Votei. E agora?

Votei. E agora?


Por mais de vinte anos (1964-1985), a ditadura militar seqüestrou do cidadão brasileiro o direito ao voto. Os representantes não eram escolhidos pela imensa maioria de representados – a população –, mas por uma cúpula militar que comandava o destino do País. Restabelecido o direito, o cidadão brasileiro, ainda hoje, imagina que sua participação no processo democrático está somente no ato de votar. Mas é muito mais do que isso. Participar da vida pública significa fiscalização, cobrança e memória. Avaliar o que o administrador público realizou para votar ou não na mesma pessoa é uma ação cidadã.

Por José Alves

Todo e qualquer ser humano, desde a mais tenra idade, guia a própria vida pelas decisões que toma, conscientemente ou não. Um bebê, por exemplo, “escolhe” chorar para demonstrar a fome que sente. A vida segue, as pessoas crescem e as necessidades continuam, ultrapassam os muros da casa (vida privada) e chegam à esfera pública. A primeira experiência eleitoral, nesse contexto, se dá na escola, nas eleições de representantes de classe, por exemplo. Nesse momento, já é possível perceber que nossas escolhas influenciarão outras pessoas, de forma positiva ou negativa. Se um candidato sem comprometimento for votado como representante simplesmente por ser amigo do aluno eleitor e seu trabalho não contemplar as necessidades da turma, toda a sala estará prejudicada. Vale a pena votar novamente na mesma pessoa?

Dezesseis anos após o nascimento, os muros da escola tornam-se pequenos e o cidadão brasileiro agora tem condições legais de influenciar nos rumos da sua cidade, Estado e País. De que forma? Novamente pelo voto.

Mas como saber se o candidato em que votamos merece nosso crédito? Lembrar que nesse momento da vida não é possível chorar depois é importante, afinal serão quatro anos de mandato. Por isso, antes de votar, é essencial avaliar o passado do pretendente ao cargo, a qualidade de suas propostas e seu compromisso com a comunidade. Lembrar que honestidade não é proposta de governo, é o mínimo que se espera e que devemos cobrar de qualquer um, seja político ou não, é importante. Pensar na melhor decisão para a coletividade na hora de votar é cidadania.

As responsabilidades do prefeito, de vereadores e cidadãos

Por meio das eleições municipais, no próximo dia 5 de outubro, prefeitos e vereadores de todas as cidades do País serão eleitos pelo povo para assumirem os respectivos cargos a partir de 1º de janeiro de 2009. Nos municípios com mais de 200 mil habitantes haverá segundo turno para prefeito caso algum candidato não obtenha mais da metade dos votos válidos.

O prefeito é eleito pelo sistema majoritário (vence quem tiver mais votos). Os vereadores são eleitos pelo sistema proporcional; as vagas da Câmara são preenchidas proporcionalmente ao número de votos obtidos pelos partidos ou coligações (composição entre diferentes partidos).

Mas qual é o papel do prefeito na administração da vida pública da cidade? O poder executivo municipal é exercido pelo prefeito, responsável pela administração do município. Isso inclui a realização de obras e a prestação de serviços públicos, tais como saúde, educação, abastecimento de água, limpeza das ruas, entre outros. O prefeito deve prestar contas de seu trabalho à Câmara de Vereadores e aos cidadãos. É necessário ressaltar que nenhuma obra é presente do administrador. Toda e qualquer ação é feita com o dinheiro público, do povo, que chega à prefeitura por meio de impostos, da mesma forma que transparência na prestação de contas desse dinheiro não é bondade, é obrigação. Afinal, todos devemos cuidar do nosso dinheiro, não é mesmo?

Os vereadores, por sua vez, representam os cidadãos e formulam as leis do município, que devem ser cumpridas por todos, inclusive pelas empresas e pela própria prefeitura. É papel do vereador fiscalizar a atuação do prefeito, do vice-prefeito e dos secretários municipais, e os atos de toda a administração municipal. Também é dever do vereador exigir melhorias para o município nas áreas de saúde, educação, transportes etc.

Chorar depois do voto, como foi dito antes, não é possível. Que tal uma postura mais ativa? É primordial trocar as lágrimas e a lamentação pelo exercício da cidadania. Isso significa fiscalizar os administradores públicos. Mas o que podemos cobrar?

Da prefeitura, a realização de obras, consertos em bens públicos e serviços de saneamento, limpeza, educação, transporte, saúde, abastecimento, assistência social e incentivo à geração de emprego e renda, além de condições de lazer (praças, parques…) e de cultura (realização de eventos culturais, por exemplo). Qualquer cidadão que tenha votado ou não no candidato eleito deve exigir esses direitos diretamente dos órgãos da prefeitura, como secretarias, ouvidorias, entidades de fiscalização, postos de saúde e escolas, ou do próprio prefeito, conforme o caso.

Para acompanhar o trabalho dos vereadores, os cidadãos podem assistir às sessões da Câmara Municipal. Devem exigir que os vereadores fiscalizem todas as ações da prefeitura – e que denunciem o que precisar ser denunciado. Se necessário, a Câmara Municipal pode criar comissões parlamentares de inquérito para apurar irregularidades, fazer vistorias e inspecionar os órgãos municipais, e ainda convocar as autoridades do município para depor e prestar esclarecimentos sobre determinado fato.

Tanto para o prefeito como para os vereadores, outra forma de exercer a fiscalização popular é entrar pessoalmente em contato, enviar carta, telefonar ou encaminhar e-mail. Informe-se na prefeitura sobre as reuniões de conselhos que tratam de educação, saúde, orçamento, juventude e outros temas, e participe, nem que seja só como ouvinte. Compareça às reuniões da Câmara de Vereadores e acompanhe os projetos em debate e votação. Apresente sugestões aos vereadores. Você sabia que qualquer cidadão pode apresentar projetos de lei se reunir assinaturas de 5% dos eleitores do município? Exercer cidadania é se apropriar de direitos e deveres; o nosso compromisso não termina ao apertar a tecla verde na urna eletrônica.

Pesquisas eleitorais: como são feitas?

Em entrevista ao site Infonet, Kerma Toscano, gerente regional do Ibope, explicou que a pesquisa é feita por amostragem, composta pelas variáveis sexo, grau de instrução e setor de dependência econômica “de acordo com critérios estatísticos e baseada em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o universo a ser analisado dentro da realidade”. As entrevistas são feitas de modo geral nos domicílios, escolhendo grupos específicos, que tenham um determinado perfil. Também existe a pesquisa de boca de urna, feita no dia da votação e nas seções com quem já votou.

O tamanho da amostra, ou seja, a quantidade de pessoas entrevistadas, não é o mais importante para a pesquisa, mas sim a representatividade dela. Por exemplo, se o município pesquisado tiver 60% de homens e 40% de mulheres, a amostra deverá obedecer a essa proporção. Quanto mais homogêneo for o grupo a ser consultado, menor a margem de erro da pesquisa, que varia bastante em função da distribuição geográfica do eleitorado. Em resumo, a margem de erro depende da mostra e da quantidade de variáveis utilizadas.

Todos estamos acostumados com as pesquisas eleitorais em época de pleito. Elas são um recorte momentâneo, temporal, dos índices de votação dos candidatos aos cargos públicos. Há, inclusive, uma polêmica, nem tão nova assim, quanto à influência das pesquisas no voto das pessoas. Mas você sabe como elas são feitas? De que forma os institutos chegam aos números que a população toma conhecimento?  

Fontes: O Guia do Eleitor Cidadão, publicação conjunta do Senado Federal e do Tribunal Superior Eleitoral
Ibope
Site Infonet

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


Violência na escola

A escola é o espaço em que crianças e jovens aprendem não apenas um conjunto de conteúdos curriculares, mas também pautas de sociabilidade e comportamento cidadão. Professores devem promover o enriquecimento coletivo a partir da integração das diferenças entre os alunos.  (Tradução de Airton Dantas).  

O fenômeno da violência na escola tornou-se um tema preocupante na Argentina nas últimas décadas. O episódio ocorrido na cidade de Carmen de Patagones [sul da província de Buenos Aires, a 950 km da capital], em 2004, quando um aluno disparou indiscriminadamente contra seus companheiros, causando três mortos e cinco feridos, deu à violência na escola enorme repercussão nacional. Episódios posteriores, como o do garoto da cidade de Corrientes, que matou o colega com uma arma branca, em 2007, ou os recentes episódios trágicos ocorridos nas províncias de Misiones e Buenos Aires, recolocam o problema na pauta dos meios de comunicação.

Esse tipo de situação traumática, em que vidas são perdidas de maneira tão insólita e dilacerante, freqüentemente responde a uma situação de constante violência cotidiana. Essa violência, resultante de uma série de atitudes, condutas e situações produzidas diariamente na escola, tais como a discriminação, a marginalização, o autoritarismo etc., constitui a base do problema da violência escolar.

Não raras vezes, esse cotidiano de convivência violento, por não desencadear episódios traumáticos de agressão, é tolerado ou não é considerado problema importante, o que dificulta a possibilidade de uma convivência frutífera no âmbito escolar e estimula os jovens a incorporar determinadas condutas de violência como parte normal da vida cotidiana.

Discriminação e preconceitos como formas de violência

O Projeto para a prevenção da violência na escola de ensino médio, amplo estudo realizado em escolas de toda a Argentina (exceto as da província de Neuquén) por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Gino Germani, da Universidade de Buenos Aires, indica que mais da metade dos alunos de escolas de ensino médio rejeita declaradamente os colegas orientais, não importando se emigraram recentemente ao país ou se são cidadãos argentinos nativos, filhos de pais orientais que emigraram para a Argentina há algum tempo. Igualmente, mais da metade dos alunos rejeita os judeus.

Estas porcentagens alarmantes de atitudes xenófobas e anti-semitas são ainda mais altas quando se pergunta aos adolescentes sobre a presença de preconceitos machistas. Cerca de 75% concorda que “as mulheres que sofrem violência por parte do marido ou companheiro fizeram por merecer”, ou “o homem que parece ser mais agressivo é mais atraente”.

Esses preconceitos trazem consigo enorme carga de violência porque conduzem à rejeição de uma pessoa a partir de características que nada têm a ver com o comportamento, com as condutas ou com a forma de ser dessa pessoa. Ser rejeitado por traços físicos ou por crenças religiosas e culturais gera rancor e ressentimento. Freqüentemente, os adolescentes discriminados respondem a essa violência gratuita com outras formas de violência, que geram, por sua vez, mais rejeição, criando-se assim um clima de convivência escolar que reproduz padrões de intolerância e conflito ancorados em preconceitos característicos de nossa sociedade.

A escola tem um importante papel simbólico como o espaço em que crianças e jovens aprendem não apenas um conjunto de conteúdos curriculares, mas também pautas de sociabilidade e comportamento cidadão. Frases populares como “não lhe ensinaram nada na escola?” revelam esse lugar. É por isso que se nesse mesmo lugar reproduzem-se no tempo condutas e atitudes ligadas à intolerância e à discriminação, é muito difícil formar cidadãos que respeitem as diferenças e possam, em vez de rejeitá-las e condená-las a priori, nutrir-se delas para se desenvolver como pessoas mais plenas.

Se a escola reproduz a xenofobia, o anti-semitismo, o machismo etc., da sociedade atual, os alunos do futuro também chegarão à escola carregados desses preconceitos, por terem saído da escola sem condições de refletir sobre seus próprios preconceitos. Se, como sociedade, quisermos mudar isso, é a escola o lugar em que os adolescentes podem ser providos de elementos conceituais que lhes ofereçam a capacidade para superar as crenças ligadas à intolerância e à discriminação, promovendo estruturas que lhes permitam aprender a tolerar a incerteza e a construir a própria identidade, respeitando as diferenças.

Violência na sociedade e violência na escola

Quando os alunos discriminam um colega por ele ser judeu, coreano ou chinês; ou quando recorrem à violência para solucionar um conflito pessoal, nada mais fazem do que levar para a escola comportamentos da sociedade. A xenofobia, por exemplo, está amplamente espalhada em nossa sociedade. Na Argentina, há palavras depreciativas para os cidadãos de todos os países limítrofes: as pessoas da Bolívia não são bolivianas, são “bolitas”, os paraguaios são “paraguas” etc. Podemos notar como essa característica da nossa sociedade repercute no clima social escolar ao observar uma forma particular de violência escolar: a rejeição e a discriminação dos diferentes.

A rejeição é a única forma de maltrato mencionada abertamente por seus protagonistas: enquanto a maioria das outras ofensas e condutas violentas não são geralmente reconhecidas por parte dos adolescentes que as praticam, rejeitar os diferentes é, em contrapartida, amplamente aceito, como se fosse algo legítimo ou compreensível, o que se vincula fortemente com as altas porcentagens de alunos que expressam não aceitar colegas de outras origens, religiões ou nacionalidades.

Quando esse tipo de violência, como a discriminação por nacionalidade ou religião, é incorporado como traço característico do clima social escolar, os alunos são empurrados a reconhecer acriticamente que a violência faz parte das relações de todos os dias entre as pessoas, e a violência passa a ser vista na própria escola como algo natural. Essa naturalidade da violência é de fato observada em proporções alarmantes entre os adolescentes da escola de ensino médio, já que 75% dos alunos concordam com frases que naturalizam a violência, como “a violência faz parte da natureza humana” ou “as brigas entre jovens nos fins de semana são inevitáveis”. Naturalizar a violência na escola dificulta demais a possibilidade de trabalhar em favor de outros modos de vinculação social que permitam a integração e ofereçam ferramentas para a resolução não-violenta de conflitos.

A exposição precoce e contínua à violência no meio familiar também é um fator importante na socialização das crianças e dos jovens quanto à adoção de modalidades violentas. Pode-se supor que os alunos que afirmam viver em um meio familiar no qual as brigas e discussões são freqüentes, podem ser eles mesmos atores de manifestações de violência na escola.

O Projeto para a prevenção da violência na escola de ensino médio encontrou, de fato, diferenças notáveis nos perfis das manifestações de violência de acordo com o ambiente familiar. Em todos os casos, os perfis mais altos quanto a vítimas e protagonistas de violência revelam porcentagens mais altas em ambientes familiares marcados por muitos conflitos. Como exemplo, podemos destacar que aqueles que vivem em ambientes familiares desfavoráveis protagonizam 24 % mais atos de violência escolar do que aqueles que vivem em ambientes favoráveis.

Por conta desse mecanismo de arrasto de condutas violentas da vida social dos alunos para o clima social da escola, é necessário que as instituições educativas façam um esforço consistente para lutar contra os preconceitos que levam os alunos a internalizar a violência como algo natural, contra a qual nada se pode fazer já que faz parte da vida social.

Violência e atitudes autoritárias

A percepção de práticas autoritárias por parte dos docentes é um elemento que contribui para a criação de condutas violentas nos alunos.

Diferentes estudos demonstram que quanto maior o nível de autoritarismo dos professores e da equipe escolar, maior também são o número e a gravidade dos episódios de violência entre os próprios alunos. Isso não quer dizer que o autoritarismo produz de modo direto (no sentido de causa–efeito) as situações de violência na escola, mas sim que ele cria obstáculos ou interrompe os canais de comunicação e de mediação que fazem com que os conflitos não se expressem de forma violenta. O autoritarismo por parte dos docentes implica ausência da função socializadora da escola no que se refere à tolerância dos diferentes e à defesa dos seus direitos, criando um clima social propício às manifestações de violência.

As condutas autoritárias dos docentes promovem duplamente a violência escolar. Em primeiro lugar, quando os alunos observam que os professores impõem sua autoridade baseando-se em um conjunto de regras e atitudes percebidas como arbitrárias, atitudes que não deixam espaço para que os alunos possam expressar as razões que os levam a considerá-las desse modo; freqüentemente, por não contarem com outros canais de expressão, respondem violentamente, como forma de resistência a determinadas normas e práticas escolares. Em segundo lugar, quando os alunos recebem cotidianamente sinais autoritários por parte dos docentes, é comum que eles próprios reproduzam esta atitude na resolução de seus próprios conflitos.

Desse modo, em vez de se promover o enriquecimento coletivo a partir da integração das diferenças entre os alunos, estas diferenças podem conduzir a situações de violência quando os jovens resolvem suas diferenças reproduzindo condutas autoritárias observadas nos professores.

A resolução autoritária de um conflito por parte do docente, ao ignorar a solução coletiva que, pelo intercâmbio e pela explicação, inclui o aluno ao oferecer-lhe participação no resultado dessa resolução e o torna parte dela, fomenta as resoluções individuais dos conflitos cotidianos e dificulta a aprendizagem da integração não violenta das diferenças.

As condutas e atitudes autoritárias dos docentes, tanto no ensino curricular como no tratamento das questões de conduta, promovem o desenvolvimento de atitudes individualistas nos alunos, cerceando o crescimento dos espaços de atividade e reflexão coletivos, espaços que, além de facilitar o processo de ensino e aprendizagem, facilitam também a integração dos alunos entre si ao promover um clima social de intercâmbio e de participação que, por sua vez, ajuda desenvolver a atividade curricular em sala de aula.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Sociedade civil está de olho na educação brasileira

Sociedade civil está de olho na educação brasileira

Relatório divulgado por especialistas não vinculados ao poder público mostrou que a educação no País avançou, entre 2005 e 2007, mas não na velocidade esperada


Por José Alves

 

O movimento Todos pela Educação apresentou no último dia 11/12, em São Paulo, o relatório “De Olho nas Metas”, o primeiro de uma série que acompanhará a evolução da educação em todo o País a partir de 5 metas estabelecidas pelo movimento e que devem ser alcançadas até 2022, ano do bicentenário da independência. São elas: Toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola; Toda criança plenamente alfabetizada até os oito anos; Todo aluno com aprendizado adequado à sua série; Todo jovem com Ensino Médio concluído até os 19 anos; Investimento em Educação ampliado e bem gerido.

O De Olho nas Metas” tomou como base os dados que fotografam o período entre os anos de 2005 e 2007. Para o Prof. Mozart Neves Ramos, presidente-executivo do Todos pela Educação, a importância deste relatório de avaliação está no fato de ser o primeiro elaborado exclusivamente pela sociedade civil. “Resultados de relatórios apresentados pelo poder público podem ser alterados de governo para governo, já que há uma tendência em enfatizar números positivos e dar pouca importância aos negativos. Além disso, nossas metas são mais ambiciosas. Esse relatório, por pertencer à sociedade civil, defende a educação de forma clara, evidente e não tem compromisso com nenhuma corrente política”, diz Ramos. Conheça as principais considerações do relatório, meta a meta:

Meta 1: Toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola

Nos últimos dois anos, aumentou o número de crianças e jovens de 4 a 17 anos na escola, mas o aumento não foi suficiente para o Brasil atingir a meta de 91% estipulada pelo movimento. Em 2005, a taxa de atendimento foi de 88,8% e o valor alcançado em 2007 foi de 90,4%.

A maior deficiência está na faixa etária de 15 a 17 anos na qual, em 2007, apenas 79,1% dos jovens estavam na escola. Entre as crianças de 4 a 6 anos, 81,5% estavam na escola no período.

Meta 2 – Toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos

O movimento propõe que até 2010, 80% ou mais, e até 2022, 100% das crianças apresentem as habilidades básicas de leitura e escrita até o final da 2ª série (3º ano do Ensino Fundamental). Embora haja importantes informações estatísticas sobre a alfabetização nessa faixa etária, ainda não há um instrumento adequado para acompanhar a aprendizagem dessas crianças, pois os alunos não são avaliados por meio de testes nacionais, padronizados, sistematicamente coletados e divulgados.

Para Mozart Neves Ramos, presidente-executivo do Todos Pela Educação, “a Provinha Brasil, desenvolvida pelo Ministério da Educação, é um instrumento absolutamente necessário para medir se a qualidade está sendo cumprida na escola pública”. O presidente-executivo defende a obrigatoriedade da aplicação e da divulgação dos resultados da avaliação.

Meta 3 – Todo aluno com aprendizado adequado à sua série

A Meta 3 é a que mais sintetiza o conceito da qualidade da Educação, pois avalia se o aluno efetivamente está aprendendo. O movimento tomou como base as disciplinas Matemática e Língua Portuguesa. Entre 2005 e 2007, o número de alunos do Ensino Fundamental com conhecimento adequado à sua série aumentou. Apesar da melhora, os resultados obtidos foram suficientes apenas para alcançar as metas estabelecidas para a 4ª e a 8ª séries do Ensino Fundamental em Matemática.

Em Língua Portuguesa, o avanço nas duas séries ficou aquém do esperado pelo Todos Pela Educação. No 3º ano do Ensino Médio, o percentual de alunos com habilidades compatíveis com a sua série vem decrescendo. Em 2003, esse valor era de 12,8%, em 2005 era 10,9% e em 2007 caiu ainda mais, chegando a 9,8%, quando a meta era atingir no mínimo 11,6%.

Meta 4 – Todo jovem com o Ensino Médio concluído até os 19 anos

O Brasil alcançou as metas de conclusão estipuladas pelo movimento para 2007. De acordo com o relatório, 60,5% dos jovens de 16 anos concluíram o Ensino Fundamental e 44,9% dos jovens de 19 anos, o Ensino Médio. Os valores observados superam as metas propostas para 2007, que eram de 58,9% e 42,1%, respectivamente.

Apesar dos resultados positivos, os números revelam que ainda é grande o desafio de corrigir o fluxo escolar no País. O fato de mais da metade dos jovens não concluírem o Ensino Médio na idade correta e quase 40% o Fundamental, revela que o Brasil está longe de garantir um bom fluxo escolar para seus alunos.


Meta 5 – Investimento em Educação ampliado e bem gerido

Dados do Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais apontam que o investimento direto em Educação como um todo passou de 3,9% do PIB – Produto Interno Bruto, em 2005, para o patamar de 4,4% em 2006, chegando ao maior percentual dos últimos seis anos. Na Educação Básica, o investimento passou de 3,2%, em 2005, para 3,7%, em 2006. A ampliação dos recursos vem ocorrendo lentamente e, apesar do aumento, esses percentuais e a forma como são geridos ainda estão longe do ideal, vistos os desafios educacionais do País. O movimento defende que o investimento em Educação seja ampliado e bem gerido, e estipula que a Educação Básica receba, no mínimo, 5% do PIB até 2010.

Desafios para uma educação de qualidade

Diante dos resultados apresentados para as 5 metas, o que mais chamou a atenção de Mozart Neves Ramos, presidente-executivo do Todos pela Educação, foi o esforço dos Estados situados nas regiões Norte e Nordeste do País, que conseguiram atingir suas metas. “Isso é um importante estímulo, mas deve-se levar em consideração que as metas para essas regiões ainda são pouco ambiciosas se comparadas às estabelecidas, por exemplo, para o Distrito Federal, que apresenta os melhores índices do Brasil”. Essas conquistas são importantes, mas não há lugar para descansar, é preciso trabalhar mais e mostrar melhores resultados daqui em diante.

O presidente-executivo considera que investimento em educação e a gestão escolar feita por pessoas qualificadas são necessidades que caminham juntas. O valor per capita de R$ 1.700 reais/ano para estudantes de escolas públicas é insuficiente. Representa apenas 30% do que é investido por ano nas escolas particulares. “Mas não adianta somente colocar mais dinheiro se o atual panorama da gestão escolar continuar do mesmo jeito. É preciso acabar com indicações políticas para o cargo de diretor nas escolas públicas brasileiras; o gestor deve ser profissional, exercer liderança, entender de relações interpessoais, de tecnologia da informação, enfim, ser preparado para o cargo”, conclui.
Maria Helena Guimarães, secretária da Educação do Estado de São Paulo, esteve presente ao evento e analisou os números obtidos pelo Estado paulista: “do ponto de vista do aprendizado, São Paulo está muito parecido com os quatro melhores Estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Este último, embora não seja um Estado, apresenta há muitos anos um desempenho acima da média nacional.

Todos pela Educação
Lançado em setembro de 2006, o Todos pela Educação é um movimento que conta com a participação da sociedade civil, de gestores públicos, da iniciativa privada e de educadores. O principal objetivo é garantir que todos os brasileiros tenham acesso a uma Educação de boa qualidade até 2022, ano do bicentenário da Independência do Brasil.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

Pesquisa “Bullying no Ambiente Escolar”: raio-x da violência escolar

Pesquisa “Bullying no Ambiente Escolar” apresenta raio-x das agressões entre estudantes brasileiros

Dados do estudo foram coletados em 2009 pela Plan Brasil, e contou com a participação de 5.168 alunos das cinco regiões do país, além de pais/responsáveis, professores e gestores de escolas

O bullying é uma prática cada vez mais comum entre crianças, jovens e adolescentes em ambiente escolar. O termo surge a partir da palavra “bully”, de origem inglesa, que significa “valentão”, e se caracteriza por atos repetitivos – superior a três vezes durante o ano letivo – de agressão contra alguém, seja ela de natureza física, verbal, social ou financeira.

Com o objetivo de conhecer as situações de bullying em escolas brasileiras, a Plan Brasil, organização não-governamental voltada para a defesa dos direitos da infância, iniciou, em 2009, a pesquisa Bullying no Ambiente Escolar, um levantamento de dados inédito que permitiu conhecer as situações de maus tratos nas relações entre estudantes dentro da escola, nas cinco regiões do país. Participaram da pesquisa 5.168 alunos, além de pais/responsáveis, professores e gestores de escolas. O estudo foi concluído em 2010.

Os resultados do estudo servirão de insumos para ações da campanha “Aprender sem Medo”, com objetivo de estimular a promoção de políticas mais eficientes na prevenção de crimes e na justiça criminal no mundo inteiro.

O que retratam os números da pesquisa

Atos violentos entre estudantes é mais comum do que se imagina. A cada dez estudantes que preencheram um questionário elaborado pela Plan, sete responderam já ter presenciado cenas de agressões entre colegas. O bullying – agressão a uma mesma pessoa superior a três vezes durante o ano letivo – foi praticado e sofrido por 10% do total de alunos pesquisados. O estudo mostra ainda que a prática é mais comum nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do país e que a incidência maior está entre os adolescentes na faixa de 11 a 15 anos de idade, alocados na 6ª série do Ensino Fundamental.

Em relação a gênero, a pesquisa mostra que é maior o número de vitimas do sexo masculino: mais de 34,5% dos meninos pesquisados sofreram maus tratos ao menos uma vez no ano letivo de 2009, sendo 12,5% vitimas de bullying. Apesar das altas frequências de práticas violentas, os alunos do sexo masculino pesquisados tendem a minimizar a gravidade dessas ocorrências, alegando que foram brincadeiras de mau gosto ou que não dão importância aos fatos porque os colegas não merecem essa consideração.

Já as meninas que sofreram maus tratos ao menos uma vez durante o ano de 2009 (23,9% da amostra de meninas pesquisada) ou tornaram-se vítimas de bullying (7,6% dessa mesma amostra) apresentam outro padrão de resposta às agressões sofridas, manifestando sentimentos de tristeza, mágoa e aborrecimento.

Agressões também acontecem além dos muros da escola: Ciberbullying

Quanto ao bullying no ambiente virtual – conhecido como Ciberbullying – os dados revelam que 16,8% dos pesquisados são vítimas, 17,7% são praticantes e apenas 3,5% são vítimas e praticantes ao mesmo tempo. Independentemente da idade das vítimas, o envio de e-mails maldosos é o tipo de agressão mais frequente, sendo praticado com maior frequência pelos alunos pesquisados do sexo masculino. Entre as meninas pesquisadas, o uso de ferramentas e de sites de relacionamento são as formas mais utilizadas. Tanto no ambiente virtual como no ambiente escolar, as vítimas tendem a não reagir aos atos sofridos e apresentam sentimentos de desconforto, apatia, irritabilidade e tristeza.

Quais fatores motivam a prática do Bullying?

Os estudantes tiveram dificuldades para indicar os motivos das agressões. No entanto, tendem a considerar que os agressores buscam obter popularidade junto aos colegas, que necessitam ser aceitos pelo grupo e se sentirem poderosos em relação aos demais, tendo esse “status” reconhecido na medida em que seus atos são observados e, de certa forma, consentidos pela omissão e falta de reação dos atores envolvidos. Nos discursos dos alunos também se observa a ênfase em outra característica do perfil dos agressores, que é a ausência de medo da punição.

Já as vítimas são sempre descritas como pessoas que apresentam alguma diferença em relação aos demais colegas, como um traço físico marcante, algum tipo de necessidade especial, o uso de vestimentas consideradas diferentes, a posse de objetos ou o consumo de bens indicativos de status sócioeconômico superior ao dos demais alunos. Elas são vistas como pessoas tímidas, inseguras e passivas, o que faz com que os agressores as considerem merecedoras das agressões, dado seu comportamento frágil e inibido.

As consequências do Bullying

O que pode acontecer com as vítimas das agressões? Segundo a pesquisa, a perda do entusiasmo, seguida pela perda da concentração e, por fim, o medo de frequentar a escola. Os dados mostram um maior impacto desse tipo de violência justamente no processo de aprendizagem e no desenvolvimento escolar das vítimas. Tal conclusão vai ao encontro dos discursos dos professores e equipe técnica das escolas, captados na etapa qualitativa do estudo.

E em relação aos agressores, quais são as consequências do Bullying? Um dos dados mais relevantes da pesquisa é que o agressor também tem seu desenvolvimento escolar e aprendizagem afetados negativamente pela prática da violência. Perda de concentração é um dos fatores que apareceram nas respostas. A prática dos maus tratos é, portanto, negativa para a vida escolar das vítimas e dos agressores, atingindo os dois grupos da mesma forma.

As escolas estão preparadas para lidar com situações violentas?

O estudo demonstra que há despreparo da maioria das escolas pesquisadas para reduzir ou eliminar a ocorrência de situações de violência escolar, de acordo com os professores pesquisados. Isso se deve à escassez de recursos materiais e humanos, bem como à falta de capacitação dos professores e equipes técnicas das escolas.

Como professores e equipes técnicas tendem a achar que as causas da violência entre alunos são exteriores à escola – localizadas na família ou na sociedade em geral – são poucas as ações institucionais com foco no combate à violência entre os alunos relatadas pelos docentes. De acordo com os discursos dos professores, as ações mais comuns tomadas pelas escolas são pontuais e direcionadas especificamente aos agressores.

Em regra, o que as escolas fazem é punir os agressores com suspensões e advertências e/ou chamar os pais dos agressores para conversas com os educadores e equipe técnica escolar.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

No Reino de Valmaar, criança não trabalha

No “Reino de Valmaar”, criança
não trabalha


Livro virtual com jogos de RPG auxilia educadores a discutir trabalho
infantil com crianças e adolescentes

Por José Alves

“Provença é um reino distante, fundado por magos de Valmaar há mais de duzentos anos. Lá, os níveis de Educação são excelentes – praticamente todos os habitantes vão para a escola e aprendem a usar os Talismãs”. O trecho acima é parte da história “A Poção de Valmaar”, uma das nove que compõem o livro virtual “Histórias do Reino de Valmaar”, produzido pelos participantes do Programa de Formação de Núcleos Socioeducativos e Escolas das regiões de M´Boi Mirim e Grajaú – Combate ao Trabalho Infantil, no EducaRede.

O livro, concebido na Comunidade Virtual Pró-Menino, foi lançado no último dia 11, durante evento em São Paulo, e utiliza o jogo RPG (Role-Playing Game) como pano de fundo para discutir um assunto essencial para a vida de crianças e adolescentes: a erradicação do trabalho infantil.

Em inglês, RPG é a sigla de Role-Playing Game, que pode ser traduzida como “jogo de interpretação de papéis”. Pense em uma história em que cada jogador interpreta um dos personagens, só que, ao contrário das histórias convencionais, nos RPGs o final não está definido desde o começo. Os jogadores decidem como seus personagens vão agir no decorrer da partida e coisas diferentes podem acontecer a cada decisão tomada.

Mas, de que forma um jogo pode contribuir para a erradicação do trabalho infantil?  Segundo Sônia Dias, responsável pelas estratégias de Educação a Distância e coordenadora da oficina de criação do livro, “o RPG foi escolhido por combinar com a concepção de aprendizagem que permeia o projeto, a produção coletiva e colaborativa, além de possuir a linguagem dos jogos, próxima das crianças e dos adolescentes”.  A educadora da ONG Serviço Social Bom Jesus, um dos Núcleos Socioeducativos participante do programa, Ruth Ferreira Camboim, concorda: “O RPG traz o lúdico para um tema que é muito difícil de ser trabalhado com crianças e adolescentes. Quando a fantasia e as brincadeiras passam a fazer parte do processo, o objetivo pode ser atingido com mais rapidez”.

O Secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Floriano Pesaro, sugere possibilidades de utilização do livro virtual: “Cada educador pode vivenciar a história que criou e a dos colegas de formação em sua escola ou núcleo. Pode também imprimir, se for mais conveniente, passear com seu livro, ou, ainda, jogar pela Internet com seus educandos. Os educadores também são convidados a criar outras histórias com suas crianças ou colegas”, conclui.

A produção e o lançamento do livro virtual é uma das ações do Programa de Formação de Núcleos Socioeducativos e Escolas das regiões de M´Boi Mirim e Grajaú – Combate ao Trabalho Infantil, cujas ações a distância foram realizadas na Comunidade Virtual Pró-Menino. O projeto é resultado de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo (SMADS), por meio do  Programa São Paulo Protege, e a Fundação Telefônica, com o Programa Pró-Menino.  Professores da rede pública e educadores de núcleos socioeducativos construíram coletivamente, nos encontros presenciais, as histórias que deram origem à obra. Fora dos encontros, a comunicação entre os participantes se deu a distância, por e-mail, fórum, blog e outras ferramentas na Comunidade Virtual.

O ambiente Comunidade Virtual de Aprendizagem é um espaço aberto disponível no EducaRede para projetos geridos pelo internauta. Outro ambiente disponível aos usuários é a Oficina de Criação, espaço interativo destinado à produção de textos, em diversos gêneros, sob orientação de um mediador, que dá dicas e faz propostas específicas para o trabalho dos participantes.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

 

Informação X Preconceito

20 de novembro: Dia da Consciência Negra

Defensoria lança cartilha para informar sobre discriminação, racismo e preconceito

A Defensoria Pública do Estado

de São Paulo produziu uma cartilha para informar a população sobre seus direitos e providências a serem tomadas em casos de discriminação, racismo ou preconceito. A publicação, elaborada pelo Núcleo Especializado de Combate a Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria, explica o que é o direito à igualdade, previsto pela Constituição Federal, bem como o direito à diferença, que é a possibilidade de todos viverem segundo sua própria cultura e suas características pessoais, sem discriminação.

A cartilha também informa quais os dispositivos legais que podem ser aplicados nos casos de discriminação racial. Ensina, ainda, todos os passos a serem percorridos por uma vítima de preconceito ou racismo: colher a maior quantidade possível de informações e detalhes sobre o fato (por exemplo nome, telefone e endereço do ofensor e de pessoas que testemunharam o ocorrido), comparecer a uma delegacia para registrar o boletim de ocorrência, e procurar um advogado. Caso a vítima não tenha condições de arcar com as custas judiciais, pode contar com a Defensoria Pública.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)