O desafio da educação inclusiva

O paraíso são os outros

Ao contrário do que dizia o filósofo francês Jean Paul Sartre, “O inferno são os outros”, a educação inclusiva caminha para uma melhor relação com o próximo, à medida que aposta na convivência com o diferente desde os primeiros anos da vida escolar

 

Por Priscila Gonsales
Colaborou: Terezinha Vicente Ferreira

A professora de Educação Física Iza Anacleto já tinha tudo preparado para dar sua primeira aula de dança aos alunos do Ensino Médio em uma escola em São Paulo. Nada melhor do que uma coreografia em roda para promover a integração do grupo de maneira lúdica. A disposição e o entusiasmo de Iza para sua estréia duraram até o momento em que entrou na sala de aula. Seu mundo caiu, literalmente. Assim que pôs os olhos na classe, avistou Adriana (nome trocado), uma jovem com paralisia que andava de muletas. “Essa menina estragou minha aula !”, foi o que veio imediatamente à cabeça da professora que nunca tinha se deparado com uma situação dessas, nem em disciplinas na faculdade.

“Sei que foi preconceito o que tive naquele momento, afinal, sempre trabalhei com corpo, movimento. Quando olhei para a garota, vi um corpo caído, disforme, incapaz”, revela a professora. Só que os pensamentos logo foram invadidos por um enorme sentimento de culpa, pois, sendo negra, Iza conhecia bem a sensação de ser vítima de preconceito, ainda que indiretamente. Mesmo assim, durante várias aulas seguidas, nenhuma idéia lhe ocorreu para que pudesse fazer com que a aluna deficiente física participasse de alguma forma das aulas de dança. Mas a presença constante de Adriana como observadora a incomodava, já que a estudante fazia questão de assistir às performances de seus colegas.

Até que chegou o dia da avaliação. Toda a turma já tinha passado pelos testes, menos a Adriana. “Quando olhei para ela e a vi ali, sentada, cabisbaixa, falei num impulso: você quer fazer a prova?”, conta Iza. A resposta positiva surpreendeu a todos. Mas o espanto maior ainda estaria por vir. “Foi difícil conter a emoção, quando segurei suas mãos para ajudá-la e ela mostrou que sabia a coreografia inteirinha.”

A partir daquele dia, Iza não sossegou até encontrar informações sobre como poderia adaptar suas aulas. Conversou com colegas de profissão, visitou entidades assistenciais, participou de cursos de formação. Hoje, não esconde a satisfação em dizer que é professora de Educação Física, especialista em dança adaptada a partir da técnica Laban, que trabalha com princípios de movimento. “Agora minha dança é inclusiva”, orgulha-se.

Inclusão é Lei

A situação vivenciada por Iza é bastante familiar para a maioria dos professores brasileiros desde que o Ministério da Educação (MEC) divulgou, no final de 2001, uma resolução destinada a fazer com que as normas da Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, 1996, começassem a ser efetivamente cumpridas. Pela legislação, portadores de qualquer tipo de deficiência têm o direito de estudar em escolas comuns, isto é, a chamada educação inclusiva.

Segundo o Censo 2000, 14,5% dos brasileiros têm alguma deficiência sensorial, mental ou física. São 24,5 milhões de pessoas que convivem diariamente, em maior ou menor grau, com o preconceito, além de sofrer privações no exercício de sua cidadania. A política educacional brasileira vem ao encontro de um compromisso mundial firmado na Espanha, em 1994, no qual cerca de 80 países assinaram a Declaração de Salamanca, que proclama a educação inclusiva como combate à discriminação.

Essa nova concepção parte do princípio que crianças normais convivendo com as deficientes desde cedo aprendem a respeitar e valorizar as diferenças. Os números do Censo Escolar mostram que está havendo de fato uma movimentação nesse sentido. Cada vez mais, os alunos que necessitam de atendimento especial nas escolas estão ingressando em classes do ensino regular. Dados do Inep (Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais), no período de 1998 a 2001, mostram que o número de matrículas cresceu 54%, enquanto nas instituições exclusivamente especializadas para portadores de deficiência, o aumento foi de 17%.

Só que esse crescimento não vem sendo acompanhado, na mesma proporção, de um preparo dos docentes. “Isso causa muita angústia e provoca mesmo uma sensação de desconforto”, diz a psicóloga e pesquisadora da Universidade de São Paulo, Célia Horta, autora de uma peça de teatro infantil sobre a temática do deficiente. Célia acredita que não é possível simplesmente matricular os deficientes numa escola comum e forçar sua adaptação, afinal, qual o sentido de obrigá-los a freqüentar um ambiente inapto fisicamente para recebê-los e com professores sem o menor preparo para lidar com suas necessidades.

Se o cotidiano com alunos ditos “normais”, que envolve inúmeras questões como indisciplina, dificuldade de aprendizagem, entre outras necessidades educacionais, já é um grande desafio, imagine conviver com estudantes que não andam, não ouvem, não enxergam, não falam ou não estão em sintonia com o pensamento e as atitudes da maioria das pessoas.

“O grande problema que enfrentamos hoje é a transição de um modelo de ensino integrador para o inclusivo”, disse Marlene de Oliveira Gotti, ex-secretária adjunta de Educação Especial do MEC, em sua palestra no “I Simpósio de Educação Inclusiva”, ocorrido em São Paulo em 2002, no final de abril. “Quando falamos apenas em integração, não estamos pensando em mudança no projeto pedagógico da escola”, explicou. “Nessa visão, o deficiente deve se adaptar a uma estrutura existente. E essa realidade ainda predomina em todo o país.”

No mesmo Simpósio, a professora Maria Teresa Mantoan, coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Educação e Diversidade da Universidade de Campinas, afirmou que a escola como é hoje, “retrógrada e obsoleta” não cabe no esquema da inclusão. “Uma escola que culpa o aluno pela deficiência é algo extremamente descabido, como se um hospital pudesse culpar o doente por sua enfermidade.” Teresa é uma das mais respeitadas estudiosas e incentivadoras da educação inclusiva no Brasil.

Formação do educador

Que a escola tem papel fundamental no processo de inserção do deficiente na sociedade já é consenso e também um direito assegurado por lei. A questão agora é meramente prática, diz respeito ao dia-a-dia do professor em sala de aula. O que fazer, então, quando há um aluno deficiente na turma? Qual a melhor forma de atendê-lo?

Segundo o MEC, ao receber um aluno deficiente, a escola deve entrar em contato com a secretaria de Educação do município ou do estado para que o órgão avalie se existe uma outra escola próxima que já tenha condições de atender deficientes em classes comuns. Se não for possível, deve-se enviar uma solicitação ao ministério para providenciar um curso de formação. Em princípio, são enviadas fitas de vídeo e livros relacionados ao assunto. O MEC disponibiliza os Parâmetros Curriculares sobre o tema e tem planos de ampliar os cursos de capacitação para que toda a rede pública esteja equipada a receber qualquer portador de necessidades especiais.

Enquanto isso não acontece, a dica é buscar apoio junto às entidades assistenciais e ONGs especializadas no assunto. Uma das mais requisitadas é a Associação para a Promoção e Valorização dos Excepcionais (Avape), de São Paulo, que realiza, há um ano, curso de capacitação envolvendo dinâmicas de grupo e simulações, totalmente voltado para a realidade do professor em sala de aula.

Segundo Cristina Bachiega, coordenadora de cursos da Avape, a idéia surgiu em função da experiência da instituição em atendimento clínico do deficiente. “Sabemos que o portador apresenta uma série de dificuldades e habilidades e o educador precisa ter um pouco de sensibilidade para descobrir a melhor forma de atuar”, justifica. E dá um exemplo: “se um aluno não tem o braço direito, trabalhamos o que se pode fazer com o braço esquerdo, ou seja, descobrimos outras possibilidades”. Segundo Cristina, a parte da didática, tecnicamente, não se altera. “É comum as pessoas terem conhecimento, mas não sabem aplicá-la”, diz.

Cristina enfatiza algumas características que o professor interessado na inclusão de deficientes precisa ter. “É importante ser um profissional com um certo grau de submissão, isto é, disposto a dar mais do que receber. Deve também ser bom em relacionamento interpessoal e ter conflitos pessoais mais ou menos encaminhados”, descreve. Como explicação a tantos pré-requisitos, a educadora chama a atenção para o fato de o deficiente ter problemas que não cabe ao professor resolver. “É preciso ter claro os limites sobre até que ponto se pode ajudar e em qual não se consegue interferir.”

Em relação aos conflitos pessoais do profissional, Cristina explica que a preocupação é o sentimento de pena. “Se o professor está enfrentando determinado problema em sua vida pessoal e atende um aluno deficiente físico que pega ônibus, metrô, chega cansado, mas tem enorme disposição em aprender, pode cair numa comparação descabida, achando que o aluno que tem uma deficiência faz melhor que ele – e isso atrapalha o bom desenvolvimento do trabalho.”

 

Os sites indicados neste texto foram visitados em 17/06/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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