Violência na escola

A escola é o espaço em que crianças e jovens aprendem não apenas um conjunto de conteúdos curriculares, mas também pautas de sociabilidade e comportamento cidadão. Professores devem promover o enriquecimento coletivo a partir da integração das diferenças entre os alunos.  (Tradução de Airton Dantas).  

O fenômeno da violência na escola tornou-se um tema preocupante na Argentina nas últimas décadas. O episódio ocorrido na cidade de Carmen de Patagones [sul da província de Buenos Aires, a 950 km da capital], em 2004, quando um aluno disparou indiscriminadamente contra seus companheiros, causando três mortos e cinco feridos, deu à violência na escola enorme repercussão nacional. Episódios posteriores, como o do garoto da cidade de Corrientes, que matou o colega com uma arma branca, em 2007, ou os recentes episódios trágicos ocorridos nas províncias de Misiones e Buenos Aires, recolocam o problema na pauta dos meios de comunicação.

Esse tipo de situação traumática, em que vidas são perdidas de maneira tão insólita e dilacerante, freqüentemente responde a uma situação de constante violência cotidiana. Essa violência, resultante de uma série de atitudes, condutas e situações produzidas diariamente na escola, tais como a discriminação, a marginalização, o autoritarismo etc., constitui a base do problema da violência escolar.

Não raras vezes, esse cotidiano de convivência violento, por não desencadear episódios traumáticos de agressão, é tolerado ou não é considerado problema importante, o que dificulta a possibilidade de uma convivência frutífera no âmbito escolar e estimula os jovens a incorporar determinadas condutas de violência como parte normal da vida cotidiana.

Discriminação e preconceitos como formas de violência

O Projeto para a prevenção da violência na escola de ensino médio, amplo estudo realizado em escolas de toda a Argentina (exceto as da província de Neuquén) por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Gino Germani, da Universidade de Buenos Aires, indica que mais da metade dos alunos de escolas de ensino médio rejeita declaradamente os colegas orientais, não importando se emigraram recentemente ao país ou se são cidadãos argentinos nativos, filhos de pais orientais que emigraram para a Argentina há algum tempo. Igualmente, mais da metade dos alunos rejeita os judeus.

Estas porcentagens alarmantes de atitudes xenófobas e anti-semitas são ainda mais altas quando se pergunta aos adolescentes sobre a presença de preconceitos machistas. Cerca de 75% concorda que “as mulheres que sofrem violência por parte do marido ou companheiro fizeram por merecer”, ou “o homem que parece ser mais agressivo é mais atraente”.

Esses preconceitos trazem consigo enorme carga de violência porque conduzem à rejeição de uma pessoa a partir de características que nada têm a ver com o comportamento, com as condutas ou com a forma de ser dessa pessoa. Ser rejeitado por traços físicos ou por crenças religiosas e culturais gera rancor e ressentimento. Freqüentemente, os adolescentes discriminados respondem a essa violência gratuita com outras formas de violência, que geram, por sua vez, mais rejeição, criando-se assim um clima de convivência escolar que reproduz padrões de intolerância e conflito ancorados em preconceitos característicos de nossa sociedade.

A escola tem um importante papel simbólico como o espaço em que crianças e jovens aprendem não apenas um conjunto de conteúdos curriculares, mas também pautas de sociabilidade e comportamento cidadão. Frases populares como “não lhe ensinaram nada na escola?” revelam esse lugar. É por isso que se nesse mesmo lugar reproduzem-se no tempo condutas e atitudes ligadas à intolerância e à discriminação, é muito difícil formar cidadãos que respeitem as diferenças e possam, em vez de rejeitá-las e condená-las a priori, nutrir-se delas para se desenvolver como pessoas mais plenas.

Se a escola reproduz a xenofobia, o anti-semitismo, o machismo etc., da sociedade atual, os alunos do futuro também chegarão à escola carregados desses preconceitos, por terem saído da escola sem condições de refletir sobre seus próprios preconceitos. Se, como sociedade, quisermos mudar isso, é a escola o lugar em que os adolescentes podem ser providos de elementos conceituais que lhes ofereçam a capacidade para superar as crenças ligadas à intolerância e à discriminação, promovendo estruturas que lhes permitam aprender a tolerar a incerteza e a construir a própria identidade, respeitando as diferenças.

Violência na sociedade e violência na escola

Quando os alunos discriminam um colega por ele ser judeu, coreano ou chinês; ou quando recorrem à violência para solucionar um conflito pessoal, nada mais fazem do que levar para a escola comportamentos da sociedade. A xenofobia, por exemplo, está amplamente espalhada em nossa sociedade. Na Argentina, há palavras depreciativas para os cidadãos de todos os países limítrofes: as pessoas da Bolívia não são bolivianas, são “bolitas”, os paraguaios são “paraguas” etc. Podemos notar como essa característica da nossa sociedade repercute no clima social escolar ao observar uma forma particular de violência escolar: a rejeição e a discriminação dos diferentes.

A rejeição é a única forma de maltrato mencionada abertamente por seus protagonistas: enquanto a maioria das outras ofensas e condutas violentas não são geralmente reconhecidas por parte dos adolescentes que as praticam, rejeitar os diferentes é, em contrapartida, amplamente aceito, como se fosse algo legítimo ou compreensível, o que se vincula fortemente com as altas porcentagens de alunos que expressam não aceitar colegas de outras origens, religiões ou nacionalidades.

Quando esse tipo de violência, como a discriminação por nacionalidade ou religião, é incorporado como traço característico do clima social escolar, os alunos são empurrados a reconhecer acriticamente que a violência faz parte das relações de todos os dias entre as pessoas, e a violência passa a ser vista na própria escola como algo natural. Essa naturalidade da violência é de fato observada em proporções alarmantes entre os adolescentes da escola de ensino médio, já que 75% dos alunos concordam com frases que naturalizam a violência, como “a violência faz parte da natureza humana” ou “as brigas entre jovens nos fins de semana são inevitáveis”. Naturalizar a violência na escola dificulta demais a possibilidade de trabalhar em favor de outros modos de vinculação social que permitam a integração e ofereçam ferramentas para a resolução não-violenta de conflitos.

A exposição precoce e contínua à violência no meio familiar também é um fator importante na socialização das crianças e dos jovens quanto à adoção de modalidades violentas. Pode-se supor que os alunos que afirmam viver em um meio familiar no qual as brigas e discussões são freqüentes, podem ser eles mesmos atores de manifestações de violência na escola.

O Projeto para a prevenção da violência na escola de ensino médio encontrou, de fato, diferenças notáveis nos perfis das manifestações de violência de acordo com o ambiente familiar. Em todos os casos, os perfis mais altos quanto a vítimas e protagonistas de violência revelam porcentagens mais altas em ambientes familiares marcados por muitos conflitos. Como exemplo, podemos destacar que aqueles que vivem em ambientes familiares desfavoráveis protagonizam 24 % mais atos de violência escolar do que aqueles que vivem em ambientes favoráveis.

Por conta desse mecanismo de arrasto de condutas violentas da vida social dos alunos para o clima social da escola, é necessário que as instituições educativas façam um esforço consistente para lutar contra os preconceitos que levam os alunos a internalizar a violência como algo natural, contra a qual nada se pode fazer já que faz parte da vida social.

Violência e atitudes autoritárias

A percepção de práticas autoritárias por parte dos docentes é um elemento que contribui para a criação de condutas violentas nos alunos.

Diferentes estudos demonstram que quanto maior o nível de autoritarismo dos professores e da equipe escolar, maior também são o número e a gravidade dos episódios de violência entre os próprios alunos. Isso não quer dizer que o autoritarismo produz de modo direto (no sentido de causa–efeito) as situações de violência na escola, mas sim que ele cria obstáculos ou interrompe os canais de comunicação e de mediação que fazem com que os conflitos não se expressem de forma violenta. O autoritarismo por parte dos docentes implica ausência da função socializadora da escola no que se refere à tolerância dos diferentes e à defesa dos seus direitos, criando um clima social propício às manifestações de violência.

As condutas autoritárias dos docentes promovem duplamente a violência escolar. Em primeiro lugar, quando os alunos observam que os professores impõem sua autoridade baseando-se em um conjunto de regras e atitudes percebidas como arbitrárias, atitudes que não deixam espaço para que os alunos possam expressar as razões que os levam a considerá-las desse modo; freqüentemente, por não contarem com outros canais de expressão, respondem violentamente, como forma de resistência a determinadas normas e práticas escolares. Em segundo lugar, quando os alunos recebem cotidianamente sinais autoritários por parte dos docentes, é comum que eles próprios reproduzam esta atitude na resolução de seus próprios conflitos.

Desse modo, em vez de se promover o enriquecimento coletivo a partir da integração das diferenças entre os alunos, estas diferenças podem conduzir a situações de violência quando os jovens resolvem suas diferenças reproduzindo condutas autoritárias observadas nos professores.

A resolução autoritária de um conflito por parte do docente, ao ignorar a solução coletiva que, pelo intercâmbio e pela explicação, inclui o aluno ao oferecer-lhe participação no resultado dessa resolução e o torna parte dela, fomenta as resoluções individuais dos conflitos cotidianos e dificulta a aprendizagem da integração não violenta das diferenças.

As condutas e atitudes autoritárias dos docentes, tanto no ensino curricular como no tratamento das questões de conduta, promovem o desenvolvimento de atitudes individualistas nos alunos, cerceando o crescimento dos espaços de atividade e reflexão coletivos, espaços que, além de facilitar o processo de ensino e aprendizagem, facilitam também a integração dos alunos entre si ao promover um clima social de intercâmbio e de participação que, por sua vez, ajuda desenvolver a atividade curricular em sala de aula.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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