Qualidade da educação em debate

Notícias do Fórum Mundial de Educação

Por Paloma Varón, de Porto Alegre

Quarta, 22/01/03 – A ameaça da mercantilização da educação
O GATS, o acordo geral de comércio e serviços da OMC (Organização Mundial de Comércio) e a necessidade de se unir esforços para lutar contra esse acordo, que representa a mercantilização da educação, foram o mote da mesa “Educação, movimentos sociais e lutas contra a mundialização globalizante”, realizada na Faculdade de Educação da UFRGS. Louis Weber, professor e presidente da Federação dos Trabalhadores em Educação da França, disse que à OMC interessa a escola aberta ao livre-mercado e a lógica das multinacionais. “Não podemos permitir que a escola seja vista como uma empresa. Dentro das reformas educacionais que estão acontecendo na Europa, por exemplo, está a gestão de escolas como empresas, o que é um absurdo”, disse. Felipe Maia, da UNE (União Nacional dos Estudantes), incitou a platéia, cheia de estudantes universitários, a ter um papel de resistência ativa ao neoliberalismo, o que inclui formular e praticar políticas alternativas, organizar a participação política popular. “A mercantilização da educação também acontece quando os programas dos currículos universitários estão mais voltados para o mercado do que para buscar soluções para os problemas do nosso país”, disse. Maia pediu que as pessoas se movam contra a inclusão da educação no GATS. Alessio Surian, educador italiano, diz que, na Itália, a tendência geral é de privatizar o conhecimento. “Não entendo como um país que apresenta crescimento econômico diz não ter dinheiro para investir na educação, mas acaba investindo na educação privada”, provocou, lembrando que o GATS é uma ameaça global. “Na Europa, 12 de março é o dia da mobilização geral contra o acordo”, conta Surian.

Quarta, 22/01/03 – Charlot provoca platéia com questões sobre educação
O professor e pesquisador francês Bernard Charlot foi talvez o palestrante mais aplaudido nas conferências do II FME. Na mesa do dia 22, com o tema “Projeto político e projeto pedagógico”, ele falou sobre as contradições entre os discursos e as práticas – que tambem são políticas – na sala de aula. Os educadores presentes foram provocados durante toda a sua exposição com questões como: “Há professores que pedem aos alunos que memorizem frases com palavras que eles desconhecem. Essa prática corresponde a sua concepção de democracia e de cidadania?” Para ele, tanto na França como no Brasil não existe coerência entre os projetos políticos e a prática. “A escola não é o programa oficial, mas o que os alunos estão aprendendo”. Ele defendeu a educação em ciclos, que já existe na França há dez anos, como sendo uma prática mais justa e democrática. “Não é com um milagre que vamos mudar a escola. É com o trabalho paciente dos professores”, afirmou. Para concluir, Charlot falou da necessidade de se enfrentar as tensões que existem no processo educacional e em cada professor para se transformar a escola. “Nós devemos enfrentar as nossas contradições para construir essa escola democrática que queremos. Não vai ser fácil, mas essa é a luta que vale a pena. Estamos aqui reunidos para transformar a realidade e a escola”, conclui, sob fortes e entusiasmados aplausos.

Terça, 21/01/03 – ONGs têm papel importante na educação
A articulação entre movimentos sociais e educação foi o tema abordado pela coordenadora da comissão de Educação da ATTAC (Associação pelas Tributações Financeiras a Favor do Cidadão), a educadora francesa Regine Tassi. Ela disse que as ONGs são agentes significativos na educação de certos países do sul. “Essas instituições são portadoras de inovações pedagógicas e podem ajudar na mobilização”, afirmou. Para ela, em países que adotam as bases neoliberais do Consenso de Washington, somente com a atuação de ONGs a situação educacional pode ser transformada.

Terça, 21/01/03 – São Paulo quer sediar 3º FME
A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, entregou hoje de manhã o convite para São Paulo sediar a terceira edição do Fórum Mundial de Educação. Eliezer Pacheco, da organização do Fórum, recebeu o convite das mãos da prefeita. Em 2004, a capital paulista completa 450 anos e o FME entraria como parte das comemorações da data. “Não é todo dia que se faz 450 anos e São Paulo tem apresentado grandes avanços na área”, disse Marta.

Segunda, 20/01/03 – Todos têm direito à educação
O segundo debate realizado pelo Cenpec foi sobre o direito à escolarização básica com qualidade para todos. Foram mostradas as intervenções realizadas pela ONG na Febem, em São Paulo, e o acompanhamento de professores e técnicos das diretorias de ensino da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo nos projetos de aceleração escolar. A educadora Edna Aoki falou do projeto “Aprendendo Sempre”, de classes de aceleração, que envolveu dezenas de escolas da capital paulista. O sociólogo Francisco Dias contou como foi implementada a proposta curricular nas 19 Unidades de Internação Provisória da Febem, onde as crianças e os adolescentes passam de um a 45 dias. A experiência foi tão satisfatória que, para este ano, há a proposta de o projeto se estendem para as unidades de internação, numa demanda que nasceu da própria instituição. ‘Onde há um ser humano, a educação é possível.” Partindo desse pressuposto, Dias ajudou a elaborar uma proposta curricular para garantir aos meninos da Febem o direito à educação, assegurado no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Segunda, 20/01/03 – Educadores defendem a educação integral no 2º FME
O tema da conferência “A cidade e a educação” foi também debatido nas mesas promovidas pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária). Com o tema “Educação Integral: articulação de espaços e projetos de aprendizagem”, foi aberto o debate da tarde. Em todas as falas ficou claro que a escola sozinha não é capaz de dar conta das demandas da sociedade atual, é necessário haver outros espaços de educação, a partir do conceito de unir cidade e educação. “A educação integral pode ser viabilizada com a articulação de escola e comunidade. O conceito de cidade educadora passa pela necessidade de reconhecê-la como sujeito e espaço de ensino-aprendizagem”, afirmou a coordenadora da mesa, Maria do Carmo Brant de Carvalho, do Cenpec. Eduardo Marino, da Fundação Vitae, lembrou que o conceito de educação integral vem desde o educador baiano Anísio Teixeira e frisou a importância de haver articulação entre escolas e iniciativas da sociedade para proporcionar a educação integral, com espaço para outras atividades, incluindo as de lazer. Nilton Fischer, consultor técnico do programa Crer para Ver (Fundação Abrinq e Natura), acredita que a comunidade deve intervir nas políticas públicas da educação, mas que as demandas devem partir das escolas. Isa Guará, do Cenpec, ressaltou que o direito à educação integral está na legislação e que uma grande reivindicação para a melhoria da qualidade do ensino público é a ampliação da carga horária das aulas. Para ela, a educação deve ser integral, mas não necessariamente na escola. “Há experiências desastrosas, com escolas burocráticas em período integral. É preciso diversificar as atividades para que os alunos sintam prazer”, disse. “Além disso, deve haver ações complementares à escola como estratégia de superação do fracasso e da evasão escolar”, afirmou. Tais ações, geralmente executadas por ONGs e movimentos sociais, geram também tensões entre a escola e o terceiro setor. “Nós sabemos da incompletude das escolas e também das ONGs, mas, se queremos uma educação integral, temos que achar o ponto de convergência entre elas”, defende. Algumas possibilidades, segundo ela, são estabelecer uma parceria efetiva com ação planejada, valorizar a escola e abri-la para a contribuição da comunidade e executar formação conjunta de professores.

Segunda, 20/01/03 – Cidade e Educação é tema da 1ª Conferência
A cidade e a educação foi o tema da 1ª conferência, realizada com a presença dos educadores Marina Subirats, presidente da Comissão de Educação e Cultura da Prefeitura de Barcelona (Espanha), de Ramón Moncada, da Colômbia, e Steve Stoer, de Portugal. A coordenação da mesa foi feita por Pablo Gentili, coordenador do Observatório Latino-americano de Políticas Educacionais (Brasil). Marina destacou a importância de outros agentes socias no provesso educativo. “A escola não pode com tudo”, disse. Para ela, a escola está extremamente burocrática, não é um espaço para se ensinar valores, hábitos, pois só privilegia o saber científico. Ela propõe um tipo de escola que rompa a divisão entre o aprendizado teórico e o prático. Para ela, a cidade e a comunidade devem atuar em conjunto com a escola para garantir que os princípios éticos sejam vivenciados integralmente. Além da conferência da manhã, durante todo dia, acontecem diversas atividades na cidade dentro da programação simultânea. As atividades completas do Fórum Mundial de Educação estão disponíveis na página www.forummundialdeeducacao.com.br

Segunda, 20/01/03 – Brasil e Argentina iniciam intercâmbio na Educação
O ministro da Educação, Cristovam Buarque, e o prefeito de Buenos Aires (Argentina), Anibal Ibarra, acertaram hoje, em Porto Alegre (RS), no FME, o início de um intercâmbio de professores para o ensino das línguas Portuguesa e Espanhola nas escolas públicas de Ensino Médio. A convite de Anibal Ibarra, o ministro Buarque vai em abril a Buenos Aires detalhar o formato do intercâmbio, sua duração e o número de professores argentinos que irão ao Brasil e vice-versa. No mesmo encontro, o prefeito Ibarra e o secretário de Educação da Província de Buenos Aires, Daniel Filmius, informaram ao ministro que há dois anos instituíram o Programa Bolsa-Escola nos moldes desenvolvidos por Cristovam Buarque no Distrito Federal entre 1995 e 1998, no valor de um salário mínimo. A novidade do Bolsa-Escola implementado por Ibarra e Filmius é que ele é destinado aos alunos das escolas públicas do Ensino Médio, no qual a evasão é muito alta. O primeiro filho matriculado, explicou o prefeito, recebe do governo 50 pesos, e o segundo filho, 25 pesos. (Ionice Lorenzoni, do MEC)

Domingo, 19/01/03 – Ministro quer criar proposta de educação para o campo
O ministro da Educação, Cristovam Buarque, afirmou, em entrevista coletiva concedida à imprensa na abertura oficial do Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, que o governo vai criar uma proposta de educação para o campo. “Não dá para reproduzir lá os mesmos modelos das grandes cidades, a realidade do campo é outra e tem que ser respeitada”, disse o ministro.
Buarque defendeu também que o combate ao analfabetismo seja feito por meio de parcerias entre os governos, as universidades e a rede pública de ensino. “Mas qualquer cidadão que saiba ler e escrever e queira ensinar será aceito”, completou. A idéia é de que todos devem se unir para erradicar o analfabetismo.
Questionado sobre o fim do Enem e do Provão, Buarque afirmou que os sistemas de avaliação continuarão e elogiou o ex-ministro Paulo Renato de Souza por ter implantado os sistemas atuais. “Eu sou tão a favor da avaliação que acho que o sistema de avaliação tem de ser avaliado”, disse.
O Bolsa-escola também continua e deve subir para R$ 65, sendo R$ 45 do governo federal, R$ 10 do Estado e R$ 10 do município. Como Bolsa-Escola e uma escola mais agradável, o ministro acha que dá para erradicar o trabalho infantil (incluindo a prostituição), uma das metas do governo Lula.

Domingo, 19/01/03 – 70 países participam do evento
Cerca de 20 mil educadores de 70 países e representantes de mais de mil entidades ligadas à Educação participam do 2º Fórum Mundial de Educação, de domingo, 19, a quarta-feira, 22, em Porto Alegre (RS). Ministros de quatro países, Brasil, Espanha, São Tomé e Príncipe e Bélgica, também estão no evento, que este ano traz como tema Educação e Transformação: a educação pública na construção de um outro mundo possível.
O Fórum Mundial da Educação nasceu da articulação de educadores, estudantes, entidades sindicais, movimentos sociais, governos, organizações não-governamentais, universidades e escolas. Os mais de 200 conferencistas e debatedores convidados representam todos os continentes, garantindo diversidade de gênero, etnia, raça, culturas e representatividade social, política e científica. De acordo com a Unesco, há no mundo 875 milhões de analfabetos, dos quais 63,7 são mulheres; e há 110 milhões de crianças de seis a 12 anos sem escola. Transformar essa realidade e implementar políticas públicas são objetivos do Fórum.
O Comitê de Organização do Fórum Mundial de Educação é composto por representantes de mais de 90 entidades de representação local, regional, nacional e internacional.
No ano passado, o Primeiro Fórum Mundial de Educação, em Porto Alegre, aprovou a Carta do Fórum, ressaltando o conceito da Educação pública como direito social inalienável.

O site indicado neste texto foi visitado em 20/01/2003

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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