Jorge Marinho conta sua história

As armas de Jorge

Esta é a ultima semana de inscrições para participar da Oficina de Criação, mediada pelo escritor Jorge Miguel Marinho, que faz das palavras seu instrumento de “batalha”

Por Priscila Gonsales

I

Inspirado na oração de São Jorge, o cantor e compositor Jorge Benjor criou a canção “Jorge da Capadócia“, na qual fala da proteção que o popular santo guerreiro dá a seus devotos mediante o uso de suas armas. O escritor Jorge Miguel Marinho, que é carioca – mas de coração paulistano, como faz questão de enfatizar – , pode não ter nada de santo, porém, é impossível lhe tirar o mérito de guerreiro. Para Marinho, os vários prêmios literários recebidos e o reconhecimento da crítica não são mais importantes do que sua própria história de vida.

Nascido numa família simples, de poder aquisitivo extremamente baixo, passou a infância sem ter nenhum contato com livros. A escola em que estudou era de infra-estrutura tão precária que não tinha sequer uma biblioteca. Só aos 15 anos foi apresentado a uma história instigante do universo de descobertas adolescentes, “Os Padres Também Amam” (Adelaide Carraro). Depois, aos 18, ganhou “O Pequeno Príncipe” (Saint Exupéry) de uma namorada. Mas o encontro real de Jorge Marinho com a Literatura aconteceu mesmo na faculdade de Letras, quando chegou às suas mãos o consagrado “Dom Casmurro”(Machado de Assis).

A experiência de Marinho derruba a idéia de que para escrever é preciso ter lido desde cedo, de preferência os clássicos. E uma de suas primeiras “armas” para lutar contra essa falsa concepção foi sem dúvida a curiosidade. “O importante é ler o que gosta, o que tem interesse, o que provoca algo”, diz.

Prêmios recebidos

Prêmio Fundação Nacional
do Livro Infantil e Juvenil e Prêmio Associação Paulista
de Críticos de Artes, por
“Na Curva das Emoções”
(contos), São Paulo,
Melhoramentos.

Prêmio FNLIJ/Melhor Livro para Jovens, por “A Visitação do Amor” (novela), São Paulo, Contexto.

Prêmio Jabuti, por “Te dou a Lua Amanhã…” (biofantasia de Mário de Andrade), São Paulo, FTD.

Prêmio HQMix, por “O Cavaleiro da Tristíssima Figura” (novela), São Paulo, Ática.

Aos 54 anos, casado e pai de dois filhos, Marinho é professor universitário de Literatura, escritor, poeta, roteirista e ator. Vencedor do prêmio Jabuti pelo livro “Te dou a lua amanhã”, uma biofantasia (texto literário que narra a biografia real de uma personalidade por meio de recursos da ficção) de Mário de Andrade, protagonizada por um dos personagens do escritor modernista. É também autor do roteiro do média-metragem “Mário, um homem desinfeliz” no qual interpretou o papel título. Tem contos traduzidos na França e nos Estados Unidos e vários livros publicados.

Os internautas de todo o Brasil que quiserem aproveitar um pouco das atuais “armas” desse Jorge – as palavras – poderão fazê-lo na Oficina de Criação, a partir do dia 15 de abril. Veja como se inscrever.

Numa tarde quente e chuvosa, em seu apartamento na agitada rua Teodoro Sampaio, no bairro paulistano de Pinheiros, Marinho concedeu à Revista EducaRede a seguinte entrevista:

Como era o menino Jorge Marinho?
Até os 10 anos fui um garoto bastante introspectivo, não andava em turma, tinha poucos amigos. Minha diversão predileta era escutar novelas pela rádio São Paulo. Ficava mergulhado na história, fantasiando que os personagens saltariam do aparelho para dentro da minha casa. Com isso, acabei exercitando o meu mundo imaginário. Mas a fase solitária não durou muito tempo, cheguei até a ser capitão de uma turma de futebol, mesmo sendo perna de pau (risos).

Palavra Sentida

Pega uma parte da vida,
uma porção bem pequena,
miúda.

Agarra com a palavra
Essa coisa tão mínima,
funda,
aprofunda.

Deixa a palavra
bem dentro da parte,
iguais,
únicas.

Quase não fica parte
nenhuma das coisas,
o que fica é quase
tudo da vida.

Você fala sempre que sua curiosidade o ajudou muito na carreira de escritor. Como foi isso?
Sempre fui muito curioso, de coisas banais mesmo. Fico interessado em saber se o fruteiro chega aqui na minha casa de caminhão ou não. Um fato que marcou minha trajetória de “escrevedor” foi uma redação encomendada por uma professora do clássico (corresponde hoje ao ensino médio), d. Aidê, cujo tema era “A Alegria de Ler”. Escrevi a partir de uma curiosidade mesmo, pois meu repertório de leitura era muito vago. Falei sobre o contato com as palavras no mundo e a relação com a palavra vida, que ler era uma forma de fazer com que a palavra do outro tenha vida. Foi uma experiência muito feliz, pois a professora leu em classe para os outros alunos. Isso me envaideceu no momento, mas durou pouco.

 

Qual foi seu primeiro texto publicado?
Quando tinha 18 anos, fui convidado a escrever um artigo em homenagem ao Dia das Mães para o jornal da empresa em que eu trabalhava como técnico de contabilidade. O problema era que eu perdera minha mãe aos 16 e ninguém sabia. Fiz uma crônica com o seguinte título “Difícil crônica para alguém que não se vê”. Fiquei ansioso se publicariam ou não. E publicaram. Depois, na faculdade de Letras, lancei meu primeiro livro, “O Talho”, um conjunto de poemas muito ligados ao que eu estava lendo naquele momento. Eu tinha mais vontade que domínio da palavra. O meu primeiro sucesso foi “Escarcéu dos corpos”, uma série de contos.

Quando decidiu cursar Letras? Como foi sua passagem pela universidade?
Resolvi fazer um curso ligado a palavras. O determinante foi a professora do cursinho que fez questão absoluta de ler em voz alta um outro texto meu. Apesar da minha então dificuldade com a escrita, ela foi muito sensível e percebeu o processo de elaboração, o conteúdo. Pensei num primeiro momento em Jornalismo, mas o período não batia com o trabalho. Optei, então, por Letras. Quando entrei na USP tinha repertório de leitura muito pobre. Conheci a professora Lígia Chiappini que me apresentou a vários poetas pelos quais me apaixonei. Foi quando comecei a ler um livro após o outro, queria recuperar o tempo perdido. Pensava: como passei tanto tempo sem pisar nesse território?

Como é seu trabalho hoje?
Digo hoje naturalmente que, se eu não escrever, não vivo bem. Às vezes, o que me move é a própria vontade de escrever. Há também a demanda das editoras que passam a encomenda. Agora, é super difícil publicar livros, por isso, sem pressa, quem escreve deve mostrar para as pessoas. Sempre tive o meu trabalho de professor, não vivo unicamente dos livros. Eles sempre foram para mim um presente, acho tão bom poder publicar! Não ligo diretamente o dinheiro a uma atividade tão prazerosa para mim.

Tua melhor palavra

Escrever não é fácil,
nem é simples.

É com a pena pontiaguda
entre o corte e o afago
que se busca escrever
a vida
sem penetrá-la.

É obsessivo,
trabalhoso e extenuante
como limar a rocha
com algodão.

Mas às vezes acontece
e então cada palavra
é uma punção de maciez.

Jorge Miguel Marinho por Jorge Miguel Marinho?
Um típico medroso que não tem problemas de enfrentar o medo. Medo da própria natureza da vida. O medo dá uma força, me faz perseverante e apaixonado pela vida.

Fale sobre seu ídolo Mário de Andrade.
Mário de Andrade foi um dos maiores estudiosos da cultura brasileira. Não era um grande poeta, mas sim um bom cientista. Pessoa de extremo caráter, humanista, solidário. Imagine que ele respondia cartas de poetas anônimos com o mesmo fervor que escrevia a amigos consagrados. Foi também um bom dramaturgo. Li várias das cartas que Mário mandava aos amigos, que também funcionam como documento para se ter
um panorama da arte moderna.

O que está preparando no momento?
Estou preparando uma nova biofantasia: “Carlito canta Chaplin”, pedido da editora Nova Alexandria, para integrar uma coleção sobre figuras significativas da cultura universal. Como o próprio título já sugere, o principal personagem desse grande gênio cineasta vai narrar a biografia de seu criador.

O que acha do Dia da Poesia, comemorado em 13 de março?
Aprendi com Drummond (Carlos Drummond de Andrade) a aprender a poesia que existe no cotidiano. Isso porque as pessoas expressam a poesia antes de conhecê-la. As pessoas poderiam pensar na poesia como algo que pode ser tocado por todos – não é só para “iniciados”. Pensar também na beleza do caráter lúdico do conhecimento. Ler tem um peso de seriedade, e não pode ser assim. Poesia é brincar com seriedade.

O que diria ao jovem que sonha em ser escritor?
Que tenha os sentidos aguçados. Deve ter verdadeira paixão pela natureza humana e pelo ato de viver. E senso de detalhe. Se o universo é dos feirantes, por exemplo, vamos a ele. Você consegue dar a dimensão de um personagem por simples detalhes. Para ser escritor é fundamental dividir a experiência com o mundo. Mostrar que escreve, pedir aos amigos que leiam seus textos. Deve ser cara de pau mesmo. As opiniões, as leituras, vão dando o norte da sua escrita. Mas aconselho que os assuntos escolhidos façam parte da vida de quem escreve.

Qual deveria ser o papel da escola no incentivo desses jovens?
Primeiramente levar poemas para as crianças. Oferecer um leque variado. É preciso também um exercício permanente de leitura das palavras. Escrever é como a vida – encontra-se permanentemente com a realidade. Escrevemos para ser o que somos e o que não somos. A escola precisa estar com os “sentidos acesos”, perceber o que cada pessoa pode. Tive muita sorte.

Fábula

João escreveu três palavras, colocou-as numa garrafa, tampou e atirou tudo ao mar. Não se sentiu menos anônimo nem a existência melhor. Porém a sensação de abreviar espaços e aproximar pessoas o invadiu. Quando João escreveu as três palavras que um dia alguém encontrou e pouco entendeu porque apenas diziam “Eu estou aqui”, comungou com todas as mãos e todas as letras de todos os tempos o primeiro “sentido” de escrever.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 01/04/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


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