Olhar jovem na Rio+10

Com lenço e documento

Conheça a adolescente que vai representar os jovens brasileiros na conferência mundial sobre meio ambiente em Joanesburgo, a Rio + 10

Por Beatriz Levischi

 

Se você acha que não tem nada para aprender com uma adolescente de 15 anos, está lendo a matéria certa. Sua opinião em relação ao jovem brasileiro vai mudar assim que você conhecer a paulistana Isis de Lima Soares. Graças a ela, o Brasil está levando ao maior evento ambiental do planeta um grupo de representantes da juventude do país – o pedido foi feito diretamente ao presidente Fernando Henrique Cardoso durante um evento preparatório para a Conferência Mundial – Rio+10, que começa dia 26 de agosto, em Joanesburgo, África do Sul.

Extrovertida, politizada e extremamente simpática, Isis mostra uma articulação difícil de se ver… em adultos. Logo no início da entrevista já foi roubando a cena e perguntando o que a repórter fazia da vida, como era o EducaRede e outras mil coisas.

Mãe psicopedagoga e pai filósofo são os “culpados” pela militância que começou cedo. Aos oito anos, ela e mais nove crianças iniciaram o projeto “Cala-boa já Morreu – Porque nós também temos o que dizer”, sob a coordenação da educadora Gracia Lopes, sua mãe. Em formato de programa de rádio, transmitido por uma emissora comunitária do bairro do Butantã, as crianças tratavam de temas do cotidiano, atuando como locutores e produtores, atendendo os ouvintes e ainda cuidando da parte técnica.

Mas nem todos os créditos devem ser atribuídos à família na opinião de Isis. “É claro que ela tem uma grande importância, senão, não teria feito contato com todas as pessoas que conheço hoje. Mas foi justamente por meio desses contatos que tive acesso a outros tipos de pensamentos. Fora o fato de que sempre procuro ler as coisas. É um processo”, explica de forma bem didática.

Encontro com o presidente

Cala-boca não morreu

O projeto “Cala-boa já Morreu – Porque nós também temos o que dizer” começou em 1995. Hoje reúne em torno de 20 crianças e jovens, de sete a 16 anos, tem sede própria e está prestes a se tornar uma organização não governamental.

Há a previsão de que oficinas de rádio, jornal, TV e Internet aconteçam no espaço e que outros jovens possam participar e levar a idéia para suas escolas.

Quem quiser contribuir para transformar a futura ONG em um centro de formação de protagonistas juvenis, pode entrar em contato com a Ísis. “Queremos juntar uma galera que pense diferente”, anima-se a jovem.

O programa é transmitido pela Rádio Comunitária Guadalupe (91,5), aos domingos, das 16h às 18h. Os interessados podem agendar uma visita ao estúdio e fazer o programa junto com a turma.

A primeira entrevista que fez sobre meio ambiente, com Samuel Barreto (coordenador do núcleo União Pró-Tietê, da ONG S.O.S. Mata Atlântica) para o programa “Cala a Boca”, rendeu uma amizade duradoura. O ambientalista acabou virando freqüentador assíduo do estúdio das crianças e foi quem colocou Isis cara a cara com o presidente Fernando Henrique. “Barreto é de certa forma o responsável por eu estar fazendo todas essas coisas até agora; foi o meu primeiro contato na área ambiental”.

Depois de Barreto, veio Mário Mantovani (diretor da S.O.S Mata Atlântica), que indicou Ísis para participar do painel “Diálogo de Gerações”, realizado no Rio de Janeiro, em 23 de junho, durante o Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Sustentável: de Estocolmo a Joanesburgo. “O Mário sempre me incentivou e me colocou nos lugares”, orgulha-se.

O referido painel, que reunia também as gerações de Estocolmo e da ECO 92, foi encerrado pela adolescente em tom crítico, por causa da ausência dos companheiros de mesa, devido ao atraso do evento: “O nome desse encontro não é ‘diálogo de gerações’? Cadê as outras gerações? Onde estão as pessoas que nós ouvimos tão pacientemente?” – apontando a ausência de alguns ativistas. Logo após o evento, haveria um jantar com presidente Fernando Henrique Cardoso e Isis estava entre os convidados. A garota logo percebeu a oportunidade de abordar a importância dada aos jovens nos eventos ditos oficiais.

Durante a cerimônia, foi convidada por Fábio Feldmann, coordenador do grupo brasileiro para a Rio + 10, a dizer algumas palavras ao presidente. A mocinha não teve dúvida. Reivindicou a necessidade de o país enviar representantes jovens na delegação brasileira de Joanesburgo, sob o argumento de que não há como discutir desenvolvimento sustentável sem a participação dos maiores interessados no assunto: o futuro do país.

“A questão da ausência de jovens já tinha me incomodado, mas a idéia da reivindicação surgiu na hora”, conta. De imediato, o presidente confirmou a idade Ísis ao evento mundial e prometeu estudar a possibilidade de convidar outros jovens. No dia seguinte, ela oficializou o pedido para a imprensa, o presidente da Jordânia, o primeiro ministro da Suécia e o presidente da África do Sul.

De malas prontas

Às vésperas da viagem, Ísis confessa que não sabe direito como vai se desenrolar o evento, mas mostra que está por dentro da pauta. “O assunto principal a ser discutido é a avaliação do que aconteceu na ECO 92 e o fato de o Brasil ter conseguido terminar a agenda 21, nesse último ano”, explica. A sua proposta para o grupo de jovens é mais modesta, mas não menos importante: “apresentarei modelos de ações juvenis realizadas em São Paulo e uma reflexão sobre a forma como a educação ambiental ainda é trabalhada em muitas escolas, sem integração com a comunidade”.

Na sua opinião, a questão ambiental mais importante para o país é a exploração da Mata Atlântica, ou melhor, dos 7,3% que restaram da floresta mais rica em biodiversidade do mundo. Para ela, o desenvolvimento sustentável está na pauta dos assuntos que merecem mais cuidado atualmente: “O uso racional da água, a utilização de fontes alternativas de energia e a questão agrícola, trabalhada de maneira irregular, devem ser pensados com prioridade”.

Quando o assunto é mundo, temas como alimentos trangênicos, a exploração de recursos naturais para uso médico/farmacêutico e o aquecimento global do planeta são a “bola da vez”. “Estados Unidos, que não assinou o protocolo de Kyoto, e China são os países que têm maior participação e interesse nas decisões”, enfatiza Isis.

Bonito discurso. Mas não é tão simples assim ser engajada. “Na escola, os colegas são desinteressados, a direção não é aberta ao diálogo e os professores têm dificuldade em aceitar que a gente aprende também um monte de coisas fora da sala de aula”, lamenta.

Assim fica difícil ter amigos, não?! “Meus verdadeiros amigos são os do ‘Cala-boca’. Trata-se de um projeto de amigos, que também nos faz aprender muito. E não rola competição. Eles estão envolvidos com essas questões da mesma forma. Há outros integrantes que se destacam, além de mim”, explica.

Presente do país

Por tudo isso, Ísis prefere ser alguém que não se destaca em classe: “Eles sabem o que eu faço porque preciso explicar as faltas e porque levo pessoas para dar palestras, mas, em geral, procuro ficar na minha”. A coisa muda de figura no curso de dança de salão, em que é monitora. Trata-se de uma paixão cultivada há seis anos e que, segundo ela, ainda ajuda a emagrecer.

A estudante também participou do Projeto Jovens da Floresta, da ONG Saúde e Alegria, que montou uma agência de notícias ambientais feita por jovens no evento Amazônia br, em São Paulo. (ver link abaixo)

Quando questionada sobre quem admira, a menina não titubeia: “Minha mãe. O jeito como ela trabalha, como lida com as coisas, como sabe ouvir e dar oportunidade às pessoas é admirável. Ela é muito aberta ao diálogo. Nós dividimos os mesmos ideais”, sorri.

Na pergunta oposta, a dúvida toma conta: “Para quem eu daria um zero!? Ai meu Deus!… Eu nunca pensei nisso… Tem as pessoas que eu não gosto… Que pergunta difícil. Já sei. Não ‘tiro o chapéu’ para quem não percebe que quando se utiliza os recursos naturais de forma egoísta e irresponsável, está contribuindo com o seu desaparecimento em cinco ou 10 anos. Não pensam nos filhos, nos netos, na sociedade como um todo; só em ter”, desabafa.

Se você chegou até aqui, preste atenção no recado da mocinha: “Legal você se interessar e ter vontade de mudar as coisas com as quais não concorda. Não se esqueça de que somos agentes transformadores da nossa sociedade; temos que fazer algo com a mentalidade de ‘presente do país’, e não o ‘futuro’. Se você tem imaginação, junte-se a um grupo de pessoas. A luta é difícil, mas estou aberta para quem quiser trocar uma idéia.”

Os sites indicados indicados neste texto foram visitados em 13/08/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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