Reciclagem ainda é pouco

Reciclar é preciso;
só reciclar não é preciso

A abordagem do problema do lixo nas escolas deve ir muito além da preocupação com a destinação final dos materias, o enfoque está na importância do consumo consciente

Por Flávia Celidônio*

Falar em reciclagem de lixo virou moda nas escolas. Quase sempre há um “projeto” sobre o tema, no qual se arrecadam latinhas de alumínio com o objetivo de vendê-las ou trocá-las por materiais úteis, envolvendo competições entre as classes. Mas as conseqüências que tal atividade pode trazer, como estimular o aumento do consumo, estão sendo consideradas?

Em outros casos, até bem intencionados, coloca-se recipientes coloridos para cada tipo de resíduo e pede-se a todos que colaborem. Só que muitas vezes ninguém pensa no principal: para onde vão esses materiais recicláveis? Não é raro flagrar caminhões de coleta da prefeitura despejando o conteúdo dos diversos latões num emaranhado só.

Segundo resultados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE apenas 6,4% das cidades brasileiras reaproveitam os resíduos e a coleta seletiva é realizada oficialmente por 8,2% delas.

Que o lixo tem se tornado um problema ambiental cada vez mais grave, conseqüência do crescimento populacional, não é novidade. Por ser basicamente sólido, ocupa espaço e demora para se decompor. Contém componentes químicos que, além de interferir negativamente no equilíbrio do ecossistema, provocam sérios problemas de saúde. Agora, o ponto pouco conhecido é que a questão do lixo vai além da reciclagem. “É preciso entender a importância de se produzir menos resíduo”, alerta a educadora ambiental Minka Bojadsen, diretora da organização não-governamental Instituto 5 Elementos.

Consumo consciente

Talvez a ênfase esteja no primeiro “R” do trio “Reduzir, Reutilizar e Reciclar”. Trata-se da prática do consumo consciente, ou seja, uma análise criteriosa a ser feita no ato da compra. A teoria é simples: consumindo menos, produz-se menos lixo. Difícil mesmo é a aplicar no dia-a-dia.

Hoje já existem entidades que elevam o ato de consumir à categoria de ação de cidadania, à medida que o indivíduo considera o impacto da sua aquisição – e do uso que faz de produtos e serviços – sobre a sociedade e o meio ambiente.

Produtos recicláveis

Alumínio: latas de bebidas e embalagens em geral

Metal: latas de alimentos

Papel: caixas, cartazes, folhas de caderno, embalagem longa vida, jornais, revistas, papel de fax

Plástico: garrafas de refrigerantes, frascos de amaciantes, baldes, copos descartáveis, potes para iogurte, embalagens de massa e biscoito, copos de água mineral

Vidro: garrafas de bebidas, frascos de cosméticos, potes de conservas

Uma delas é o Instituto Akatu, organização não governamental, criada em 15 de março de 2001 (Dia Mundial do Consumidor). Um levantamento realizado por ela mostrou que a própria juventude acha que compra demais. Cerca de 50% dos entrevistados disseram que pessoas da sua idade consomem excessivamente.

Délcio Rodrigues, coordenador geral do Akatu, revelou que o Instituto está organizando uma campanha com as escolas interessadas no tema, pois já percebeu que há muita gente empenhada em não só discutir o lixo, mas também em produzi-lo em menor quantidade. “Unir estes dois assuntos em um projeto pedagógico é colaborar para a formação de uma sociedade mais consciente, que preserva a natureza com hábitos mais saudáveis”, sugere.

Na escola

A educadora Minka Bojadsen faz questão de alertar que, ao contrário do que muita gente acha, implantar a coleta seletiva de lixo na escola não é tarefa simples. “Um projeto eficaz deve envolver toda a comunidade escolar. Não apenas os alunos, mas também funcionários, professores e pais”, explica a educadora. A estratégia é dar exemplos concretos. Promover uma sessão de leitura de jornais para conhecer as atualidades sobre o tema, visitar um aterro sanitário ou mesmo “apreciar” imagens dos bueiros entupidos nas ruas são bastante impactantes para sensibilizar adultos e crianças. “A ação tem que ser conseqüência da compreensão”, ensina.

A coordenadora de Educação Ambiental do Ministério da Educação, Lucila Pinsard Vianna, concorda. Ela acredita que a manutenção das atividades envolvendo o lixo ainda é um desafio porque o projeto deve ser fruto de uma reflexão da escola e de toda a comunidade. “Nada pode ser imposto. A professora que tem a idéia de trabalhar o tema não pode ser uma militante solitária. Quando todo corpo docente refletir e estiver consciente de que preservar o meio ambiente não é uma utopia, o projeto pode ser criado e mantido com mais facilidade”, sugere.

Percebendo as dificuldades das escolas em introduzir o tema no projeto pedagógico, o MEC lançou os Parâmetros Curriculares em Ação para Meio Ambiente. O objetivo é estimular o professor a pensar em conjunto com os seus colegas e encontrar caminhos para envolver os alunos e a comunidade. Por meio de propostas de atividades, o material mostra que as diversas disciplinas podem ajudar no entendimento do tema ambiental.

O MEC também desenvolve ações práticas como realização de oficinas com especialistas na área para discutir e avaliar o panorama da Educação Ambiental no Ensino Fundamental no Brasil, enfocando a capacitação de professores. Está previsto ainda um seminário nacional cujo objetivo é possibilitar a troca de experiências de professores, educadores e demais profissionais que desenvolvem projetos em Educação Ambiental no ensino formal.

A seção O Assunto É, do EducaRede, traz uma vasta discussão sobre o problema do lixo com sugestões de como abordá-lo na escola. É possível ainda consultar bibliografia especializada no tema e enviar dúvidas e colaborações.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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