Uma questão de diversidade


Uma questão de diversidade

Historiadora dá dicas sobre como trabalhar a diversidade cultural nas escolas

Qual a diferença entre preconceito e discriminação? Por que a pressão de grupos considerados “minoria” é importante? Como trabalhar a questão da diversidade cultural nas aulas? No mês da Consciência Negra, o EducaRede propõe o debate. Essas perguntas também foram feitas pelos internautas à historiadora Diana Mendes Machado da Silva durante um bate-papo, realizado em outubro pela Comunidade Virtual do ProJovem.

Diana leciona no Ensino Fundamental I da rede pública desde 1997, trabalhou com Alfabetização de Adultos no Núcleo de Consciência Negra da USP e, atualmente, é monitora do Projeto Democracia e Direitos Humanos nas Escolas, junto à Faculdade de Educação da USP. Veja a edição dessa conversa com os internautas.

Guinaldo: Qual a sua opinião sobre a distribuição de cotas e outros expedientes que parecem minimizar a questão da discriminação?

Diana: Vi uma palestra de uma grande militante do movimento negro, Cida Bento. Ela dizia que a grande contribuição da política de cotas no Brasil é a discussão sobre o racismo. Nós tendemos a negar a existência do racismo no Brasil, e a discussão de cotas põe as cartas na mesa de quais são as questões. Eu apóio as ações afirmativas por essa e outra razão. Elas são importantes porque possibilitam que representantes de grupos excluídos possam “circular” e se tornar “visíveis” em certos ambientes sociais. O que, de alguma maneira, contribui para diminuir a discriminação que é ainda forte em nosso país.

Gil: Você acha que a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira vai contribuir para a questão da diversidade cultural na escola?

Diana: Acredito que sim. Quando o governo cria políticas públicas de defesa da diversidade (e de promoção da igualdade), como no caso dessa lei, a tendência é que o assunto passe a ser pauta da sociedade. Quando isso acontece, acredito que começamos a notar mudanças. Basta ver como as escolas públicas têm se preocupado em incluir contos africanos no repertório de histórias infantis.

Mary:

 Como você vê a pressão dos grupos considerados “minoria” para que a sociedade supere o preconceito e a intolerância?

Diana: Acho que essa pressão é bastante importante por várias razões. Dentre elas, há o fato de que somente com pressão da sociedade civil é que podemos reformular leis e práticas sociais. Por exemplo, se o movimento dos homossexuais não pressionasse a sociedade e o Estado, até hoje faríamos piadas homofóbicas sem constrangimento, ou nunca acharíamos que eles podem ter o direito de discutir a possibilidade de deixar herança para seus companheiros. Só para completar a questão, é importante que esses movimentos tenham muita força e depois integrem lutas por melhorias coletivas, não somente de grupos. Por enquanto não dá.

Mary: Você diz em um texto que “diferença não é sinônimo de desigualdade”. Poderia dar um exemplo disso?

Diana: Diferenças são todas as características naturais ou culturais das pessoas. Por exemplo, fazer parte de uma família judia ou cristã é uma característica, uma diferença cultural. Contudo, se o fato de ser judeu ou cristão for tratado com preconceito e discriminação, se me inferiorizar diante de outros cidadãos, significa que estamos tratando uma diferença com desigualdade. E isso é bastante problemático no mundo político, que pressupõe a igualdade.

Doroti: Considerando que os preconceitos se mascaram, e que nem sempre o jovem tem clareza se está sofrendo uma discriminação, como podemos, enquanto educadores, explicitar as relações preconceituosas que se apresentam em coisas e falas de grupos específicos?

Diana: Preconceito é algo bastante complicado porque é de âmbito individual, refere-se mais à visão de mundo dos indivíduos. Com preconceito só podemos lidar com conhecimento, e nem sempre dá certo. Já com a discriminação a situação fica mais visível, portanto, podemos lidar com ela. Porque a discriminação envolve um emissor e um receptor. Quando alguém impede um outro de entrar num ambiente, o que foi discriminado “sente” e pode agir contra isso.

Pedro: Você não acha que a palavra “tolerância” desqualifica o respeito à diferença?

Diana: Para nós, brasileiros, a palavra tolerância tem conotação um pouco pejorativa, porque carregamos nossas relações de afeto. Nunca conseguiríamos imaginar pessoas que somente “toleram” negros. Contudo, ela é bastante usada para as relações políticas, do mundo público, que pressupõem certa despersonalização. Digamos que o conceito de tolerância seja importante para “skins” ou neonazistas, que tendem a querer matar todos aqueles que são diferentes. Tolerância é bom para situações extremas. Mas o respeito é também conceito importante nas relações políticas e deve também ser valorizado.

Adriana: Como incluir a questão da diversidade cultural nas aulas? Que tipo de projetos ou atividades é possível planejar?

Diana: A questão da diversidade, da diferença e da desigualdade pode ser tratada de várias maneiras. Uma delas seria a inclusão nas atividades já cotidianas de exemplos de pluralidade religiosa e étnica da classe. Isso fortalece as possibilidades identitárias de nossos alunos. Há outras maneiras de tratar a diversidade, mais vinculadas à postura do professor. Ele precisa lidar com os alunos reais que tem na sala, em toda a sua diferença, valorizando as possibilidades de ser, pensar e estar no mundo. A tolerância e o respeito à diferença se aprendem com bons exemplos de conduta. Se o professor respeita, o aluno tende a respeitar.

Pedro: Li a questão levantada pela Adriana e gostaria que você desse um exemplo prático de como seria uma atividade ou um projeto sobre o tema.

Diana: Uma atividade interessante poderia ser, por exemplo, iniciar pesquisa com os alunos sobre costumes e/ou hábitos da juventude por regiões da cidade. Em São Paulo, seria um trabalho riquíssimo! Conhecer como vivem os jovens da periferia, de bairros de classe média e da classe alta seria experiência interessante para discutir diferenças de classe social. O mesmo poderia ser feito se o assunto é religião. Não se trata de defender ou atacar um ou outro grupo, mas de conhecê-lo para se “repertoriar”.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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