Por trás das câmeras


Por trás das câmeras


Projeto de produção de vídeo estimula nos alunos a criação e a análise crítica
dos meios de comunicação

Jaciara de Sá e Rosane Storto

 

Uma câmera de vídeo para 24 alunos. Pode parecer pouco, mas foi o suficiente para que alunos de 3ª e 4ª séries da Escola Básica Municipal Vitor Miguel de Souza, de Florianópolis (SC), produzissem “Toda Criança Merece”, um documentário de 40 minutos sobre os direitos das crianças e dos adolescentes. A produção foi resultado do projeto “Cidadania, Infância e a Estética do Olhar”, desenvolvido em 2004 e 2005 pela professora Ana Lúcia Machado.

Tudo começou quando os estudantes assistiram ao filme “Mágico de Óz” para participar de uma pesquisa de doutorado, da Universidade Estadual de Santa Catarina. Interessados, pediram para a professora realizar um trabalho sobre cinema na escola. Ana Lúcia aceitou o desafio e elaborou o projeto que, em 2005, foi um dos vencedores do Prêmio Professores do Brasil, parceria entre o Ministério da Educação e as Fundações Bunge e Orsa.

O uso do audiovisual como recurso didático é comum nas escolas, mas geralmente se restringe a sessões de vídeo e discussão sobre determinado tema abordado no filme. É o que mostra, por exemplo, uma enquete que o EducaRede publicou para saber como os recursos audiovisuais são utilizados. O resultado mostra que 46% dos internautas que votaram “costumam assistir a filmes em aula”. Por isso, a novidade de projetos como o da professora Ana Lúcia é colocar os alunos no papel de produtores.

Por trás das câmeras, as crianças desmistificam os meios de comunicação

E qual a importância de produzir vídeo nas aulas? Para o professor Adílson Odair Citelli, professor da Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a criança precisa entender quais são as lógicas produtivas da TV, do videogame e/ou do cinema para poder desmistificá-los. “Ela vai aprender que para produzir vídeo tem uma porção de coisas a fazer antes de chegar lá. Inclusive tem palavras que precisam ser escritas, tem roteiro, argumento, diálogo. Ninguém vai produzir uma telenovela só com imagem, nem filme. É, inclusive, uma maneira de trabalhar e reconfigurar o signo verbal, de requalificá-lo, de revalorizá-lo”, explica Citelli.

Participando do processo de produção, a criança também passa a compreender que o mundo contemporâneo é repleto de signos audiovisuais e verbais que se misturam, o que Citelli define como “hibridização de linguagens”. Essa compreensão permite a análise crítica dos meios de comunicação, mas também a possibilidade de constituir sentidos. “Na hora em que ela vai descobrindo diferentes tipos de signos, que pode fazer diferentes composições com esses tipos, isso dá uma liberdade criativa, dá uma liberdade de percepção das coisas, dá liberdade para a produção de coisas, descobertas”, completa Citelli.

Gravando

Antes de produzirem o vídeo, os alunos da escola de Florianópolis fizeram pesquisa sobre cinema e assistiram aos filmes “O Gordo e o Magro”, “Tempos Modernos”, “Central do Brasil” e “Expresso Polar”. Foi então que surgiu a idéia de tratar sobre os direitos das crianças e dos adolescentes. “No filme Central do Brasil, por exemplo, perceberam a questão da banalização da pobreza”, explica a professora Ana Lúcia.

Os estudantes receberam cópias do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e começaram a analisá-lo nas tarefas de casa, a partir dos filmes assistidos e de notícias publicadas em jornais locais. “Eles tinham de ler os artigos do ECA abordados nas reportagens e nos filmes e trazer as dúvidas e observações para discutirmos na sala de aula”, conta a professora.

Alunos saem pela cidade para capturar imagens

Após a análise do ECA, as crianças começaram a produzir o filme. Os alunos foram divididos em grupos e cada um ficou responsável pela produção: roteiro, filmagem, edição etc. Com a câmera em mãos, começaram a gravar pontos turísticos e o bairro onde moram, pensando sempre na temática do filme. Também trabalharam como atores.

O roteiro foi dividido em temas: “Criança e Cultura”, “Criança e Cidadania”, “Criança e Escola” e “Criança e Brincadeira”. “Foi bem interessante porque, criando e produzindo, os alunos aprenderam a conhecer melhor a mídia, como as imagens são produzidas, o porquê da escolha dessas imagens, e hoje são mais críticos em relação ao assunto”, explica a professora.

O documentário “Toda Criança Merece” já foi exibido na Feira do Livro de Florianópolis, no auditório da Universidade Estadual de Santa Catarina, na Feira Cultural da EBM Vitor Miguel de Souza e também em uma escola na Itália, cujo nome a professora não se recorda. Ana Lúcia conta que o resultado foi tão positivo que as crianças estavam dispostas a produzir outro filme.

Para desenvolver o trabalho, Ana Lúcia foi atrás de livros sobre o assunto e de apoio para a parte de edição. Ela começou pesquisando uma bibliografia sobre o tema “Cinema e Educação”, com o auxílio da doutoranda Mônica Fantin, da Universidade Estadual de Santa Catarina. Elas encontraram no livro “Cinema, Uma Janela Mágica”, de Marialva Monteiro e Bete Dulara, muitas informações que auxiliaram no desenvolvimento do projeto.

Posteriormente, como não tinham muitas possibilidades tecnológicas para editar o material gravado, o grupo contou com o apoio de um voluntário. João Cláudio de Bernardo auxiliou os alunos a digitalizar as imagens gravadas em câmera analógica e, então, fazer a edição em um computador.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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