Xadrez na Escola


Cadernos, livros e xadrez

Professores de escolas públicas utilizam as técnicas do xadrez com sucesso
entre alunos das mais variadas faixas etárias

Por Rosane Storto

Hora da aula de Educação Física na Escola Municipal de Ensino Fundamental “Francisco Mendes Filho – Chico Mendes”, em Itaquera, São Paulo. Os alunos trocam os shorts e camisetas por fantasias verde-e-amarelas com figuras na cabeça e vão para a quadra. Ao invés da tradicional aula de Educação Física, participam de uma animada e diferente partida de xadrez.

Chamado de Xadrez Humano Ecológico, o projeto foi idealizado e executado pela professora de Educação Física Silvia Cristina de Mello, no ano 2000. Cada peça do jogo de xadrez, como rei, rainha, bispo, cavalo e peões, são substituídos por personagens que têm uma história em comum com o meio ambiente. Por exemplo, a figura do rei é representada por Chico Mendes, a da rainha, pela Mãe Natureza, a do bispo da rainha, pela Educadora, e o bispo do rei, por São Francisco de Assis.

A experiência da Escola Chico Mendes inova ao transformar os alunos em peças do jogo, mas o xadrez de mesa já está presente em muitas escolas e deve se espalhar ainda mais pelo Brasil. Em julho do ano passado, os ministérios da Educação e dos Esportes começaram a trabalhar na implantação de um projeto-piloto de Xadrez nas Escolas em cinco capitais brasileiras. Coordenado pelo enxadrista e campeão brasileiro Jaime Sunye, o projeto já atinge quatro capitais: Recife, Teresina, Rio Branco e Campo Grande.

Estados e municípios do país já possuem experiências bem-sucedidas com o jogo na escola antes mesmo do projeto federal. O Paraná acumula mais de 23 anos de uso de uma metodologia aplicada em 800 escolas estaduais, que foi coordenado por Sunye e serviu de exemplo para o projeto nacional.

De acordo com Sunye, o MEC tem como proposta priorizar a retirada das crianças da rua. “O projeto acontece no contra-turno, ou seja, fora do horário escolar, fazendo com que as crianças continuem na escola mesmo depois das aulas. Queremos ocupar o tempo ócio das crianças, levando-as para a escola para praticar uma atividade mais atrativa e esportiva”, observa.

Em 2003, o projeto foi aplicado em fase experimental em 200 escolas de cinco capitais, mas, a partir deste ano, a idéia é expandi-lo a 4.000 escolas. “Queremos, com esse projeto, acabar com o estereótipo de que o xadrez é para pessoas superinteligentes e sensibilizar os professores dos benefícios que o esporte oferece”, explica Sunye.

Assim como os municípios paranaenses, cidades como Pacatuba, no Ceará, São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, além de São Paulo, também já têm projetos que envolvem o esporte em escolas municipais. Cada uma dessas cidades desenvolveu sua própria metodologia de trabalho, misturando reis, peões e bispos aos cadernos e livros, num aprendizado diferenciado e bem divertido.

Tem gente na jogada

Na escola municipal de São Paulo, a professora Silvia Cristina de Mello explica que o Xadrez Humano Ecológico é jogado de duas formas: a tradicional ou a planejada. Na primeira, os jogadores são divididos em equipes e planejam as jogadas em conjunto. Segundo Silvia, já aconteceu de uma jogada levar mais de uma hora para ser concluída. Já as jogadas planejadas são mais rápidas, e as estratégias são retiradas de livros sobre o jogo.

“O Xadrez Humano Ecológico é como o tradicional, com a diferença de que cada peça tem um símbolo, um personagem e no final os dois adversários ganham, com o aprendizado sobre a ecologia e seus personagens”, explica Silvia.

A idéia de criar o jogo era aproveitar melhor o tempo da aula de Educação Física em dias de chuva. “Quando chovia, ficávamos sem atividades, por isso resolvi começar um trabalho com o xadrez. Iniciamos com o tradicional, com o tabuleiro e as peças e depois começamos a trabalhar os temas transversais utilizando o xadrez. Os alunos gostaram tanto que resolvi criar o xadrez ecológico com peças feitas de garrafas PET, e em seguida o jogo humano”, conta a professora.

Com esse projeto, a professora de Educação Física trabalha em conjunto com outras disciplinas curriculares. Por exemplo, para trabalhar com os peões, os alunos pesquisam sobre a vida dos personagens escolhidos, entrando algumas vezes em História. As pesquisas na Internet algumas vezes trazem resultados em inglês.

Segundo ela, muitos pais colaboraram na confecção dos tabuleiros e até mesmo das primeiras fantasias. Hoje, as fantasias usadas pelas crianças foram doadas pelo Sesc, após uma apresentação da escola no local.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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