Livros de presente

Voto de confiança

Escolas devem entregar os livros doados pelo MEC aos alunos; apostando na formação de leitores, obras são um presente para levar para casa

Por Priscila Gonsales

A escritora e professora de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marisa Lajolo, está divulgando na Internet um texto seu (leia abaixo na íntegra) chamando a atenção para o fato de algumas escolas públicas estarem retendo os livros doados aos alunos pelo Ministério da Educação (MEC). A docente se refere ao projeto do MEC “Litetatura em Minha Casa”, que tem por meta distribuir obras literárias de autores renomados a 8,5 milhões de alunos de 4ª e 5ª série do Ensino Fundamental. São 30 títulos diferentes, contabilizando um total de 12,18 milhões de coleções. Livros de Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Luís Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Oscar Wilde, Mark Twain, Carlos Drumond de Andrade, Cecília Meireles e outros escritores e poetas nacionais e internacionais vão fazer parte da biblioteca particular dos alunos.

De acordo com a iniciativa, cada criança deve levar para casa cinco obras literárias (clássicos nacional e internacional, poesias, contos e lendas brasileiras). O programa, de caráter pioneiro, custou R$ 55 milhões e vai atender 139.119 escolas, que receberão um lote de 24 coleções. Marisa quer sensibilizar a sociedade, propondo que se fiscalize a entrega dos livros aos estudantes A doação tem por objetivo intensificar atividades voltadas à prática da leitura dentro e fora das salas de aula, incentivando a troca dos livros entre os alunos, além de disponibilizar à família do estudante a opção de leitura em casa.

A Escola de Aplicação da Universidade de São Paulo é um exemplo de distribuição adequada. Segundo Marlene Isep, orientadora pedagógica do 4º e 5º ano, a escola organizou a entrega de forma que cada classe recebesse um pouco dos diferentes lotes de livros. No dia marcado, os alunos ficaram sabendo da doação e da possibilidade de troca entre eles. “O livro é de vocês, podem colocar seus nomes”, disseram os professores.

O contentamento foi geral (leia abaixo depoimentos das crianças). A orientação foi a de que poderiam trazer à escola quando quisessem, pois não haveria controle de leitura. “Sabemos da importância de incentivá-los a ler não apenas quando o professor pede”, enfatiza Marlene. Também houve a preocupação por parte da direção em comunicar aos pais, por meio de carta explicativa, que os livros recebidos eram um presente e, portanto, não deveriam ser devolvidos.

Para a professora de Língua Portuguesa, Jacqueline Sant’anna, que participou da distribuição nas classes, a doação dos livros pode ser vista como um voto de confiança no estudante. “Fiquei relembrando o dia em que ganhei uns livros na escola por ter vencido um concurso de redação. Eu estava na 3ª série. Ficou muito claro para mim, naquele momento, que receber um livro era o mesmo que receber um elogio. Entregar um livro a um aluno é o mesmo que lhe dizer o quanto é inteligente, tem bom gosto e, principalmente, que confia nele como leitor”, declara.

Responsabilidade de todos nós

O MEC comprou coleções de livros para todas as crianças da 4ª e 5ª série do Ensino público Fundamental. O nome do projeto é “Literatura em Minha Casa”. Oito milhões de coleções, para oito milhões de alunos. No cardápio, histórias, poemas, peças de teatro. Por conta de Ana Maria Machado, Ângela Lago, Cecília Meireles, Ferreira Gullar, Gonçalves Dias, Pedro Bandeira, Ruth Rocha, Ricardo Azevedo, Vinícius de Morais e muitos outros. Time para ninguém botar defeito, não é mesmo?

Em março deste ano as coleções foram enviadas às escolas para serem entregues aos alunos. Mas nem sempre os livros chegaram às mãos da meninada: muitas escolas estão retendo os livros.

Por quê?

Alegam-se varias razões: que as crianças não vão cuidar dos livros, que é melhor que as coleções fiquem para a biblioteca, que vão entregar os livros no dia da criança ou no final do ano … Enquanto isso, as coleções vão ganhando a poeira das estantes, desaparecendo nos recantos de onde some material sem uso.

Pesquisas sobre leitura são unânimes em apontar a importância de que crianças desde cedo se familiarizem com livros. Mesmo correndo o risco de danificar ou de perder livros, é preciso que as crianças tenham chance de pegá-los, abri-los, desenhar neles, riscá-los, lê-los ou não: a proximidade física e afetiva entre livros e crianças é essencial para a meninada descobrir a leitura.

E é exatamente isto que o projeto Literatura em minha Casa patrocina .

Então, professoras e professores, diretores e diretoras, associações de pais, conselhos de classe, conselhos estaduais e municipais, mamães, madrinhas, titias, irmãos mais velhos … a postos ! Que cada criança receba o livro que lhe foi destinado fica sendo, a partir de agora, responsabilidade também de todos nós. Vamos arregaçar as mangas?

Marisa Lajolo é escritora e professora do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

 

Veja a opinião dos alunos do 5º ano da Escola de Aplicação da USP

“Foi legal! Nós estávamos doidos para receber os livros. Além de termos gostado, nossos pais adoraram a idéia!”

“Foi um suspense! A coordenadora estava na nossa classe, pensamos que iríamos levar uma bronca daquelas. Quando vimos, já estávamos recebendo os livros maravilhosos. Gostamos muito e nós três já lemos dois livros. Eles são ótimos. Ficamos muito felizes ao receber os livros, mas ficamos desanimados ao saber, pela professora, que algumas escolas não deram os livros aos alunos.”

“Nós recebemos os livros em perfeito estado. A professora não entregou antes porque não tinha para todos. Nós gostamos de todos os livros. Nós não gostamos da atitude das pessoas que não entregaram os livros aos alunos.”

“Na nossa escola, deram todos os livros do nosso direito, todinhos! Eu acho que todos os alunos do 4º e do 5ª ano deveriam ter recebido os livros. As escolas que não deram os livros a esses alunos estão tirando o direito deles.”

“Teve um suspense antes, pois não sabíamos quais livros iríamos receber. Tivemos várias trocas, mas os mais procurados foram Ilha do Tesouro e Os Miseráveis.”

“Com a chegada dos livros eu fiquei muito contente, saber que eles ficariam conosco foi mais legal ainda. Um incentivo gostoso para as pessoas que não lêem por algum motivo. Já li os livros de história e leio aos poucos, curtindo, os de poesia. Achei interessante a preocupação do governo e da escola com a gente. Porque particularmente, adoro ler. A escola nos dar os livros é uma demonstração de confiança nos alunos.”

Os sites indicados neste texto foram visitados em 20/09/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *