SBPC Jovem


Experiência de impacto

Alunos e professores mostram na SBPC Jovem que, apesar das dificuldades financeiras, é possível tornar o ensino de Ciência mais interessante e produtivo

Por Cida Capo de Rosa

Imagine a cena: durante a feira de Ciência da 11ª SBPC Jovem, alunos de uma escola estadual de Recife foram apresentados a um senhor que queria tirar fotos ao lado deles. Atendendo ao pedido, todos se ajeitaram e foram fotografados. Quando o homem partiu, o professor Paulo Faltay disse baixinho à turma que aquele era Keith Campbell, responsável pela clonagem da ovelha Dolly.

“Vocês podem imaginar o impacto disso para aqueles estudantes?”, pergunta Faltay – professor do curso de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco e assessor especial do Espaço Ciência de Pernambuco -, que naquele momento tinha revelado a identidade do cientista para os jovens.

Para Paulo Faltay, que atuou diretamente na organização do evento vinculado à 55ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o episódio é um exemplo da importância da SBPC Jovem no intercâmbio de estudantes e professores com outros estudantes e professores e, principalmente, com cientistas.

“É fator primordial para o resgate de uma escola pública de qualidade. Afinal, a educação voltada para a popularização da ciência é fundamental para a democratização dos conhecimentos como um todo. E este ensino, sempre vinculado ao cotidiano das crianças, deveria ser introduzido já nas primeiras etapas da educação infantil”, analisa.

O SBPC Jovem é realizado desde 1993. Acontece junto com a Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que existe desde 1948 e é ponto alto das atividades da mais importante e abrangente associação científica brasileira. A reunião júnior é a realização do desejo de alguns cientistas que enxergavam a necessidade de diminuir a distância entre a ciência e a escola, além de atrair a sociedade em geral que não estava envolvida diretamente com a pesquisa científica.

“É uma oportunidade para troca de conhecimentos, de proporcionar ao jovem o direito de saber fazer ciência e também um momento de reflexão sobre a educação básica brasileira”, avalia Thereza Maria Paes Barreto, diretora do Colégio de Aplicação da UFPE e vice-coordenadora do evento em Recife.

O evento, paralelo à 55ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), foi realizado de 13 a 18 de julho na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), reuniu 126 escolas públicas e particulares de todo o país. Cerca de 80 trabalhos avaliados e aprovados por uma comissão das duas instituições foram expostos para os mais de 25 mil visitantes interessados em conhecer iniciativas de universidades, centros de pesquisa e escolas brasileiras. A 55ª Reunião, destinada à divulgação científica para cientistas e universitários, teve mais de 11 mil participantes inscritos e apresentação de 4.120 trabalhos científicos.

Estréia com lixão

Para os alunos da 3ª série do ensino fundamental da Escola Municipal André de Melo, de Recife, as visitas ao lixão de Muribeca, na vizinha Jaboatão dos Guararapes (Grande Recife), foram mais que lições sobre o lixo e a incipiente cultura da reciclagem no Brasil. Essas atividades práticas do projeto Lixo: reduzir, reaproveitar e reciclar, realizadas desde o ano passado, permitiram a primeira participação num encontro da importância da SBPC Jovem.

“Foi maravilhoso para nossos professores e alunos compartilharem com pessoas de todo o país o que descobriram visitando aterros sanitários e empresas de limpeza urbana. Essa experiência, que está sendo disseminada em nossa comunidade, será aprofundada e ampliada a todas as séries, para que a médio e longo prazo possamos influir nesta séria questão social”, avisa a dirigente Maria Elizabeth Santos. Segundo ela, toda a equipe escolar está entusiasmada e já busca meios para cobrir os gastos que terão para participar das próximas edições da SBPC Jovem, que a cada ano tem sede em um Estado brasileiro diferente.

Cardápio de projetos

Ao contrário da André de Melo, a Escola Estadual Dona Idalina Macedo Sodré, de São Caetano, São Paulo, esteve pela sétima vez consecutiva na SBPC Jovem. Este ano, a escola, que participou também da 55ª Reunião do SBPC, exibiu oito dos principais projetos trabalhados desde 1993 no Centro Educacional para o desenvolvimento de projetos (CEDP).

As experiências mostradas estudam questões que vão da problemática das drogas ao desperdício e poluição da água, de estudos práticos em laboratório sobre plantas carnívoras, clonagem, análise do teor de vitamina C de algumas frutas e o uso medicinal e alimentício da planta dente-de-leão, além de alternativas para estimular o interesse dos alunos pelo estudo de língua portuguesa e literatura.

Mas é a oficina “Novas Tecnologias Aplicadas ao Ensino Público” a que merece destaque. “Mais do que mostrar a forma como utilizamos as ferramentas tecnológicas – a informática, por exemplo -, contamos a história de como esta escola pública há dez anos contornou a falta de recursos e equipamentos, buscou apoio de universidades, firmou parcerias com a iniciativa privada e uniu alunos, pais e professores em torno do objetivo comum de melhorar a qualidade do ensino”, explica Eduardo Maldonado, professor de Ciências e Matemática que coordena o CEDP em parceria com os alunos.

Quando o centro foi criado eram trabalhados apenas quatro projetos orientados pela Escola do Futuro da Universidade de São Paulo. Hoje são desenvolvidos mais de 20, sendo a maioria em parceria com o poder público municipal e voltados para a comunidade. Essa experiência tornou a escola conhecida e respeitada inclusive pela rede privada. Motivou inúmeros convites para simpósios e congressos em todo o Brasil e também em países do Oriente Médio, Europa e Estados Unidos.

Em 2002, o Idalina foi premiado com o projeto Energia Solar, desenvolvido pelos alunos do primeiro ano do ensino médio. Há dois anos, durante a nona SBPC, em Salvador, conquistou o prêmio Jovem Cientista na categoria criatividade pelo conjunto do trabalho apresentado. Em 1999, em Porto Alegre, a escola bateu seu recorde e teve 13 projetos apresentados. Na ocasião, em cerimônia oficial, seus representantes receberam a chave da cidade das mãos do secretário estadual de Educação do Rio Grande do Sul.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 08/08/2003

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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