Professor digital

 

 

Professor na Era Digital

 

Internautas do EducaRede expressam suas opiniões na Semana do Professor

 

O que pensam os professores sobre a sua profissão? E sobre a relação entre Educação e Tecnologia em uma sociedade cada vez mais marcada pelos avanços tecnológicos?

 

Como não dá pra saber o que pensam todos os educadores brasileiros, o EducaRede realizou um levantamento dos internautas que mais utilizam o Portal com seus alunos. E enviou a eles um questionário para que pudessem expressar suas idéias na semana do Dia do Professor.

 

Em comum, Luzenário, Helena e Denilson acreditam no uso pedagógico da Internet, e por essa razão valorizam a rede mundial de computadores em suas aulas. O EducaRede tem o prazer de fazer parte da vida deles diariamente (Denilson e Luzenário) ou semanalmente (Helena). “O EducaRede nos permite trocar experiências com outros colegas e discutir temas atuais; e isso contribui para a nossa formação”, afirma Luzenário. A formação continuada é uma das principais preocupações deste professor.

 

Confira um pouco do que pensam esses professores/internautas:

 

Luzenário Cruz é professor de Matemática do Ciclo II, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Dona Chiquinha Rodrigues, em São Paulo. E-mail: luzcruz@terra.com.br

 

Que dificuldades você enfrenta como professor?
Além das salariais (sem discussão) e das péssimas condições de trabalho (dentre elas, um número muito grande de alunos por sala de aula) há a falta de uma política de formação continuada, particularmente, aquela que tem como lócus privilegiado a própria escola.

 

Quais os benefícios de ser um professor?
São poucos e a cada administração eleita, tira-se um pouco mais. Entretanto, o maior benefício é a convivência com as novas gerações. É por isso que nós professores não envelhecemos.

 

Você recomendaria a sua profissão aos jovens que ainda não se decidiram? Por quê?
Após três décadas em sala de aula, confesso que cada dia fica mais difícil recomendar aos nossos jovens a nossa profissão. Tive por vários anos a honra de ministrar aulas para futuros professores, na antiga Habilitação Específica para o Magistério, e é com pesar que observo que poucas dessas ex-alunas abraçaram o Magistério como carreira. As novas gerações cresceram ouvindo as dificuldades e as mazelas dos ossos do nosso ofício e cada vez menos se interessam pela nossa profissão.

 

Você usa a Internet com seus alunos, em suas aulas? De que forma?
Sim, através de pesquisas ou da troca de mensagens. A última atividade realizada com os alunos foi uma pesquisa sobre Tales de Mitelo ( 1ª parte). Além da pesquisa, os alunos deveriam responder algumas questões e enviaram-me, através de e-mail, para correção.

 

Na sua opinião, o que a Internet pode representar para o ensino formal quando o seu uso pedagógico estiver mais difundido?
Uma verdadeira revolução. Entretanto, isso só será possível se os professores forem capacitados para trabalharem essas novas tecnologias de informação. Ademais, a relação aluno x professor será revista porque as novas gerações parecem ter pleno dominio dessas novas tecnologias. Confesso que, durante a minha experiência trabalhando com os alunos no Laboratório de Informática Educativa, tenho aprendido muito sobre informática com eles.

 

Que mensagem você gostaria de dar aos colegas no Dia dos Professores?
Professor, Professora: Ouse!!!!!!!!! Sua ousadia, faz toda diferença!!!!! Acredite nisso e esteja sempre atento às seguintes competências: gostar do que faz e cumprir seu dever; ter comprometimento, competência, responsabilidade, dedicação e empenho; aplicar novos métodos de ensino; ter criatividade; incentivar o aluno; mostrar a importância de sua matéria em relação às outras; saber o conteúdo; ter formação atualizada e boa didática; ajudar o aluno a desenvolver habilidades e preparar-se para o mercado; fazer orientação profissional.

 


 

Helena Damelio dá aulas de Informática na Educação para professores dos Ensinos Fundamental e Médio da rede estadual de São Paulo, dentro do programa Teia do Saber. E-mail: heldamelio@aol.com

Quais os benefícios de ser um professor?
Contribuir com o desenvolvimento do ser humano através do ensino é um privilégio.

 

Você recomendaria a sua profissão aos jovens que ainda não se decidiram? Por quê?
Sim. Atuo também em outras áreas, voltadas à tecnologia, mas ensinar me permite estar em situação constante de aprendizado e crescimento. Ensinar a aprender é gratificante e a área de ensino permite este investimento contínuo em aprendizado.

 

Você usa a Internet com seus alunos, em suas aulas? De que forma?
Estas aulas de informática acontecem em laboratório com acesso à Internet, com o uso de ferramentas de e-mail, chat, blog, e com navegação em sites e bibliotecas com conteúdo educacional.

 

Na sua opinião, o que a Internet pode representar para o ensino formal quando o seu uso pedagógico estiver mais difundido?
Trata-se de uma ferramenta de pesquisa, de comunicação sem fronteiras geográficas e de produção de conteúdo por professores e alunos. A seleção do bom conteúdo tem que ser levada a sério, pois, num mundo cada vez mais povoado de informações, a qualidade é cada vez mais importante. E é exatamente por isso que também acho necessário começar a educar os alunos para que produzam bom conteúdo que possa ser compartilhado em rede, com o uso de blogs, por exemplo. Mas a situação ainda é meio utópica. No projeto Teia do Saber, muitos dos professores relatam que não conseguem usar os computadores de suas escolas, que ficam trancados numa sala, ou quebram e seu reparo não é feito. Ou, mesmo quando são usados, nem todos os alunos podem participar, os computadores ficam restritos a alguns programas educacionais. Enfim, mesmo quando as escolas estão equipadas, sinto que falta melhor administração deste recurso para que professores e alunos se beneficiem dele.

 

Que mensagem você gostaria de dar aos colegas no Dia dos Professores?
Professores são figuras marcantes em nossas vidas. Muito do que sou hoje se deve a meus professores. Meu interesse pela pesquisa deve-se ao incentivo que tive deles ao longo da vida. Os professores a quem dou aula me ensinam muito também. A todos estes profissionais que passaram e passam pela minha vida, muito obrigada! E a todos nós, professores, muita luz nesta teia do saber.

 


 

Denilson Rodrigues de Oliveira é professor de Matemática em Camapuã, Mato Grosso do Sul. Atualmente, trabalha na sala de informática da Escola Estadual Miguel Sutil e da Escola Municipal Eurico Gaspar Dutra com alunos do Ensino Fundamental de 1ª a 8ª séries. E-mail: profdoti@uol.com.br

 

Quais os benefícios de ser um professor?
Ser reconhecido em todos os lugares como professor e ser ídolo de crianças que se espelham na gente para um futuro melhor.

Que dificuldades você enfrenta como professor?
A dificuldade de aprendizagem, a indisciplina e a falta de responsabilidade da família para com a criança.

 

Você recomendaria a sua profissão aos jovens que ainda não se decidiram? Por quê?
Sim, a profissão professor/educador é maravilhosa e há uma carência muito grande principalmente na área de Exatas. Espero que num futuro bem próximo sejamos mais valorizados.

 

Você usa a Internet com seus alunos, em suas aulas? De que forma?
Uso com jogos educativos para as séries iniciais do Ensino Fundamental (www.estadinho.com.br, www.monica.com.br, www.duende.com.br, www.meninomaluquinho.com.br), pesquisas (www.google.com.br) e bate-papos do EducaRede, jornais locais (www.correiodoestado.com.br) para uma leitura diária e revistas Veja, Isto É entre outras.

 

Na sua opinião, o que a Internet pode representar para o ensino formal quando o seu uso pedagógico estiver mais difundido?
Muita coisa. A Internet possui inúmeros recursos que podem ser explorados a qualquer momento, em qualquer série.

 

Que mensagem você gostaria de dar aos colegas no Dia dos Professores?
Caros colegas educadores, a nossa luta é contínua e árdua, mas fazemos parte da profissão mais importante do mundo. Um dia, seremos reconhecidos e valorizados como merecemos.

 
(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Jorge Marinho conta sua história

As armas de Jorge

Esta é a ultima semana de inscrições para participar da Oficina de Criação, mediada pelo escritor Jorge Miguel Marinho, que faz das palavras seu instrumento de “batalha”

Por Priscila Gonsales

I

Inspirado na oração de São Jorge, o cantor e compositor Jorge Benjor criou a canção “Jorge da Capadócia“, na qual fala da proteção que o popular santo guerreiro dá a seus devotos mediante o uso de suas armas. O escritor Jorge Miguel Marinho, que é carioca – mas de coração paulistano, como faz questão de enfatizar – , pode não ter nada de santo, porém, é impossível lhe tirar o mérito de guerreiro. Para Marinho, os vários prêmios literários recebidos e o reconhecimento da crítica não são mais importantes do que sua própria história de vida.

Nascido numa família simples, de poder aquisitivo extremamente baixo, passou a infância sem ter nenhum contato com livros. A escola em que estudou era de infra-estrutura tão precária que não tinha sequer uma biblioteca. Só aos 15 anos foi apresentado a uma história instigante do universo de descobertas adolescentes, “Os Padres Também Amam” (Adelaide Carraro). Depois, aos 18, ganhou “O Pequeno Príncipe” (Saint Exupéry) de uma namorada. Mas o encontro real de Jorge Marinho com a Literatura aconteceu mesmo na faculdade de Letras, quando chegou às suas mãos o consagrado “Dom Casmurro”(Machado de Assis).

A experiência de Marinho derruba a idéia de que para escrever é preciso ter lido desde cedo, de preferência os clássicos. E uma de suas primeiras “armas” para lutar contra essa falsa concepção foi sem dúvida a curiosidade. “O importante é ler o que gosta, o que tem interesse, o que provoca algo”, diz.

Prêmios recebidos

Prêmio Fundação Nacional
do Livro Infantil e Juvenil e Prêmio Associação Paulista
de Críticos de Artes, por
“Na Curva das Emoções”
(contos), São Paulo,
Melhoramentos.

Prêmio FNLIJ/Melhor Livro para Jovens, por “A Visitação do Amor” (novela), São Paulo, Contexto.

Prêmio Jabuti, por “Te dou a Lua Amanhã…” (biofantasia de Mário de Andrade), São Paulo, FTD.

Prêmio HQMix, por “O Cavaleiro da Tristíssima Figura” (novela), São Paulo, Ática.

Aos 54 anos, casado e pai de dois filhos, Marinho é professor universitário de Literatura, escritor, poeta, roteirista e ator. Vencedor do prêmio Jabuti pelo livro “Te dou a lua amanhã”, uma biofantasia (texto literário que narra a biografia real de uma personalidade por meio de recursos da ficção) de Mário de Andrade, protagonizada por um dos personagens do escritor modernista. É também autor do roteiro do média-metragem “Mário, um homem desinfeliz” no qual interpretou o papel título. Tem contos traduzidos na França e nos Estados Unidos e vários livros publicados.

Os internautas de todo o Brasil que quiserem aproveitar um pouco das atuais “armas” desse Jorge – as palavras – poderão fazê-lo na Oficina de Criação, a partir do dia 15 de abril. Veja como se inscrever.

Numa tarde quente e chuvosa, em seu apartamento na agitada rua Teodoro Sampaio, no bairro paulistano de Pinheiros, Marinho concedeu à Revista EducaRede a seguinte entrevista:

Como era o menino Jorge Marinho?
Até os 10 anos fui um garoto bastante introspectivo, não andava em turma, tinha poucos amigos. Minha diversão predileta era escutar novelas pela rádio São Paulo. Ficava mergulhado na história, fantasiando que os personagens saltariam do aparelho para dentro da minha casa. Com isso, acabei exercitando o meu mundo imaginário. Mas a fase solitária não durou muito tempo, cheguei até a ser capitão de uma turma de futebol, mesmo sendo perna de pau (risos).

Palavra Sentida

Pega uma parte da vida,
uma porção bem pequena,
miúda.

Agarra com a palavra
Essa coisa tão mínima,
funda,
aprofunda.

Deixa a palavra
bem dentro da parte,
iguais,
únicas.

Quase não fica parte
nenhuma das coisas,
o que fica é quase
tudo da vida.

Você fala sempre que sua curiosidade o ajudou muito na carreira de escritor. Como foi isso?
Sempre fui muito curioso, de coisas banais mesmo. Fico interessado em saber se o fruteiro chega aqui na minha casa de caminhão ou não. Um fato que marcou minha trajetória de “escrevedor” foi uma redação encomendada por uma professora do clássico (corresponde hoje ao ensino médio), d. Aidê, cujo tema era “A Alegria de Ler”. Escrevi a partir de uma curiosidade mesmo, pois meu repertório de leitura era muito vago. Falei sobre o contato com as palavras no mundo e a relação com a palavra vida, que ler era uma forma de fazer com que a palavra do outro tenha vida. Foi uma experiência muito feliz, pois a professora leu em classe para os outros alunos. Isso me envaideceu no momento, mas durou pouco.

 

Qual foi seu primeiro texto publicado?
Quando tinha 18 anos, fui convidado a escrever um artigo em homenagem ao Dia das Mães para o jornal da empresa em que eu trabalhava como técnico de contabilidade. O problema era que eu perdera minha mãe aos 16 e ninguém sabia. Fiz uma crônica com o seguinte título “Difícil crônica para alguém que não se vê”. Fiquei ansioso se publicariam ou não. E publicaram. Depois, na faculdade de Letras, lancei meu primeiro livro, “O Talho”, um conjunto de poemas muito ligados ao que eu estava lendo naquele momento. Eu tinha mais vontade que domínio da palavra. O meu primeiro sucesso foi “Escarcéu dos corpos”, uma série de contos.

Quando decidiu cursar Letras? Como foi sua passagem pela universidade?
Resolvi fazer um curso ligado a palavras. O determinante foi a professora do cursinho que fez questão absoluta de ler em voz alta um outro texto meu. Apesar da minha então dificuldade com a escrita, ela foi muito sensível e percebeu o processo de elaboração, o conteúdo. Pensei num primeiro momento em Jornalismo, mas o período não batia com o trabalho. Optei, então, por Letras. Quando entrei na USP tinha repertório de leitura muito pobre. Conheci a professora Lígia Chiappini que me apresentou a vários poetas pelos quais me apaixonei. Foi quando comecei a ler um livro após o outro, queria recuperar o tempo perdido. Pensava: como passei tanto tempo sem pisar nesse território?

Como é seu trabalho hoje?
Digo hoje naturalmente que, se eu não escrever, não vivo bem. Às vezes, o que me move é a própria vontade de escrever. Há também a demanda das editoras que passam a encomenda. Agora, é super difícil publicar livros, por isso, sem pressa, quem escreve deve mostrar para as pessoas. Sempre tive o meu trabalho de professor, não vivo unicamente dos livros. Eles sempre foram para mim um presente, acho tão bom poder publicar! Não ligo diretamente o dinheiro a uma atividade tão prazerosa para mim.

Tua melhor palavra

Escrever não é fácil,
nem é simples.

É com a pena pontiaguda
entre o corte e o afago
que se busca escrever
a vida
sem penetrá-la.

É obsessivo,
trabalhoso e extenuante
como limar a rocha
com algodão.

Mas às vezes acontece
e então cada palavra
é uma punção de maciez.

Jorge Miguel Marinho por Jorge Miguel Marinho?
Um típico medroso que não tem problemas de enfrentar o medo. Medo da própria natureza da vida. O medo dá uma força, me faz perseverante e apaixonado pela vida.

Fale sobre seu ídolo Mário de Andrade.
Mário de Andrade foi um dos maiores estudiosos da cultura brasileira. Não era um grande poeta, mas sim um bom cientista. Pessoa de extremo caráter, humanista, solidário. Imagine que ele respondia cartas de poetas anônimos com o mesmo fervor que escrevia a amigos consagrados. Foi também um bom dramaturgo. Li várias das cartas que Mário mandava aos amigos, que também funcionam como documento para se ter
um panorama da arte moderna.

O que está preparando no momento?
Estou preparando uma nova biofantasia: “Carlito canta Chaplin”, pedido da editora Nova Alexandria, para integrar uma coleção sobre figuras significativas da cultura universal. Como o próprio título já sugere, o principal personagem desse grande gênio cineasta vai narrar a biografia de seu criador.

O que acha do Dia da Poesia, comemorado em 13 de março?
Aprendi com Drummond (Carlos Drummond de Andrade) a aprender a poesia que existe no cotidiano. Isso porque as pessoas expressam a poesia antes de conhecê-la. As pessoas poderiam pensar na poesia como algo que pode ser tocado por todos – não é só para “iniciados”. Pensar também na beleza do caráter lúdico do conhecimento. Ler tem um peso de seriedade, e não pode ser assim. Poesia é brincar com seriedade.

O que diria ao jovem que sonha em ser escritor?
Que tenha os sentidos aguçados. Deve ter verdadeira paixão pela natureza humana e pelo ato de viver. E senso de detalhe. Se o universo é dos feirantes, por exemplo, vamos a ele. Você consegue dar a dimensão de um personagem por simples detalhes. Para ser escritor é fundamental dividir a experiência com o mundo. Mostrar que escreve, pedir aos amigos que leiam seus textos. Deve ser cara de pau mesmo. As opiniões, as leituras, vão dando o norte da sua escrita. Mas aconselho que os assuntos escolhidos façam parte da vida de quem escreve.

Qual deveria ser o papel da escola no incentivo desses jovens?
Primeiramente levar poemas para as crianças. Oferecer um leque variado. É preciso também um exercício permanente de leitura das palavras. Escrever é como a vida – encontra-se permanentemente com a realidade. Escrevemos para ser o que somos e o que não somos. A escola precisa estar com os “sentidos acesos”, perceber o que cada pessoa pode. Tive muita sorte.

Fábula

João escreveu três palavras, colocou-as numa garrafa, tampou e atirou tudo ao mar. Não se sentiu menos anônimo nem a existência melhor. Porém a sensação de abreviar espaços e aproximar pessoas o invadiu. Quando João escreveu as três palavras que um dia alguém encontrou e pouco entendeu porque apenas diziam “Eu estou aqui”, comungou com todas as mãos e todas as letras de todos os tempos o primeiro “sentido” de escrever.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 01/04/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


Interagindo, a gente se entende

Interagindo, a gente se entende

O especialista Marco Silva esclarece dúvidas dos professores, dando uma amostra da sua participação no III Congresso Ibero-Americano EducaRede

As perguntas sobre o uso da Internet na escola não são poucas. Mas geralmente são comuns entre os professores que, na cibercultura, são estimulados a rever posturas e teorias que ainda dominam suas práticas. Para responder algumas dessas dúvidas, o EducaRede convidou o professor Marco Silva, subdiretor do departamento de Educação a Distância da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, para um bate-papo com internautas do Portal.

O organizador dos livros “Educação online” e “Avaliação da aprendizagem em Educação online” participará do III Congresso Ibero-Americano EducaRede, que será realizado nos dias 29 e 30 de maio, em São Paulo (SP). Mas, antes disso, Marco Silva interagiu com os internautas durante uma longa

conversa.
Confira trechos da interação.

Mudança de paradigmas

Adriana: Quais os desafios que a Internet traz para o professor?
Marco Silva: O desafio da Internet para o professor é a interatividade, algo diferente da transmissão própria da cultura da mídia de massa onde se encontra sua própria docência tradicionalmente cristalizada. Estamos todos acostumados com a tela da TV que transmite. Na Internet, o paradigma comunicacional é a interatividade. Os professores não estão acostumados a isso. Precisam de formação para tal.

Elessandra: Mesmo não tendo o apoio da direção e coordenação escolar, nós professores somos capazes de fazer a nossa sala de aula interativa?
Marco:
Claro que o apoio da direção e dos colegas professores é valiosíssimo. Entretanto, não podemos depender deles. Temos que começar o trabalho em nossa sala de aula, negociando o processo com os aprendizes, já realizando aí a interatividade.

Valéria Cristina Basílio: Às vezes fico inquieta ao discutir com colegas sobre o uso da Internet nas pesquisas dos alunos. Alguns argumentam que é pura cópia, por outro lado acredito que seja uma forma de enriquecimento cultural muito válida. Como você vê essa questão?
Marco: 
Cópia por cópia já se faz tradicionalmente em Educação. A escola é a primeira a legitimar a cópia com sua pedagogia da repetição. O que tem sido grande parte da docência se não o incentivo à repetição daquilo que o professor transmitiu? O problema começa aqui. A escola não incentiva a criação, mas sim a repetição.

Adriana: Os conteúdos na Internet não são lineares como estamos acostumados na escola. Isso pode gerar insegurança no professor?
Marco: Sim, pode. Contudo, temos que encarar esse desafio desenvolvendo práticas sustentadas em lógicas hipertextuais. É preciso sair da segurança das receitas prontas. É preciso ensinar a buscar informações de qualidade nesta grande confusão de dados que é o ciberespaço. Não há como exercitar isso sem se molhar na chuva.

Alex Sandro C. Sant’Ana: O que seria o “novo espectador”, termo que você cita em seu livro “A sala de aula interativa“, no contexto do cotidiano escolar?
Marco:
Resgato aqui um trecho que publiquei em outro espaço. “Ele é menos passivo perante a mensagem mais aberta à sua intervenção. Ele aprendeu com o controle remoto da TV, com o joystick do videogame e agora aprende com o mouse. Assim ele migra da tela estática da TV para a tela do computador conectado à Internet. Ele é mais consciente das tentativas de programá-lo e é mais capaz de esquivar-se delas. Ele evita acompanhar argumentos lineares que não permitem a sua interferência. E lida facilmente com o hipertexto, com o digital; dele depende o gesto instaurador que cria e alimenta a sua experiência comunicacional: dialogar, interferir, modificar, produzir, partilhar. O jovem da geração digital lembra a criança que vai ao teatro infantil: quer subir no palco e interferir na cena. Essa atitude menos passiva diante da mensagem é sua exigência de uma nova sala de aula.”

Blog, Orkut e aprendizagem

Rita de Cássia S. Barbosa: Como buscar para a vida real alunos que freqüentam casas de jogos virtuais e que já estão alienados?
Marco:
Traga os jogos virtuais para dentro da sala de aula.

Bia: Como controlar o uso indevido de sites (sem conteúdo, explícitos etc.) focalizando o aprendizado?
Marco: 
Discuta com seus alunos a diversidade de informação própria da Internet e juntamente com eles selecione informações pertinentes aos projetos de aprendizagem. Crie contratos negociados e gerenciados pelo próprio grupo. Não desestimule a turma frente à enxurrada de informações. Aproveite essa enxurrada com possibilidade democrática de formação da cidadania na sociedade da informação.

Soltex: Como podemos incentivar os alunos a buscarem informações, pois muitos deles só querem a Internet para sites impróprios e banais? Agora, entre eles, a moda é o Orkut. Como tirar proveito disso?
Marco:Crie projetos com questões que interessem aos alunos articuladamente com a proposta pedagógica. Os alunos terão interesse em buscar informações de interesse coletivo. Faça gincanas, jogos. Aproveite os espaços de que eles gostam, como o Orkut, e crie situações de aprendizagem a partir desses ambientes online, já conhecidos por eles. Estimule a construção de blogs e fotologs sobre temas instigantes e contextualizados com as questões de interesse dos jovens. Proponha projetos em que os jovens são os protagonistas.

Lúcia Lazarini: É necessário estipular um tempo, por dia, para as crianças utilizarem a Internet? Você acha que a Internet pode ser prejudicial ao relacionamento, à criação de relações verdadeiras entre os jovens?
Marco: A Internet deve ser livre para todos. Os pais precisam estar por perto. Há site perigosos. Há conteúdos nocivos. Todavia, há o mesmo na rua, na esquina, enfim na vida presencial.

Martaelen: Gostaria de saber se você acha que os blogs, vlogs, flogs são de fato um espaço pedagógico a ser aproveitado ou apenas modismos.
Marco: São interfaces que emergem na cibercultura. São valiosos espaços de encontro, de sociabilidade. Podem ser utilizados didaticamente pelo professor que esteja formado para tal. O desafio é a formação do professor. Ou ainda sua inclusão digital.

Laboratórios de Informática

Erika Calou: Como trabalhar com inclusão digital se nossas escolas são carentes de computadores?
Marco:
Neste caso, é preciso fazer parcerias e projetos com outros professores dividindo a turma em pequenos grupos. Para isso a escola precisa incluir em seu projeto pedagógico o uso do laboratório articuladamente com a docência. Ao mesmo tempo, é preciso romper com o tempo rígido das aulas de 50′. E também criar parcerias e trabalhos coletivos, projetos, dividindo as turmas e as atividades… Tudo isso sem esquecer de cavar políticas públicas para abastecimento da escola com mais computadores conectados em banda larga.

Robledo: Sou orientador tecnológico e o apoio o professor no laboratório. Como conquistar o professor e fazer funcionar essa parceria?
Marco:
Procure sensibilizar os professores da escola para o computador e para a cibercultura. Sem isso será impossível. Trata-se de grande mudança paradigmática em relação à cultura da TV e da máquina de escrever.

Robledo: Como devem ser as políticas de uso dos laboratórios das escolas?
Marco: 
As escolas devem decidir isso juntamente com professores e alunos, democraticamente, estimulando todos a encontrarem agendas e finalidades para o uso.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Plano de Desenvolvimento da Educação é solução?

“Melhoria da qualidade da Educação
depende mais da escola do que de Plano”

O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) foi anunciado em 24 de abril pelo Governo Federal como um programa de impacto para melhorar a realidade do ensino público no país. Com grande repercussão na mídia, foi acompanhado com cautela por muitos professores e especialistas em Políticas Públicas para a Educação. Uma delas é Lisete Arelaro, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), ex-secretária de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, em Diadema/SP, e um dos pesquisadores que mais entendem do assunto. Por isso, o EducaRede a convidou para ser entrevista por internautas, de modo geral, durante um bate-papo realizado em 16 de maio de 2007. Confira abaixo a íntegra, editada, dessa conversa. Para saber mais sobre o PDE, clique nos links abaixo:

Lelia Lyra: A criação de bolsas para jovens de baixa renda voltarem a estudar, incrementos no crédito estudantil para acesso à universidade e aliança do Ensino Médio com Ensino Profissionalizante são as únicas medidas do PDE para beneficiar a juventude? Que outras ações do Plano visam a juventude? Que relação têm essas medidas com a melhoria de qualidade na Educação, que parece ser o objetivo central do PDE?

Profª Lisete: Bem, Leila, as propostas apresentadas como PDE – apesar de não se constituir efetivamente num Plano – podem ser entendidas de várias formas. Se por um lado, ele não está preocupado/dirigido aos jovens, acredito que ampliar as vagas nas universidades públicas, por exemplo, facilitar a acessibilidade dos jovens portadores de deficiência, são alternativas que valorizam nossa juventude. Você não acha?

Lelia Lyra: Sem dúvida. A senhora diz que o PDE não se constitui efetivamente num plano. No que consiste?

Profª Lisete: O PDE é um conjunto de boas e de equivocadas intenções ministeriais, mas não traduz – nem de longe – os estudos que o próprio MEC dispõe sobre as condições de ensino no Brasil. E é uma proposta de “uma mão só”. Só o MEC e o Ministro discutiram e – parece! – gostaram…

Lelia Lyra: Ou seja, o PDE não é uma política pública. Qual seria a política pública ideal para a Educação?

Profª Lisete: A melhoria da qualidade de ensino depende muito mais do projeto político-pedagógico que cada escola tenha construído, coletivamente, com os diferentes segmentos que participam da vida escolar, do que de medidas gerencialistas, que o Planalto “baixe”, para serem cumpridas pelas e por todas as escolas… Neste sentido, é difícil dizer que elas tenham qualquer relação direta com a qualidade de ensino no Brasil.

Alice: Gostaria de saber o que você destacaria como indicadores principais para melhorar a Educação, porque creio que cobrar resultados não é suficiente.

Profª Lisete: Eu acredito que o levantamento do conjunto de fatores que interferem no processo de ensino-aprendizagem, dentre eles as condições de vida dos alunos e as condições de trabalho dos professores são variáveis intervenientes que precisam ser levadas em conta em qualquer processo de melhoria da qualidade de ensino.

Laysa1: Professora, concordo quando diz que ampliar as vagas nas universidades públicas e facilitar o acesso dos jovens portadores de deficiência, dentre outras ações, são alternativas que valorizam a juventude. Porém, é preciso garantir não apenas o acesso, mas também a permanência desses jovens nesses espaços. Para tanto, devemos levar em conta a qualidade dessa Educação, sem deixar de lado os profissionais que atuam dentro das escolas e universidades. Diante disso, o que propõe o PDE?

Profª Lisete: Como já enfatizei, o PDE não é – nem pretende ser – um “Plano” que dê conta das necessidades do ensino brasileiro. Para isso, passamos discutindo o Plano Nacional de Educação (PNE), com 10 anos de duração, que sequer foi avaliado e cujas metas não estão “corrigidas” pelo PDE. A garantia de boa formação inicial, entendida como o 1º curso de nível superior que o professor cursa, é variável fundamental, que define as “formações em serviço”. As condições de trabalho nas Universidades, entendida como o tripé necessário – ensino/pesquisa/extensão – cada vez menos realizados nas Universidades, em cuja maioria (privada), a pesquisa é desconsiderada e os professores atuam como professores-horistas gera um “gargalo” de qualidade, cuja ação – esta sim! – de fiscalização do MEC é essencial.

Alice: A formação continuada é uma boa estratégia para melhorar o desempenho profissional do professor?

Profª Lisete: Sem dúvida, porém, temos que considerar um novo fenômeno nacional: a formação inicial do professor tem sido “desqualificada” propositadamente, em nome de uma “rapidez” de formação injustificável para a função que ele vai exercer. Assim, estamos criando um círculo vicioso onde, pela má formação inicial, criamos uma “indústria” de formações continuadas que, menos do que atualizar o professor, tenta “compensá-lo”, pela frágil formação inicial. Eu entendo que a formação continuada é feita, especialmente, quando o corpo de professores de cada escola do Ensino Básico pode se reunir para discutir o trabalho educacional que vem desempenhando… É um bom momento de formação, quase nunca valorizado!

Fernando J: A senhora acredita que há boa vontade por parte do governo em investir em Educação neste país?

Profª Lisete: Fernando, não sei o que você entende como “boa vontade”, mas o investimento real do Governo é pouco. Você chamaria isso de “má vontade”? Há uma preocupação de caráter mais gerencial do que de “investidor” na Educação.

Laysa1: Pelo Projeto de Lei que propõe o piso nacional, têm direito a salário mensal de R$ 850,00 os profissionais do magistério com jornada de 40 horas semanais – o professor que está na sala de aula. Tudo o que vi acerca da adoção desse piso salarial só me deixou com mais dúvidas. E os Estados e Municípios que possuem um piso salarial acima do estipulado?

Profª Lisete: Como eu disse ao Fernando (ministro da Educação), não se pode identificar – com os dados disponíveis até agora – uma disposição ousada do Governo Federal para com novos recursos para a Educação. O piso proposto, infelizmente, traduz isso. Todo Governo admite que professores ganham mal, porém, raríssimos atuam no sentido de reverter esta situação. O MEC perde uma oportunidade de incentivar isso – até porque não vai ser ele que estará arcando com as conseqüências. Mas os professores do Brasil – que perderam o piso nacional unificado do magistério  com a Emenda Constitucional 14/1996 – e esperavam recuperá-lo com a EC 53, que criou o Fundeb, ficaram certamente desesperançados. Quem recebe a mais, vai manter o piso em que está, no entanto, o ritmo de “aumentos ou atualizações salariais” será certamente reduzido ainda mais.

Lelia Lyra: O especialista em Educação Claudio Moura Castro diz que a maior crise da Educação brasileira é que, para os brasileiros, não há crise. Os brasileiros não fazem demanda por qualidade na Educação. A senhora concorda?

Profª Lisete: Discordo do Claudio M. Castro. Ele precisa visitar mais as nossas escolas. Tem vida inteligente lá! A qualidade começa a ser uma preocupação cada vez maior de toda a sociedade, em especial dos que nunca tinham tido o direito de lá estarem.

Laysa1: Que relação tem o PDE e o Fundeb?

Profª Lisete: Eu penso que nenhuma, pois o Fundeb – com todas as críticas que precisam ser feitas à opção de política de Fundos – traduz uma alternativa importante ao Fundef. Além disso, ele vem sendo debatido, no Brasil, desde 1999, por diferentes grupos: sindicatos, entidades científicas, escolas, partidos políticos, fóruns diversificados de Educação etc. O PDE, não. Acordamos de manhã, e vagas idéias – algumas novas, outras “requentadas” – estavam na mídia. Aliás, mais na mídia que nas discussões do próprio MEC, e menos ainda da sociedade brasileira.

Marcelo Bezerra Martins: Como educador, gestor educacional e especialista das áreas de Currículo, Formação Docente e Gestão Pública, venho lendo bastantes artigos que tratam sobre o PDE. Mas vale ressaltar que a Política do PDE é de inclusão, eqüidade e responsabilidade social. Contudo, ficam algumas provocações: o que dizer do salário dos docentes, mesmo com o piso nacional de R$ 850,00, para jornada de 40h? O que dizer da formação docente, em que ainda temos índices alarmantes de docentes sem a formação MÍNIMA exigida pela LDB 9.394/96? O que dizer da qualidade de nossas escolas, em que a maioria não possui biblioteca, outras nem sanitário? Acredito nas mudanças na Educação e que através dela conseguiremos reduzir o apartheid social vigente. Mas acredito que pensar na eqüidade é garantir melhoria na qualidade de vida dos envolvidos no processo, inclusive docentes! Pensem nisso, quem sabe assim o PDE poderá ficar mais encorpado e garantir a Justiça que tanto sonhamos!

Profª Lisete: Marcelo, eu concordo com suas preocupações, mas gostaria de ponderar com você se, de fato, o PDE traduz uma POLÍTICA EDUCACIONAL de inclusão, radicalizada, quero dizer, para além de propostas avulsas. Hoje, no mundo ocidental, a eqüidade é usada para que os “desiguais” (leia-se: os pobres), se sintam “um pouco mais incluídos”, pela desgraça do mais “desgraçado” do que ele, utilizando-se a categoria “pobreza” como justificativa cínica para o não atendimento dos direitos sociais básicos a todos. Eu, cidadã pobre, me “consolo/conformo”, ao saber que não pude ser atendida, mas um outro, “muito mais pobre que eu”, teve a chance… Você não acha que os R$850,00 traduzem isto? Certamente, cem dos mais de 5500 municípios alegariam que não poderiam pagar, por exemplo, R$ 1500,00, por uma jornada de 30 horas ao professor de Educação Básica. Então, você, eu, e outros, “abrimos” mão – não só de recebermos – mas de reivindicarmos uma melhoria salarial, em nome dos (poucos) que não poderiam efetivamente pagar, mas que o MEC poderia perfeitamente complementar. Pense nisso.

Profª Lisete: Bem, colegas, gostei bastante do “papo”. Quem quiser continuar este debate agradável e … interminável, pode me “emeiar”:liselaro@usp.br. Um abraço a todos (as).

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

José Manuel Moran

“Precisamos aprender o que conservar e o que mudar” diante das tecnologias


Em seu texto “As mudanças perto de nós”, o senhor afirma que: “A humanidade sempre aprendeu a conviver com inovações, mas atualmente a sucessão delas é alucinante e a quantidade de implicações, freqüentemente desconhecida”. Em Educação, já podemos listar algumas dessas implicações?

 

O professor aposentado pela Escola de Comunicações e Artes da USP, e diretor da Faculdade Sumaré, José Manuel Moran, conversou com os internautas do Portal EducaRede na última terça-feira (06/11). A sala de chat ficou cheia neste animado bate-papo, em que foram abordados diversos assuntos, principalmente ligados à tecnologia, área em que Moran pesquisa. A capacitação e motivação dos professores para lidarem com as inovações tecnológicas, o Ensino a Distância, a mediação e o uso dos blogs como ferramenta pedagógica estão entre os temas. Confira abaixo trechos do encontro virtual:


Renata

Moran Estamos um pouco perdidos, porque não basta mudar por mudar. Precisamos aprender o que conservar e o que mudar. Educar é sempre um processo humano, de relação entre pessoas, hoje mais mediado por tecnologias. Isso não é simples, porque implica repensar a forma de organizar o processo a que estávamos acostumados.

Profª Lu LinneuConcordo com você que a inovação incomoda aos que não querem mudar suas práticas. Mas como motivá-los a participar e se envolver em projetos novos?

Moran Envolver os outros tecnologicamente é um processo longo, que demora no mínimo dois anos até a apropriação pedagógica. O importante é mostrar resultados e fazer a iniciação tecnológica com grande afetividade e carinho. Alguns professores só falam das tecnologias em si, mas temos que falar também dos encontros, da aprendizagem humana com tecnologias.

Tiago EmmanuelComo é possível utilizar a tecnologia para melhorar a qualidade do ensino nas escolas públicas? Percebe-se uma grande defasagem dos professores em relação aos alunos quando o assunto é o acesso à informática.

Moran – Acesso e capacitação contínua é o caminho. Começam a ser implantados projetos mais consistentes dos governos (nos três níveis) para que as escolas públicas estejam conectadas, tenham mais computadores em rede, façam cursos de formação de professores, além do projeto de um computador popular para cada aluno.

Josiene VilelaComo mudar a metodologia enraizada na prática docente? E como vencer a resistência dos professores?

Moran A metodologia focada em conteúdo e no professor está dentro do DNA da escola e de todos nós, porque é o caminho que conhecemos até agora. A mudança se dá por experiências de grupos e pelo apoio de gestores inovadores. Precisamos juntar-nos aos professores inovadores e aos gestores inovadores.

Miguel Podemos falar em ganhos qualitativos com a utilização das novas tecnologias, principalmente na Educação Fundamental?

Moran Até agora conseguimos ganhos parciais no uso das tecnologias, porque também sua utilização foi parcial. O ganho fundamental se dá quando avançamos na integração do humano, do emocional e do ético, junto com o tecnológico. Essa integração tem sido deficiente, mas creio que estamos caminhando para situações melhores.

Nice Fale um pouco sobre as relações de ensino e aprendizagem que essa nova tecnologia (computador e Internet) está criando em sala de aula?

Moran – O computador e a Internet podem ser utilizados em contextos diferentes, isto é, podem reforçar o ensino convencional ou servir de apoio para situações mais ricas, focadas em aprendizagem significativa, colaborativa e baseada em pesquisa e projetos. Acredito que estamos caminhando para esta nova dimensão, mas não é fácil, muitos ainda não reconhecem a importância de trazer estas tecnologias para dentro da escola.

Vinni Meu nome é Vinicius. Sou aluno–monitor da escola Linneu Prestes. Quero saber do senhor quais tecnologias o aluno tem que ter para estar no mundo globalizado?

Moran As tecnologias que precisamos são todas, as simples e as mais sofisticadas. As melhores são as possíveis no momento. Podendo escolher, vale a pena utilizar as que sensibilizam o aluno, como a Internet, o celular, o podcast (programas digitais sonoros), os blogs e tantas outras.

Ana Estou fazendo minha monografia na área de tecnologia. Diante de tantas inovações, qual o maior desafio enfrentado hoje pelos professores?

Moran – O maior desafio é entrar em sintonia com os alunos, sensibilizá-los, atraí-los, torná-los parceiros, despertar neles o desejo de aprender. Feito isso, é facil utilizar as tecnologias e qualquer técnica.

Domingos O senhor acredita na Educação brasileira da forma como vem sendo realizada na escola pública, com as séries cada vez mais reduzidas e os professores ensinado pouco e os alunos nada estudando?

Moran Eu acredito que a Educação tende a melhorar na medida em que todos estamos mais conscientes da sua importância para mudar o país, mas isso não se faz num passe de mágica; é preciso muito esforço integrado e várias décadas.

Kelly A utilização das TICs nas escolas públicas poderão se tornar uma breve e prazerosa realidade. Qual sua opinião a respeito?

Moran Vejo com esperança o avanço da escola pública na integração das tecnologias. No próximo ano, 300 escolas estarão totalmente conectadas com os computadores populares na sala de aula; em 2009 esse número será muito maior.

Evanildo É sabido que as modernas tecnologias se tornaram ferramentas indispensáveis à Educação em todo o mundo. O senhor acredita que nós já estamos acompanhando as mudanças exigidas pelas modernas tecnologias?

Moran Estamos muito aquém do que precisamos. O Brasil é muito desigual e contraditório. Há grupos extremamente avançados tecnologicamente e outros muitos excluídos. Tendemos a melhorar, mas depende de cada um de nós.

Ana Maria Gosto muito da utilização de multimídias. Porém, um dos problemas é justamente o uso da sala de informática. Um projeto que trabalhe Matemática, por exemplo, requer várias horas com muitas turmas diferentes e variados programas. A escola pública ainda não é capaz de oferecer a nós, docentes, uma infra-estrutura para isso. Como melhorar as condições do uso dos equipamentos como política educacional, e não somente para dizer que há uma sala de informática nas escolas?

Moran Concordo com a dificuldade da utilização do laboratório. Caminhamos para a escola conectada (salas de aula conectadas, ambientes de redes sem fio) e não só o laboratório. Isso trará grandes mudanças para as possibilidades de flexibilização dos processos de ensino e aprendizagem.

Cláudia Os alunos que temos hoje dentro da sala de aula se encaixam no perfil dos alunos co-pesquisadores, ativos no processo do seu próprio aprendizado, citados em seus textos? A transição dos nossos alunos para aqueles dos textos será rápida?

Moran – O aluno chega motivado à escola quando pequeno e, com o passar do tempo, se desmotiva. Por que será? O que oferecemos é o que ele espera e da forma que ele precisa? Há um divórcio profundo nas propostas de ensino com as formas usuais de aprender, e se não quebrarmos esse fosso, a desmotivação será cada vez maior.

Marcos AurélioComo será a escola do futuro? Qual será a real participação do professor nesta nova escola?

Moran A escola do futuro será um conjunto de espaços e tempos, mais flexíveis nas propostas, mas sempre com a mediação de professores humanistas, confiáveis e competentes. O que faz uma boa escola são os bons profissionais, professores competentes e motivados. As tecnologias permitem que a informação seja acessada pelo aluno de qualquer lugar, mas a aprendizagem contextualizada, ao menos no começo, depende da mediação dos professores.

Fernanda Eu moro em Jales e estou cursando Pedagogia na modalidade a distância pela UFSCar. Estou estudando vários textos seus e experimentando suas idéias na prática. É realmente inovador e motivador. Também sou professora de Matemática no Ensino Fundamental. Como eu poderia, sem muitos recursos, transformar minhas aulas em aulas-pesquisa. No Ensino Fundamental isto é possível?

Moran Obrigado por colocar em prática algumas das idéias dos textos. Em qualquer situação é possível focar a pesquisa, o desenvolvimento de atividades, de projetos. O material pode ser diferente, ou a forma. Mesmo sem acesso à Internet é possível focar essa aprendizagem ativa e colaborativa.

Fábio Em seu texto “A Educação que desejamos”, aparece o conceito “aulas-pesquisa”. O senhor poderia falar um pouco sobre esse conceito?

Moran São aulas em que o fundamental não é o professor passar a informação, mas organizar situações em que os alunos, individualmente ou em pequenos grupos, busquem a informação (com a mediação do professor) e a contextualizem, a reelaborem, a comuniquem para todos, e a apliquem à sua realidade. Por isso o papel do professor é importante, não tanto como falante, mas como mediador.

Solange/Mogi Mirim Sou ATP no Núcleo de Informática e desenvolvo, em conjunto com meu grupo, uma proposta de Rádio Web no curso de Especialização de Tecnologia em Educação, pela PUC–Rio, para escolas de tempo integral, como recurso de interação do currículo comum e oficinas. Nosso trabalho tem como embasamento idéias para desenvolvimento de habilidades e competências dos alunos. Gostaria de conhecer o seu ponto a esse respeito, já que o senhor foi um de nossos motivadores.

Moran Fico feliz com a proposta de Rádio Web. Os alunos gostam de falar, de integrar música e voz, além de divulgar isso para todos. O rádio, nas suas várias modalidades, é barato e permite a integração de conteúdos e a motivação dos alunos. Continuem avançando no projeto.

Santos Quando falamos em produzir conhecimento coletivamente, percebo que existe o silêncio virtual. As postagens em ambientes virtuais de aprendizagem/interação por meio de debates pelos fóruns ou listas de discussão por e-mail, são mínimas. Como instigar o aluno para uma participação mais ativa?

Moran Há silêncios preocupantes e silêncios estimulantes. Existem pessoas que observam, meditam, mas nem sempre contribuem tanto quanto outras. Elas aprendem bastante, mesmo com interação pequena. Concordo com o seu receio pela falta de exposição de muitos em ambientes virtuais, além da falta de cultura da escrita em muitos professores e alunos. A escrita deixa um registro permanente e muitos não gostam de se expor. A cultura se cria com a prática, com o incentivo e com temáticas interessantes para o aluno. Nós escrevemos mais facilmente sobre temas que conhecemos bem, como, por exemplo, futebol, não é verdade?

Prof. PedroO senhor tem um blog, o Educação Inovadora, que se apresenta como uma ferramenta para dialogar sobre as grandes mudanças que estão acontecendo na Educação em todos os seus níveis. Qual sua opinião sobre o uso de blogs como ferramenta pedagógica?

Moran O blog é uma página mais dinâmica, porque as pessoas podem opinar sobre os assuntos postados. É fácil de escrever, atualizar, ilustrar e comentar. Parece-me um recurso muito rico para a aprendizagem. Eu combino uma página mais fixa com textos prontos e o blog, com uma possibilidade maior de interação.

Julieta Gouveia Estou aprendendo agora sobre as novas TICs. Quais as principais ferramentas para uma aprendizagem tecnológica?

Moran Sucesso em sua aprendizagem tecnológica! As ferramentas são as possíveis na sua situação. Vídeo, cd, softwares interessantes, saber pesquisar na Internet, organizar um ambiente de grupos na Internet, criar um blog, fazer um programa de rádio e daí por adiante, até dominar um ambiente de aprendizagem como o Moodle, por exemplo. Caminhe do simples ao complexo, no seu ritmo e de acordo com suas possibilidades.

MarceloO senhor acha que as ferramentas chat,
em>Msn, e Orkut podem ser utilizadas como forma de ensino nos laboratórios de informática?

Moran Qualquer recurso de comunicação ou página de relacionamento tem suas vantagens e desvantagens. Os programas de comunicação online, como o msn, são úteis para trabalho em grupo, para orientação dos alunos, para tirar dúvidas, mas muitos os utilizam para entretenimento e bate–papo dispersivo. Dependem de como são utilizados. O Orkut também tem sua utilidade, embora as pessoas o vejam mais como um site de relacionamento do que de aprendizagem. Pode ser um espaço inicial de colaboração, mas há muitos outros (páginas de grupo) que se adaptam melhor para o ensino e aprendizagem.

Domingos Como o senhor vê a avalanche de universidades virtuais?

Moran Realmente há uma explosão de universidades virtuais, de cursos a distância, principalmente por teleconferência (satélite e tele-aula). Se, além das aulas, existem atividades, leituras e mediação interessantes, valem a pena. A questão é se temos mediadores (tutores) bem capacitados e remunerados para essa mediação (aqui vejo um problema mal resolvido em muitas destas universidades).

Marcos Maurício Um renomado professor da Educação da USP dizia que as ciências cognitivas eram um emaranhado de disciplinas como Ciência da Computação, Neurolingüística e Semiologia, e que se transformaram em verborréia. O senhor acha que com o surgimento das novas tecnologias na escola as ciências cognitivas voltam a ter importância nas atuais questões sobre Educação?

Moran Educar é ajudar a compreender, a conhecer. As áreas de conhecimento são especializações diante de um conhecimento cada vez mais complexo. Ninguém conhece tudo, mas é importante que tenhamos instrumentos para o conhecimento autônomo, em rede e humilde. Sabemos um pouco, não sabemos muito. A Educação é fundamentalmente a organização de processos cada vez mais ricos de conhecimento. Se não for dessa forma, estaremos nos enganando.

Ângela O senhor concorda que a partir das novas tecnologias conseguimos atrair, sensibilizar e tornar nossos alunos parceiros?

Moran Concordo que a boa utilização das tecnologias nos aproxima dos alunos, mas junto com elas precisamos mostrar que somos pessoas interessantes, abertas e confiáveis. Sem dúvida os alunos estão bem atentos a todas essas possibilidades que as tecnologias nos oferecem.

Marly Entendo que a primeira grande barreira a se transpor é o professor se enxergar novamente como aluno, o que considero algo mais complicado. O professor se tornar aluno de seus alunos.

Moran Quanto mais aprendemos e estamos abertos como alunos, mais facilmente encontraremos formas de ensinar e de orientar os nossos. Quando mais aprendemos, mais podemos contribuir para a aprendizagem de todos.

Grace Estamos caminhando cada vez mais para um mundo virtual. Como essa experiência pode ser positiva tratando-se do Ensino Fundamental?

Moran O mundo virtual é uma extensão do nosso mundo físico, e se integra o tempo todo. Nós estamos agora conectados virtualmente e estamos aprendendo. O Ensino Fundamental precisa dosar o presencial, o contato físico e as atividades virtuais. O aluno pode estar fisicamente na sala de aula e muitas vezes conectado, em grupo e individualmente, pesquisando. Ainda nos falta o acesso fácil a essa realidade conectada. Mas o Ensino Fundamental também integrará a presença física e os ambientes virtuais.

Kelly Percebo em seus textos a forte preocupação em equilibrar o advento das TICs com os valores morais e éticos, porém, vivemos numa sociedade bastante competitiva e individualista. Como nós, educadores, conseguiremos alcançar tal objetivo?

Moran Não é fácil conciliar colaboração e competição, mas é nosso desafio. Podemos ser bons competidores e colaboradores, dependendo do momento, da situação, do contexto. A formação precisa incluir cada vez mais a dimensão colaboradora, o aprender juntos, a troca. Mas a competência pessoal e a capacidade de lidar com conflitos, com as contradições pessoais e sociais também serão cobradas. Temos de encontrar um caminho positivo, de esperança, mesmo diante de um contexto social bastante difícil e violento. Sermos educadores com esperanças e não catastrofistas.

Sabine Como o senhor vê o e-learning coorporativo atual? Como será o futuro desta área na sua opinião? 

Moran Acredito que estamos passando de uma primeira fase, com um e–learning focado em conteúdos prontos para outro focado em competências e colaboração. Há cursos que são instrumentais e basta acessá-los com atenção e há outros em que a mediação é mais necessária, para a aquisição das competências desejadas. As corporações precisam de muita inovação pedagógica também. Há muita mesmice.

Agradeço a todos pelas perguntas tão ricas e variadas. Desculpem-me ter que respondê-las de forma às vezes simplista, pelo tempo e poucas linhas de cada resposta. Vejo em vocês pessoas comprometidas e que estão aprendendo a mudar. Contem comigo no que precisarem e procurarei continuar atualizando a discussão com textos, experiências e incentivo. Obrigado pelo apoio de vocês e continuem avançando, ajudando uns aos outros. Grande abraço para cada um de vocês e até breve.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Laís Bodanzky fala sobre cinema e comunidade

Com a participação de cerca de 30 pessoas em sala de bate-papo do EducaRede, a diretora dos filmes “Bichos de Sete Cabeças” e “Chega de Saudade” contou sobre suas influências, deu dicas para jovens que se interessam pela carreira cinematográfica, explicou o que acontece no projeto Cine Tela Brasil, entre outros assuntos.

 

A paixão pelo cinema e como ele pode ser um grande fator na formação do cidadão, esses foram os dois principais temas abordados no bate-papo que aconteceu nesta segunda-feira, dia 11, no portal EducaRede com Laís Bodanzky, diretora dos filmes “Bicho de Sete Cabeças” e “Chega de Saudade”.

“O gostoso do cinema é que ele é uma janela para o mundo. Mesmo sendo um filme de ficção, você conhece uma outra cultura”, disse a cineasta. Uma questão muito levantada pelos internautas foi o preconceito que uma mulher na direção de um filme pode sofrer. “Nunca senti preconceito pelo fato de ser mulher. Acho que a geração da Tizuka Yamazaki teve que encarar este problema. Essas mulheres fortes me ofereceram um delicioso campo de trabalho. Mas curiosamente quando finalizei o ‘Bicho de Sete Cabeças’, na Itália, senti na pele o preconceito. Não só de ser mulher mas de ser uma diretora estreante e do terceiro mundo”, contou Laís.

Já sobre os jovens que sonham um dia ser cineasta, Laís dá uma dica importante: “Eu comparo a câmera de vídeo com a caixinha de fósforo usada pelos músicos. O brasileiro é muito criativo, ele já provou isso na música. Aos poucos estamos mostrando que no audiovisual também somos criativos. Quem quer seguir uma carreira cinematográfica, tem que primeiro pensar o que você tem para dizer para o mundo. Será que outras pessoas vão se interessar? Essa história precisa ser vital para você pois o caminho para realizá-lo será muito duro apesar de divertido. Um curso é sempre bacana, mas não tenha medo de por a mão na massa. Faça um vídeo com uma câmera do vizinho, o celular do pai, etc. Mas faça. E depois faça de novo e de novo.”

Cine Tela Brasil

“O Projeto surgiu há 12 anos atrás, em um formato mambembe. Era só o Luiz Bolognesi e eu exibindo filmes de curta-metragem em praças, escolas, associações de bairro, etc. Sempre de graça para um público que estava vendo o cinema provavelmente pela primeira vez. Nós como realizadores, sentíamos dificuldade em exibir os nossos próprios filmes e de amigos também”, explicou Laís, que completou: “Nossos objetivos são vários: “Formação de público, distribuição de bens culturais, espaço de exibição para o cinema brasileiro, ocupação do espaço público, apoio à atividades escolares e principalmente por pura diversão.”

Confira vídeo sobre o lançamento da sala em São Paulo e uma entrevista com a cineasta.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Uma questão de diversidade


Uma questão de diversidade

Historiadora dá dicas sobre como trabalhar a diversidade cultural nas escolas

Qual a diferença entre preconceito e discriminação? Por que a pressão de grupos considerados “minoria” é importante? Como trabalhar a questão da diversidade cultural nas aulas? No mês da Consciência Negra, o EducaRede propõe o debate. Essas perguntas também foram feitas pelos internautas à historiadora Diana Mendes Machado da Silva durante um bate-papo, realizado em outubro pela Comunidade Virtual do ProJovem.

Diana leciona no Ensino Fundamental I da rede pública desde 1997, trabalhou com Alfabetização de Adultos no Núcleo de Consciência Negra da USP e, atualmente, é monitora do Projeto Democracia e Direitos Humanos nas Escolas, junto à Faculdade de Educação da USP. Veja a edição dessa conversa com os internautas.

Guinaldo: Qual a sua opinião sobre a distribuição de cotas e outros expedientes que parecem minimizar a questão da discriminação?

Diana: Vi uma palestra de uma grande militante do movimento negro, Cida Bento. Ela dizia que a grande contribuição da política de cotas no Brasil é a discussão sobre o racismo. Nós tendemos a negar a existência do racismo no Brasil, e a discussão de cotas põe as cartas na mesa de quais são as questões. Eu apóio as ações afirmativas por essa e outra razão. Elas são importantes porque possibilitam que representantes de grupos excluídos possam “circular” e se tornar “visíveis” em certos ambientes sociais. O que, de alguma maneira, contribui para diminuir a discriminação que é ainda forte em nosso país.

Gil: Você acha que a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira vai contribuir para a questão da diversidade cultural na escola?

Diana: Acredito que sim. Quando o governo cria políticas públicas de defesa da diversidade (e de promoção da igualdade), como no caso dessa lei, a tendência é que o assunto passe a ser pauta da sociedade. Quando isso acontece, acredito que começamos a notar mudanças. Basta ver como as escolas públicas têm se preocupado em incluir contos africanos no repertório de histórias infantis.

Mary:

 Como você vê a pressão dos grupos considerados “minoria” para que a sociedade supere o preconceito e a intolerância?

Diana: Acho que essa pressão é bastante importante por várias razões. Dentre elas, há o fato de que somente com pressão da sociedade civil é que podemos reformular leis e práticas sociais. Por exemplo, se o movimento dos homossexuais não pressionasse a sociedade e o Estado, até hoje faríamos piadas homofóbicas sem constrangimento, ou nunca acharíamos que eles podem ter o direito de discutir a possibilidade de deixar herança para seus companheiros. Só para completar a questão, é importante que esses movimentos tenham muita força e depois integrem lutas por melhorias coletivas, não somente de grupos. Por enquanto não dá.

Mary: Você diz em um texto que “diferença não é sinônimo de desigualdade”. Poderia dar um exemplo disso?

Diana: Diferenças são todas as características naturais ou culturais das pessoas. Por exemplo, fazer parte de uma família judia ou cristã é uma característica, uma diferença cultural. Contudo, se o fato de ser judeu ou cristão for tratado com preconceito e discriminação, se me inferiorizar diante de outros cidadãos, significa que estamos tratando uma diferença com desigualdade. E isso é bastante problemático no mundo político, que pressupõe a igualdade.

Doroti: Considerando que os preconceitos se mascaram, e que nem sempre o jovem tem clareza se está sofrendo uma discriminação, como podemos, enquanto educadores, explicitar as relações preconceituosas que se apresentam em coisas e falas de grupos específicos?

Diana: Preconceito é algo bastante complicado porque é de âmbito individual, refere-se mais à visão de mundo dos indivíduos. Com preconceito só podemos lidar com conhecimento, e nem sempre dá certo. Já com a discriminação a situação fica mais visível, portanto, podemos lidar com ela. Porque a discriminação envolve um emissor e um receptor. Quando alguém impede um outro de entrar num ambiente, o que foi discriminado “sente” e pode agir contra isso.

Pedro: Você não acha que a palavra “tolerância” desqualifica o respeito à diferença?

Diana: Para nós, brasileiros, a palavra tolerância tem conotação um pouco pejorativa, porque carregamos nossas relações de afeto. Nunca conseguiríamos imaginar pessoas que somente “toleram” negros. Contudo, ela é bastante usada para as relações políticas, do mundo público, que pressupõem certa despersonalização. Digamos que o conceito de tolerância seja importante para “skins” ou neonazistas, que tendem a querer matar todos aqueles que são diferentes. Tolerância é bom para situações extremas. Mas o respeito é também conceito importante nas relações políticas e deve também ser valorizado.

Adriana: Como incluir a questão da diversidade cultural nas aulas? Que tipo de projetos ou atividades é possível planejar?

Diana: A questão da diversidade, da diferença e da desigualdade pode ser tratada de várias maneiras. Uma delas seria a inclusão nas atividades já cotidianas de exemplos de pluralidade religiosa e étnica da classe. Isso fortalece as possibilidades identitárias de nossos alunos. Há outras maneiras de tratar a diversidade, mais vinculadas à postura do professor. Ele precisa lidar com os alunos reais que tem na sala, em toda a sua diferença, valorizando as possibilidades de ser, pensar e estar no mundo. A tolerância e o respeito à diferença se aprendem com bons exemplos de conduta. Se o professor respeita, o aluno tende a respeitar.

Pedro: Li a questão levantada pela Adriana e gostaria que você desse um exemplo prático de como seria uma atividade ou um projeto sobre o tema.

Diana: Uma atividade interessante poderia ser, por exemplo, iniciar pesquisa com os alunos sobre costumes e/ou hábitos da juventude por regiões da cidade. Em São Paulo, seria um trabalho riquíssimo! Conhecer como vivem os jovens da periferia, de bairros de classe média e da classe alta seria experiência interessante para discutir diferenças de classe social. O mesmo poderia ser feito se o assunto é religião. Não se trata de defender ou atacar um ou outro grupo, mas de conhecê-lo para se “repertoriar”.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Sexualidade: qual a sua dúvida?


Sexualidade: qual a sua dúvida?

Professores e estudantes fazem perguntas sobre o assunto ao médico Jairo Bouer,
durante chat no EducaRede

 

Na época do Carnaval, o tema “sexualidade” ganha destaque na mídia. Na escola, a festa pode ser um mote para tratar de questões como mudanças no corpo, DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), gravidez precoce, Aids e alterações no comportamento.  Mas não se engane: as dúvidas dos alunos rondam a sala de aula o ano todo. No entanto, muitos professores têm dúvidas sobre como agir diante dessas questões e trabalhar o tema em aula.

Em bate-papo realizado no EducaRede, professores e alunos entrevistaram o médico Jairo Bouer, especialista em sexualidade. Educadores perguntaram ao médico, conhecido entre os jovens, a respeito de atividades para as aulas e atitudes que podem adotar diante de situações inusitadas. Os estudantes também tiraram dúvidas. E, diferentemente do que acontece em aula, expuseram abertamente suas perguntas. Confira os melhores momentos desta conversa.

 

:: Sexualidade na escola

Mariana: Sou professora do Ensino Fundamental I (alunos de 1ª a 4ª séries) e gostaria de saber como posso trabalhar o tema sexualidade com crianças dessa faixa etária?

Jairo Bouer, colunista da Folha de S. Paulo e apresentador de programas de TV sobre sexualidade
Foto: Divulgação

Jairo Bouer: É importante trabalhar dentro do universo de experiências e percepções dessa faixa de idade. Para isso, você pode começar pesquisando o que eles sabem sobre o assunto. Começar com tratando do corpo e suas mudanças é sempre uma boa idéia.

Jarbas: Estamos na sala de Informática da nossa escola. Os alunos ficaram muito interessados em poder conversar com você. Queria que você sugerisse tipos de atividades como esta para tratar do assunto na escola.
Jairo: Discussão de filmes que abordam a questão da sexualidade, pesquisa coletiva na Internet sobre assuntos relevantes, peças de teatro, discussão de materiais em jornais e em revistas… Tudo isso pode colaborar para a discussão ficar mais bacana e mais interessante.

Marta: Qual a disciplina curricular mais adequada para abordar o tema sexualidade. Só Ciências? Por que não nas aulas de Português ou História, por exemplo?
Jairo: Não existe disciplina ideal e sim disciplina em que o professor está disposto a aprender e discutir o assunto.

Jarbas: É interessante envolver a comunidade local (pais, agentes de saúde etc.) nas atividades escolares. Mas como fazer isso para falar de sexo?
Jairo Bouer: É verdade. Você pode começar apresentando dados e estatísticas que comprovem o quanto falar de sexo com essa galerinha é importante.

:: Sem medo de tratar o tema

Renata: O que fazer com as crianças que ficam se masturbando na sala de aula?
Jairo: É preciso explicar que a masturbação é uma forma de buscar o prazer e que deve ser feita quando a pessoa está sozinha, em situação de privacidade. Não se pode permitir que a criança se masturbe numa situação inapropriada, como na sala de aula. E esse limite tem que ficar claro.

Mariana: Tenho um aluno de oito anos que apresenta comportamentos delicados. O que fazer para a classe respeitá-lo do jeito que ele é?
Jairo: Discutir as diferenças em sala de aula, sem colocar o aluno no foco das discussões é um começo. Até porque nem todo garoto com atitudes mais delicadas será homossexual. Se acontecer alguma situação extrema, um terapeuta pode ser convidado para conversar com a classe. Violência e agressividade devem ser punidas.

Priscila: Acho que minha professora tem vergonha de falar sobre sexo com a gente. Que dica você poderia me dar para que ela possa falar mais sobre esse assunto com a turma? Muitos alunos têm dúvidas.
Jairo: Elaborem uma lista com os assuntos que querem discutir e façam a proposta para a professora. Se ela se mostrar resistente, sempre existe a possibilidade de vocês montarem um grupo de estudos e checarem na Internet ou na biblioteca algumas dúvidas.

Zuleika: Gosto muito do seu programa. Gostaria de saber como é usar a mídia para falar de um assunto “médico”?
Jairo: A mídia é um importante e poderoso recurso para se trabalhar a informação. Prevenção, saúde, qualidade de vida são exemplos de temas que, quando bem trabalhados na mídia, podem causar um grande impacto positivo no comportamento das pessoas. É isso que a gente tenta fazer.

:: Dúvidas freqüentes

Carol: Tenho 13 anos e gostaria de saber sobre a sexualidade de meninas da minha faixa etária…
Jairo: As garotas hoje em dia começam as suas mudanças corporais, inclusive a menstruação, mais cedo do que em décadas passadas. O início da vida sexual também é mais precoce: hoje, em torno de 15,5 anos para vocês meninas… Mas isso não é regra. É importante estar bem informada, saber prevenir, negociar o uso da camisinha e ter responsabilidade sobre o que você está fazendo.

Cris: Você disse que a menstruação está vindo mais cedo agora do que antigamente. O que tem causado essa mudança?
Jairo: Provavelmente, a melhora do padrão nutricional da população e o fato de que as garotas estão atingindo um peso corporal maior mais cedo. Especialistas acham que a maior quantidade de estímulos em geral também poderiam ter um efeito nessa antecipação.

Lia Aparecida de Azevedo: A liberdade sexual, junto com a desestrutura familiar, podem ter influenciado o aumento de GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes)?
Jairo: Em parte, a maior liberdade sexual junto com a diminuição de preconceitos e a existência de uma maior flexibilidade dos modelos de relacionamento e família possibilita para as pessoas viverem desejos e experiências sem tanto medo ou cobrança.

Miriam: É homossexualidade ou homossexualismo? Qual a diferença?
Jairo: Os especialistas preferem homossexualidade, que se refere a uma situação, e não homossexualismo, que poderia denotar distúrbio ou doença.

Marcos Faveri: Por que quando as mulheres têm sua primeira relação sexual, sua ?cabeça? muda? E o corpo também?
Jairo: O corpo não muda por causa da relação, mas a cabeça sim. Principalmente porque a primeira transa é vista quase como uma passagem para a vida adulta.

João Carlos: Tenho que ir ao médico com freqüência como as mulheres? Por que elas vão tanto ao ginecologista? Como saber se o ginecologista é bom pra atender minha namorada?
Jairo: As mulheres devem ir ao ginecologista pelo menos uma vez por ano. O critério de indicação é pessoal e tem a ver com as referências que se recebem do médico e da empatia que surge entre o médico e o paciente. O garoto não precisa ser consultado com a mesma freqüência, mas é bom visitar um médico sempre que houver dúvida.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Ricardo Sennes analisa o conflito no Iraque

O que está por trás da guerra

Especialista em Relações Internacionais analisa os motivos que levaram a coalizão anglo-americana a atacar o Iraque

Por Ricardo Sennes*

É importante salientar que a atual guerra contra o Iraque envolve aspectos de diferentes naturezas. Alguns são de ordem geopolítica, outros econômica, estratégica e até mesmo eleitoral. Além disso, falta ainda muita informação para realmente termos uma visão clara do problema. Mas vamos arriscar alguns palpites.


Por que a guerra está acontecendo?

A guerra se tornou possível pelo fato de o Iraque ser hoje um ator importante em várias arenas de interesse dos EUA e, em todas elas, representar para o governo norte-americano um foco de oposição. Em escala de prioridade, a primeira preocupação do grupo político que hoje cerca o presidente George Bush refere-se ao papel dos EUA no mundo. Esse grupo dirigente (Dick Cheney, Rumsfeld etc.) não é novato na política norte-americana, eles estiveram nos governos de Henry Ford, Ronald Reagan e Bush-pai e se caracterizam por uma visão extremamente auto-centrada dos EUA.

Defendem, por exemplo, a idéia de que os EUA têm exercido no mundo uma posição muito aquém do que deveriam e poderiam, dado o fato de serem uma superpotência. Para eles, os EUA têm a legitimidade e o dever de impor uma ordem internacional com base em seus próprios princípios e referências. Vêem uma distorção injustificável entre o poder que os EUA têm acumulado e o grau de influência que exercem nas principais questões internacionais, entre elas a de segurança e de interesses estratégicos.

Dessa forma, a decisão de iniciar uma guerra no Iraque tem certamente muito a ver com a idéia de que cabe aos EUA iniciar um conjunto de ações visando “corrigir” distorções na ordem internacional, daí a origem da famosa expressão “países do eixo do mal”, que, além do Iraque, inclui o Irã e a Coréia do Norte.


Por que o Iraque foi escolhido como a “bola da vez”?

Além de fazer parte do chamado “eixo do mal”, o Iraque tem exercido uma função na região do Oriente Médio que vai de encontro aos interesses norte-americanos, seja na proteção mais ou menos velado aos grupos islâmicos radicais, seja pelo apoio aos palestinos. Os EUA viram na chance de derrubar Saddam Hussein um passo importante na redefinição do equilíbrio político do Oriente Médio.

Outro fator relevante é o argumento de que o Iraque ainda possua armamento de destruição em massa, principalmente armas químicas e biológicas. Essa foi a justificativa oficial para se iniciar a guerra – ou uma guerra preventiva, como consta nos documentos da área de segurança do governo de Bush.

Como fica a questão do petróleo?

É difícil sustentar que essa guerra tem apenas o intuito de garantir o suprimento desse produto aos EUA, ainda que o país seja altamente dependente das importações de petróleo para manter sua economia funcionando. Esse certamente é um fator, mas não deve ser tomado como principal ou de forma isolada.

Existe alguma ligação entre esta guerra no Iraque e os ataques ao World Trade Center?
Há uma ligação política. Como todos devem se lembrar, Bush foi eleito de forma precária, tanto sua campanha foi recheada de trapalhadas e desencontros, como a ínfima (e questionável) margem de votos sobre seu opositor (Al Gore), tiraram muito da legitimidade de sua vitória.

Fora isso, a condição de uma economia em forte desaceleração e a falta de apoio no Congresso (tinha uma pequena maioria numa das casas e era minoria na outra) estavam indicando que Bush não teria condições mínimas de fazer um governo razoável.
Porém, esse cenário mudou quando ocorreram os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. A comoção social que se seguiu foi canalizada para alguns dos pontos que o grupo mais conservador de apoio a Bush gostariam de priorizar, ou seja, agir para redefinir o papel dos EUA no mundo.

A partir dai seguiu-se uma série de medidas polêmicas e fortes que forjaram uma clara agenda de governo que Bush não possuía anteriormente. Foi aumentado de maneira assombrosa o orçamento de defesa dos EUA, criou-se um ministério específico para cuidar da segurança doméstica do país (Home Land Security) e iniciou-se uma política de repressão e controle interno.

Destacam-se ainda as várias gestões internacionais para colocar alguns países na linha de frente dos problemas da instabilidade internacional (os paises do “eixo do mal”). Dessa linha fazem parte a guerra contra o Afeganistão (onde estaria o mandante dos atentados, Bin Laden) e agora contra o Iraque, assim como as pressões contra a Coréia do Norte.

Paralelamente, os EUA forçaram uma redefinição política do eixo atlântico (a aliança tradicional com os europeus) e colocou em xeque a ONU. Enfim, os ataques de 11 de setembro permitiram uma reação política em cadeia – bem conduzida pelo governo Bush – que legitimou a ação agressiva de um governo que mesmo já tendo essas idéias antes dos atentados, não tinha as menores condições de implementá-las.

Acredita que ainda há lugar para uma superpotência na atual conjuntura mundial, que tende à multipolaridade? Na sua opinião, os EUA são um império em declínio?
No aspecto estratégico-militar, existe sim uma superpotência, cujo diferencial de poder em seu favor é o maior já visto na história. Os EUA estão militarmente mobilizados, têm bases em diversos países, sua frota naval está permanentemente vigiando os oceanos e possuem um aparato de informação e vigilância combinando satélites, aviões de espionagem, monitoramento da internet, das comunicações telefônicas etc. Aqui a questão não é se existe espaço ou não para uma superpotência. A questão é: existindo uma superpotência (como é o caso dos EUA), como é possível construir uma ordem internacional estável e minimamente confiável.

Caso Al Gore tivesse sido eleito, acredita que a guerra ocorreria?
Não creio que com um presidente com o perfil de Al Gore essa guerra estaria ocorrendo. As soluções que os democratas tendem a imprimir para as crises internacionais, tende a ser mais cooperativas e baseado na anuência das instituições internacionais.

*Ricardo Sennes é formado em Economia, com mestrado em Ciências Políticas e doutorado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisador do Centro de Estudos em Negociações Internacionais da USP. 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Programa Ação


Ação entre amigos

Programa de TV sobre educação apresentado por Serginho Groisman comemora quatro anos no ar em gravação especial longe do estúdio

Por Paloma Varón

“Juntos nós podemos mudar o Brasil através da educação”. Esse é o slogan do programa “Ação”, apresentado por Serginho Groisman, que vai ao ar aos sábados, às 7h30 da manhã, na TV Globo, e também no Canal Futura, às quartas-feiras, 22h30. O “Ação” tem como objetivo divulgar informações sobre educação e incentivar o trabalho voluntário na rede pública brasileira de Ensino Fundamental.

Além de receber convidados, Serginho apresenta reportagens e entrevistas sobre iniciativas bem sucedidas de organizações não-governamentais (ONGs), empresas e outras instituições em todo o Brasil e até em outros países (em agosto, a equipe do programa fez matérias especiais em Taiwan).

No dia 3 de dezembro, o EducaRede acompanhou a gravação comemorativa de quatro anos do programa, realizada na Fundação Gol de Letra (FGL), zona norte de São Paulo. Foi a primeira vez que o Ação saiu do estúdio da Rede Globo. O programa foi ao ar no dia 13 de dezembro.

Nos bastidores

Chamava atenção a curiosidade estampada no rosto dos moradores da Vila Albertina, bairro da periferia paulistana, quando viram chegar o carro com a equipe do programa – composta por cinegrafistas, produtores, diretor, técnicos e o apresentador, é claro.

Depois de armar o cenário na quadra de esportes da Fundação Gol de Letra, posicionar refletores, câmeras e convidados, o diretor avisa: “Silêncio: gravando”. Os vizinhos do lado, além dos garotos e garotas atendidos pela FGL, automaticamente ficam mudos e atentos.

Descontraído, Serginho olha para a câmera e começa a falar com ela. Cumprimenta e apresenta os convidados do dia: o ex-jogador de futebol Raí, presidente da FGL, a coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Zilda Arns, a diretora do Instituto Faça Parte, Maria Lúcia Reis, e o presidente do projeto Régua e Compasso, de Santo André (SP), Wilson Bianchi.

Tudo corre bem, os convidados saúdam os “futuros” telespectadores, e Serginho se dirige a um grupo de grafiteiros para fazer uma breve entrevista quando o diretor manda parar tudo. O plástico que servia de filtro para um dos refletores estava caindo.

Segura, ajeita, testa, volta a gravar, começa tudo de novo. Assim, entre pausas e retomadas, flui um programa de televisão. Depois, o material bruto ainda passa pela edição, para ser finalizado e ficar no formato de meia hora, com os intervalos comerciais (no caso do “Ação”).

As entrevistas com os convidados, cada um contando sobre os seus projetos, se alternava com os depoimentos dos meninos e meninas presentes. Crianças da FGL e adolescentes do Régua e Compasso participaram dando seu depoimento sobre o que fazem nas instituições e também apresentando números musicais (a banda do régua e Compasso). Os grafiteiros da FGL criaram uma obra especial, em homenagem ao aniversário do programa.

Segundo a equipe do Ação, a seleção das matérias que vão ao ar é feita de acordo com a proposta do projeto e a atuação de cada instituição que mais se encaixa na pauta pensada pelos produtores. Se você quiser indicar algum projeto, pode mandar sugestões pelo e-mail acao@redeglobo.com.br ou visitar o site do programa: www.globo.com/acao .

Fala, Serginho

Serginho Groisman parece nunca envelhecer. Talvez seja a identificação tão imediata da sua figura com o público jovem. Quase não dá para acreditar que Groisman estreou na televisão há 18 anos, entrevistando o piloto Christian Fittipaldi, na época um menino que corria de kart. Seu currículo na telinha abrange programas educativos e de entretenimento como TV Mix (TV Gazeta), Matéria Prima (TV Cultura), Programa Livre (SBT) e os atuais Ação e Altas Horas (Rede Globo).

A identidade do apresentador com a área de educação começou já como aluno, quando atuou como líder cultural da escola paulistana em que estudou, promovendo shows de MPB, sessões de cinema, entre outras atividades. Também ocupou o cargo de diretor e professor de Rádio e TV da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). No intervalo da gravação comemorativa do programa Ação, Groisman fez uma pequena pausa para conversar com o EducaRede:

Como nasceu o “Ação”?
Em 1999, quando a Globo estava idealizando o Projeto Brasil 500 Anos, fui convidado para colaborar na elaboração de um formato de programa sobre educação, que duraria só até abril de 2000, num total de 20 gravações. No entanto, quando estreamos, percebemos que a repercussão estava indo além do esperado, o que fez o programa crescer e se manter na grade de programação, falando sempre de educação, voluntariado, tentando não apenas apontar os problemas, como também mostrar as possíveis soluções.

Quais as dificuldades em fazer um programa cujo tema (educação) é de tamanha abrangência?
Bom, o programa cresceu, é semanal, mas tem meia hora de duração. Sei que ainda temos muita coisa a mostrar. Hoje o número de ONGs e projetos sociais que nos procuram querendo apresentar resultados de boas práticas é muito grande. Muitas vezes a ONG fica em locais muito distantes, de difícil acesso, nem sempre a equipe de produção está disponível para ir a todos os locais. Como o número de boas ações supera a quantidade de tempo e de periodicidade que dispomos, a dificuldade maior está no processo de selecionar as pautas.

Como são feitas as reportagens em tantos lugares?
Com o crescimento do programa, o “Ação” saiu do Núcleo de Produção e passou a integrar a Central Globo de Jornalismo. Isso foi uma grande e boa mudança, um enorme ganho, pois agora a gente conta com a equipe de jornalismo das afiliadas da Globo pelo Brasil para fazerem as matérias de campo.

Qual a importância de divulgar bons projetos educacionais?
É fundamental para qualquer meio de comunicação. Mostrar que existe um Brasil que caminha paralelo ao Estado, que se movimenta. Cada vez mais é preciso divulgar iniciativas da sociedade para melhorar o país e incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo.

Você concorda com críticas que apontam que as ONGs querem ocupar o lugar do Estado?
Eu não sou favorável que o Estado deixe de lado a sua responsabilidade, de assegurar aos cidadãos brasileiros o que lhes é de direito. Mas penso que as ONGs dão o sentido crítico do que o Estado deve fazer, ou seja, contribuem para que boas iniciativas possam se tornar políticas públicas.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)