Sexo na mídia

Sexualidade na idade MÍDIA

Como os meios de comunicação influenciam na informação
e formação da juventude

Por Gabriela Goulart, Nanan Catalão e Rilton Pimentel, de Brasília

Trinta minutos, três brasileiros, três situações. O primeiro lê jornais e revistas durante dez minutos. O segundo assiste à TV, também durante dez minutos. E o terceiro, no mesmo período, escuta programas de rádio e navega na Internet.

Os resultados, de forte impacto: somente o tema sexualidade foi abordado 4.414.500 vezes. Em apenas quatro segundos, um site de busca na Internet apontou três milhões de links a partir da palavra “sexo”, 294 mil a partir da palavra “pornô” e 140 mil a partir da palavra “erótico”. As músicas tocadas na rádio mencionaram expressões como “rala a xeca”, “este pinto não é mole, é safado” e “me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém”. E a TV, então, escancarou. Em uma propaganda de carro, um garoto comenta com o pai, em tom malicioso, sobre o “air bag” da vizinha; em outra, a gota de cerveja desce redonda pelo corpo da loura e uns desenhos animados pulam de bunda em bunda em uma praia brasileira em alto clima de verão e sensualidade. Um pouco depois, começa o final da novela mais polêmica dos últimos tempos. Para ganhar dinheiro, uma jovem personagem é estimulada pela mãe a pedir para uma amiga roubar camisinhas usadas do lixo do banheiro de um rico advogado para fazer inseminação artificial. Tem o filho, faz o exame de DNA e ganha direito de pensão na Justiça. Termina feliz, com um bebê no colo e à procura de um outro “amor bem-sucedido”.

No entanto, ainda nestes trinta minutos, a mesma mídia do apelo e da banalização do sexo mostra sua outra face: também informa, até educa. Um dos jornais lidos traz caderno especial sobre sexualidade na adolescência, abordando o tema de forma clara, equilibrada e responsável. Na TV, em um dos canais abertos, um programa de debates mostra as últimas estatísticas do HIV e abre espaço para discussão com especialistas. E, no intervalo do esperado último capítulo da novela, a maior emissora do Brasil exibe vinheta do Ministério da Saúde: não vacile, use camisinha.

A contradição é evidente. De um lado, o sexo banalizado, a mulher objeto, o prazer imediato, o sensacionalismo e a superexposição do corpo. De outro, o sexo natural, bonito, que pode ser associado à prevenção, ao amor e ao carinho. Para o jornalista e antropólogo Geraldinho Vieira, que tem se destacado em vários países por seu trabalho pioneiro em jornalismo social na área da infância e adolescência, a mídia tende a setorizar-se diante desta contradição. “Há a mídia de entretenimento, que dá espaço à apelação e aos reality shows e, por outro lado, há a jornalística que tem procurado trabalhar o tema de forma cada vez mais responsável”, afirma. A jornalista Patu Antunes, da ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), concorda. A agência faz análises de todas as matérias publicadas sobre crianças e adolescentes por 48 jornais e dez revistas de maior tiragem no Brasil.

“Ou a imprensa erotiza e pressiona o adolescente para que baseie a sua vida sexual nos modelos da publicidade que excita, ou defende um discurso professoral de que os jovens devem adotar um estilo de vida saudável, cuidadoso e responsável”, defende Patu. Para Vieira, é preciso encontrar um meio termo. “A mídia não deve ser excessivamente erótica, nem excessivamente neurótica. Deve falar de sexo com a mesma naturalidade que fala da boca ou da orelha, apenas atenta para não banalizar. O problema do tom professoral é que ele sacraliza o sexo. Pode-se gerar uma frustração enorme em um adolescente, que fica cheio de expectativas antes da primeira transa e, depois, descobre que o sexo é uma coisa natural, quase como um espirro”, afirma.

Do “sexo na mídia” à “mídia do sexo”
Assim como um bate-papo com o amigo confidente, a mídia é a terceira fonte de informação esclarecedora sobre sexualidade (46% das citações), conforme mostra a pesquisa “A Voz dos Adolescentes”, lançada no início de agosto pelo Unicef e pela empresa de pesquisa Fator OM. Os 5.280 jovens entrevistados em todo o Brasil creditam à família (54%) o primeiro lugar e à escola o segundo.

Na história da mídia brasileira, a abordagem direta – e não velada – da sexualidade ainda está em seus primeiros passos. Nos anos 80, época em que a censura ainda era uma política oficial e que a Aids começava a repercutir, a sexóloga e atual prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, tinha que brigar pelo direito de dizer “pênis” ou “vagina” em um programa voltado às donas de casa. Depois de vinte anos, a mídia já aparece como uma das principais referências sobre o assunto.

Hoje a excessiva banalização assusta. “A mídia atira para todos os lados. A mesma emissora que transmite o Criança Esperança veicula uma novela em que uma ninfeta seduz um quarentão e diz que teve sua primeira transa aos 12”, explica Luís Martins, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e especialista em jornalismo cívico. A radialista Mara Régia, uma das primeiras no Brasil a oferecer orientação sexual nas rádios, acrescenta: “Para vender uma sandália havaiana, em vez de abordar a qualidade do produto, mostra-se a bunda de uma mulher”. Já o jornalista Geraldinho Vieira relativiza. Para ele, a sensualidade faz parte de nossa cultura, sendo por isso saudável brincar ou trabalhar a questão de forma lúdica. “O grande problema é exagerar na brincadeira”, explica.

Bastidores – desafios, metas e experiências

Quais seriam as causas da vulgarização do sexo? É o público que demanda esse padrão, ou são os produtores que, guiados por questões mercadológicas, optam pela linha do sensacionalismo e do supérfluo?

“A mídia descobriu que o sexo é um assunto que vende”, diz a psicóloga Rosely Sayão, conhecida dos leitores de revistas e suplementos juvenis por responder às dúvidas dos adolescentes sobre sexo há mais de dez anos.

“Há produtores que sempre acham que as massas querem exagero. Mas há bons exemplos, como o programa Malhação, que no começo era só corpo, mas não dava audiência. Hoje a academia virou uma escola onde há sensualidade, paixão, namoro, sexo, mas com um enfoque mais responsável. Quando estas coisas são tratadas de forma tranqüila, com conteúdo, a audiência aumenta”, defende Vieira.

A MTV há tempos busca um formato adequado ao público jovem, procurando mostrar que a televisão pode ser séria e divertida ao mesmo tempo. Com três programas que abordam o assunto – “Peep MTV” (que substituiu o “Erótica” e responde às dúvidas da audiência), “Meninas Veneno” (que discute o tema sob ponto de vista feminino) e “Fica Comigo” (que busca aproximar os jovens e mostrar como acontecem seus relacionamentos afetivos), a MTV desmistifica o sexo e exporta a sua fórmula para TVs de outros países. “Não há assunto mais natural e corriqueiro, presente em todas as mesas de bar e banheiros femininos. No que diz respeito a sexo, o tamanho do problema não é documento”, brinca Zico Góes, diretor de programação da emissora.

 

 

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

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