Fugindo do estereótipo I – Projeto “Árvore”

Disciplina: Arte – Educação Artística
Ciclo: Ensino Fundamental – 1ª a 4ª
Assunto: Observação e desenho
Tipo: Artes Visuais

Nas produções artísticas de alunos da 4a série são comuns alguns desenhos estereotipados como a casinha, a árvore de maçãs, o “homem palito”, pássaros em forma de um “v”, sol com carinha, entre outros.

O desenho estereotipado se justifica porque as crianças os identificam como aceitos, um tipo de desenho que elas “não erram” ao realizá-lo. Esses desenhos estereotipados, no entanto, acabam por limitar as descobertas visuais e a capacidade de expressão das crianças, reduzindo seu repertório visual e expressivo.

Assim, propor desafios para os alunos desenharem, descobrindo, com o professor, novas maneiras de realizar esses desenhos consagrados amplia o conhecimento e desenvolve a expressão.

Propomos um trabalho, em três aulas, sobre o tema “árvore”, pois é um dos desenhos freqüentemente realizados pelos alunos a partir do estereótipo. Quando solicitados a desenhar uma árvore costumam apresentá-la com copa verde e maçãs vermelhas.

Na primeira aula, converse com os alunos sobre as variedades de árvores que existem, leve-os a perceber que cada tipo de árvore tem formas, linhas, cores, folhas, tamanhos, flores e frutos diferentes. Em seguida, convide-os a dar uma volta no quarteirão da escola ou em algum outro lugar próximo, descobrindo e observando pausadamente as diferentes árvores existentes. Conversem sobre os detalhes, as semelhanças e diferenças entre uma e outra.

Ao observar essas árvores, os alunos podem registrar as observações com rascunhos de desenhos ou anotações descritivas. Se não houver pelo menos duas árvores nas proximidades da escola, passa-se para a etapa seguinte, que é a de observação de árvores em reproduções, fotografias etc.

Se for possível, peça aos alunos que tragam de casa recortes de revistas e jornais, calendários, fotografias ou selos que contenham imagens de árvores para a próxima aula.

Para essa aula, leve reproduções de diferentes épocas com imagens de árvores que mostrem os vários momentos da História da Arte como os antigos egípcios, os artistas japoneses, os africanos, as árvores no Renascimento e na Arte Contemporânea. Pode ser interessante trazer a série de árvores criadas por Mondrian, que pode ser encontrada em livros de arte.

Mostre essas imagens aos alunos e compare-as entre si e com as que os alunos trouxeram; proponha a observação de semelhanças e diferenças entre elas, as diversas cores que existem, quantos tons de verde conseguem identificar, as muitas formas, texturas, tipos de folha, flores, galhos, troncos e as variadas formas que os artistas usam para representar uma árvore.

Cole as imagens que você trouxe no centro de cartolinas grandes e peça que cada aluno escolha uma imagem de árvore que ele trouxe e cole em uma dessas cartolinas, justificando para a classe por que essas imagens devem ficar juntas. Monte, assim, vários painéis que poderão ser colocados nas paredes da sala. Conversem sobre esses painéis e os detalhes que os impressionaram. Procure estimulá-los a perceber que, em Arte, não existem duas árvores iguais, a não ser que usemos um tipo de reprodução para copiar o modelo.

Na aula seguinte, com os painéis expostos, proponha a cada aluno escolher um detalhe de árvore para ser desenhado, como os galhos, as folhas, a forma externa da árvore, a forma dos galhos etc. É interessante que eles utilizem todo o espaço da folha. Depois, organize os desenhos agrupando-os pelos temas desenhados: folhas, galhos, raízes, formatos etc.

Exponha os trabalhos para que todos observem os resultados dos temas tratados que, em geral, são bons, bens diferentes das eternas árvores com maçãs.

Discuta com os alunos sobre a possibilidade de fazer o desenho de um modo novo, que fuja ao lugar comum. Reveja com eles as condições desse trabalho de arte – procurar conhecer o que se vai representar, observar ou mesmo imaginar esse objeto ou situação de um jeito diferente do habitual, buscar novas formas de representá-lo.

Referência
Ticuna. O livro das árvores. Benjamin Constant: Global, 2000.
Programa “Um pé de que?” – Canal Futura, apresentado por Regina Casé.

Texto original: Maria Terezinha Teles Guerra
Consultoria pedagógica: Anamélia Bueno Buoro
Edição: Equipe EducaRede

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Verde que te quero ver diversificar

Verde que te quero ver
Diversificar

Veja como é possível substituir os desenhos simplificados
e empobrecidos por uma diversidade de encher os olhos

Renata Cristina de Campos Honora
Revista avisa lá

Comecei a trabalhar na Escola Municipal de Educação Infantil Maria José Dupré (São Paulo) em agosto de 2002. Como professora recém-chegada, precisava conhecer melhor as crianças e o que elas sabiam, por isso planejei momentos para que elas desenhassem utilizando os recursos que conheciam. Ao analisar os resultados, chamou-me a atenção, em especial, a produção do 3º estágio F, um grupo de 35 crianças com 6 anos de idade. Observei que a maioria fazia casinhas e árvores estereotipadas.

Diante de uma produção tão empobrecida, procurei pelos trabalhos anteriores e constatei que elas estavam habituadas a pintar desenhos “prontos”, mimeografados, ou a fazer desenhos livres. Havia, pois, a necessidade de elas explorarem e desenvolverem o universo gráfico. Então planejei ações até o final do ano letivo com vistas a alguma aprendizagem na área. Uni essa necessidade ao interesse das crianças em observar, manusear e colecionar sementes de árvores que crescem ao lado do muro da escola. Daí surgiram momentos para despertar a sensibilidade delas com relação à importância da preservação do meio ambiente, para a vida do planeta e a de todos nós, para ampliar e enriquecer as possibilidades de registros através do desenho.

Um percurso de trabalho

O projeto durou três meses, e seu desenvolvimento previu diferentes etapas destinadas:

:: Rodas de conversa
No decorrer do projeto, as rodas de conversa estiveram presentes para que as crianças pudessem expor suas idéias e refletir sobre as questões abordadas, juntamente com seus colegas de classe, a fim de que trocassem experiências a partir de suas vivências.

:: Apreciação e pesquisa
Realizamos apreciações de figuras de árvores, arbustos e folhagens coletadas em livros, jornais, revistas, folhetos e vídeos pelas crianças e por mim. As crianças puderam conhecer diferentes tipos de árvores, formas, tamanhos, volumes, cores. Ampliamos as pesquisas com os livros disponíveis na escola e outros levados por mim.

:: Observação e registro
As observações foram constantes: ao explorar o espaço interno da escola, as crianças puderam observar as árvores existentes próximas ao muro, as que viam através da janela da sala de aula e as copas das árvores das casas vizinhas. Surgiu daí a necessidade de conhecê-las de perto, fora do espaço escolar. Então, visitamos os arredores da escola e as crianças fizeram registros gráficos de tudo o que puderam perceber. Em seguida, na aula, fizemos apreciações dos registros, reflexões e observações referentes aos mesmos.

Nas aulas seguintes, propus uma série de produções de desenhos de observação de folhas, sementes, galhos, árvores, desenhos rupestres da Serra da Capivara, estudada no vídeo que exibi. Aproveitei a oportunidade para apresentar a diversidade de materiais de desenho e, assim, as crianças experimentaram carvão, barro, canetas fina/grossa, lápis de cor, giz, caneta para transparência e até os recursos do software Paint Brush.

:: Ampliação do repertório de formas
Para ampliar ainda mais o repertório de formas orgânicas, sugeri que as crianças recolhessem e trouxessem de suas casas e das proximidades folhas, sementes, galhos apanhados do chão, para que posteriormente, em sala de aula, fizessem observações e registrassem graficamente texturas, tamanhos, volumes, cores, luminosidade, linhas de contorno e internas das folhas e cascas de sementes. As crianças estavam tão envolvidas no projeto que trouxeram tudo em grande quantidade. As observações, descobertas e registros gráficos foram ricos e serviram como referencial em suas observações e avanços na percepção de diversas possibilidades de desenhar árvores.

:: Ampliação de conhecimentos
A observação das árvores do bairro e próximas da escola despertou um novo “olhar” para aquelas que sempre estiveram ali e nunca haviam sido percebidas pelas crianças. Esse trabalho de observação fez com que elas começassem a valorizar e compreender a importância e necessidade de preservação. As crianças construíram conceitos, foram em busca de mais informações, espontaneamente, e demonstraram grande interesse em aprender sobre o meio ambiente. Em suas falas percebi a conscientização da necessidade de proteger a natureza e a possibilidade de plantarmos nossos próprios alimentos, já que todas moram em casas e muitas têm espaço para plantar.

:: Troca de conhecimentos sobre desenho
As produções melhoraram sensivelmente. Em sala de aula, eu criava oportunidades para que todos pudessem apreciar os desenhos dos amigos e trocassem informações sobre seus processos. Os desenhos traziam uma enorme riqueza e variedade de formas:

As árvores têm formas diferentes, algumas faço mais finas e outras mais grossas – disse Natasha.
No meu desenho eu usei esta forma de linha que, quando, chega na folha fica curva – observou Gislaine.
Agora estou desenhando com mais vontade, eu desenho o tronco e os galhos vêm logo e depois já faço as folhas – disse Erick, consciente de seu processo de produção.
Quando eu desenho esta folha, tenho que fazer bastante linha dentro dela – acrescentou Fernanda, dando sua dica.
O cacto do vídeo da Serra da Capivara é bem fácil de desenhar, porque é um pouco redondo em cima e reto embaixo, e também tem uns risquinhos – lembrou Carlos.
– Estes desenhos parecem até com uma fotografia – observou Regivan.

Percebi que as crianças estavam vivenciando de forma consciente o processo do fazer gráfico. A linguagem gráfica vinha se enriquecendo a cada dia e a cada oportunidade oferecida.

Pouco tempo, muitos resultados

Apesar do pouco tempo que restava para terminar o ano, conseguimos, ainda assim, produzir muitas coisas como forma de sistematização de nossas pesquisas: montamos um livro com o resultado das pesquisas em casa e na escola, sobre a diversidade da flora e a relação com o meio ambiente. Os textos informativos foram produzidos coletivamente e as receitas de tintas naturais foram escritas pelas próprias crianças, segundo suas hipóteses de escrita no momento. Organizamos uma oficina de criação de pincéis e tintas com elementos da natureza, com a participação de todas as crianças, pais e outras pessoas da comunidade.

Cultivamos algumas sementes escolhidas pelas crianças e acompanhamos seu crescimento. Produzimos jogos de memória, confeccionados com os desenhos de observação das crianças a partir dos desenhos rupestres da Serra da Capivara e impressos em gravura. Fizemos o jogo-da-velha, com o tabuleiro em tecido e as peças com sementes, e um jogo de percurso com informações sobre as plantas. Essas etapas foram valiosas para o sucesso do projeto, pois despertaram grande empenho e envolvimento das crianças e famílias. Percebi nesses três meses a ampliação do universo gráfico das crianças e a transformação de seus desenhos, mais ricos em detalhes.

Clique aqui para ver as produções ricas em detalhes das crianças.

MaisBibliografia
A vida das plantas, as flores e as árvores
Enciclopédia Visual
Editora Ática

O livro das tintas
Ruth Rocha
Editora Melhoramentos

A Criação da Pintura
Editora Melhoramentos

Trilhas da Capivara
Fundação do Homem Americano, localizada no Piauí
dentro do Parque Nacional da Serra da Capivara
Tel.: (86) 3582-2085

Árvores Brasileiras – Vol. 1
Instituto Plantarum

Vídeos
Pantanal – Programa Expedições
Edições Del Prado
Tel.: (21) 2244-2492

Serra da Capivara
Vídeo produzido pela Fundação do Homem Americano
Tel.: (86) 3582-2085

Participe do Fórum Educação Infantil

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)