Nova atração da Chapada

Novo horizonte na Chapada Diamantina

Conheça a história da professora que deixou a capital baiana para morar na famosa região montanhosa, repleta de belezas naturais, e provocou uma verdadeira revolução no ensino de 12 municípios

Por Priscila Gonsales

Há exatamente 10 anos, quando a professora Cybele Amado de Oliveira deixava Salvador (BA) para residir num lugar chamado Vale do Capão, na Chapada Diamantina, os 1300 moradores daquela região montanhosa nem imaginavam que o destino de suas escolas mudaria para sempre.

A baiana Cybele, de 33 anos, sentiu, aos 10 anos, despertar a vontade de ser uma educadora. Ao acompanhar o pai, que trabalhava na reforma de um prédio, ficou sabendo que a construção abrigara uma antiga escola pública. A notícia inspirou suas brincadeiras de professora nas velhas salas vazias. “Imaginava-a cheia de crianças, usava o quadro negro e interagia com meus alunos invisíveis”, conta Cybele.

Mais tarde, aos 14 anos, cursando o então ginásio, teve a oportunidade de dar aulas de Matemática – no turno oposto – para jovens mais velhos do que ela e de situações de vida bastante difíceis. Era seu primeiro trabalho voluntário e, de tão gratificante, levou-a de vez para a escolha profissional: pedagogia.

Aventura

Foi no carnaval de 1992, fugindo do tradicional agito da capital baiana, que Cybele viu sua vida mudar de rumo ao conhecer o Capão. “Fiquei encantada com aquele lugar lindo, de gente simples e sábia”, lembra a pedagoga. Juntou-se o desejo de morar perto da natureza ao de contribuir para a melhoria da qualidade da educação na zona rural. “Assim, lancei-me nessa aventura”, arremata.

O Vale do Capão fica no município de Palmeiras, a cerca de 400 quilômetros de Salvador. A atividade agrícola e o turismo ecológico são os meios de subsistência da população local. Viver junto a uma das mais belas paisagens do Brasil significa dispensar confortos como asfalto e telefone e adaptar-se a abastecimento variável de água e de energia elétrica.

Nesse contexto, as crianças da escola municipal, apesar do percurso diário por estradas de terra em caminhonetes antigas, chegam entusiasmadas em suas salas de aula. A prova está nos números da evasão, que caíram de 28% em 2000 para 5,85% em 2001. Detalhe: o município não possui o Bolsa-Escola.

O quadro educacional na região, porém, nem sempre foi assim. “As escolas eram deficientes em estrutura física, e os professores, apesar de todo o esforço que faziam, tinham muitas dificuldades”, descreve Cybele o cenário de 1992, quando chegou para lecionar Língua Portuguesa para a 5ª série. “As crianças não dominavam a escrita, trocavam letras, não conseguiam organizar um texto, e liam sílaba por sílaba”, conta.

O trabalho de Cybele

Inconformada com a situação, Cybele começou a atender, voluntariamente, crianças que a escola considerava inaptas para a aprendizagem. Nem mesmo as longas caminhadas a pé – duas horas ida e volta – que teve de duplicar, a fizeram desanimar. “O maior incomôdo era perceber que muitas das crianças desistiam da escola acreditando que não eram mesmo capazes”, conta. Durante o trabalho com um grupo de 176 alunos, Cybele percebeu que, ao contrário do “diagnosticado”, a maioria daqueles meninos e meninas não apresentava problemas de aprendizagem. Tratava-se de uma questão que dizia respeito à prática em sala de aula.

Convencida de que o caminho a percorrer seria árduo, concluiu que não poderia estar só. Assim, iniciou um processo de convencimento dos colegas da escola e da associação de pais. Depois de muitas conversas e reuniões, o grupo criou um projeto de formação de professores. O primeiro passo Cybele tinha dado. Faltava o mais difícil: conseguir autorização e financiamento da prefeitura.

Como as negociações demoravam, Cybele decidiu enviar a proposta para obter apoio também do Programa Crer Para Ver (Fundação Abrinq e Natura) que dá suporte a projetos em escolas públicas. Apesar de bem recebido, a aprovação do projeto pelo Crer Para Ver estava vinculada ao envolvimento do poder público local. Com isso, Cybele reiniciou sua articulação com a prefeitura, sempre ao lado da associação de pais e mestres da escola, até que conseguiu concretizar o projeto.

Cybele liderou, então, por dois anos (1996 a 1998), um trabalho de capacitação de 45 professores e de encontros periódicos com os pais. Os docentes escutavam as dúvidas e necessidades das famílias e as crianças aproveitavam para mostrar aos pais seus avanços, descobertas e aprendizados.

Ampliação do projeto

A mudança de padrão de ensino pode ser percebida nas salas de aula. Tarefas centradas no “copie”, “arme e efetue” ou “separe as sílabas”, por exemplo, deram lugar a propostas de análise de textos sobre situações cotidianas. Desenhos prontos para serem coloridos foram substituídos por papéis em branco a serem preenchidos por uma variedade de cores e formas.

Os resultados da experiência de Cybele no Capão encantaram outras cidades da região, que começaram a pedir uma participação. Novamente, após um grande período de conversas e reuniões entre as prefeituras, nasceu o Projeto Chapada, sob coordenação de Cybele, que já atinge 12 municípios (ver tabela abaixo). A ampliação da proposta pedagógica agora alcança 2.002 docentes de educação infantil à 4ª série, beneficiando 51.079 alunos de 911 escolas (urbanas e rurais) da rede pública de ensino.

Municípios do Projeto Evasão 2000 Evasão 2001
Boa Vista do Tupim 14,4% 8,07%
Boninal 9% 1,63%
Ibitiara 14,6% 0,9%
Iraquara 15,46% 3,62%
Jacobina 14% 2,3%
Lençóis 30% 7,6%
Mucugê 20,4% 0
Novo Horizonte 8,66% 0,4%
Palmeiras 28% 5,85%
Piatã 8,6% 0,27%
Seabra 17% 1,87%
Souto Soares 9,45% 1,24%

Fonte: Coordenação do Projeto Chapada

Em um ano de atividades, os índices de evasão caíram drasticamente (veja tabela ao lado). E os frutos não param por aí. Em escolas municipais onde falta água na hora do recreio – e as famílias mais pobres ainda lavam roupas nos rios – é possível ver alunos discutindo a importância de preservar o meio ambiente nas aulas de geografia. Outros, em processo de alfabetização, sabem exatamente porque as chuvas são necessárias. Crianças que ajudam os pais na roça pela manhã, à tarde discutem a importância de combater o trabalho infantil.

Cybele foi pioneira também no cargo de coordenadora pedagógica – função inexistente
até então – do município de Palmeiras. O Projeto Chapada estimulou a criação oficial de 60 postos, contemplando todas as cidades envolvidas. As longas caminhadas que essas profissionais fazem até as escolas continuam integrando a rotina, muitas vezes quebrada com o barulho das motocicletas cedidas por algumas prefeituras.

>> Mais informações sobre o projeto podem ser obtidas pelo e-mail cybeleamado@zipmail.com.br ou pelo telefone (75) 344-1030.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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