Interatividade nas salas de leitura

Salas de leitura ganham novo status
em São Paulo

Projeto da Secretaria Municipal de Educação começa a promover treinamento de professores da rede para utilização do espaço nas escolas

Por Beatriz Levischi

Imagine um lugar onde todos têm a palavra, lêem e escrevem o mundo em conjunto. Um espaço para troca, expressão e produção. Utopia? Pois é esta a proposta do programa “Círculo de Leituras”, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, que pretende atingir todas as 449 escolas de Ensino Fundamental, e mais de 600 mil alunos, até 2004.

É fato que as “Salas de Leitura” – ambientes com mesas redondas e acervo inicial de mil títulos de literatura infanto-juvenil (ampliado por meio de compras da Secretaria, da própria escola ou doações) – já existem há 30 anos. Mas, nos últimos tempos, seus coordenadores, conhecidos como “orientadores” – professores eleitos para trabalhar com as questões de leitura -, se viam obrigados a substituir os colegas faltosos e o projeto foi sendo deixado de lado.

Agora, com novo fôlego, as antigas salas se transformarão em locais onde se pode trabalhar múltiplas linguagens (como o teatro, a dança, as artes plásticas, o cordel e a música) e diversas possibilidades de leitura (como permite a televisão, o rádio, o vídeo e a Internet). A idéia é inter-relacionar as diferentes áreas e fontes do conhecimento – seja ele cotidiano ou formal -, evitando a fragmentação do saber.

“A escola constitui para muitas crianças a única oportunidade de aproximar-se do livro. Por isso mesmo, sua eficácia depende do uso que dele faz a escola”
Edmir Perrotti (ECA-USP)

Fazem parte, ainda, do “Círculo de Leituras” os seguintes projetos: “Educom”, que busca instalar nas escolas sistemas de comunicação usando a tecnologia das ondas de rádio; “Ciência Hoje”, que pretende aproximar a linguagem cientifica dos alunos e “Sala Interativa”, em que o espaço da sala de leitura é alterado para trabalhar a linguagem multimídia.

Segundo o “Estatuto do Magistério Municipal” (legislação que rege as escolas municipais), regulamentado pela Lei 11434/93, todas as crianças devem passar pelas salas ao menos uma vez por semana, acompanhadas de um professor (de qualquer matéria), responsável por dar continuidade às atividades na sala de aula.

Cerca de 680 professores orientadores receberão treinamento, por meio de oficinas, como parte do Programa de Formação Permanente dos Professores Orientadores. A prática será trabalhada em conjunto à teoria. As oficinas com autores nacionais (Marina Colasanti, Ignácio de Loyola Brandão e Ziraldo, entre outros) acontecem entre os dias 5 e 30 de agosto. Em setembro, os professores se reunirão nos NAEs (Núcleos de Ação Educativa) para discutir a importância do trabalho realizado. Em outubro, é a vez dos autores internacionais – Adriano Duarte (português), Manuel Casteles (espanhol) e Michelle Petit (francesa) – abordarem a questão da leitura. E, finalmente, em novembro, acontece um novo encontro regional para debater sobre a segunda leva de oficinas.

A escolha dos autores oficineiros foi difícil. “A prefeitura reuniu as 40 editoras, das quais compra livros durante o ano, e apresentou o projeto; houve 100% de adesão”, conta Paulo Gonçalo dos Santos, coordenador do programa. Todos os escritores, escolhidos por seus trabalhos com múltiplas linguagens, aceitaram o convite e serão pagos pelas próprias editoras – que também cederão os auditórios para as oficinas.

Se os professores sentirem dificuldades em aplicar o que aprenderam na sala de aula, parcerias com universidades, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), serão estabelecidas para instruí-los melhor, uma vez que, segundo Gonçalo, o público é heterogêneo. “Possuem leituras de mundo diferentes, idades diferentes e enormes frustrações”, comenta Santos.

Publicação

Pegando carona com a publicação bem sucedida de poesias feitas por alunos sobre o estudo da vida e obra de Paulo Freire (“Poetizando Paulo Freire” – livro que será traduzido para o espanhol, possibilitando o seu uso na rede pública da Cidade do México), Santos conta que o próximo passo do programa é divulgar o trabalho de professores e funcionários, desenvolvido nas salas de leitura no livro “Sala de Leitura – 30 anos fazendo escola”. Trata-se de uma coletânia de crônicas sobre as experiências vividas no espaço, escritas pelos próprios educadores. O edital sai até o fim do mês e a entrega do material deve acontecer em setembro. Interessados, comecem a rabiscar.

A idéia é que a salas de leitura passem ainda por mais uma transformação, constituindo-se em “salas interativas”. “Até o ambiente físico será alterado, para aliar múltiplas linguagens e leituras às novas tecnologias; criando assim um espaço multimídia”, explica Santos, frisando que não só a busca, mas também a produção de informação serão possíveis – por meio de computadores, aparelhos de vídeo e som.

Essa primeira fase do programa atingirá 26 escolas (duas por NAE) até o fim do ano, mas até o final da gestão, todas as instituições devem ser alcançadas. “Os computadores já foram comprados e estão chegando; cada sala de leitura receberá quatro máquinas, conectadas à Internet; os laboratórios de informática receberão outras 20. Será a maior rede de ensino da América Latina, com mais de um milhão de alunos conectados”, orgulha-se Santos. Existe ainda a idéia de publicar tudo o que a garotada produzir.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 02/08/2002

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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