Uma relação na qual o equilíbrio é tudo

A tecnologia sempre esteve ligada a vínculos. Quais as possibilidades e as preocupações que ela nos apresenta? Leia artigo para refletir a partir da perspectiva da filosofia e da psicologia, desde o uso das palavras até o uso das TIC

Rolando Martiñá*

Desde o princípio dos tempos, a tecnologia esteve ligada a vínculos. Em geral, a vínculos dos seres humanos com o exterior e, em particular, com essa parte tão especial do exterior que são os outros seres humanos. Porque a tecnologia é mais uma das manifestações do impulso básico do homem para ir mais além: de poder mais, de saber mais, de comunicar-se mais, de interferir mais.

Sempre desejamos intensamente experimentar o que J. Piaget chamou de “prazer de causar”, ou seja, de sentir-se potente, influente, necessário, capaz…ativo e não passivo, agente da existência. E a tecnologia – desde a primeira pedra lascada até o raio laser – permite, facilita e amplifica isso. Ela nos dá mais força do que nossos músculos, mais vista do que nossos olhos e mais audição do que nossos ouvidos.

Claro que, como ocorre com todos os recursos de que dispomos, essas imensas possibilidades podem ser usadas – e já foram usadas – para diversos fins: com a mesma pedra lascada se constrói um utensílio ou se fratura um crânio. Um cavalo domesticado serve para aproximar uns aos outros ou para distanciá-los. Uma palavra – recurso tecnológico por excelência da espécie – emociona ou fere, aproxima ou distancia, conecta ou desconecta. Assim foi, assim é e nada nos faz pensar que vai deixar de ser no futuro.

Também é certo que, especialmente desde meados do século passado, o avanço foi tão diversificado e vertiginoso que resulta difícil se adaptar ou conseguir que esses novos e múltiplos recursos sejam usados a nosso favor e não se convertam em uma ameaça para nossa sobrevivência e/ou bem-estar. Sabendo, contudo, que o progresso humano sempre foi paradoxal: o mesmo que ajuda pode prejudicar, e desse prejuízo, frequentemente, pode-se aprender…e assim seguindo. Como disse P. Watzlawick, “para as coisas humanas, não há soluções definitivas”…e devemos estar preparados não só para resolver os nossos problemas, mas também os que surjam de nossas soluções.

Como a maior preocupação nesse tema está relacionada à influencia das TIC na vida dos jovens, devemos começar esclarecendo que, como diziam os antigos gregos, “nada em excesso é bom”. Portanto, não é conveniente que uma pessoa, independentemente da idade, permaneça o tempo todo conectada com um objeto qualquer e não possa se desgrudar dele. Esse exagero na dependência revela condutas de fascinação pelo objeto, mas não só isso: diz muito também do sujeito, do significado do seu vínculo com o objeto e, sobretudo, dos outros vínculos de sua vida. E, em qualquer um dos casos, é necessário lidar com isso.

Contudo, em termos gerais, a imagem de uma criança, em seu Ipad, seu celular ou chat, não me parece “a priori” uma imagem de alienação, de isolamento…estão construindo um mundo próprio, “seu” mundo, a partir de seus interesses e do que deverão viver. Talvez estejam desconectados de nós, mas não entre eles, com as coisas que lhes interessam; estão sim, provavelmente, fugindo de seus pais, como nós, quando pequenos, escapávamos para a rua antes de terminar a lição de casa para jogar bola. Mas, no meu entender, não há razões para supor que os adolescentes de outras épocas (ver Aristóteles, séc. IV aC) ou Santo Agostinho (séc. IV dC, por exemplo) tinham um desejo incontrolável de se comunicar com os adultos, seguir seus ensinamentos ou cumprir suas normas, ao contrário dos jovens atuais. A diferença é que estes dispõem de mais recursos.

Se tivesse que me basear em minha experiência pessoal, não tenho dúvidas: amo a tecnologia e as possibilidades que ela oferece. A tecnologia modificou a minha vida pessoal e profissional (a qual ultimamente inclui, por exemplo, a psicoterapia on line por meio do Skype) e, sobretudo, enriqueceu minhas possibilidades de contato, comunicação e ajuda mútua com pessoas queridas que estão distantes. Sem mencionar a participação ativa em comunidades virtuais como esta que nos acolhe, com tudo o que isso implica.

Na realidade, não creio que – salvo os excessos mencionados – as TIC atentem contra os vínculos interpessoais “per se”, ainda que sim exijam adaptações a novas formas, ritmos e códigos. Em vez disso, pode-se suspeitar que, em muitos casos, os vínculos interpessoais da geração dos meus avôs – começando pelo parceiro e pelos familiares no geral – não eram muito mais transparentes, sinceros e respeitosos em relação à autonomia do que os atuais. Mas sabendo das dificuldades que o tema costuma gerar, não quero deixar de me referir a dois aspectos mencionados habitualmente: os riscos do individualismo e o risco do consumismo.

O risco do individualismo

Ao se referir ao tema do individual e do coletivo, costuma-se produzir algumas confusões. Por exemplo: se falamos de associações de indivíduos que escolhem estar juntos para levar adiante objetivos comuns, isso nunca ocorreu mais que agora em toda a história da humanidade. No real e/ou virtual. Trata-se de parceiros ou de ONGs. Se nos referimos, ao contrário, a pessoas que nasciam no seio de coletivos preexistentes sumamente estruturados e estáveis no tempo (tribos, famílias, clãs, grêmios, vizinhanças) e ali permaneciam indefectivelmente durante toda sua vida, essa situação durou milhares de anos e mudou radicalmente há só um ou dois séculos.

A humanidade avançou do menos autônomo ao mais autônomo; do mais indiferenciado ao menos indiferenciado; do mais fechado ao mais aberto. Ainda que sempre se mantenha algum grau de tensão entre ambas as forças. E há a tentação de regressar ao seguro, quando os riscos de avançar parecem muito grandes. E esta parece ser muitas vezes, e  para muitas pessoas, a situação atual. De qualquer modo, o processo de individuação, no desenvolvimento da espécie e em cada pessoa, parece inexorável. Nenhuma espécie viva oferece – deveríamos dizer que afortunadamente – o grau de diferenciação e identificação dos membros como a humana. E é preciso lidar com os problemas que isso apresenta, mas sempre lembrando que primeiro se inventou o automóvel e depois as regras de trânsito.

O risco do consumismo

Em relação ao consumo, poderíamos ir pela mesma direção: desde que o primeiro carnívoro pintou sua caverna até as galerias de arte ou os shoppings atuais, sempre interessa aos seres humanos produzir novidades e intercambiar objetos para a sobrevivência. Objetos de expressão, de diversão, de ornamentação, de sedução; vestimentas, jóias, artesanato, detalhes característicos que também estiveram historicamente ligados ao processo de individuação mencionado antes. Desde as feiras medievais até os mercados globais da atualidade, a diferença é de grau e não de princípio. Uma vez satisfeitos em relação a alimentação e abrigo, desejamos outras coisas. E, por outra parte, se as pessoas só produzissem, vendessem e comprassem o estritamente necessário para sobreviver, milhões de pessoas (três vezes mais do que há cem anos!) ficariam totalmente sem trabalho.  Parece-me, então, que aqui também, mais que ansiar supostos paraísos, é preciso ir resolvendo os problemas à medida que a evolução os faz aparecer.

De fato, a oferta hoje é mais ampla, variada e sedutora do que nunca e isso requer – sobretudo no caso de crianças e adolescentes – uma intervenção adulta que previna e/ou limite a tendência ao excesso que também nos acompanha desde sempre. Intervenção que será, em minha opinião, mais efetiva, na medida que contenha menos advertências apocalípticas e mais apelações ao equilíbrio e à racionalidade.

“Nada em excesso” deveria ser um lema inalterável para as crianças e na educação delas. Também deveria ser o princípio de que, ao se gastar mais do que se produz, tarde ou certo, irá a falência. A vida está cheia de oportunidades e ameaças e, se passamos o tempo todo se queixando das segundas, não aproveitamos as primeiras. Sempre se baseando na profunda convicção – comprovada uma e outra vez na tarefa clínica – de que, embora às vezes pareçam entrar por um ouvido e sair por outro, os exemplos e as advertências saudáveis dos pais – se são feitos com amor e inteligência – sempre deixam sua marca na mente e coração dos filhos.


“El mito de la adicción a Internet”, Manuel Ángel Méndez, El País, Espanha, 27/05/2010

*Rolando Martiñá, pai de dois filhos e avô de quatro netos, é Professor Normal Nacional, Graduado em Psicologia clínica e educacional. Realizou estudos de pós-graduação em Orientação Familiar, convênio Fundación Aigle- Instituto Ackerman de Nueva York. É membro do Programa Nacional de Convivência Escolar (Ministério da Educação da Argentina). Conselheiro familiar e de instituições educativas. Autor de Escuela hoy: hacia una Cultura del Cuidado, Geema, 1997; Escuela y Familia: una alianza necesaria, Troquel, 2003; Cuidar y Educar, Bonum, 2006 e La comunicación con los padres, Troquel, 2007. E-mail de contato: rmartina@fibertel.com.ar

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Quem fracassa com o fracasso escolar?

Quem fracassa com o fracasso escolar?

Uma pergunta incômoda, um debate indispensável

Por Mabel Del Giúdice
Tradução: Carla Jimenez

A problemática do fracasso escolar constitui um tema controverso. Quem fracassa? A criança, a família ou a escola? O fracasso acontece em função das dificuldades para aprender? Quais são os alcances do fracasso escolar? Este artigo se propõe a começar uma reflexão sobre um tema que abrange diferentes fatores e agentes. Um convite ao debate sobre aspectos que podem ser transformados ao se trabalhar em conjunto.
A questão do fracasso escolar é um assunto de interesse para os diferentes agentes sociais, tais como autoridades governamentais, especialistas em educação, profissionais em cargo de direção, docentes e pais. O assunto pode ser abordado a partir de diferentes perspectivas, que estão relacionadas ao caráter essencial da escola, à história das reformas educacionais, aos modelos de ensino, às práticas escolares e ao rendimento individual da criança, fonte de preocupação da família.
A complexidade do tema nos obriga a fazer um recorte no conteúdo deste artigo. Nos propomos a rever alguns aspectos referentes às práticas docentes e às consequências para a família quando um de seus membros apresenta “dificuldades para aprender”. Qual é o alcance do fracasso escolar? Sabemos que o fracasso escolar é difícil de ser definido e compreendido por se tratar de um fenômeno que não é natural, mas resultado das condições de interação entre a proposta de ensino, a assimilação do aprendizado por parte dos alunos, os modelos de ensino e de avaliação, além do contexto escolar e familiar.

Conceitualmente, o fracasso escolar é entendido como um desajuste produzido em algum ponto do sistema educativo, seja na formação do docente, na exigência dos conteúdos, na fragmentação curricular ou, ainda, nas possibilidades oferecidas aos alunos para o aprendizado. O rendimento individual de uma criança em sua condição de aluno mobiliza na família diferentes sentimentos vinculados ao desempenho escolar do filho:

 

  • “Ele(a) faz a lição de casa sozinho(a), trabalha de modo independente e tem boas notas.” Essa atuação escolar é vivenciada com satisfação por parte da família.
  •  “A criança tem um rendimento médio, ou seja, não se destaca particularmente em nenhuma área, mas mantém um ritmo adequado para o aprendizado.” Esse perfil é aceito, em geral, de forma positiva por parte da família, à exceção dos pais exigentes que não se conformam com qualificações medianas.
  •  “A criança apresenta dificuldades para aprender” e requer acompanhamento familiar ou até ajuda profissional.

O que explica, no que diz respeito às crianças, as respostas acima?
O espaço escolar é o primeiro ambiente institucional do qual a criança participa sistematicamente e encontra pares com características similares e também diferentes das suas, tanto como criança quanto como aluno. As observações dos pares ou dos docentes dirigidas a uma criança fazem com que ela se perceba num espaço diferente do que foi designado pelos membros da sua família. Em outras palavras, as situações aqui assinaladas também repercutem na criança em particular, em seus sentimentos individuais.

As colocações “bom aluno”, “sempre é o último a terminar”, “demora muito”, “é muito rápido”, “trabalha bem, mas se distrai demais”, expressas pelo docente ou pelos colegas de uma criança, ecoam no seu íntimo, construindo sua identidade. São qualidades atribuídas por pessoas próximas que podem afirmar ou desestabilizar sua autoimagem. Os sentimentos despertados na criança por essas observações podem, em algumas ocasiões, gerar insegurança no momento de resolver situações escolares. Por isso, é importante criar um espaço de diálogo para conversar sobre o que acontece com a criança quando ela ouve o que se fala a seu respeito – não apenas as qualidades menos agradáveis, mas também aquelas em que ela é altamente valorizada.

O diálogo permite avaliar uma mesma situação sob outra perspectiva, favorecendo a construção de critérios particulares para conhecer a si mesmo e para reconhecer quando a criança pode realizar atividades individuais e quando há necessidade de pedir ajuda. A questão é quando pedir ajuda, e se essa necessidade diz respeito somente à criança ou está vinculada à proposta escolar ou à situação familiar/socioambiental. A seguir tentaremos expor algumas reflexões:

  • As dificuldades individuais seriam aquelas que demandam um tratamento especial para superá-las.
    Explicam-se pelo fato de a criança apreender alguns conceitos escolares que, ao serem aplicados na resolução de uma atividade escolar, produzem um resultado pouco satisfatório. Ou, ainda, quando ela carrega questões afetivas que repercutem em suas relações. Nesse caso, recorrer à orientação de profissionais externos ao âmbito escolar constitui uma boa solução para abordar a situação.
  • As dificuldades impostas por uma escola ou por uma situação socioambiental constituem barreiras para o aprendizado. Seria necessário revisar o método de ensino da escola e verificar se a avaliação está vinculada à forma como se ensina.

 

A forma de ensinar tem diferentes modelos que se expressam nos modos de transmitir informações e organizar as propostas didáticas:

 

  • Uma posição possível é a tradicional, centrada na reprodução de conteúdos, onde se valoriza a repetição e a memória. A avaliação das lições diárias é realizada com correções do tipo “incompleto”, “bom”, “mau”, sem explicações por parte do docente sobre o que é necessário rever para melhorar. Esse modelo se sustenta na concepção passiva do aluno, considerado como aquele que recebe informação, assimila e reproduz.
  • Outra posição se baseia na reflexão e participação ativa do aluno na construção de noções. Trata-se de propor atividades que permitam reconhecer o que o aluno já aprendeu e apresentar situações para que ele evolua. As correções ressaltam o processo individual: “Você pensou bastante e conseguiu avançar”, “Você conseguiu voltar a pensar no problema”. A ideia é que a criança reconheça do que é capaz e paulatinamente tome consciência de novas noções para ir adiante.

As dificuldades se apresentam quando o docente propõe um modelo de ensino mas faz a avaliação a partir de outro conceito. Ou, ainda, quando não existe na escola um consenso sobre como se deve ensinar, o que se espera dos alunos em classe e, finalmente, como e o que especificamente deve ser avaliado. Há docentes que não mantêm o mesmo conceito de ensino no momento da avaliação, e isso produz uma mudança nas regras implícitas da aula, gerando o fracasso dos alunos como resultado. Outra situação diz respeito às mudanças de critério que se observam na instituição de um modo geral. Se o corpo docente não mantém uma mesma modalidade de ensino, as valorações sobre a atuação dos alunos são distintas. Essas quebras na coerência institucional também levam ao fracasso escolar.
Os pais podem detectar essas posições distintas entre os docentes e solicitar entrevistas com eles e/ou com os profissionais de direção. A entrevista com o professor ou com os diretores pode gerar possíveis reflexões por parte dos educadores sobre suas práticas, de forma que eles assumam que podem cometer erros e apresentem outras alternativas para superar a tensão produzida. Mas também encontramos outros que preferem atribuir o problema à criança ou à sua família, sem se envolver na situação. Isso gera um mal–estar para os pais, e muitas vezes essa tensão entre os adultos prejudica o avanço do aprendizado da criança.

Como resolver essa situação?

O diálogo volta a se apresentar como a ferramenta essencial para produzir mudanças. É preciso que os pais se aproximem da escola, marquem uma entrevista com o docente para conhecer os aspectos valorizados por ele, e assim definam acordos de acompanhamento em casa e na escola. A ideia é saber de que modo um docente entende que a família deva acompanhar a escolaridade do filho e comprometer-se com ações que serão realizadas tanto em casa como na escola.

A finalidade desses encontros não é discutir as linhas de ensino ou de aprendizagem, mas encontrar alternativas de ações que favoreçam a criança, seja por meio de lições extras em casa com apoio dos pais ou professor particular, seja com abordagens individuais. Quando não existe uma dificuldade específica para o aprendizado, as orientações e o acompanhamento dos pais para que seus filhos superem obstáculos de entendimento das matérias são suficientes para que eles obtenham bons resultados na escola.
O foco central é estabelecer acordos para o que a criança precisa como pessoa, em função da sua idade e do seu grupo de colegas, e entender o que ela pode fazer sozinha e o que requer um certo acompanhamento escolar ou familiar. É importante que nenhuma parte se posicione como dona da razão. É necessário refletir sobre o que se está fazendo para que a criança/aluno aprofunde o seu aprendizado.

Como os adultos podem contribuir para que a criança obtenha mais êxito na escola?

Novamente, a resposta é o diálogo, a explicação verbal sobre o que acontece e o que será realizado em casa e na escola. Os pais vão explicar as diretrizes definidas/estabelecidas com a escola e discutir os acordos e desacordos referentes às valorações do docente. Mas deverão proteger as crianças da divergência de opiniões entre os adultos, para não prejudicá-las.
Ao dar as razões e explicações sobre as decisões tomadas, os pais estimulam um desenvolvimento moral mais maduro na criança, além de contribuir para conscientizá-la sobre os aspectos comprometidos na situação e os compromissos assumidos para superar os obstáculos inerentes.
É importante lembrar que toda situação de mudança gera ansiedade e insegurança. É preciso que os pais ajudem o filho a compreender o contexto e acompanhem os reflexos no emocional da criança. Estabelecer antecipadamente as metas que precisam ser alcançadas, fazer o planejamento para que elas sejam concretizadas e realizar pequenas tarefas individuais vão devolver a segurança necessária à criança.

As atividades também podem ser dirigidas com modelos que a criança poderá repetir, revelando o que ela pode fazer sozinha e o que requer a colaboração de um adulto. Em alguns momentos será preciso ouvir a criança dizer em voz alta o que sabe para avaliar se ela absorve os procedimentos propostos pelo adulto. A expectativa é de que a criança vá, paulatinamente, autorregulando sua conduta e obtendo melhores resultados na aprendizagem. Em suma, a proposta é dialogar para encontrar os acordos e também os desacordos. Frente a estes últimos, construir pontes que permitam superar as diferenças, cuidando sempre da criança–aluno.

 

 

* Mabel Del Giúdice é graduada em Psicopedagogia, Mestre em Psicologia Educacional, diretora do Departamento de Psicologia e Ciências Pedagógicas da Universidad Caece. Docente (UBA e Universidad Caece). Supervisora das equipes de Psicopedagogia do Centro Claudina Thevenet.

E-mail para contato: Mdelgiudicecaece.edu.ar

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Passagem da infância para a adolescência

 

Passagem da infância para a adolescência

Este artigo reflete sobre a adolescência e como melhorar as nossas possibilidades de acompanhá-la durante a crise que é denominada “crescer”

 

*Por Juliana Villate Quevedo

Tradução: Flextime Language Center

 

 

A adolescência é uma etapa crucial no desenvolvimento do indivíduo, caracterizada por posturas de conduta e de pensamento extremadas, mutáveis e flutuantes que dão a esse período um aspecto de turbulência. Na passagem do adolescente para idade adulta, vive-se uma série de conflitos internos que se refletem de diversas maneiras no comportamento, atitude e relações interpessoais.

Todas as características da personalidade do adolescente, que às vezes podem parecer estranhas, são mecanismos que a personalidade assume como defesa contra a angústia provocada pela difícil transição para a idade adulta. Essas diferentes manifestações podem ou não ser classificadas de acordo com a função adaptativa que realizem no desenvolvimento e na integração da personalidade do indivíduo.

Alguns desses mecanismos são apropriados, como o interesse pelos esportes, a intelectualização, a sublimação através da arte, a participação em grupos ecológicos ou de música. Outros, porém, são completamente indesejáveis, como as manifestações violentas, o fracasso escolar, o repúdio ao núcleo familiar ou a submissão a grupos de fanáticos, bandidos, ao álcool ou às drogas.

Entre esses dois extremos, outras manifestações são encontradas, tais como o horror à banalidade, a propensão a fazer de si mesmo alguém excepcional e único, o gosto pelo excêntrico, a tendência de querer reformar o mundo ou a indiferença extrema a tudo o que o rodeia. O isolamento em relação às atividades familiares e sociais, os problemas referentes à imagem corporal, as condutas alimentares inadequadas, a dificuldade para expressar os conflitos e/ou dilemas, os problemas para relacionar-se com o sexo oposto, a resistência às atividades intelectuais, a depressão mascarada com formas de isolamento ou violência, a desconfiança consigo mesmo e os sentimentos de desânimo também são expressões das angústias pelas quais o adolescente passa.

Todas as manifestações citadas anteriormente são a expressão mais genuína das dificuldades pelas quais o adolescente passa no seu processo de adaptação à idade adulta e a justificativa mais clara e simples da necessidade imperativa de criar espaços terapêuticos e formadores, onde possamos acompanhar e orientar tanto o adolescente como a família na passagem por essa crise.

Os adolescentes têm uma especial predisposição para sofrer depressão. A adolescência é marcada por um movimento constante das emoções, de dúvidas e incertezas. Não obstante, essa etapa geralmente é superada sem maiores problemas. Em determinados casos ocorrem alterações da conduta que podem representar um estado depressivo subjacente, evidenciado pela rebeldia, isolamento acentuado, insônia, fadiga incomum e dificuldade para concentrar-se. Muitas vezes pais e professores não identificam a tempo tais condutas, e o quadro pode se tornar crônico ou mesmo levar os jovens a refugiar-se nas drogas e no álcool.

Os adolescentes me enternecem muito. Meus amigos dizem que é porque não tenho filhos, não sei. O fato é que essas figuras compridas, deselegantes e desajeitadas que entram no meu consultório, com um olhar apreensivo e obrigadas pelos pais, me ensinam mais do mundo do que muitos livros e cursos. O adolescente é um rapazinho ou uma mocinha no último período de formação repleto de lutas internas para encontrar-se em um mundo caótico e em uma família que nem sequer intui ou assimila o que ele vive. São obrigados a conviver com mães angustiadas porque vão envolver-se com drogas, ou porque escolheram a música ao invés da medicina, ou porque passam muito tempo com os amigos. Estamos falando de meninos grandes, quase adultos, ansiosos por uma sexualidade que estão começando a sentir e aflitos com a necessidade de atuar diante de um entorno hostil que não oferece explicações e, além disso, os julga. São indivíduos complicados, profundos, cheios de angústias existenciais, pequenos filósofos ateus que estão descobrindo o mundo, seu mundo, seu corpo, seus sentidos, suas dores.

Aprendi, durante todos estes anos como terapeuta, que grandes discursos não são suficientes para convencer um jovem de que o moicano punk não é fundamental para argumentar um conceito e que se envolver em confusões com todo mundo é um gasto desnecessário de energia. Agora sei que, com uma atitude receptiva, cortês e aberta posso ganhar sua confiança. Nunca faço acordos contra os pais, mesmo que no momento de confrontá-los muitos opinem o contrário. Apenas trato os adolescentes com respeito e com afeto. Nada mais.

Sempre sou sincera e sempre me entendem. Não tento manipulá-los nem permito ser manipulada, porque sou consciente de que deve existir respeito mútuo para que exista confiança. Reconheço os seus esforços, legitimo as suas lutas e tento aceitar as suas ideias com serenidade e sem julgamentos. Da mesma maneira, sendo franca e forte, sinalizo os seus erros de critério e explico a inutilidade de algumas de suas condutas de rebeldia. Eles entendem, admiram e respeitam o fato de ter uma figura que acredita e os ajuda a se autorregular a partir do convencimento do seu próprio valor.

Os adolescentes são muito inteligentes. Fazem bobagens apenas quando seu inconsciente se revela indignado pela injustiça de uma situação ou por um julgamento errado. Entretanto, do mesmo modo, são capazes de entender que o bom caminho é o melhor e que fazer as coisas bem é mais fácil. No entanto, para poder chegar até eles com essa mensagem, é indispensável aceitá-los, respeitá-los e amá-los, senão qualquer tentativa será em vão.

* Juliana Villate Quevedo é médica Psiquiatra e Psicoterapeuta da Pontificia Universidad Javeriana – Bogotá e médica Homeopata da Fundación Hahnemann de Colombia. Trabalha como psicoterapeuta homeopata há 15 anos em Bogotá e combina a sua atividade profissional com o interesse pela literatura, filosofia, história, antropologia, artes e algumas disciplinas como a meditação e o yoga. No seu primeiro livro para o público em geral integra a teoria psicodinâmica com os conceitos éticos e espirituais necessários para viver melhor.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

O fenômeno bullying

O fenômeno bullying

 

A seguir, apresentamos uma resenha do capítulo sobre bullying do livro La comunicación con los padres (A comunicação com os pais, em português), do professor argentino Rolando Martiñá, especialista em orientação familiar. Ao final do texto, é possível acessar o capítulo inteiro em formato PDF. Sugerimos também o vídeo Palavras que machucam, que ilustra bem a problemática.

“Não quero ir pra escola…” pode ser a primeira manifestação de que uma criança está com algum problema. Em ocasiões acompanhadas de sinais, tais como dores imprecisas, mal-estares diversos ou dificuldades de sair da cama, a frase, no entanto, costuma aludir a um tipo de coisa que não tem a ver com a próxima prova de Matemática ou com as exigências da professora de Geografia e, sim, com algo que para as crianças e os jovens costuma ser vivencialmente mais importante: a relação com os pares.
Na realidade, muitas vezes o sinal de reticências seria completado – se a criança tivesse coragem – pela explicação “porque estão tornando a minha vida impossível ali”.

O fenômeno da violência escolar (bullying, em inglês), também chamado de intimidação, assédio, ameaça ou provocação, está se convertendo em um tema urgente da realidade escolar no mundo todo e se refere, especificamente, aos maus-tratos físicos ou verbais sistemáticos por parte de um ou mais alunos a outro aluno.

Como uma das maiores dificuldades no tratamento deste problema é o segredo que geralmente o cerca, propomos dar luz ao tema, comentá-lo, discuti-lo e, na medida do possível, avançar na tomada de consciênia e na elaboração de estratégias para enfrentá-lo no âmbito familiar e escolar.

Para acessar o capítulo inteiro sobre bullying, do livro La comunicación con los padres, clique aqui.

 

Veja também:
Texto da professora Cleo Fante, autora do livro Bullying Escolar

 

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

 

 

 

Irmãos: entre os ciúmes e o amor mais profundo

Irmãos: entre os ciúmes e o amor mais profundo

É possível resolver a equação entre atenção especial e incondicionalidade quando se tem mais de um filho? O Prof. Rolando Martiñá propõe neste artigo algumas ideias para melhor administrar as relações entre os irmãos e com os pais.


Por Rolando Martiñá*
Tradução: Lilian Escorel

 

Ser pai e mãe é um trabalho árduo, que se realiza aprendendo. Como o trabalho do carpinteiro que deve, ao mesmo tempo, construir um móvel e as ferramentas a serem usadas na construção.

Além disso, as coisas se complicam em progressão geométrica: criar um filho já é problemático e requer desenvolver habilidades inéditas, como, por exemplo, ir trabalhar sem ter dormido ou amamentar às 4h da manhã.

Dois filhos não são dois problemas, mas quatro ou oito. E se são de idades diferentes, um entrando no ensino fundamental e o outro aprendendo a andar, os problemas são incontáveis, porque a trama de relações torna-se muito complexa e a de necessidades se diversifica. Passa a ser, então, cada vez mais difícil para os pais responder, ao menos de modo razoável, à dupla demanda de todos os filhos, seja qual for a idade: atenção especial e incondicionalidade. O que implica, entre outras coisas, estarem sempre disponíveis e tomarem decisões justas. Ou seja: hoje em dia, as crianças descobrem muito cedo que os Reis Magos são os pais, e, do mesmo modo, continuam esperando que os pais sejam “reis” e “magos”.

Seria fácil abordar esta descrição crua apelando a frases feitas, do tipo “amar é dar tudo sem esperar nada em troca” e coisas do gênero, mas a verdade é que formar e sustentar uma família são um desafio muito grande, que, com frequência, põe as pessoas no limite de suas possibilidades. No entanto, as pessoas continuam se unindo, se amando e procriando, motivo pelo qual devemos pensar que, apesar das dificuldades, essa missão tem algo de profundamente pleno e gratificante. Isto posto, não é demais oferecer alguma ajuda aos que estão empenhados na tarefa ou projetam estar.

Quando nasce um filho, a vida dos pais muda para sempre. No mínimo, alteram-se o cronograma (tempo) e o mapa (espaço). Em geral, modificam-se os mecanismos de equilíbrio entre frustração e gratificação, o que costuma aumentar o estresse. Se mais filhos nascem, este é ainda maior. Junte-se a isso a crescente questão de administrar a relação entre os irmãos.

Quando nasce um segundo filho, então, além do já aprendido com o primeiro, deve-se aprender a lidar com os sentimentos e condutas que o nascimento do segundo, em alguma medida, desperta no primogênito. O famoso Dr. Escardó, líder da pediatria argentina, dizia justamente que a criança que ganha um irmão experimenta sensações semelhantes às de um adulto, quando, em uma relação, é substituído por outra pessoa. Ser parcialmente excluído, sem ter desejado, do foco de atenção – e das atenções – das pessoas mais importantes em sua vida constitui uma ferida na autoestima difícil de metabolizar. E é preciso uma atitude muito inteligente dos pais para manter as coisas dentro de vias aceitáveis.

A que nos referimos com “inteligente”? Certamente, não apenas à abundância de informação e/ou vocabulário, refinamento das ideias ou nível de instrução, coisas que de qualquer modo exercem alguma influência. Falamos, antes, de inteligência emocional. A capacidade de se conectar com os próprios sentimentos e com os alheios e encontrar recursos para administrar os diferentes tipos de vínculo entre eles.

Se há um sentimento paradigmático entre os seres humanos este é o ciúme. Desde a mais remota história bíblica de Caim e Abel, passando pela medieval e shakespeareana Otello, inúmeros exemplos demonstram sua presença contínua. Incluindo aí a experiência pessoal de cada um de nós, que, em idades diferentes e por motivos diferentes, não deixamos, com certeza, de experimentá-lo alguma vez na vida.

É uma emoção dolorosa, que parte da suposição de que um dos filhos foi privado injustamente, a favor do outro, de uma parte de afeto que lhe corresponde. Real ou imaginária, esta suposição, na verdade, baseia-se em uma discordância, em certa medida inevitável, entre o desejo de toda criança de receber o máximo de atenção dos pais e a intenção destes de atender de modo diferenciado às diferentes necessidades dos filhos.

Com efeito, todo filho, de um ponto de vista egocêntrico, parte do pressuposto de que os pais devem ser, entre outras coisas, juízes infalíveis em relação a ele e a seus irmãos. E que, portanto, devem distribuir entre eles, sempre de maneira inequivocamente igualitária, seu tempo, sua atenção, sua ajuda e seus bens. Mas, como dedicar o mesmo tempo a um bebê recém-nascido e a um estudante no ensino fundamental, relativamente autossuficiente? Ou a um filho saudável e a um doente?  Como estas posturas são, com frequência, muito difíceis de conciliar, os pais geralmente cumprem o papel de mediadores da rivalidade entre os filhos. E este é um dos maiores desafios da vida familiar.

Com os ciúmes e a rivalidade acontece o mesmo que com a chuva: não se pode evitar que ocorra. No entanto, podemos tomar precauções e medidas, evitando nos ensopar e pegar, eventualmente, uma pneumonia.

Vejamos:

  • É negativo os pais darem ordens do tipo “não briguem”, pois estas implicam uma mensagem paradoxal, impossível de se cumprir e que só acrescentará uma dose de frustração e culpa à difícil situação. Deveria dar-se por certo que esses sentimentos existem, fazem parte da natureza humana, mais sutil, flexível e complexa que qualquer outra. Não se conhece nenhum caso de ser humano que, em qualquer época ou lugar, tenha se sentido satisfeito por ter sido privado de algo de valor para ele… A não ser que fosse para obter em troca algo de maior valor. Fique claro que não nos referimos apenas a valores materiais.
  • É bom os pais transmitirem gradualmente aos filhos que não são “reis” nem “magos”, fazem o melhor que podem e certamente irão se equivocar alguma vez. Quando isso ocorrer, pedirão as devidas desculpas. Mas devem notar que são os maiores responsáveis por tudo o que ali ocorra. Sob esse aspecto, são os principais encarregados de distribuir os bens, as sanções e as recompensas, bem como organizar a vida em comum. Embora sempre seja de esperar, mesmo no melhor dos casos, certa tensão entre duas alternativas vinculadas à ideia de justiça: “dar a todos o mesmo ou dar a cada um o que necessita”.
  • É importante estabelecer o princípio de que quem tem maior responsabilidade deve ter maior poder. Se alguém tem muito poder e pouca responsabilidade, abusa dos outros. Se tem muita responsabilidade e pouco poder, abusa de si mesmo… Em nenhum dos casos, pode-se prever um bom futuro. A autêntica relação de autoridade baseia-se no equilíbrio entre ambas as atribuições. Em uma fórmula: P (poder) + R (responsabilidade) = A (autoridade).
  • A complicada trama das relações interpessoais está tecida com fios diversos, alguns deles, aliás, em contradição com outros. Por isso, é bom aceitar que nem sempre é possível colaborar e que, às vezes, estabelecem-se relações de competição, o que costuma ser, em especial na infância, a maneira de pôr em jogo as competências correspondentes…
    Não se trata, pois, de negar essa tendência, mas de poder enquadrá-la para que não se torne violenta e destrutiva. Mostrando que também é possível (e desejável) competir em um aspecto e colaborar em outro, como, por exemplo, dois tenistas que competem para ganhar o jogo, mas colaboram para comportar-se de modo a garantir o espetáculo, preservando assim – e isto é importante – a essência do próprio jogo.
    De qualquer modo, “quando o sangue sobe à cabeça”, os adultos devem intervir o mais rápido possível e deter o círculo vicioso de violência. Em seguida, devem ajudar a pensar sobre o assunto e obter as aprendizagens necessárias, evitando a repetição dos fatos. Nenhuma criança, ou grande parte delas, é capaz de entabular um diálogo razoável no meio de um chilique.
  • Costuma-se fazer confusão em torno do conceito de incondicionalidade. No caso dos adultos responsáveis, sejam pais ou docentes, a incondicionalidade passa pela disponibilidade permanente, mas não necessariamente por responder sempre de maneira ótima a qualquer tipo de demanda. A mensagem seria: “estivemos, estamos e estaremos; podem contar conosco para proteger, alentar e ajudar do modo que nos for possível”. Escutaremos e compreenderemos qualquer sentimento ou pensamento que queiram dividir conosco, mas, ao mesmo tempo, não permitiremos qualquer comportamento que surja deles. Em especial, se ele puser em perigo a integridade do outro ou da própria vida em comum.
  • Isto nos leva a outra confusão habitual acerca dos limites. Poderia parecer que passamos, em poucas décadas, de pais que determinavam até o futuro do trabalho dos filhos a pais incapazes de dizer “não” aos caprichos mais insólitos (ou, ao contrário, “sim” às pretensões mais absurdas)… A pergunta seria: “Em que devemos pôr limite e em que não?”. E a resposta que nos parece mais sensata é: devemos limitar os desejos e impulsos e não limitar, mas antes estimular, os talentos e as potencialidades. O que, indiretamente, acaba sendo um bom antídoto contra os ciúmes e outros resíduos tóxicos, que germinam melhor quanto mais frouxa for a autoestima.

     

Finalmente, caso necessário, um esclarecimento: estas palavras dirigem-se à imensa maioria de pais que amam seus filhos e tentam fazer o melhor para eles. O fato de não mencionar em cada passo a palavra “amor” não significa que ignoramos esse componente, mas que o tomamos por certo em nossos leitores, porque, de outro modo, não poderiam ser pais. Mas, como disse o grande Bruno Bettelheim, que sabia muito destas coisas, “só o amor não basta”. Muitas das coisas que transtornam a vida familiar ocorrem apesar e até, às vezes, como consequência das “melhores intenções”. Parece, pois, necessário pensar. Esperamos que estas palavras contribuam nessa direção.

Compartilhando Histórias de irmãos

A Comunidade Virtual Entre Pais, um projeto EducaRede Iberoamericano, quer convidá-lo a mostrar seu mundo a partir de um acontecimento que mostre o que significa criar filhos, construir a noção de “irmãos”, de “família”.  Uma história que, embora possa parecer mínima, torna-se máxima na hora de compartilhar com outros pais a universal tarefa de criar filhos.

Gostaríamos de compartilhar relatos breves de um fatos curiosos, contados a título de ilustração, exemplo ou entretenimento. Seriam histórias que mostrem uma forma de ver o mundo e também convites para compartilhar, trocar experiências e conclusões sobre a vida. Esse tipo de história é chamado de anedota.

Plutarco dizia que “Às vezes, uma brincadeira, uma anedota, um momento insignificante retratam melhor um homem ilustre do que as maiores proezas ou as batalhas mais sangrentas”.

Para compartilhar sua anedota, entre aqui.

 

 

* Rolando Martiñá, pai de dois filhos e avô de quatro netos, é Professor Normal Nacional, Graduado em Psicologia clínica e educacional. Pós-graduado em Orientação Familiar, convênio Fundação Aigle- Instituto Ackerman de Nova York. Membro do Programa Nacional de Convivência Escolar, Ministério da Educação da Argentina. Conselheiro familiar e de instituições educativas. Autor de Escuela hoy: hacia una Cultura del Cuidado, Geema, 1997; Escuela y Familia: una alianza necesaria, Troquel, 2003; Cuidar y Educar, Bonum, 2006 e La comunicación con los padres, Troquel, 2007. E-mail de contato: rmartina@fibertel.com.ar

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

 

 

 

Fim de ano


Fim de ano

Época de compras, presentes, consumo

 

Por Rolando Martiñá*
Tradução: Flextime Language Center

 

Para que possamos nos referir a esse assunto que nos chama de um modo não convencional (ou seja, não aderindo automaticamente ao anátema do “consumo”), seria interessante estabelecer dois princípios que surgem a partir de muitas pesquisas modernas na área das Ciências Sociais (1) e de expressões mitológicas e artísticas ancestrais (2)

Somos seres de intercâmbio (1)

Nascemos por meio dele; sobrevivemos e crescemos graças a muitos deles, podemos adoecer e até morrer se chegamos a carecer de algum intercâmbio significativo de modo permanente. Por diferentes razões e usando diversos meios, nós, seres humanos, intercambiamos bens materiais ou simbólicos entre nós ou com seres já falecidos que consideramos inevitavelmente ligados ao nosso destino.

Tudo indica que o presente, o donativo, o sacrifício e até mesmo o simples aperto de mão como gesto de cumprimento (signo de estar desarmado) responderam – em qualquer época e lugar – a uma profunda necessidade humana de sociabilizar, estabelecer vínculos, enviar mensagens, evitar a aniquilação, prevenir desgraças, provocar a fecundidade ou a riqueza etc. Ou seja, uma relação entre sujeitos, mediada por objetos.

Foi assim que – brincando com as palavras – poderíamos afirmar que esta profunda e permanente necessidade sempre respondeu à convicção de que a fome de contato deveria ser saciada de uma maneira ou de outra e que, se benefícios não fossem intercambiados, o mais provável seria que fossem intercambiados malefícios. Além disso, não sendo antropologicamente possível a autossuficiência individual, algum tipo de intercâmbio era praticamente inevitável: uma questão de sobrevivência.

Atualmente, uma das formas mais comuns de intercâmbio é o presente. Ao escrever esta palavra, não posso deixar de recordar-me da minha infância pobre e da emoção que senti durante alguns dias quando os Reis Magos me deram a tão desejada bola de futebol Nº 5…  Sonhei muito com ela e continuava sonhando mesmo quando já era minha; dormia comigo na cama, eu a exibia para meus amigos como um tesouro e, além disso, ela me permitia – tenho que admitir – ascender na hierarquia “social e esportiva” entre eles…

Tempos depois cheguei a pensar que então, e desde sempre, o passado e o futuro fundiram-se no hoje; o presente (regalo) como atualidade, como um “trazer para a atualidade”, com um “levar em consideração” ao outro e sentir prazer por vê-lo desfrutar pelo que tinha desejado tanto. E por vê-lo iniciar uma nova etapa vital: quem não tinha bola e apenas a imaginava, passa, pelo presente, a ser quem a possui e a utiliza. Todo um processo, um ritual que contribuía para estruturar o tempo através de acontecimentos significativos da vida. Por isso presenteamos nos aniversários, casamentos, celebrações, formaturas.

Sem sombra de dúvidas, e com as pertinentes diferenças históricas, continua sendo uma prática que – feita de boa fé – trabalha para a convivência, para o bem-estar e o afeto. Também é importante distinguir, como tantas outras coisas, o valor e o preço. O fato de que muitas pessoas confundam valor e preço não significa que sejam a mesma coisa. Mas, justamente, o valor aumenta quando a doação – seja qual for o preço – reforça claramente a ideia de que o destinatário foi lembrado no momento da escolha. Somado a que uma parte nossa (dinheiro, tempo, energia, trabalho) é investido prazerosamente para dar alegria à outra pessoa.

Por exemplo, uma amiga da minha esposa voltou de uma viagem à Espanha com muitos presentes. Sabendo das habilidades culinárias da minha esposa, trouxe-lhe, em um delicado frasco, uma pequena, mas significativa quantidade de açafrão espanhol, “para o risotto”… Sendo que o mesmo nos levou a consumir com prazer o prato mencionado e a consumar uma celebração renovadora da nossa amizade.

Também poderíamos celebrá-la sem o presente, mas esse momento que se materializou graças ao presente, esse acontecimento, ficou definitivamente marcado nas nossas memórias com o nome da antiquíssima e dourada especiaria que deu sabor ao prato… E assim soubemos, sem sombra de dúvidas que, em algum momento da sua viagem, apesar de todas as suas distrações, estivemos no coração da nossa amiga de um modo especial.

Certa vez, uma paciente que não podia ver-me pessoalmente, telefonou para me contar que se sentia mal, pois estava angustiada, e pedir alguma orientação que a ajudasse. Fiz uma pausa silenciosa para pensar e disse-lhe: “Vá ao salão de beleza, compre uma roupa que gostaria de ter, tome um café com uma amiga e amanhã falamos novamente”. Ela, que ainda não me conhecia muito, primeiro pensou que era uma brincadeira, que não podia lhe dizer algo tão “superficial” etc.

Ao confirmar que o meu conselho era para ser levado a sério, e que “às vezes rimos porque temos vontade e às vezes a vontade vem porque começamos com o riso”, ela decidiu seguir a minha indicação. E as coisas não lhe saíram tão mal. Na verdade, lhe aconselhei o que muitas pessoas – especialmente as mulheres – têm o hábito de fazer espontânea e sabiamente, (mesmo que frequentemente, com alguma culpa): que fosse se autopresentear, uma das tantas formas que adota a gratificação através do intercâmbio. Porque ninguém tem o segredo da felicidade, nem na “superfície” nem “no fundo”, mas seguramente eu não teria sido mais feliz “sem” a minha bola e a paciente “sem” a sua imagem renovada no espelho. A alegria é um antidepressivo não químico muito eficiente.

O cantor F. Bono diz que ele tenta compor canções que ajudem às pessoas a saírem da cama pela manhã. Se assim for, que elas sejam bem-vindas, porque nem todos nós temos vontade de fazê-lo, nem tempo e dinheiro para passar boa parte das nossas vidas tentando entender, pressupondo quais são as “causas reais” do que nos acontece. No entanto “isso” continua acontecendo e muitas outras coisas mais…

Consumo e o consumismo (2)

 

É a mesma relação que há entre um brinde e o alcoolismo, ou entre um bombom de chocolate e um ataque de fígado: a medida. Outro cantor, desta vez compatriota, Alberto Cortez, cantou assim: “nem pouco nem muito, tudo é questão de medida”. Os antigos gregos já sabiam disso, que consideravam o excesso (hybris), a mãe da tragédia. Usavam a mesma palavra (farmacon) para referir-se ao remédio e ao veneno: uma diferença de dose.

Desde que a primeira mulher pendurou no pescoço um colar de dentes de javali até o “shopping” ultramoderno, sempre existiu o consumo. Diretamente ligado a outra das nossas fomes básicas: a fome de novidades. Não apenas de buscá-las, mas também de produzi-las. De provocar algo nos outros, de chamar a atenção. Isso não se trata de condutas patológicas, exceto que consideremos também patológica a atividade de milhões de pessoas que, além de consumir, ganharam a vida ao longo dos tempos, produzindo, distribuindo e vendendo todo tipo de objetos, materiais ou simbólicos, legais ou ilegais, necessários ou supérfluos, “superficiais” (como o vestuário) ou “profundos” (como as ideias).

As condutas que podemos considerar patológicas são as aditivas compulsivas de algumas pessoas, que se constituem como círculos viciosos (!) de difícil desativação, geralmente ligados à fantasia de que “sempre, quanto mais, melhor”, que acumular (seja o que for) é uma garantia de plenitude e de felicidade, e que desafiar todo limite é uma demonstração do autêntico poder. É obvio que talvez hoje seja mais fácil cair em tais excessos, em parte porque vivemos pela primeira vez na história – faz pouco tempo – em uma cultura que não é a que predominou durante milhares de anos: a da escassez. Hoje, somos muitos mais, interagimos como nunca antes e dispomos da maior oferta de bens da história. Para o bem e para o mal.

De qualquer modo e para deixar claro: não há objeto que compense a falta de amor. De nada me serviria ter a minha bola, se o meu pai não tivesse dedicado boa parte do seu escasso tempo me ensinando a jogar e jogando comigo. Não há dinheiro que cubra a ausência, não há “voo” que faça esquecer o “ninho”, nem “Disney World” que vacine para sempre uma criança contra o abandono ou o desamor. Desse modo, principalmente para estas Festas, MUITO AMOR. No entanto sem fanatismo, sem concluir que “já que os objetos não trazem a felicidade, a falta deles traz”. Os gregos – Aristóteles dixit – também já sabiam disso: a felicidade humana possível está no equilíbrio, nunca encontrado na sua totalidade, mas sempre, sempre buscado. E enquanto isso, nós vamos crescendo.

BOAS FESTAS!

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* Rolando Martiñá, pai de dois filhos e avô de quatro netos, é Professor Normal Nacional, Licenciado em Psicologia clínica e educacional. Pós-graduado em Orientação Familiar, convênio Fundación Aigle-Instituto Ackerman de Nova York. Membro do Programa Nacional de Convivência Escolar, Ministerio de Educación de la Nación Argentina. Conselheiro familiar e de instituições educativas. Autor de “Escuela hoy: hacia una Cultura del Cuidado”, Geema, 1997; “Escuela y Familia: una alianza necesaria”, Troquel, 2003; “Cuidar y Educar”, Bonum, 2006 e “La comunicación con los padres”, Troquel, 2007. E-mail para contato: rmartina@fibertel.com.ar
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Para ler mais

(1)
• “Teoria das compras”, Daniel Miller
• “Tábula rasa”,  Steven Pinker
• “A evolução do homem”, Robert Ardrey

(2)
• “Os gregos”, H.D.F Kitto
• “O homem e seus símbolos”, C.G.Jung

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)