Uma viagem virtual à Terra do Sol Nascente

Uma viagem virtual à Terra do Sol Nascente

Marcela Trentin Grande, 12 anos, aluna da EMEF General Othelo Franco, em São Paulo, e participante do projeto Nossa Escola tem História, relata a experiência que teve a partir da utilização do e-mail, atividade proposta por sua professora para o projeto

Por José Alves

Manhã de sexta-feira. A distância entre Brasil e Japão continua a mesma, cerca de 18.000 km, o oceano que separa países tão distantes ainda é o Pacífico. A primeira aula de Marcela Grande, no Brasil, era de informática. A professora Silvia Regina de Oliveira chega com um novo trabalho, diz que é para o projeto Nossa Escola tem História, do Portal EducaRede. “Eu tinha que descobrir pessoas que não moram em São Paulo ou que vieram de outra cidade para morar aqui em algum momento da vida”, conta Marcela. “Depois que essa pessoa fosse encontrada, minha missão era conseguir informações básicas sobre sua vida: para onde foi, como foi, como é o lugar onde mora, data de nascimento etc. Pensei em uma amiga da minha mãe que mora no Paraná, mas eu ainda não estava feliz. Foi quando eu lembrei de outra amiga dela que mora no Japão”.

O contato a que Marcela se refere é Andréa Suzuki, 36 anos. Brasileira, casou-se e foi para o Japão para juntar dinheiro. Agora, divorciada, pretende voltar com os filhos ao seu país no final do ano. Essas e muitas outras informações foram passadas durante a troca de e-mails entre Andréa e Marcela. As fotografias que Andréa enviou para Marcela conhecer o Japão mostraram à estudante um país que une tradição e modernidade. Construções arrojadas misturam-se à outras com arquitetura milenar, além de ruas muito arborizadas. A população? Todos com rostos muito parecidos, olhinhos fechados e tons de pele similares. A diferença está na produção individual de cada um dos “parecidos”; muitas cores fortes nas roupas e nos cortes de cabelo pra lá de modernos. Os japoneses mais jovens gostam de acessórios. Muitos brincos, piercings, bolsas, óculos e tudo mais que possa enfeitar os habitantes da “Terra do Sol Nascente”. Segundo Marcela, “foi muito bom para ela, e principalmente para a sua mãe, rever a amiga distante por fotografia, além dos filhos crescidos”. A estudante da 6º série também descobriu o olhar que a “amiga virtual” tem do país em que vive: “Andréa considera o Japão um país muito organizado, com uma boa educação para as crianças e possibilidade constante de emprego, além da facilidade em conseguir comprar produtos que não conseguia no Brasil”. Veja o trabalho escolar da estudante a partir da seleção de algumas fotografias.

Uma troca de e-mails parece algo muito corriqueiro nos dias de hoje, levando em consideração o crescente aumento de computadores nas escolas e residências brasileiras. Parece, mas não é. Nas estatísticas, Marcela Grande faz parte das famílias que possuem computador em casa, mas segundo ela relata, “antes eu só passava e-mail para o meu pai. Eu não tenho impressora em casa e mandava meus trabalhos para ele imprimir. A partir do projeto eu percebi uma nova possibilidade de uso do e-mail. Hoje eu entro em contato com as pessoas, não importa se longe ou perto de mim”. Perguntada se agora o processo de comunicação em ambiente virtual é irreversível, Marcela responde: “a gente sempre quer mais, quer bola pra frente. Eu quero falar com outras pessoas também, usar o e-mail como forma de me comunicar com as pessoas, não somente para enviar ou receber arquivos. Agora, sempre que quer entrar em contato com sua amiga, minha mãe pede que eu envie um e-mail para o Japão”.

 

Memórias e afetividade

E como um projeto com o tema memórias, escopo do Nossa Escola tem História, impacta a estudante? Segundo a própria aluna, “é ótimo porque eu já lembrava da amiga de minha mãe desde quando ela ainda morava no Brasil. O trabalho me aproximou bastante dela, já que eu não me comunicava com ninguém que morasse fora do país. O contato com minhas primas e familiares por e-mail também aumentou”.

Para Silvia Regina de Oliveira, POIE – professor orientador de informática educativa – há 2 anos, “o projeto tem um grande valor porque trouxe a possibilidade de conhecermos as diferentes realidades dos alunos. Para a turma da Marcela, de 6º série, eu procurei encaixar o Nossa Escola tem História com o tema do projeto interdisciplinar da escola, sobre a cidade de São Paulo. Eu uni memórias com São Paulo. Eles tinham que procurar alguém que morou ou que veio morar aqui”. A partir disso, muitas descobertas. A professora Silvia lembra de outros trabalhos que mostravam para ela detalhes sobre a vida de alguns estudantes. “Alguns não têm pai, por exemplo, e os alunos guardam um objeto que traz a lembrança do pai à tona. O projeto trouxe para mim a percepção da afetividade que existe nas pessoas, afetividade essa ligada à memória das situações vividas na história de cada indivíduo”.

 

Valor na formação escolar

Marcela Grande acredita que a Internet tem um grande valor na sua formação escolar, principalmente no que se refere à pesquisa de temas propostos em sala de aula, ” o professor chega na escola e pede para a turma pesquisar um tema. Eu uso os buscadores – Google, Cadê – e monto o trabalho com as informações que encontrei, em seguida passo para o word e mando o arquivo por e-mail para o meu pai imprimir”.

Além da pesquisa escolar, a estudante usa a Internet para jogar e pesquisar paisagens para colocar como papel de parede em seu computador. A professora Silvia, orgulhosa de sua aluna, diz: “a Marcela me surpreendeu porque foi além do que eu pedi, caminhou para adiante. Quando eu pensei na proposta, imaginava que só aparecessem pessoas que vieram da Europa e que morassem aqui, já que somos um país que recebeu muitos imigrantes. Ela, por conta própria, foi atrás de alguém que está muito distante. A Internet possibilita às pessoas caminharem para longe”. É verdade, professora, a Marcela, como exemplo, atravessou o planeta em um clique no mouse.

 

Projeto Nossa Escola tem História

Realizado pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, em parceria com o Museu da Pessoa e o EducaRede, o projeto atende a 168 escolas no município e foca no desenvolvimento e realização do tema memória, envolvendo a pesquisa, comunicação e publicação na Internet. As publicações são feitas na comunidade virtual que o projeto tem dentro do Portal EducaRede.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 


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