Sonho Digital


Sonho digital

Entre aplausos e críticas, o governo testa em escolas brasileiras
um laptop de baixo custo que pode substituir o livro didático e
ampliar a inclusão digital

Fernanda Bagatini
Paulo de Camargo

Revista Pátio

 

Em uma sala de aula da 4ª série da Escola Estadual de Ensino Fundamental Luciana de Abreu, em Porto Alegre (RS), Jéssica da Silva Bortoluzzi, de 10 anos, manuseia seu laptop XO. No início, Jéssica teve dificuldades, mas agora já o faz com naturalidade. “Eu gosto de trabalhar com o computador, porque ficou mais interessante a forma de aprender”, explica. Poderia ser uma simples aula com uso da informática, contudo é bem mais do que isso. Jéssica está entre os protagonistas de uma das mais ousadas experiências de inclusão digital no Brasil recente. Sua escola foi uma das escolhidas para testar laptops de baixo custo, que podem ser encampados pelo governo brasileiro e distribuído para milhares de escolas.

Sim, milhares. É justamente para escalas amazônicas como essa que o equipamento foi desenvolvido pela organização não-governamental OLPC (sigla, em inglês, de Um Laptop por Criança), fundada por Nicholas Negroponte, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Sob aplausos de entusiastas, que vêem a inclusão digital massiva como uma condição para a inserção social das camadas menos favorecidas da população, e o olhar cético de especialistas que criticam iniciativas do gênero, o processo caminha rápido.

Assim como a Escola Luciana de Abreu, que já recebeu 274 laptops, há pelo menos outras 10 escolas em diferentes regiões brasileiras que testam os XO e equipamentos similares, como o Classmate, da Intel, e o Mobilis, da Encore. As experiências do projeto-piloto Um Computador por Aluno (UCA) serão avaliadas por grupos de pesquisadores de universidades públicas conceituadas. No Sul, o trabalho ficou sob a coordenação da pesquisadora Léa Fagundes, do Laboratório de Estudos Cognitivos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (LEC/UFRGS).

Léa Fagundes é quase uma militante da difusão da informática. Foi pioneira no uso da Internet em sala de aula na década de 1980, utilizando ondas de rádio. Para ela, a tecnologia digital revoluciona práticas, ajuda o homem a multiplicar rapidamente o conhecimento, expande o poder de pensar, favorece a intercomunicação e a interoperabilidade, embora também ajude a destruir. “Assim como os governos, a sociedade necessita continuamente derrubar muros e ampliar conexões, já que precisa mudar as noções de espaço e tempo”, analisa.

A experiência do XO insere-se em um momento no qual estudiosos como Leo Burd, que acaba de concluir seu doutorado sobre o tema no MIT, considera um marco na história da tecnologia. “A informática sempre ficou restrita às camadas mais favorecidas, e agora nos damos conta de que precisamos repensar a tecnologia para a realidade que temos hoje, de uma sociedade cada vez mais desigual”, afirma Burd.


Diferenças profundas

É um mundo de contradições. O Brasil aparece como campeão mundial de acessos a sites como o Orkut e o MSN, mas vive uma situação de exclusão digital, apontada em diversos estudos. No Mapa das Desigualdades Digitais no Brasil, Julio Jacobo Waiselfisz, do Instituto Sangari, mostra que o país ocupa a 76ª posição entre os 193 países do mundo pesquisados no que tange à porcentagem da população com acesso à Internet. Porém, segundo ele, as diferenças internas são ainda maiores. Corroboram esses argumentos os dados divulgados em setembro pelo IBGE. Embora haja forte crescimento do uso do computador (um crescimento de 2,5% entre 2004 e 2005), as lacunas impressionam. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, 29,2% dos domicílios têm computador e 23,1%, acesso à Internet. Na região Norte e Nordeste, esse percentual fica em torno de 6%. Ao mesmo tempo, apenas 21% dos brasileiros com mais de 10 anos acessaram a internet em 2005. A maioria dos internautas concentra-se na região Sudeste (26,3%). No Norte e Nordeste, apenas 12% acessaram a web

No mesmo sentido, a Fundação Getúlio Vargas publicou, em 2003, um amplo estudo, denominado Mapa da Exclusão Digital, reunindo dados de várias fontes. De acordo com o estudo, nesse ano encontravam-se em situação de exclusão 149,8 milhões de brasileiros. Diagnósticos como esse vem motivando o investimento em novos programas de informatização pedagógica. Há pouco tempo, o Ministério da Educação adquiriu computadores e está instalando 17 mil laboratórios de informática educativa. Crescem também os pontos de inclusão digital, como os telecentros. Segundo uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), o número de telecentros passou de 12 mil em 2005 para 16,7 mil em 2006, graças a 108 iniciativas de prefeituras, secretarias de Estado e ONGs.

São Paulo é o Estado com maior oferta, com 2.500 pontos. A capital tem hoje 170 telecentros instalados pela prefeitura, cada um com 20 computadores e um total de 1,2 milhão de usuários cadastrados. “Até meados de 2008 chegaremos a 300 telecentros”, anuncia Ricardo Montoro, secretário municipal de parcerias. Para ele, a iniciativa justifica-se pelo aspecto da cidadania: “Não temos lan-houses”.

Foi no telecentro da região da Água Funda que Adriana Alves de Oliveira, de 24 anos, aprendeu a usar o computador em um dos cursos oferecidos. “Isso faz total diferença na hora de conseguir emprego”, diz ela, enquanto acessa notícias e lê seus e-mails. No computador à sua frente, a sobrinha Gabriela Alves Cordeiro, de 7 anos, joga e faz desenhos com a naturalidade de quem manuseia um lápis.

Contudo, o grande interesse espontâneo dos jovens que procuram o telecentro é a comunicação, via Orkut, e-mails e outros recursos do gênero. É isso o que faz muitos educadores e pesquisadores duvidarem de experiências de informatização em larga escala.


Inclusão e democratização


Leo Burd tem uma visão clara sobre o tema, a qual vem construindo desde que coordenou um dos projetos pioneiros e mais bem conceituados de inclusão digital no Brasil, o Comitê para Democratização da Informática (CDI), que levava salas de informática a favelas e outras regiões carentes na década de 1990. “Inclusão é muito mais do que oferecer computador. Há uma grande diferença entre democratização da informática e de informática para a democratização”, afirma Burd, que apresentou em sua tese experiências realizadas em diversos países, sempre com o objetivo de levar os jovens a se apropriar das ferramentas para transformar o espaço onde vivem.

Também defende que é necessário adaptar a tecnologia para os usuários de diferentes faixas sociais. Em um de seus projetos-piloto, por exemplo, procurou um software que permitisse mapear o bairro carente onde os jovens do projeto estavam, porém não encontrou nada do gênero. Para ele, o laptop de baixo custo é um avanço, mas apenas se houver um suporte eficiente ao professor. “Se for para bater papo via Internet, não tem muito sentido; se for para agregar valor, transformar, aí sim”, alerta.

Afira Vianna Ripper, doutora em Psicologia Educacional e coordenadora do Laboratório de Educação e Informática Aplicada (LEIA) da Universidade de Campinas (Unicamp), questiona até mesmo o uso de computadores como ferramenta didática em larga escala. “Algumas experiências pontuais em que se consegue envolvimento de professores parecem ter bons resultados, mas desconheço a existência de estudos com metodologia científica que demonstrem isso”, pondera.

A coordenadora entende que não existe uma solução mágica para resolver o problema da Educação no Brasil ou em qualquer outro lugar. Para ela, o investimento em computadores não é acompanhado de investimentos semelhantes em formação de professores, salários, infraestrutura de escolas etc. “Computadores, em algumas circunstâncias, podem ajudar, mas não considero o laptop uma boa solução. Cabe notar que as experiências feitas até agora com os pequenos laptops, tanto no Brasil quanto em outros países, são muito preliminares, com grande envolvimento de pesquisadores universitários, que não podem ser facilmente massificadas”, ressalta.

Segundo Léa Fagundes, o projeto testado pelo governo não se limita à distribuição das máquinas para alunos e professores. Desde janeiro, estão ocorrendo ações de formação com os docentes da escola e de acompanhamento dos impactos que os laptops têm causado. Ela explica que a proposta tem ainda como objetivo mudar o projeto político-pedagógico da escola, porque os professores replanejam o espaço e o tempo. Além disso, “os alunos podem levar o laptop para casa e carregá-lo para onde desejarem, o que acaba despertando ainda mais a curiosidade e o interesse, enquanto o livro didático é estático e restrito. Dessa forma, os estudantes tornam-se agentes criativos, trocando experiências e informações entre eles e entre as crianças de suas comunidades”, salienta.

As transformações ocorridas em sala de aula também estão sendo percebidas pelos educadores. A professora Tânia Oliveira, da 4ª série da Escola Luciana de Abreu, garante que os alunos tornaram-se mais autônomos, críticos e desinibidos, porque o projeto favoreceu a comunicação e a oralidade. “Os equipamentos auxiliam na realização de pesquisas, pois os alunos passam a buscar informações e respostas para seus questionamentos”, explica. Tânia afirma que os conteúdos desenvolvidos em aula partem de cada criança, que ajuda os colegas a orientar os assuntos a serem pesquisados.


Números astronômicos


A partir da avaliação das experiências, o governo poderá tomar a decisão de investir em larga escala nos laptops de baixo custo ou buscar outras alternativas. Uma das propostas em análise é a compra de 1 milhão de laptops de baixo custo, que ainda assim deixaria descoberta a maior parte do sistema. “Se o governo comprasse 1 milhão de laptops a cada ano, levaria 50 anos para entregá-los aos 50 milhões de alunos do sistema de ensino público”, destaca Léa Fagundes.

Esse é apenas um dos gargalos a serem enfrentados. Existem outros, como ressalta Carlos Seabra, diretor do Instituto de Projetos e Pesquisas Sociais e Tecnológicas (IPSO) e pesquisador da Escola do Futuro da USP. Segundo Seabra, citando dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, apenas 2% dos conteúdos da Internet são em língua portuguesa. Para ele, trata-se, portanto, de ir além de surfar na rede: “Temos de provocar a onda”. Isso envolve, a seu ver, a criação de novos conteúdos, a adaptação dos já existentes, em uma tarefa hercúlea, que deve envolver empresas, entidades sociais, ONGs, políticos, enfim, os mais diversos atores sociais.

Demanda para isso existe — e boa parte dela está fora da escola. Uma pesquisa feita pela Escola do Futuro, em São Paulo, mostrou que 79% dos entrevistados das classes C, D e E nunca usaram um computador, mas 93% declararam desejar aprender a fazê-lo pelos mais diversos motivos, que incluem obter informações, marcar consultas, procurar emprego e reclamar dos serviços públicos.

São números que demonstram que a tecnologia trouxe consigo não apenas promessas, mas desafios ainda maiores para um país que já vive às voltas com profundas contradições internas. No século XXI, não há como discutir acesso à cidadania sem também passar pelos caminhos das conexões digitais — e nenhum problema se resolverá com o clique no mouse do computador.

Juliano Bittencourt, coordenador técnico do projeto-piloto na Escola Estadual de Ensino Fundamental Luciana de Abreu, em Porto Alegre (RS), esclarece que o laptop é fruto de um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento. “Ele foi desenvolvido especialmente para a Educação de crianças e, portanto, possui características que não podem ser encontradas em outros computadores comercializados”, destaca.

Para Léa Fagundes, coordenadora do programa, tais características favorecem o uso freqüente. O computador passa a ser um instrumento para que a criança pense e interaja, porque faz com que o aluno entre em atividade mental o tempo todo. “A partir do equipamento, o estudante decide o que quer pesquisar e experimentar por meio da Internet”, afirma.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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