Salvador enfrenta os computadores

Todo dia é dia de aprender


Em Salvador, formação continuada de professores garante sucesso no uso
pedagógico da sala de informática

Por Paloma Váron

Em meio à conhecida polêmica de que não adianta ter computador na escola e não saber usar, a cidade de Salvador tem se destacado na preparação de educadores para a boa utilização da informática na educação. Desde 1996, o Núcleo de Educação e Tecnologia (NET) da Coordenadoria de Ensino e Apoio Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Salvador, promove a formação continuada de professores para a utilização das novas tecnologias em sala de aula. O resultado do trabalho poderá ser visto na Mostra de Tecnologia e Educação, que ocorre em Salvador no dia 3 de dezembro, com a participação do NET, de organizações não-governamentais e de outras instituições que trabalham com o tema.

Toda quarta-feira a cena se repete: professores da rede municipal se reúnem por turno (matutino, vespertino e noturno) em uma sala equipada com computadores, impressoras, scanner, TV, vídeo e antena parabólica para discutir as possibilidades de uso da informática na escola durante o curso de formação. São cerca de quatro horas de trabalho contínuo com os professores, sendo meia hora de navegação livre na Internet e as demais direcionadas para atividades práticas (com programas como Front Page e Power Point, por exemplo) e teóricas, como leitura e discussão de textos relacionados ao uso das novas tecnologias na educação. A formação ocorre nos horários destinados a atividades complementares, o que significa que os professores estão sendo remunerados para participar da atividade. “Lá, eles socializam a experiência adquirida, discutem os erros e acertos”, explica Ana Cintra, coordenadora do NET.

Um dos pontos fortes do NET está no fato de ter sido gerado num grupo de estudos que se organizava na Universidade Federal da Bahia, composto por educadores e pesquisadores. O Núcleo tem como objetivo construir projetos pedagógicos que articulem a educação à comunicação e estimulem o processo ensino e aprendizagem em ambientes interativos, contribuindo para a produção e socialização de conhecimento e cultura. Atualmente, congrega 21 escolas, mas já há mais duas inscritas para 2003. Criado em meados de 1996, quando cada escola da rede havia recebido apenas um computador, o NET implantou o Programa Internet nas Escolas, um projeto-piloto, que visava estimular o uso pedagógico da máquina pelas escolas. Isso porque geralmente, quando chega apenas um computador numa escola, imediatamente desloca-se o equipamento para a área administrativa. “Fizemos uma reunião com os professores e decidimos como as máquinas seriam utilizadas. Assim venceu o uso pedagógico”, conta Ana Cintra. A partir dessa reunião com os professores, surgiu o grupo de estudos, que daria origem ao Espaço de Formação Permanente do Professor.

A experiência de Salvador mostra que é possível começar um projeto pedagógico com apenas uma máquina. Para facilitar o acesso por todos, as escolas dividiam os alunos em grupos de dez para que cada equipe tivesse um contato semanal. “Pretendíamos, pelo menos, disseminar a cultura tecnológica na escola”, conta Ana Cintra, que teve de ignorar protestos de alguns professores que diziam: “Mas nós não temos nem cadeiras e vamos ter computador?” Apesar do estranhamento inicial, aquele primeiro contato com a informática serviu para que alunos e professores pudessem aprender a pesquisar na Internet e incrementar as aulas. O NET colocou um professor-orientador em cada escola, nos três turnos. Hoje, as escolas integrantes da NET já dispõem de laboratório de informática, recebido pelo Proinfo – Programa Nacional de Informática na Educação, do governo federal.

Para a professora Léia Casais, da Escola Municipal Novo Marotinho, situada no Novo Marotinho, um dos bairros mais pobres de Salvador, a formação permanente é muito importante para manter a qualidade do programa. Ela e os outros professores que participam da formação continuada dividem o tempo para que fiquem 20 horas semanais em sala de aula e 20 horas semanais no laboratório de informática, atuando como professores de Novas Tecnologias que auxiliam os professores das demais disciplinas e os alunos a utilizarem as ferramentas da informática.

:: Sala de informática aberta à comunidade

Na escola Novo Marotinho existe o projeto Conectando a Mulher Mãe ao Mundo, que abre o laboratório de informática da escola para as mulheres do bairro. A escola promove o encontro com as mulheres do bairro do Novo Marotinho duas vezes por semana, às quartas e aos sábados, o que garante que o laboratório de informática tenha um aproveitamento de 100%.

O projeto ensina informática para as mulheres a partir do trabalho com temas como identidade, auto-estima, família e outros, com o auxílio de programas como o Word, no qual redigem textos, e o Paint Brush, em que elas se desenham nas telas dos computadores. Tem também como mérito fazer com que as mães participem mais da vida escolar dos filhos, entrando em contato com o que eles estão aprendendo. “É muito importante saber se conectar, para instruir os filhos em casa”, diz Sandra de Souza, mãe de uma aluna da 2ª série. Ela conta que, na primeira vez em que foi ao laboratório, ficou muito ansiosa. “Quando fui para casa, já estava sorridente, parecia que eu era outra pessoa, não dá para descrever”, conta, revelando sua satisfação em participar.

Para Vera Lopes, mãe de uma aluna da 4ª série, as aulas são bastante proveitosas e, ao mesmo tempo, representam duas horas de lazer para as mães. “O projeto está nos proporcionando a entrada no mundo tecnológico”, diz. Silvia Sacramento, mãe de um aluno da Novo Marotinho, acha que todas as mães de alunos deveriam ter essa oportunidade.

Conheça os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos pelas escolas de Salvador no site www.smec.salvador.ba.gov.br.

A participação da comunidade no laboratório da escola, porém, não se resume apenas às mulheres. Quem quiser utilizar os computadores é bem-vindo no projeto Escola Viva na Comunidade, que recebeu o Prêmio Rômulo Galvão pela iniciativa e por contribuir na disseminação da cultura da não-violência. Dessa forma, professores, alunos e comunidade utilizam a informática como forma de reconhecimento, de busca de identidade. “A nossa proposta de inclusão é geral, envolve até a inclusão étnica. Trabalhamos o diferente, que não é sinônimo de desigual, e a auto-estima, não apenas dos nossos alunos, mas também das pessoas da comunidade. Temos uma parceria com o movimento negro, como o Ilê Aiyê”, explica a professora.

Nilcélia Santana, 19, é ex-aluna do colégio e atua como monitora do laboratório de informática há dois meses. Ela trabalha tanto com os professores, auxiliando-os a usar programas, como com a comunidade. “Eu fiz o curso de informática aqui mesmo na escola, e estar aqui é uma ótima oportunidade para mim e também para o pessoal do bairro”, diz.

Como tudo começou

Em 1995, a professora Lynn Alves, doutoranda em Educação e Comunicação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), era supervisora da Escola Municipal Dr. Alexandre Leal Costa quando participou de uma reunião na Secretaria Municipal de Educação para discutir como seria utilizado o único computador disponível na escola. A partir daí, formou, com outros professores, o grupo de estudos para discutir a interação entre comunicação e educação. Leia a entrevista abaixo:
Qual foi a participação da Universidade Federal da Bahia na formação do Núcleo de Educação e Tecnologia de Salvador?
Basicamente no suporte teórico-metodológico. Em 1996, fiz uma disciplina com o professor Nelson Pretto (atual diretor da Faculdade de Educação) com o objetivo de entender a articulação educação/tecnologia. Lá, conheci Arnaud Júnior que estava fazendo mestrado na área e iniciou comigo o Grupo de Estudos Permanentes (GEP) que, desde de maio de 1996, se reúne uma vez por semana para discutir educação e tecnologia. A UFBA esteve sempre presente nessa caminhada, mas Nelson Pretto teve um papel importante para o grupo crescer e amadurecer. Fizemos juntos muitos seminários e, no início, quando não tínhamos um laboratório, usamos os da UFBA.
Na sua visão de pesquisadora, o que o projeto do NET Salvador tem de diferente e inovador?
A concepção. Na verdade, o que se faz é pensar a formação do professor como algo contínuo, que precisa ser constantemente alimentado, por isso criamos um grupo de estudos (GEP). O projeto do NET inova por sair do discurso e tentar articular a prática pedagógica com a mediação dos suportes tecnológicos e, em especial, a Internet que na verdade é o grande carro-chefe do projeto. Diariamente, os professores são orientados para pensar a sua prática com essa mediação. A inovação se constitui em um fato aparentemente óbvio, mas que ainda engatinha na rede pública: abrir o laboratório para alunos e professores e acompanhar essa imersão.
Há algum estudo produzido sobre essa experiência?
Deste projeto nasceram quatro dissertações, inclusive a minha e a publicação de um livro: “Educação e Cibercultura” com artigos produzidos pelos professores, fruto do GEP, publicado pela Editora da UFBA.
Como pessoas de outras escolas e até de outros Estados podem ter acesso a produções do GEP?
Estamos abertos para socializar a nossa experiência. Temos o site: http://www.smec.salvador.ba.gov.br/. e já estivemos presentes em alguns encontros com o objetivo de divulgar o nosso trabalho.



Os sites indicados neste texto foram visitados em 29/11/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *