Oficinas contam a história do povo

Oficinas de literatura contam a história do povo

De várias partes do País, alunos e professores da rede pública realizam oficinas literárias virtuais dentro do EducaRede. Só no Ceará, são 128 escolas mobilizadas para revelar a história do Estado.


Por João Luiz Marcondes e Verônica Couto
Revista
A Rede

Quem se cadastrar no EducaRede gratuito e aberto a qualquer interessado poderá acompanhar todos os procedimentos, textos e comentários de 170 oficinas literárias online, atualmente em curso dentro do Portal. Mesmo para quem não tem cadastro, também estão no ar 69 livros virtuais, publicados pelas equipes das oficinas já encerradas. Neste acervo, encontra-se, por exemplo, o Gente que Luta, relato emocionamente dos alunos, alguns na faixa dos 60 anos, do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) de Itaquera, na zona leste de São Paulo. Ou a história das Pedras que Falam, com as lendas que cercam os monólitos de Quixadá, no sertão do Ceará, produzido numa escola pública da cidade.

O EducaRede é um portal educacional, desenvolvido pela Fundação Telefônica para apoiar atividades de professores e alunos, principalmente na rede pública. E a Oficina de Criação literária é uma das suas ferramentas, disponível desde 2002 para qualquer um que queira produzir textos de forma colaborativa. Este ano, foi colocada a serviço do projeto História do Ceará em Rede, uma parceria da Fundação com o governo do Estado, por meio da Secretaria de Educação. São 128 escolas cearenses (numa rede com aproximadamente mil estabelecimentos), mobilizadas na pesquisa e na produção de textos online, até dezembro.

?As oficinas foram anunciadas nos órgãos regionais de Educação, e houve grande mobilização das comunidades e incremento no processo de inclusão digital?, comenta Sílvia Silton, técnica da Secretaria de Educação (CE). Na escola municipal Francisco José de Brito, no Crato, no vale do Cariri, a professora Eleuza Braga escolheu o próprio Francisco José de Brito como tema. Foi político influente até os anos 80 e a primeira diretora do colégio, descobriram os alunos, foi sua mulher, Iara. Segundo a professora, o impacto da oficina sobre os 19 estudantes da sua turma foi fenomenal. ?Além de resgatarem a história local, eles melhoraram a qualidade do texto e aprenderam a fazer uso da opinião?, destaca.

:: Por conta própria

Apesar do sucesso, o projeto não precisou de grandes investimentos. O governo do Ceará desembolsou cerca de R$ 4 mil, para as viagens dos multiplicadores (25 professores foram à Fortaleza conhecer as metodologias da Fundação Telefônica). No Juazeiro do Norte, os alunos escreveram sobre o Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço. Em Barbalha, sul do Estado, sobre as festividades de Santo Antônio, famosas na região. E na homepage do EducaRede, foi destacado o livro Icó, mais de trezentos anos um precioso registro da memória do lugar. ?O projeto possibilitou a inclusão digital de alunos e educadores e o uso pedagógico das tecnologias, um poderoso suporte no trabalho da publicação de um livro virtual?, constata o professor Caubi de Mesquita Bezerra, de uma escola de Sobral, em seu relatório final sobre sua oficina.

Segundo Sérgio Mindlin, diretor-presidente da Fundação Telefônica, quando as oficinas virtuais surgiram, eram abertas apenas pela equipe do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), organização não-governamental que responde pela gestão do Portal EducaRede. As três primeiras experiências foram conduzidas pelo escritor Jorge Marinho. A pedido de um professor do Ceará, contudo, a ferramenta do site recebeu adaptações, no início do ano passado, para que qualquer pessoa pudesse iniciar oficinas autônomas com seus alunos ou colaboradores.

A coordenadora de Educação e Tecnologia do Cenpec, Márcia Padilha, explica que há muitos ganhos pedagógicos no registro compartilhado do andamento da oficina, permitido pela Internet. As correções, os comentários, a evolução dos textos, os exercícios de motivação, os relatórios finais de avaliação, tudo fica no Portal para consulta aberta. A metodologia sugere uma duração de cerca de seis semanas para o trabalho e turmas com 30 participantes, em média. O Portal oferece modelos prontos para capa, créditos, e organização dos textos em livros virtuais.

:: Resgate do laboratório

A ferramenta propõe um aprendizado integrado dos recursos do computador e da Língua Portuguesa. No Ceará, além do professor de Português, as oficinas contam com um professor de História. Mas não ocorrem de maneira uniforme em todas as experiências. De acordo com Airton Dantas, colaborador do Cenpec, há casos em que a escola só tem um micro, ou o laboratório de informática está distante, e os mediadores inventam metodologias próprias. Os relatórios, diz ele, apontam dificuldades causadas, muitas vezes, por restrições de acesso aos equipamentos. Numa mesma oficina, um aluno escreve muito, outro, muito pouco. ?É evidente que alguns conseguiram maneiras de se conectar, num telecentro, numa lan house, e outros, não?, diz Airton.

O Cieja de Itaquera, por exemplo, já tinha um laboratório de informática, mas subutilizado, segundo o professor de História Jorge Medrado, que coordenou a publicação de dois livros no Portal do EducaRede. Na oficina, conta ele, uma das causas de desistência foi, exatamente, o medo do computador. Dos 27 inscritos, 14 concluíram o segundo livro. Por isso, a escola criou um ?itinerário de informática?, iniciação ao computador e à Internet para todas as turmas. A mudança já foi efeito da oficina virtual, que recorre no laboratório apenas uma vez por semana. Parte dos exercícios é feita em sala de aula, e, quando os textos estão mais avançados, são inseridos na ferramenta do Portal.

O primeiro livro do Cieja de Itaquera Gente que Luta, conta as histórias de seus oito autores e como conseguiram retomar os estudos. O segundo, Heróis da Resistência, com oficineiros de 17 a 61 anos, tem o mesmo tema ? mas eles escrevem sobre a vida de outros alunos. A turma atual se dedica à história do bairro. Na primeira fase de motivação, Jorge trabalhou com a biografia da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, que se alfabetizou aos 15 anos. Um estímulo para a auto-estima dos alunos, fortalecida, ainda, pela repercussão da publicação online do livro. ?Recebi e-mail de uma professora de Rosário do Sul (RS), que imprimiu o livro e motivou os seus alunos para um novo trabalho.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 25/09/2005

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

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