Matemática

Multiplicação de talentos

Projeto incentiva o estudo de Matemática avançada entre adolescentes

 

Por Joyce Peixoto e Kátia Azevedo
Missão Criança – Rede ANDI, em Aracaju (SE)

 

O adolescente Ítalo Raony tem grandes chances de ingressar em um curso de mestrado muito antes do previsto. Com apenas 16 anos, o garoto sergipano é mais um dos jovens gênios descobertos pelo projeto Formação do Talento Matemático, um curso disponibilizado gratuitamente a estudantes a partir dos 12 anos que tenham interesse pelas ciências exatas.

A realização do projeto é da Sociedade Brasileira de Matemática, em parceria com o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e a Universidade Federal de Sergipe. Graças ao seu desempenho no projeto, Ítalo foi convidado a participar de um curso de verão no Impa e, após uma avaliação, poderá dar início ao curso de mestrado oferecido pela instituição.

Localizado no Rio de Janeiro, o instituto é uma unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia e é considerado um dos três melhores centros de pesquisa da área em todo o mundo. “O curso tornou-se um incentivo para aprimorar o que eu já sabia. Agora, estou preparado para as mudanças”, diz o adolescente, enquanto espera uma definição do instituto.

 

Lapidando mentes

Assim como Ítalo, centenas de estudantes de escolas públicas e particulares de Sergipe já tiveram seu talento lapidado pelas ações do curso de Formação do Talento Matemático. Criado há cerca de seis anos, o projeto começou por acaso durante uma aula do Prof. Dr. Valdenberg Araújo, do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Sergipe.

Um de seus alunos pediu sua orientação para auxiliar um menino de 11 anos, Carlos Matheus Silva, que estava desestimulado com a escola e, embora gostasse muito de Matemática, queria abandonar os estudos.

Acompanhando o caso, Araújo descobriu que o problema devia-se ao fato de os métodos do ensino formal não atenderem às expectativas do garoto, que possuía uma inteligência acima da média. Identificado como aluno problemático no ensino regular, Matheus passou a estudar através do método do Prof. Valdenberg, que prioriza basicamente o aprendizado por tópicos de interesse do aluno.

“Trata-se de fato de uma metodologia pessoal baseada na escola húngara de Matemática, que dispensa o sistema padronizado do ensino convencional”, define o professor.

Primeiro aluno do curso Formação do Talento Matemático, Matheus foi aceito no mestrado do Impa quando tinha apenas 14 anos. Hoje, com 18 anos, idade em que a maioria dos jovens está ingressando nas universidades, Matheus já conclui um doutorado e viaja por vários países proferindo palestras sobre sua especialidade: a Matemática.

Seguindo os passos de Matheus, o estudante Carlo Pietro Souza decidiu participar do projeto aos 17 anos e atualmente, um ano e meio após sua entrada, está junto a Ítalo na busca pelo sonho da aprovação no Impa, que não exige a conclusão do Ensino Médio como pré-requisito aos candidatos dos seus cursos superiores. “Sem ter conhecido o projeto talvez não fizesse uma pós-graduação. O curso possibilitou a abertura de novos horizontes e aumentou as minhas chances de projeção profissional”, conta.

 

Novas descobertas

Com o sucesso do projeto, Valdenberg decidiu ampliar suas ações para o interior do Estado. Em sua empreitada, Araújo descobriu novos talentos da Matemática nos municípios de Arauá, Rosário do Catete, Lagarto, Boquim e na pequena cidade de Pedrinhas, distante 89 km de Aracaju. Para participarem das aulas do projeto na capital e continuarem freqüentando o ensino formal nas suas cidades de origem, os estudantes do interior recebem da Sociedade Brasileira de Matemática uma bolsa de estudos, alimentação e transporte.

O intuito é oferecer condições para que os alunos da rede pública de ensino também tenham condições de participar plenamente do curso. “Não há qualquer tipo de discriminação. Ao contrário, o curso visa oferecer oportunidades iguais para todos que querem estudar”, explica Araújo.

Esse é o caso de Zaqueu Alves dos Santos, 20 anos. Vindo de uma família simples e numerosa, o jovem filho de agricultores do município de Boquim, a 67 km de Aracaju, pôde descobrir através do projeto sua paixão pela Matemática. Estudante do 4º período do curso de Matemática oferecido pela UFS, ele agora planeja fazer especialização. “De preferência, quero que seja na área de Geometria que passei a conhecer melhor depois das aulas do projeto”, diz.

As aulas do Formação do Talento Matemático também influenciaram a escolha profissional do jovem Adriano Domeny, 18 anos. O interesse pelas aulas de Matemática Avançada aconteceu por intermédio do seu professor de Física. A decisão foi fundamental para melhorar seu desempenho na matéria e também o ajudou a optar pelo curso superior de Engenharia Elétrica. Mas ele quer ir além: “Agora pretendo ingressar no Instituto de Tecnologia da Aeronáutica e desenvolver outras atividades ligadas aos números”, revela Domeny.

 

Método e desafios

 

Contato
Todos os interessados, a partir dos 12 anos, podem entrar em contato com o Prof. Valdenberg Araújo pelos telefones:
(79) 212-6707/ 6709/ 6713 – Departamento de Matemática da UFS

Universidade Federal de Sergipe

Cidade Universitária “Prof. José Aloísio de Campos”

Av. Marechal Rondon, s/n, Jardim Rosa Elze, CEP 49100.000, São Cristóvão (SE)

Na metodologia desenvolvida por Valdenberg, os alunos optam pelo assunto com o qual desejam começar o curso. Na primeira fase os alunos podem estudar Geometria ou Matemática básica. A Geometria desencadeia o pensamento lógico e a Matemática básica para que os estudantes possam absorver conhecimentos dos símbolos da disciplina. Nessa fase, os jovens ficam cerca de dois meses.

Na etapa seguinte, é estudada Geometria euclidiana pura, introdução à teoria dos números, cálculo diferencial e Física avançada. No segundo momento, os garotos aprofundam seus conhecimentos em análise reta e álgebra linear. Cada módulo tem duração de seis meses. O método, garante Valdenberg, não tem segredo. “Não precisa ser bom em Matemática porque o aprendizado acontece aos poucos e de acordo com os interesses de cada aluno”, destaca.

As aulas são ministradas às sextas e aos sábados nas salas do Campus da UFS. Nesse momento, o novo desafio de Valdenberg é expandir o projeto para professores do Ensino Médio. A idéia é democratizar o método nas cidades de origem dos docentes para que eles levem sua experiência para as salas de aula e contribuam para o desenvolvimento das potencialidades dos seus alunos.

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

 

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