Produção dos alunos na rede


O mundo é aqui

Publicar o trabalho dos alunos na Internet torna a aprendizagem mais significativa, pois permite que a produção seja vista e apreciada por muitas pessoas de fora do espaço escolar


Jaciara de Sá

Quando a turma ouviu do professor que o projeto sobre globalização deveria ser apresentado em um programa de computador (Power Point), foi difícil conter a empolgação.

Dias depois, a euforia tomou conta da classe. “Sugiro que o trabalho seja publicado no site da escola”, anunciou Edinilson Q. dos Santos, titular de Geografia e responsável pela atividade.

“Tudo havia mudado. Era a possibilidade de muita gente saber o que tínhamos produzido. O mundo todo poderia ver”, lembra com carinho Marcel B. Pinto de quando realizou, com outros alunos, o estudo sobre resistência à globalização.

O trabalho poderia ter virado um livro, sido publicado em forma de revista ou jornal, mas o alcance seria menor e o gasto com gráfica e papel estava fora de cogitação. A Internet foi o veículo ideal para a produção que foi transformada no Atlas Virtual. E os desdobramentos do estudo não pararam por aí. O professor de Geografia do ano seguinte, Clodoaldo G. A. Júnior aprofundou o tema. Os alunos, então no segundo ano do Ensino Médio, aperfeiçoaram o Atlas e o transformaram no vídeo Resistências à Globalização, para nova inserção na Internet e apresentação na Semana de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

“A possibilidade de os alunos se expressarem, tornarem suas idéias e pesquisas visíveis, confere uma dimensão mais significativa aos trabalhos. A escola se abre para o mundo, o aluno e o professor se expõem, divulgam seus projetos e pesquisas, são avaliados por terceiros, positiva e negativamente”, afirma José Manuel Moran*, especialista do MEC em avaliação de cursos a distância.

Tanto o Atlas quanto o vídeo podem ser vistos no site da Escola Estadual Condessa Filomena Matarazzo, que fica em Ermelino Matarazzo, bairro da periferia de São Paulo. A escola não tem apenas um endereço na web, mas também um núcleo de cinema, TV, jornal e um estúdio de rádio, com transmissão para a comunidade pela FM das 8h às 22h. Tudo conseguido e tocado pelos alunos sob a coordenação de um funcionário pouco comum nas escolas: o coordenador de projetos, Wagner Batista.

Mudança de “hábito”

A “Filó”, como é carinhosamente chamada, é uma das 20 mil escolas que têm sala de informática, das 170 mil públicas no país. Mais ainda: está entre as 10 mil que possuem acesso à Internet, segundo informações do presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), ligado à Casa Civil, Sérgio Amadeu da Silveira. Essa situação, porém, não garante o pleno uso dos computadores: as escolas ainda têm que conviver com problemas técnicos e de acesso à rede mundial. Isso faz com que muitos docentes desanimem. Tanto que apenas dois, entre mais de cem docentes da “Filó”, solicitaram a publicação dos trabalhos dos alunos no site. Um dos muitos desafios do coordenador de projetos Wagner é incentivar a mudança de hábito dos professores para que, além de retirar, também destinem conteúdo à Internet.

Para que os estudantes pudessem expor os resultados de um trabalho, fizessem e recebessem comentários, a professora de Português Maria Teresa B. da Silva, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Des. Amorim Lima, de São Paulo, criou um blog em 2004. A idéia era que os alunos da 8ª série escrevessem seus comentários, ilustrações e até o entendimento sobre a obra de Machado de Assis, Dom Casmurro?.

Os blogs, como o da professora Maria Teresa, fotologs e videologs são ambientes mais fáceis de usar, atualizar e que permitem a participação de internautas, além dos sites. Eles são usados por professores que desejam algo mais personalizado ou querem que os estudantes se responsabilizem pela publicação de seus conteúdos.

“Quando focamos mais a aprendizagem dos alunos do que o ensino, a publicação da produção deles se torna fundamental”, diz José Moran. Segundo o especialista, ao estimular essa publicação na Internet, a escola contribui para divulgar as melhores práticas, ajudando outras a encontrar seus caminhos, além de agilizar as trocas entre alunos, professores e instituições. “A escola sai do seu casulo, do seu ‘mundinho’, e se torna uma instituição onde a comunidade pode aprender contínua e flexivelmente.”

Função social da escola

Transmitir o conhecimento acumulado pela humanidade e preparar o aluno para a sociedade, com a expectativa de transformação da realidade, são algumas das funções sociais da escola. Sob esse aspecto, a publicação da produção dos alunos na Internet pode ser uma aliada.

“Quando falamos em papel social da escola, estamos entendendo que a escola prepara o aluno para produzir conhecimento e divulgá-lo de forma que aquele conhecimento seja útil para outras pessoas, outros grupos, outras realidades. É um modo de socializar o conhecimento”, explica Zilá A. P. Moura e Silva**, ex-professora de Didática e Prática de Ensino da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A socialização na Internet também pode acontecer por meio de ferramentas colaborativas como fóruns e ambientes virtuais de aprendizagem. O EducaRede disponibiliza esses recursos e outros, como a Galeria de Arte, onde é possível expor imagens e textos de acordo com um tema. Criado para o aprimoramento e a reflexão da produção escrita, o ambiente da Oficina de Criação conta com um mediador que tece comentários sobre o texto do aluno/participante para que o estudante reflita sobre o processo da linguagem. O alcance, a agilidade e a temporalidade seriam os grandes diferenciais de uma oficina virtual.

Para a professora Stela C. Bertholo Piconez, livre-docente da Faculdade de Educação da USP (FEUSP),*** a utilização da Internet na escola revela as potencialidades do trabalho colaborativo, em rede, habilidade que em sua opinião deveria ser a prioridade número um do ensino. “A velocidade com que ocorre a socialização do pensamento e das idéias do aluno, o contato com idéias diversificadas e a sincronia de interação por chats ou fóruns têm conseqüências para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da própria democracia (convivência com as diferenças) e do trabalho cooperativo.”

Auxílio na avaliação

Para Stela Piconez, uma outra grande vantagem refere-se à possibilidade de o professor “aprofundar o modo pelo qual os estudantes constroem conhecimentos. A publicação (postagem) dos debates e opiniões dos alunos permite que sua avaliação pelo professor forneça aos alunos o apoio e o incentivo necessário à ampliação e ao aperfeiçoamento de suas aprendizagens”. A livre-docente explica que a atividade reflexiva é ampliada e incentivada com a publicação na Internet dos conhecimentos construídos pelos alunos. Numa situação de colaboração, alunos estabelecem e fortalecem suas habilidades de auto-avaliação, compartilham a auto-aprendizagem e melhoram sua capacidade de reflexão. “E pela perspectiva do professor, a publicação e a dinâmica dos debates dos alunos permitem aperfeiçoar o projeto pedagógico do curso e atender as reivindicações e expectativas dos alunos. E o interessante é observar também que os alunos assumem a responsabilidade pelo seu próprio caminho de aprendizagem.”

A avaliação dos alunos da 8ª série de 2005 pela professora de Português Marli Fiorentin vai contemplar a participação deles no blog criado por ela. Marli leciona no Colégio Estadual Pe. Colbachini, em Nova Bassano (RS) e está trabalhando a relação entre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e a falta de chuva no Estado. Neste ano, aqui no meu Estado, vivemos uma situação difícil, que é a seca. A vida de todos acabou sendo afetada com a alteração do clima”, relata.
A idéia do projeto, que está apenas começando, é fazer uma ponte entre a ficção, por meio de obras literárias como o livro e filme Vidas Secas, com a realidade observada na localidade ao redor e a do Nordeste. “Como é minha primeira experiência com blog, preciso concentrar esforços não apenas na prática, mas também na reflexão sobre essa prática para que seja bem sucedida e possa estimular futuros desdobramentos”, explica.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 30/03/2005

* Prof. dr. José Manuel Moran é coordenador de Ensino a Distância da Faculdade Sumaré, professor de pós-graduação da Universidade Bandeirante e professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP. Página pessoal: www.eca.usp.br/prof/moran. E-mail: jmmoran@usp.br

** Zilá A. P. Moura e Silva é doutora em Didática pela Faculdade de Educação da USP. Atuou como professora de Ensino Fundamental I, foi coordenadora pedagógica e diretora de escola pública. E-mail: zilamourah@uol.com.br

*** Profª. drª Stela C. Bertholo Piconez é livre-docente da Faculdade de Educação da USP nos cursos de graduação (licenciaturas) e pós-graduação, além de coordenadora científica do NEA (Núcleo de Estudos de Educação de Jovens e Adultos e Formação Permanente de Professores). E-mail: spiconez@uol.com.br

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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