RPG conquista a universidade

Jogo da Sedução

Segunda edição do Simpósio de RPG & Educação mostra que é cada vez maior o número de educadores fascinados pelo uso da aventura de interpretação em sala de aula

Por Cida Capo de Rosa *

É muito provável que um professor jamais consiga colocar seus alunos numa nave espacial para estudarem os efeitos da falta de gravidade enquanto viajam pelas galáxias. No entanto, essa possibilidade pra lá de remota pode estar ao alcance dos mestres por meio de uma aventura de RPG – do termo inglês “Roleplaying Game”, ou jogo de interpretação na tradução literal. O professor Alessandro Izzo, mestrando em ensino de Física pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), está provando em pesquisa acadêmica que a prática vale a pena.

Decidido a encontrar uma forma de seduzir seus alunos para o estudo da disciplina, quase sempre tida como difícil e fatigante, Izzo criou um jogo cujas regras se baseiam nos princípios das leis de Newton. “Os alunos assumem virtualmente o comando de uma nave em pleno espaço sideral, onde não há atrito ou outro tipo de força dissipativa. O êxito da missão depende do total controle da nave” explica. O professor, que planeja aplicar o jogo em sala de aula assim que concluir a tese, foi um dos palestrantes convidados no 2º Simpósio de RPG & Educação, realizado de 28 a 30 de março, em São Paulo.

Pelo segundo ano consecutivo, uma série de experiências comprovam que a dobradinha RPG e Educação está mesmo ganhando força. A edição 2003 do Simpósio contou com mais de 700 participantes – o dobro em relação ao anterior. Carlos Eduardo Lourenço, autor de aventuras e gerente da Ludus Culturalis, instituição promotora do evento, avalia que desta vez o encontro ampliou o debate sobre o tema.

“Mais do que discutir a transmissão de conteúdos disciplinares e conhecimentos diversos por meio do jogo, as palestras abordaram principalmente a trajetória de RPGistas que se descobriram educadores”, conta Lourenço, referindo-se às experiências de jogadores que aprimoraram sua prática educativa a partir da inclusão do RPG nas aulas que ministram. Em vista da demanda recebida nos últimos meses, a Ludus Culturalis vai organizar o 1º Simpósio de RPG & Educação na cidade de Curitiba (PR), entre os dias 27 e 29 de junho próximo.


Defesa de tese

O RPG como objeto de estudo acadêmico foi uma das novidades apresentadas no evento de 2003. O educador Carlos Klimick Pereira, do Rio de Janeiro, que há mais de cinco anos introduziu a modalidade em escolas cariocas, desenvolve agora seu mestrado com crianças deficientes auditivas do Instituto Nacional de Educação de Surdos.

“Meu trabalho se baseia no uso das histórias interativas para estimulá-las no aprendizado da língua escrita e oral”, diz. Autor de diversas aventuras, o educador organizou os primeiros cursos de extensão em RPG em faculdades brasileiras: Curso básico de design de RPG e Personagem em RPG, ambos oferecidos na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio.

Alessandro Vieira dos Reis, graduando em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, utiliza o RPG em escolas públicas, comunidades de baixa renda e em oficinas de treinamento e capacitação docente. Por meio do projeto “Sapiens Circus”, professores e alunos entram para uma aula divertida baseada em jogos eletrônicos e uma narrativa interativa. “Os efeitos cognitivos dessa experiência são acompanhados e trabalhados nas escolas, ao longo do período letivo”, diz.

Outro trabalho destacado é o da professora Rosangela Basilli Mendes, da rede municipal de São Paulo, que há mais de quatro anos adota RPG no estudo de temas transversais para crianças do primeiro ciclo do Ensino Fundamental. Suas experiências registradas por escrito ao longo do tempo estão sendo editadas em livro.

“Será uma espécie de tratado de RPG em sala de aula, com aventuras infanto-juvenis prontas e um passo a passo para quem deseja adotar o jogo e criar as próprias histórias”, avisa a educadora, que coleciona inúmeros benefícios trazidos pela atividade, como maior participação da classe, disciplina e, principalmente, melhoria no rendimento da turma em todos os componentes curriculares.

Também podem ser consultadas sobre o assunto as seguintes teses e dissertações: “Roleplaying games: ficção e jogo”, de Sônia Rodrigues; “Aventurando pelos caminhos da leitura e escrita de jogadores de RPG”, de Jane Maria Braga; e “A aventura da leitura e da escrita entre mestres de Roleplaying games”, de Andrea Pavão. Estes textos

, além de outros estudos multidisciplinares patrocinados por universidades como USP e PUC do Rio estão disponíveis na sede da Ludus, em São Paulo. Os interessados podem entrar em contato com a entidade pelo telefone (11) 3347-5702.

Aventura planejada

Apesar de os jogos de simulação firmarem-se entre os mais promissores instrumentos pedagógicos, ainda não chegou à maioria das escolas. “Alguns professores e alunos crêem apenas no ensino tradicional, com lição na lousa, cópia, explicação e exercício. Têm pouco conhecimento do aprendizado de forma lúdica, divertida e criativa. Isso talvez porque nem sempre metodologias alternativas, em especial as que envolvem interação, produzam resultados concretos a curto prazo”, afirma César Sinício Marques, psicólogo e professor do Ensino Fundamental e Médio.

Alessandro Vieira dos Reis entende que tudo o que é novo e diferente gera resistência no início – o que é até saudável por uma questão de prudência. Para ele, outro fator que gera receio é a associação do RPG com a violência. “Jogos no estilo terror punk-gótico, que fazem muito sucesso no Brasil, são freqüentemente relacionados com atos violentos”, diz, referindo-se à morte de uma estudante de Ouro Preto, há dois anos, momentos depois de participar de uma partida. O episódio ganhou repercussão nacional. Mesmo sem comprovação, houve quem defendesse a proibição do RPG argumentando a influência negativa sobre crianças e adolescentes.

Segundo especialistas, a adoção do RPG em sala de aula requer alguns cuidados. Não desfocar os objetivos da aula é um deles. “A aventura deve ser bem planejada, com um roteiro e situações que contemplem os pontos a serem abordados. Caso contrário, corre o risco de perder sua razão de ser”, adverte Carlos Klimick.

Douglas Quinta Reis, da Devir Editora e um dos maiores divulgadores do RPG no Brasil, reforça a necessidade de capacitação do professor – que normalmente atua como narrador ou mestre. “Como o jogo é uma forma diferente de contar histórias nas quais os ouvintes controlam as ações dos personagens, o narrador deve ter domínio sobre essas ações.

Além disso, as histórias devem ser preparadas previamente, exigindo algumas técnicas no processo de criação”, explica. A Ludus Culturalis, entidade voltada para a difusão do RPG como ferramenta pedagógica, oferece capacitação gratuita para docentes que não podem pagar. São realizados quatro cursos por ano na sede da Ludus, em São Paulo, ou nas escolas e diretorias regionais de ensino. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3347-5702.

*Cida Capo de Rosa é jornalista e colaboradora do EducaRede

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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