Vale da Esperança

Fome de quê?


Municípios do Vale do Jequitinhonha (MG), uma das regiões mais pobres do Brasil
a ser visitada pela equipe do governo federal, unem-se na busca
por uma educação de qualidade

Por Priscila Gonsales

O destino de quase um milhão de pessoas de baixa renda que vivem em cerca de 60 municípios no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, pode estar prestes a mudar radicalmente. Pela primeira vez, a região está na pauta do governo federal. O presidente Lula quer fazer uma reunião ministerial na estrada, de forma que a nova equipe conheça localidades brasileiras com um ponto em comum: a fome.

Localizado numa área de mais de 80 mil km² ao norte do estado mineiro e banhado pelo rio Jequitinhonha e seus afluentes, o local é marcado por uma realidade contrastante. Dono de um dos subsolos mais ricos do Brasil, apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) semelhante aos dos países mais pobres da África. Embora possuidor de um patrimônio histórico raro, a renda média por habitante é de cem reais, muito próximo da referência para pobreza (R$ 75). Todos os municípios apresentam graves problemas nas áreas de saúde, saneamento e educação. E o meio ambiente – uma das várias atrações turísticas – vem sendo agredido pela atividade mineradora comprometendo de forma irremediável seus recursos hídricos.

Outro fato inédito que está acontecendo no Vale é a mobilização de alguns setores da população em torno de um dos grandes desafios para a região e para todo o país: a escola de qualidade. O início desse processo começou há um ano, quando autoridades locais em parceria com ONGs e outros segmentos da sociedade civil conseguiram trazer à região o Programa Melhoria da Educação do Município. Conduzido pelo Cenpec, o “Melhoria”, como ficou conhecido, é patrocinado pela Fundação Itaú Social e pelo Unicef e já esteve presente em 883 cidades brasileiras, com apoio da União Nacional dos Dirigentes Municipais em Educação (Undime).

Sem precedente também foi a realização do Primeiro Fórum Regional de Educação que reuniu 32 municípios do Jequitinhonha. O encontro, organizado em Araçuaí, no segundo semestre deste ano, teve como objetivo entender e encontrar caminhos para superar as contradições de um recanto mineiro até hoje pouco lembrado. “A proposta desse I Fórum foi produzir um diagnóstico que mostrasse quem somos, o que fazemos e para onde vamos, isto é, discutir e divulgar ações educacionais e culturais a partir da nossa identidade regional”, explica Milton Ávila, secretário de educação de Araçuaí, um dos coordenadores do evento.

I Fórum Regional de Educação:
questões apresentadas
  • Produzir um diagnóstico estatístico da região;
  • Garantir a indissociabilidade entre cultura e educação;
  • Garantir o acesso às novas tecnologias;
  • Educação ambiental deve permear as disciplinas do currículo;
  • Instalar Fórum permanente de discussão e capacitação;
  • Realizar seminário nacional sobre pesquisas feitas na região.

:: Educação e desenvolvimento

Os rios são como pessoas, crescem quando se encontram. A frase foi escolhida para definir o I Fórum Regional de Educação, cuja proposta era elaborar uma pauta de necessidades comuns visando o resgate da identidade regional. “É preciso criar instrumentos para trazer as crianças para a escola e mantê-las estudando, e ao mesmo tempo, estabelecer mecanismos de apoio e promoção da família”, pondera o secretário Milton Ávila. Segundo ele, um dos caminhos para essa empreitada foi a chegada do Programa Bolsa-Escola, que tem o objetivo de combater o trabalho infantil, a evasão e a repetência escolares.

Números do Vale
População
73,6% alfabetizada
2,52 anos de estudo
Escolas
2% urbana
98% rural (sala multisseriada)

Fonte: Programa Melhoria da Educação do Município

Um segundo caminho, consensualmente apontado, é a introdução nas Novas Tecnologias no ensino, tida como um atrativo para manter a população jovem na região, dada a freqüente emigração em busca de melhores oportunidades de trabalho e estudo. O professor Marcelo Moebos, da Universidade Estadual de Montes Claros e a pesquisadora do Cenpec, Alice Lanalice falaram aos participantes sobre inclusão digital, tema que vem sendo debatido no mundo todo. Alice apresentou a experiência do Portal EducaRede e do projeto Aulas Unidas, no qual 17 escolas de São Paulo, Bahia e Sergipe trabalham simultaneamente com escolas de outros países. “O Aulas Unidas poderá falar sobre o Vale para o Marrocos, por exemplo. Esse intercâmbio pode não ser possível hoje, mas será daqui a algum tempo”, sugeriu a pesquisadora.

A iniciativa de organizar a primeira edição de um forum de educação na região é um dos resultados do Programa Melhoria da Educação no Município, presente desde 2001. “Depois de muito tempo, formou-se um grupo de secretários dispostos a se unir em torno das dificuldades comuns e buscar soluções possíveis sem esperar que tudo venha pronto das esferas estadual e federal”, conclui Milton Ávila. Comunidade e autoridades estão cientes que a educação é uma das ferramentas importantes para a promoção do desenvolvimento a longo prazo.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 26/12/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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