Pedro Bandeira fala da sedução pela leitura

Como conquistar o aluno
que não gosta de ler

Por Beatriz Levischi

Certas situações que a profissão de repórter nos proporciona são, no mínimo, curiosas. Quando entrei em um dos auditórios do congresso “Educador“, numa manhã de sábado, para assistir ao discurso do escritor Pedro Bandeira, imagens muito claras da minha adolescência começaram a pipocar em seqüência de filme.

Ok, eu estava lá para cobrir mais uma palestra – desta vez, sobre como conquistar o aluno que não gosta de ler -, mas não tinha como dissociar o palestrante do autor dos livros que povoaram meu imaginário, de forma encantadora, por anos a fio. “A droga da obediência”, “Pântano de sangue”, “Anjo da morte”, “A droga do amor”, “Agora estou sozinha”, “A marca de uma lágrima”, “Sete faces do humor”, “Sete faces do crime”. Li todos. Não preciso dizer que a expectativa sobre o que se sucederia era enorme. E acho que os professores estavam no mesmo pé, levando em consideração a intensidade dos aplausos.

Bandeira conquistou a platéia, desde o início, com frases fortes – “acho melhor falar errado dizendo a coisa certa, que falar certo dizendo a coisa errada”, alusão ao poeta cearense, Patativa do Assaré -, cantou, dançou, lançou mão de caras e bocas e insistiu na sedução que o professor deve exercer sobre o aluno: “Você não pode falar ‘tem que ler o livro tal’ [fez cara de enjôo], porque o aluno fica desanimado; tem que despertar sua curiosidade para a história”. E polemizou: “Ele fica na televisão porque não tem outra alternativa”.

Se o aluno não se sensibilizar com a matéria, de forma geral, o professor deve achar outro meio de ensinar. “A ida da criança à escola é uma imposição. O recreio é atraente, não a sala de aula. É preciso torná-la fascinante”, argumentou. E os livros de história têm esse poder, diferente da matemática: “Nenhum número é suficiente para emocioná-los”, insistiu.

Bandeira em frases::“Nossa literatura sempre teve que conquistar um espaço inexistente na cabecinha de nossos leitores, teve de ser formadora, antes de ser somente prazerosa”.:: “Os livros para crianças devem ser somente bons, devem procurar conquistar os pequenos leitores através de sua sensibilidade, não de sua razão”.

:: ” A exclusão do conhecimento é a principal causa de todas as demais exclusões”.

:: “Para a nossa elite, é mais importante investir no pé do que na cabeça do filho”.

:: “A parte emocional é a única que importa para a criança. Elas não querem o tênis da moda. Querem o colo do pai”.

:: “O conhecimento é lindo, a burrice é chata. Hoje, quem precisa de um homem forte para carregar sacos? É necessário gente que saiba ler o manual de instrução da máquina que faz isso”.

:: “Eu acredito que minha profissão seja de plantador de esperança. Eu acredito nisso. É por isso que eu escrevo. É por isso que eu vivo”.

Bandeira frisou a importância do aluno descobrir que cresceu de uma aula para a outra, que não é mais a mesma pessoa: “Todo aluno problemático melhora um pouco no fim do ano; o papel do professor é incentivá-lo ao máximo para que isso aconteça”. Lembrou até que nunca foi bom em física: “Tem gente que é ruim em umas coisas e se dá muito bem em outras”. “Cometer erros faz parte da aprendizagem”, sorriu.

Enfatizou que a prova serve para o professor saber qual parte da matéria o aluno não entendeu e explicar de novo, não para mostrar a ele o quanto não sabe. “A nota é completamente idiota. Passa. Não tem que tirar média. É cretino. O que importa é o que eu sei hoje. Ninguém é média”, esbravejou.

A idéia de perseguir o aluno mais fraco, punindo-o, reprovando-o, expulsando-o da escola não agrada o escritor nem um pouco. “Quem é bom aluno não precisa de professor; no entanto, nós professores somos médicos que odeiam os doentes, principalmente os mais graves. Tratamos somente dos sãos, reprovando os pacientes terminais. Reprovação não cura, o que cura são técnicas especiais para problemas especiais; como fazem os médicos nas UTIs”.

Bandeira citou o computador como uma grande invenção para os escritores: “Tirou a perda de tempo chata para redigitar os textos, a cada erro. Mas não escreve o livro; a criatividade é minha. Por isso a tecnologia não prejudica. Só ajuda, em todos os casos”.

No final, divertiu e divertiu-se cantando (e dançando!) músicas especiais para comemorar o dia das mães e das professoras, retiradas do seu último livro, “Obrigado, mamãe!” (Editora Moderna) – com CD que inclui poemas musicados sobre as coisas simples do cotidiano familiar.

Homenageou a própria mãe que, aliás, chamou de “pãe” – já que o pai faleceu antes do seu nascimento. “Pessoa de pouca cultura, foi ela a responsável por fazer despertar em mim o gosto pela leitura, cantando quando eu ia dormir”, confessou.

Rasgou seda também para os docentes (mulheres em sua maioria esmagadora), dizendo que eles é que tinham asfaltado a estrada para o seu “sucesso” – sucesso esse bem caracterizado, diga-se de passagem, com publicação de livros até em grego.

E não faltou ânimo para atender com paciência e simpatia a enorme fila de professoras que pediam “um abraço”, “uma foto”, ou “um autógrafo para o filho pequeno que havia ficado no outro canto do país”.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 28/05/2002

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)