Professores no limite

Professores no limite

As diversas pressões enfrentadas na escola estão levando os educadores a adoecer. Entenda o estresse e saiba quais são as atitudes que podem ajudar a lidar com ele.


Cida de Oliveira
Revista Pátio

Derivado do latim, o termo estresse já teve conotação de adversidade ou aflição. Depois ganhou o sentido de força, pressão ou esforço. Mesmo sendo antigo, somente no século XX os estudiosos começaram a investigar seus efeitos na saúde física e mental. O estresse surge como uma conseqüência direta dos persistentes esforços adaptativos da pessoa à sua situação existencial. Nem sempre é um fator de desgaste emocional e físico, tratando-se de um mecanismo natural de defesa do organismo. Recebem-se os estímulos internos e externos através do sistema nervoso e, dependendo da maneira como esses estímulos são encarados, eles podem ou não provocar alterações psicológicas e biológicas negativas e levar ao estresse crônico, este, sim, prejudicial.

O estresse, portanto, é um agente neutro, capaz de tornar-se positivo ou negativo conforme a percepção e a interpretação de cada pessoa. Tanto o positivo (eustresse) quanto o negativo (distresse) causam reações fisiológicas similares: mãos e pés tendem a ficar suados e frios, a freqüência cardíaca e a pressão arterial podem elevar-se, assim como haver aumento da tensão muscular. No nível emocional, porém, as reações são diferentes. O eustresse motiva e estimula a pessoa a lidar com a situação. O distresse, ao contrário, acovarda o indivíduo, intimidando-o e levando-o a fugir da situação. As suas emoções e a sua saúde física dependem quase que exclusivamente da sua interpretação do mundo exterior. “Quanto mais você entender as pressões e situações que o influenciam, melhor se adaptará às exigências”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi (foto ao lado), presidente no Brasil da International Stress Management Association, entidade que estuda o estresse.

Um estudo do sindicato dos professores da rede estadual paulista, a Apeoesp, apontou que 46% desses profissionais estão estressados. “Os professores têm mais riscos de sofrimento psíquico de diferentes matizes, e a prevalência de transtornos menores é maior entre eles quando comparados a outros grupos”, afirma Ada Ávila Assunção, doutora em ergonomia do departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Ada é co-autora de uma análise sobre os motivos de afastamento de professores por razões de saúde. Ela e seus colegas estudaram 16.556 relatórios de atendimentos feitos pela gerência de saúde do servidor e perícia médica da prefeitura de Belo Horizonte (MG) no período entre abril de 2001 e maio de 2003.

A médica conta que foi possível descobrir o número de afastamentos, mas não o de professores afastados. A certeza, no entanto, é que os transtornos psiquiátricos ficaram em primeiro lugar entre os diagnósticos que motivaram as licenças médicas. “Os dados não expressam os problemas de saúde e muito menos os associam a problemas no trabalho. Porém, tais fatores coincidem com os encontrados em outras pesquisas científicas”, diz a especialista.

Dupla Jornada


Em Vitória da Conquista, no interior baiano, pesquisadores da Universidade Federal da Bahia estudaram a saúde dos professores da Pré-Escola ao Ensino Médio da rede particular. No estudo, 60% dos entrevistados relatavam que seu maior problema era o cansaço mental e 52% trabalhavam em mais de uma escola. Segundo Fernando Martins Carvalho, médico epidemiologista ocupacional do departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, a situação é tão séria que a instituição criou um grupo de pesquisa que está dando prosseguimento aos estudos.

Em Sergipe, o sindicato dos professores fez um levantamento que revelou que 25% dos educadores são afastados da sala de aula temporária ou definitivamente por problemas emocionais, como estresse, depressão e esgotamento mental. “Em alguns casos mais graves, são afastados por incapacidade mental”, diz Joel Almeida, presidente da entidade. Outro fato grave, segundo o sindicalista, é a inexistência de legislação específica para esse tipo de doença ocupacional. No serviço público, o profissional geralmente passa por diversos transtornos para conseguir ser avaliado por uma junta médica. Outro levantamento do sindicato sergipano revelou que apenas 7% dos professores com recomendação de licença médica conseguiram tal benefício no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Em Tocantins, uma pesquisa mostrou que 42,5% dos professores declararam já ter sofrido algum problema de saúde, sendo que apenas 14% conseguiram licença médica.

Problema Oculto


Se, por um lado, ocorre a dificuldade de diagnóstico e de licença para o tratamento, por outro, há professores que relutam em comunicar que estão estressados. Em alguns estados, existe a chamada licença-prêmio, benefício que consiste em até três meses de férias para os efetivos que completam cinco anos sem faltar. Quem se afasta por doença, mesmo com atestado médico, perde o direito.

Roberto Leão (foto ao lado), secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), diz que a situação é grave, embora ninguém queira tocar no assunto. “Nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, é impossível tirar licença para se tratar. Há localidades em que, para usufruir do direito à saúde, o professor é quem deve arranjar substituto e tirar o salário do próprio bolso”, afirma. “Assim, o jeito é trabalhar, mesmo doente.”.

Já os professores paulistas admitidos em caráter temporário, os ACTs, que correspondem a metade de toda a rede, também temem a comunicação pelos prejuízos que pode trazer em caso de aprovação em um concurso. “A doença é acompanhada por psiquiatras do Hospital do Servidor Público Estadual. Não adianta nada passar nos exames escritos e ser reprovado no exame médico”, diz José Roberto Guido, secretário adjunto de comunicação da Apeoesp. “É mais um caso em que o profissional prefere trabalhar doente.”.
Segundo o dirigente sindical, o estresse afeta igualmente professores do Ensino Infantil, Fundamental e Médio. E, exceto iniciativas isoladas em algumas universidades, não há um programa de prevenção e tratamento extensivo a toda a categoria no país. Como se não bastasse o fato de o magistério reunir condições desfavoráveis de trabalho, baixos salários, indisciplina e violência, observam-se ainda questões de ordem arquitetônica que exigem ainda mais do professor durante a aula.

A arquiteta Maria Lucia Oiticica, que pesquisa inteligibilidade em sala de aula na Unicamp, diz que praticamente todos os estabelecimentos escolares negligenciam a acústica desses espaços. Isso afeta a voz e leva ao estresse dos professores, além de prejudicar o nível de compreensão dos alunos. Maria Lucia é co-autora de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Alagoas em duas escolas de Natal, no Rio Grande do Norte, uma pública e outra particular. Ambas revelaram problemas acústicos.

Para se ter uma idéia, um ruído de 55 decibéis, limite indicado para pátios escolares e regiões residenciais urbanas, pode levar ao estresse leve. “Este excita o sistema nervoso central autônomo simpático, produzindo desconforto auditivo, maior vigilância e agitação, levando à perda de concentração”, explica Maria Lucia. De acordo com a pesquisadora, tanto as escolas públicas quanto as privadas têm altos índices de pressão sonora, o que é considerado insalubre.

Invista na Prevenção
Algumas atitudes podem ajudar a evitar os efeitos negativos do estresse:
  • Tenha sempre momentos de lazer
  • Reconheça seus próprios limites
  • Saiba dizer não
  • Pratique atividades físicas prazerosas regularmente
  • Tenha sempre em mente o valor social do seu trabalho, independentemente do salário
  • Organize suas atividades por ordem de prioridade; não queira fazer tudo de uma vez só
  • Crie oportunidades para reciclagem profissional
    Identifique os fatores estressantes
  • Estabeleça prioridades pessoais e profissionais
  • Tenha a certeza de que você é capaz de enfrentar os problemas
  • Organize o ambiente para minimizar a falta de recursos, como diminuir a escassez de material didático
  • Espreguice-se durante o dia
  • Tenha mais objetividade em seu dia-a-dia
  • Procure ajuda quando tiver problemas de saúde
  • Alimente-se de forma saudável, evitando gorduras e massas em excesso

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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