RPG na educação

RPG torna a aula uma aventura

Criado na década de 70, nos EUA, o “Roleplaying Game” (jogo de interpretação) vem sendo usado por educadores em diversas disciplinas. O 1º Simpósio Brasileiro de RPG e Educação, marcado para os dias 24, 25 e 26 de maio, promete trazer mesas de
debate sobre o tema e experiências bem sucedidas

Por Mirna Feitoza Pereira

Que tal trocar as aulas expositivas por um jogo que dá asas à imaginação? É exatamente isso que estão fazendo professores de algumas escolas no Brasil. Os resultados apontados são para lá de satisfatórios: motivação para participar das aulas, assimilação dos conteúdos programáticos, integração do grupo, melhora da auto-estima, entre outros benefícios. O jogo chama-se RPG, sigla em inglês de “Roleplaying Game”, que, se fosse traduzido para o português, ganharia um nome como “Jogo de Representação” ou “Jogo de Interpretação”. Se fosse, pois o jogo manteve por aqui o mesmo título que recebeu nos Estados Unidos, país em que foi criado nos anos 70.

Trata-se de um jogo de contar histórias no qual cada participante atua como personagem, como no teatro. Só que não é preciso cenário, figurino nem palco, muito menos uma história com final definido. É assim: sentados em volta de uma mesa, os jogadores imaginam e relatam a ação de seus personagens a partir de situações expostas por um jogador que atua como mestre. A cada solução apresentada, o mestre propõe uma nova situação, e os participantes imaginam outras ações e assim vão decidindo os rumos da aventura. Ou seja, nesse jogo de contar histórias, o desenvolvimento da narrativa depende da imaginação dos participantes. E o melhor de tudo: RPG não envolve disputa. Todos ganham e se divertem ao criar uma história coletivamente.

O RPG está entrando na sala de aula por iniciativas esparsas de professores que jogam há algum tempo. Só que essas experiências estão começando a tomar corpo no Brasil. Prova disso é que este mês acontece o 1o. Simpósio Brasileiro de RPG e Educação, nos dias 24, 25 e 26, dentro da programação do 10o. Encontro Internacional de RPG, em São Paulo. O evento é a principal novidade desse encontro de jogadores de RPG que está completando dez anos de realização.

O simpósio – que vai reunir RPGistas e profissionais da educação, literatura e da psicologia que aplicam o jogo em atividades educativas – surgiu da demanda crescente no país de experiências em sala de aula e trabalhos acadêmicos que demonstravam a eficácia do RPG como ferramenta pedagógica. Segundo Douglas Quinta Reis, da Livraria Devir, um dos idealizadores do simpósio e um dos principais divulgadores desse jogo no Brasil, há pelos menos seis edições, o encontro anual reserva espaço para oficinas de RPG direcionadas a crianças e adolescentes e oferece palestras sobre como aplicar RPG na sala de aula, além de mesas com acadêmicos que discutem o potencial do jogo como narrativa.

Ao montar a programação do encontro deste ano, os organizadores verificaram que a quantidade de teses sobre RPG e de experiências com o jogo em sala de aula havia crescido tanto que merecia um simpósio só para discutir as contribuições do RPG à educação. “Estávamos certos. Desde que começamos a divulgar o evento, não passamos um só dia sem receber um e-mails de professores de todo o país que estão usando ou escrevendo algum trabalho sobre RPG, e aplicado às mais diversas disciplinas”, comemora Douglas.

Alunos criam fichas

A professora e RPGgista Rosangela Basilli Mendes Valente, da Escola Municipal Dom Pedro I, zona norte de São Paulo, é uma das educadoras que vai expor sua experiência com RPG em sala de aula no simpósio. Ela começou a adaptar as técnicas do jogo aos poucos, trabalhando o tema “família” com uma turma de 2a. série, há quatro anos. Rosangela propôs às crianças imaginar que todos eles viviam em clãs. “Pude destacar o senso de solidariedade e responsabilidade necessárias à vida social e ainda mostrei a elas uma forma milenar de organização cultural. Tudo de maneira lúdica”, conta.

No ano seguinte, com a turma já na 3a. série, Rosangela trabalhou os adjetivos da Língua Portuguesa aplicando uma técnica mais complexa: a criação de fichas para os personagens (no RPG, cada personagem tem uma ficha com várias habilidades. A cada jogada, eles adquirem atributos que o caracterizam no jogo). Os alunos de Rosangela imaginaram um personagem, inventaram uma história para ele e o desenharam em uma folha, escrevendo nela as qualidades de cada um: fadas, guerreiros, arautos do rei, high landers, jedais.

Este ano, ao começar os trabalhos com uma turma de 4a. série, Rosangela percebeu que muitas crianças ainda tinham dificuldades para ler e escrever, e por isso se sentiam inferiores aos colegas que já dominavam a leitura e a escrita. O desafio era resgatar a auto-estima desses alunos. Para isso, ela aplicou a ficha dos personagens, dessa vez incrementada com uma lista repleta de atributos, como sabedoria, raciocínio, força de vontade, respeito ao próximo, auto-estima, honra, etiqueta, higiene.

Cada vez que o aluno respondia uma questão corretamente ou tinha um comportamento que correspondia a um atributo da ficha, o personagem dele ganhava um ponto no quesito equivalente à ação de seu criador. “Hoje ainda temos crianças com dificuldades de leitura e de escrita, mas toda a turma está muito motivada a participar das aulas. Os alunos se esmeram para conquistar pontos em todos os quesitos, e a auto-estima deles aumentou muito, porque se sentem contribuindo com as aulas. Até a higiene da classe melhorou. Não há uma carteira riscada nem papel no chão em minha sala”, afirma a professora.

História e música

Na escola municipal Barão de Santa Margarida, zona oeste do Rio de Janeiro, o RPG foi aplicado no ensino de História por meio de oficinas direcionadas aos alunos da 6a. e 8a. séries. O mestre era o professor de educação musical e RPGista Marcelo Telles. Ele adaptou a história do Descobrimento do Brasil e da Primeira Guerra Mundial para RPG, “mestrando” as situações das aventuras para um grupo de alunos da classe, enquanto os demais assistiam a partida. “A cada oficina, a dinâmica ia melhorando, e vários alunos que ficavam apenas assistindo, tornaram-se membros da frota de Cabral, por iniciativa deles. Eu apenas tive que adaptar na hora. Eles deixaram, espontaneamente de ser público para se tornarem jogadores e participantes ativos da oficina”, relata Marcelo.

Nessa escola, o RPG proporcionou uma experiência muito bem-vinda à educação que se pretende alcançar nos dias hoje: a interdisciplinaridade. Para organizar as oficinas, Marcelo trabalhou em conjunto com os professores de História da escola, assim que os conteúdos sobre os temas envolvidos foram trabalhados em sala de aula. As partidas de RPG funcionaram como ponto culminante para compreensão das matérias.

Projeto pedagógico

Em Juiz de Fora (MG), no colégio Satélite, uma cooperativa formada pelos pais dos alunos, o RPG não é mais apenas uma iniciativa localizada de um professor jogador. Tornou-se um dos projetos educacionais da escola. Segundo a diretora da escola, a pedagoga e psicopedagoga Lais Helena Gouveia Pires – que vai relatar a experiência de sua escola no simpósio de RPG e Educação -, cabe ao professor decidir se quer ou não usar a ferramenta. Lá, o formato do jogo não foi alterado, o RPG é aplicado em forma de partida. Os professores apenas adaptam os conteúdos programáticos às situações do jogo.

“Percebemos mais aproximação humana e maior crescimento na confiança de um aluno com o outro com a aplicação do RPG. Os trabalhos em equipe também ganham força, pois, nesse jogo, a conquista é do grupo”, conta Lais. Como o jogador de RPG precisa dominar uma gama de informações para imaginar ações lógicas de seus personagens, houve histórias de RPG no colégio Satélite que levaram os alunos a estudar, espontaneamente, temas da Geografia, História, Artes e demais disciplinas para dar continuidade aos jogos.

Outra experiência de RPG aplicado à educação já sistematizada é a organizada por Alessandro Vieira dos Reis, em Florianópolis. Mestre de RPG e estudante do 7o. período do curso de Psicologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Alessandro desenvolveu a FLER (Ferramenta Lúdica de Ensino por Representação), após trabalhar com recursos do RPG em uma escola pública de Florianópolis. Essa experiência rendeu ao jovem uma bolsa de estudos na universidade para um projeto de extensão no qual trabalha com RPG em escolas escolas públicas e com crianças de comunidades de baixa renda de sua cidade.

A aplicação da FLER não substitui as aulas convencionais. Ela é usada como uma didática alternativa e complementar aos demais métodos da escola. O uso da ferramenta também dispensa o treinamento dos professores, pois é um mestre de RPG quem ministra o jogo em classe. “Este, sim, precisa ser qualificado”, afirma Alessandro. Para implementar a FLER na sala de aula, o estudante de Psicologia introduziu no jogo novas categorias de participantes. Além do mestre e do jogador, há o “consultor”, que permite ao professor participar da história, o ator, responsável pela dramaticidade da aventura, e o “auxiliar”, que torna possível a mais de um aluno interpretar o mesmo personagem. “Isso faz com que todos participem, evitando a formação de platéias passivas”, ensina Alessandro.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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