nos filmes e trazer as dúvidas e observações para discutirmos na sala de aula”, conta a professora.

Alunos saem pela cidade para capturar imagens

Após a análise do ECA, as crianças começaram a produzir o filme. Os alunos foram divididos em grupos e cada um ficou responsável pela produção: roteiro, filmagem, edição etc. Com a câmera em mãos, começaram a gravar pontos turísticos e o bairro onde moram, pensando sempre na temática do filme. Também trabalharam como atores.

O roteiro foi dividido em temas: “Criança e Cultura”, “Criança e Cidadania”, “Criança e Escola” e “Criança e Brincadeira”. “Foi bem interessante porque, criando e produzindo, os alunos aprenderam a conhecer melhor a mídia, como as imagens são produzidas, o porquê da escolha dessas imagens, e hoje são mais críticos em relação ao assunto”, explica a professora.

O documentário “Toda Criança Merece” já foi exibido na Feira do Livro de Florianópolis, no auditório da Universidade Estadual de Santa Catarina, na Feira Cultural da EBM Vitor Miguel de Souza e também em uma escola na Itália, cujo nome a professora não se recorda. Ana Lúcia conta que o resultado foi tão positivo que as crianças estavam dispostas a produzir outro filme.

Para desenvolver o trabalho, Ana Lúcia foi atrás de livros sobre o assunto e de apoio para a parte de edição. Ela começou pesquisando uma bibliografia sobre o tema “Cinema e Educação”, com o auxílio da doutoranda Mônica Fantin, da Universidade Estadual de Santa Catarina. Elas encontraram no livro “Cinema, Uma Janela Mágica”, de Marialva Monteiro e Bete Dulara, muitas informações que auxiliaram no desenvolvimento do projeto.

Posteriormente, como não tinham muitas possibilidades tecnológicas para editar o material gravado, o grupo contou com o apoio de um voluntário. João Cláudio de Bernardo auxiliou os alunos a digitalizar as imagens gravadas em câmera analógica e, então, fazer a edição em um computador.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Parangolés na nova escola

Parangolés na nova escola

Especialistas discutem a Educação e o papel do professor em tempos de cibercultura


Por Leandro Quintanilha e Verônica Couto

Revista A Rede

A renovação da escola passa pelo casamento da Pedagogia com a Teoria da Comunicação

O apresentador do telejornal da noite, o político fazendo discurso no comício, o professor dando aula. Todos têm algo em comum: o modelo de comunicação em que um fala e muitos escutam. E é esse modelo, ou paradigma, há décadas utilizado pela sociedade para transmitir informação, que promete estar chegando ao fim, segundo os educadores presentes ao III Congresso Ibero-Americano EducaRede: Educação, Internet e Oportunidades, promovido pela Fundação Telefônica, no final de maio. No seu lugar, o que se espera são novas formas de produzir conhecimento em conjunto com os alunos, baseadas na dialógica ou na interatividade, surgidas a partir do uso de interfaces digitais – computadores conectados à Internet, comunidades virtuais, games, blogs, flogs e videoblogs, fóruns, sites colaborativos.

“Não é uma mudança pequena. Na internet, nos fóruns, a pessoa está atuando, respondendo, presente em pensamento; diferente daquele aluno que pode estar fisicamente na sala, mas pensando em outra coisa. O ambiente do silêncio é substituído pelo do diálogo, pela comunicação intensa”, afirmou Vani Moreira Kenski, diretora do Site Educacional, empresa incubada no Cietec/Ipen, da USP. Os grandes inspiradores dessa “nova escola” são autores como Paulo Freire ou Pierre Lévy.

E por que, agora, a escola poderia mudar? Porque só agora, diz Marco Silva, professor da Uerj e da Unesa-Rio, a tecnologia tornou disponíveis as interfaces para quebrar o paradigma da comunicação, e oferecer a professores e alunos a perspectiva da autoria dos conteúdos. “A cultura do on-line, a cibercultura, vai desenvolvendo uma postura nova — fazer Skype, Orkut, Messenger, postar suas coisas, colocar seus interesses. Cria-se uma comunidade internacional de colaboração.” Essa demanda, na opinião de Marco e de Vani, colocou sob pressão a pedagogia da transmissão, em que um fala, o outro escuta. “Esses teóricos importantes da Educação sempre nos chamaram a atenção para esse problema, mas não desenvolveram uma teoria da Comunicação para dar suporte a suas propostas. Com a cibercultura, temos uma convocatória prática. É preciso fazer o casamento da Pedagogia com a teoria da Comunicação”, diz Marco.

Por isso, o professor da UERJ destaca que a inclusão digital do professor deve ir além do e-mail e da declaração do IR. “Se ele aprender a lidar com blogs, chats, fóruns, trazê-los para a sala de aula, vai potencializar sua prática docente.” E esse processo de inclusão requer, diz ele, incentivos de ordem salarial, de infra-estrutura e de capacitação que incluam oficinas práticas.

No novo modelo, há um papel fundamental reservado ao professor: “criar a ambiência para que o conhecimento se construa”, afirma Marco. “A contribuição mais importante da escola para a formação do cidadão é o exercício da participação. Por que a cidadania é tão precária na nossa sociedade? As pessoas são fechadas nos seus consumos, porque não aprenderam, na escola, a participar. E é lá que se aprende, não há outras instâncias. Estamos num momento bastante favorável à revitalização da escola.”

Nesse processo de renovação, em que o ambiente do silêncio é substituído pelo diálogo, Vani adverte que é também preciso “disciplina e compromisso”. “Faltam valores na Educação, mais importantes do que o conteúdo. No começo de uma aula, sempre tento criar um código de ética com os alunos. Escola aberta é acesso à informação, onde ela estiver. Mas são necessários valores, regras, compromissos. Como em qualquer comunidade.” Essa formação de valores, explica a educadora, envolve, inclusive, “a análise crítica do que os jovens vivenciam na Internet”. Para a diretora da Fundación para el Desarrollo de los Estudos Cognitivos da Argentina, María Irma Marabotto, que participou da reforma da Educação pública argentina em 1995, o professor deve desenvolver uma mediação equilibrada entre a tecnologia e a didática. “Com a hiperinformação, vivemos hoje uma profunda crise de significado.”

A ênfase no reconhecimento de saberes não-formais e na participação dos alunos é a base do que o professor Marco chama de Pedagogia do Parangolé. Os parangolés são capas labirínticas, em camadas, criadas, na década de 60, pelo artista plástico Hélio Oiticica. A idéia era questionar o quadro estático, o suporte tradicional – e o modelo da apresentação. “O parangolé não é para você contemplar. É para você completar”, declarava Oiticica. “Esse é o princípio da Pedagogia do Parangolé”, resume Marco.

O professor Fernando Moraes Fonseca Júnior, coordenador do Laboratório de Tecnologias na Educação da Fundação Vanzolini e responsável técnico do EducaRede Brasil, acredita que a forma mais produtiva de trabalhar as interfaces digitais em sala é a organização por projetos, que estruturam, de alguma forma, a construção do conhecimento. “Com a Internet, abre-se uma porta pela qual entra grande quantidade de luz; sem óculos adequados, ficamos cegos.”

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Jornal na sala de aula

Jornais desenvolvem programas
educativos nas escolas

A utilização de jornais em sala de aula, como recurso didático, ganhou o mundo e começa a despertar o interesse das escolas brasileiras

Por Leonor Macedo

 

Em 16 estados brasileiros e no Distrito Federal, 8,5 mil escolas (de um total de cerca de 200 mil estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio) estão discutindo a importância do uso diário de jornais em sala de aula. Ao todo, 38 veículos brasileiros desenvolvem um programa específico de jornal na educação, atingindo cerca de 3,5 milhões de alunos. Os dados são da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que, desde 1980, promove a atividade entre seus associados de grande ou pequeno porte.

 

 

 

Com o objetivo de motivar o gosto pela leitura nos estudantes e disponibilizar aos professores um recurso didático de fácil acesso para complementar suas aulas, o projeto de jornal na educação é um sucesso mundial. Nos EUA, mais de 700 jornais patrocinam programas do gênero. Na Suécia, Dinamarca e Noruega, todos os periódicos desenvolvem projetos educacionais. Na América do Sul, destacam-se Brasil, Argentina e Chile.

 

 

A educadora Gracia Lopes Lima, do Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Educação da USP, alerta para a importância de as escolas utilizarem jornais e outros meios de comunicação em seus projetos pedagógicos. “É preciso reconhecer que além da escola, tida como reduto de transmissão do conhecimento acumulado pela humanidade, os meios de comunicação de massa desempenham relevante papel na formação das pessoas. Eles são, cada vez mais, influenciadores diretos do modo de “ser-pensar-agir”, explica “Por isso, a escola é o local ideal para pensar e discutir como as informações são articuladas e a quem beneficiam”, diz.

 

Celestin Freinet

Pedagogo francês que viveu nos anos 20. Defendia e aplicava projetos como jornal escolar, troca de correspondência, trabalho em grupo, aulas-passeio. Observava em seus alunos a maneira como construíam seu conhecimento para saber a hora certa de intervir. Para o educador, ninguém avança sozinho em sua aprendizagem, a interação entre professor e aluno é fundamental. Freinet acreditava que a educação deve proporcionar ao aluno a realização de um trabalho real.

O uso de jornais na educação data dos anos 20, quando o pedagogo francês Celestin Freinet desenvolvia com seus alunos um jornal escolar para a divulgação dos textos produzidos. “Trabalhos como esse se baseiam na constatação de que é preciso promover na escola a compreensão de novas tecnologias e de diferentes linguagens presentes na vida da sociedade”, argumenta Gracia.

Para Gracia, a questão é urgente e há necessidade cada vez maior de as escolas incluírem a comunicação (presente na vida dos alunos, antes mesmo de nascerem) em seus planos pedagógicos e passarem a desenvolver, em sala de aula, atividades práticas, tanto no âmbito da promoção de leitura crítica quanto no de produção de veículos informativos.

 

Uma boa dica, segundo a educadora, é a elaboração de um jornal escolar com os exercícios necessários para que os alunos passem a entender como são produzidas as informações que lhes chegam prontas. “Discutir a pauta, isto é, fazê-los definir sozinhos as notícias que querem tornar conhecidas, redigir as mensagens numa linguagem que de fato seja deles, tirar fotos a partir de suas próprias perspectivas, podem se constituir situações que possibilitam aos alunos aprender também a ‘editar’ o mundo”, sugere. Ao longo do processo, que terá sido resultado de um trabalho experimentado coletivamente, a idéia é os alunos passarem a comparar os diversos modos de produzir informação e ler com olhos mais críticos os jornais de grande circulação.

 

De acordo com estudos do Núcleo de Pesquisa da USP, a utilização de jornais e outros meios torna as aulas mais significativas. Isso porque os veículos podem desencadear reflexões, ilustrando temas atuais que são abordados em diversas disciplinas. Os meios de comunicação podem estar incluídos entre as tantas fontes de pesquisa para o professor preparar suas aulas. Além de buscar apoio em livros, revistas, enciclopédias, ele pode também fazer uso de um trecho de novela, por exemplo, para explicar determinado assunto, seja de História, Geografia ou mesmo de Ética. “A formação de cidadãos críticos pressupõe o preparo para a reflexão diante de toda e qualquer realidade”, conclui Gracia.

 

 

 

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Inteligência tecnológica?

Novas tecnologias instigam mudança
na forma de pensar

Mais do que simples entretenimento, videogames, jogos multimídia,
televisão e Internet desempenham papel relevante no desenvolvimento
cognitivo de crianças e jovens

Por Guilherme Azevedo*

A jornalista Mirna Feitoza tinha sérias restrições aos videogames e jogos multimídia. Ela, que jamais havia tido formação específica em psicologia e educação, possuía muitas dúvidas sobre a importância pedagógica – haveria mesmo alguma? – das novas diversões eletrônicas na vida da criança.

Por isso, em seu dia-a-dia como redatora e repórter do caderno infantil de um grande jornal brasileiro, relutava em escrever reportagens sobre o assunto, apesar da insistência de seus leitores específicos, as crianças. Os textos que contemplavam os novos jogos eletrônicos eram, invariavelmente, alvo de protestos do público adulto, mas de comemorações por parte da audiência infantil. O que fazer? A prática, as entrevistas, as reuniões de trabalho com as crianças cuidaram de responder à questão.

Formada, como costuma dizer, “através do livro”, principal causa de sua resistência inicial às novas mídias, Mirna intuiu que estava diante de um processo novo, onde os videogames não eram em si um mal, o motor de uma instigação à violência, como quase todos – inclusive ela – acreditavam; muito pelo contrário, tratava-se, na verdade, da inauguração de um novo modo de pensar.

“O grande desafio hoje para a escola é saber lidar com a capacidade de diversidade que a criança tem desde pequena”

“A criança contemporânea tem essas brincadeiras, videogames, jogos multimídia, assim como, antigamente, existiam as brincadeiras de roda”, reconhece hoje a doutoranda, cuja tese na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, “Porcarias, inteligência e cultura: o papel das diversões eletrônicas na formação da criança”, vai investigar o assunto mais a fundo.

A jornalista, e agora também pesquisadora, explica que novas mídias como os jogos eletrônicos abriram caminho para um processo cognitivo baseado no autodidatismo e na experimentação lúdica. Isso quer dizer que a cognição, no universo infantil, se dá sem a mediação de adultos e a partir de erros e acertos, do teste de possibilidades. Mirna explica que, por meio dos jogos, “a cognição passa pelas mãos”. Não é apenas uma atitude de observação, há também um processo físico envolvido. Surge, então, um novo paradigma de “leitor”, permitindo que a criança seja também co-autora, co-protagonista da história.

Ela ressalta ainda o fato de os jogos eletrônicos estimularem a criança a interagir com a diversidade de códigos. Antes de se alfabetizar, a criança já é capaz de lidar, simultaneamente, com os códigos sonoro, visual e gráfico presentes nos games. Mirna é categórica: “O grande desafio hoje para a escola é saber lidar com a capacidade de diversidade que a criança tem desde pequena”.

A descoberta “na prática” de Mirna vem ao encontro das recentes pesquisas acadêmicas. O pesquisador e educador Claudemir Edson Viana, do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação (Lapic) da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), relativiza a questão entre a violência na TV e nos jogos e a violência real. Para ele, relacionar as duas de forma direta “é uma leitura muito equivocada do processo de comunicação e educação nos seres humanos”.

Viana lembra que o maior prejuízo que uma criança pode sofrer é a violência real. “Quantos desses jovens vêem seus pais brigando entre si? Quantos deles sofrem essa violência constantemente nas ruas? Isso é até ruim em termos de discussão nacional, porque reduz um problema de caráter social ao aspecto meramente tecnológico”, conclui.

O educador argumenta que a violência sempre existiu na humanidade, de um jeito ou de outro, e, portanto, os desenhos e os jogos que a exploram não são os responsáveis por ela. “Por que toda história de fada tem bruxa? Porque a bruxa representa o lado mau de todo ser humano e é nos desenhos, nas brincadeirinhas, nos contos de fadas que a criança começa a ter referenciais do que é o bem e do que é o mal”, explica. Viana, que prepara a tese de doutorado “Jogos em multimídia e aprendizagem infantil: reflexões sobre a pedagogia da imagem eletrônica”, insiste que a ciência já comprovou “que a criança, desde os quatro anos, tem consciência que ficção não é a mesma coisa que realidade”.

A grande questão, da qual depende o surgimento de uma sociedade mais justa, segundo Viana, é formar alunos cada vez mais aptos a olhar criticamente para os conteúdos que a TV e a Internet, por exemplo, apresentam. Ele afirma ser “fundamental que as escolas estejam alertas para a necessidade de o professor trazer para as atividades em sala de aula conteúdos que são do cotidiano da criança e do jovem”, como a novela televisiva, o telejornal e os jogos multimídia. E que o professor os conheça para fazer com que as crianças aprendam a utilizá-los não só para ampliar conhecimentos, mas também para ser mais críticas ao “ler” esses próprios produtos.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)