Interagindo, a gente se entende

Interagindo, a gente se entende

O especialista Marco Silva esclarece dúvidas dos professores, dando uma amostra da sua participação no III Congresso Ibero-Americano EducaRede

As perguntas sobre o uso da Internet na escola não são poucas. Mas geralmente são comuns entre os professores que, na cibercultura, são estimulados a rever posturas e teorias que ainda dominam suas práticas. Para responder algumas dessas dúvidas, o EducaRede convidou o professor Marco Silva, subdiretor do departamento de Educação a Distância da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, para um bate-papo com internautas do Portal.

O organizador dos livros “Educação online” e “Avaliação da aprendizagem em Educação online” participará do III Congresso Ibero-Americano EducaRede, que será realizado nos dias 29 e 30 de maio, em São Paulo (SP). Mas, antes disso, Marco Silva interagiu com os internautas durante uma longa

conversa.
Confira trechos da interação.

Mudança de paradigmas

Adriana: Quais os desafios que a Internet traz para o professor?
Marco Silva: O desafio da Internet para o professor é a interatividade, algo diferente da transmissão própria da cultura da mídia de massa onde se encontra sua própria docência tradicionalmente cristalizada. Estamos todos acostumados com a tela da TV que transmite. Na Internet, o paradigma comunicacional é a interatividade. Os professores não estão acostumados a isso. Precisam de formação para tal.

Elessandra: Mesmo não tendo o apoio da direção e coordenação escolar, nós professores somos capazes de fazer a nossa sala de aula interativa?
Marco:
Claro que o apoio da direção e dos colegas professores é valiosíssimo. Entretanto, não podemos depender deles. Temos que começar o trabalho em nossa sala de aula, negociando o processo com os aprendizes, já realizando aí a interatividade.

Valéria Cristina Basílio: Às vezes fico inquieta ao discutir com colegas sobre o uso da Internet nas pesquisas dos alunos. Alguns argumentam que é pura cópia, por outro lado acredito que seja uma forma de enriquecimento cultural muito válida. Como você vê essa questão?
Marco: 
Cópia por cópia já se faz tradicionalmente em Educação. A escola é a primeira a legitimar a cópia com sua pedagogia da repetição. O que tem sido grande parte da docência se não o incentivo à repetição daquilo que o professor transmitiu? O problema começa aqui. A escola não incentiva a criação, mas sim a repetição.

Adriana: Os conteúdos na Internet não são lineares como estamos acostumados na escola. Isso pode gerar insegurança no professor?
Marco: Sim, pode. Contudo, temos que encarar esse desafio desenvolvendo práticas sustentadas em lógicas hipertextuais. É preciso sair da segurança das receitas prontas. É preciso ensinar a buscar informações de qualidade nesta grande confusão de dados que é o ciberespaço. Não há como exercitar isso sem se molhar na chuva.

Alex Sandro C. Sant’Ana: O que seria o “novo espectador”, termo que você cita em seu livro “A sala de aula interativa“, no contexto do cotidiano escolar?
Marco:
Resgato aqui um trecho que publiquei em outro espaço. “Ele é menos passivo perante a mensagem mais aberta à sua intervenção. Ele aprendeu com o controle remoto da TV, com o joystick do videogame e agora aprende com o mouse. Assim ele migra da tela estática da TV para a tela do computador conectado à Internet. Ele é mais consciente das tentativas de programá-lo e é mais capaz de esquivar-se delas. Ele evita acompanhar argumentos lineares que não permitem a sua interferência. E lida facilmente com o hipertexto, com o digital; dele depende o gesto instaurador que cria e alimenta a sua experiência comunicacional: dialogar, interferir, modificar, produzir, partilhar. O jovem da geração digital lembra a criança que vai ao teatro infantil: quer subir no palco e interferir na cena. Essa atitude menos passiva diante da mensagem é sua exigência de uma nova sala de aula.”

Blog, Orkut e aprendizagem

Rita de Cássia S. Barbosa: Como buscar para a vida real alunos que freqüentam casas de jogos virtuais e que já estão alienados?
Marco:
Traga os jogos virtuais para dentro da sala de aula.

Bia: Como controlar o uso indevido de sites (sem conteúdo, explícitos etc.) focalizando o aprendizado?
Marco: 
Discuta com seus alunos a diversidade de informação própria da Internet e juntamente com eles selecione informações pertinentes aos projetos de aprendizagem. Crie contratos negociados e gerenciados pelo próprio grupo. Não desestimule a turma frente à enxurrada de informações. Aproveite essa enxurrada com possibilidade democrática de formação da cidadania na sociedade da informação.

Soltex: Como podemos incentivar os alunos a buscarem informações, pois muitos deles só querem a Internet para sites impróprios e banais? Agora, entre eles, a moda é o Orkut. Como tirar proveito disso?
Marco:Crie projetos com questões que interessem aos alunos articuladamente com a proposta pedagógica. Os alunos terão interesse em buscar informações de interesse coletivo. Faça gincanas, jogos. Aproveite os espaços de que eles gostam, como o Orkut, e crie situações de aprendizagem a partir desses ambientes online, já conhecidos por eles. Estimule a construção de blogs e fotologs sobre temas instigantes e contextualizados com as questões de interesse dos jovens. Proponha projetos em que os jovens são os protagonistas.

Lúcia Lazarini: É necessário estipular um tempo, por dia, para as crianças utilizarem a Internet? Você acha que a Internet pode ser prejudicial ao relacionamento, à criação de relações verdadeiras entre os jovens?
Marco: A Internet deve ser livre para todos. Os pais precisam estar por perto. Há site perigosos. Há conteúdos nocivos. Todavia, há o mesmo na rua, na esquina, enfim na vida presencial.

Martaelen: Gostaria de saber se você acha que os blogs, vlogs, flogs são de fato um espaço pedagógico a ser aproveitado ou apenas modismos.
Marco: São interfaces que emergem na cibercultura. São valiosos espaços de encontro, de sociabilidade. Podem ser utilizados didaticamente pelo professor que esteja formado para tal. O desafio é a formação do professor. Ou ainda sua inclusão digital.

Laboratórios de Informática

Erika Calou: Como trabalhar com inclusão digital se nossas escolas são carentes de computadores?
Marco:
Neste caso, é preciso fazer parcerias e projetos com outros professores dividindo a turma em pequenos grupos. Para isso a escola precisa incluir em seu projeto pedagógico o uso do laboratório articuladamente com a docência. Ao mesmo tempo, é preciso romper com o tempo rígido das aulas de 50′. E também criar parcerias e trabalhos coletivos, projetos, dividindo as turmas e as atividades… Tudo isso sem esquecer de cavar políticas públicas para abastecimento da escola com mais computadores conectados em banda larga.

Robledo: Sou orientador tecnológico e o apoio o professor no laboratório. Como conquistar o professor e fazer funcionar essa parceria?
Marco:
Procure sensibilizar os professores da escola para o computador e para a cibercultura. Sem isso será impossível. Trata-se de grande mudança paradigmática em relação à cultura da TV e da máquina de escrever.

Robledo: Como devem ser as políticas de uso dos laboratórios das escolas?
Marco: 
As escolas devem decidir isso juntamente com professores e alunos, democraticamente, estimulando todos a encontrarem agendas e finalidades para o uso.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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