Inclusão social online

Inclusão social online
Usando recursos da web 2.0, ação desenvolvida em escola da Rede Social Minha Terra encontra vagas de emprego e ajuda a recuperar autoestima de pais e alunos

Por Vanessa Rodrigues

 

Se você for ao Google e procurar “informações sobre Santo Amaro em São Paulo” vai encontrar nos primeiros resultados um mapa de localização em inglês e um link para o Wikipédia dando conta de que este distrito da zona sul da capital paulistana “é, em boa parte, composto por loteamentos de alto padrão”. Com base nisso,  é perfeitamente possível chegar à conclusão de que este é um bairro de classe média alta, onde as pessoas vivem com conforto e sem grandes sobressaltos financeiros.

No entanto, se você pedir à professora Patricia Lopes a localização da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Professora Isabel Vieira Ferreira, onde trabalha, ela dirá: “Na região de Santo Amaro, periferia da zona sul de São Paulo”.  No bairro que ela conhece e onde moram os alunos de sua escola, a maioria dos pais estão desempregados, segundo ela “vivendo de programas sociais do governo”. Com nível de escolaridade que muitas vezes não passa do Ensino Médio incompleto, aqueles que ainda conseguem manter um ofício relativamente regular desempenham funções como auxiliar de serviços gerais, profissionais de limpeza ou camelôs.

Foi com esses dados que a escola se deparou quando resolveu participar da Rede Social Minha Terra, em 2009. Tocada por estas informações e sentindo na pele os impactos dessa realidade, a comunidade escolar do “Isabel Vieira Ferreira” resolveu trabalhar com a pauta Cidade e Trabalho, buscando mudanças concretas e palpáveis em sua realidade.

Com isso em mente, venceram de uma só vez as primeiras etapas propostas pelo Minha Terra: identificar um problema ou situação relacionada à sua escola ou comunidade e propor uma atividade de intervenção. A escolha da pauta já levava em conta os resultados esperados. A ideia era desenvolver uma ação que favorecesse uma reviravolta na vida dos alunos: conseguir trabalho para os pais desempregados e para os estudantes já em idade de buscar o primeiro emprego.

Eles traçaram e executaram um plano que envolveu vários atores, especialmente empresas da região, que poderiam ajudá-los na empreitada. E foi assim que depois de registrar seu problema em forma de reportagem na Galeria de Imagens do Minha Terra, o projeto Comunidade Escolar e Trabalho, da equipe “DNA – Descobertas e Novas Atitudes”, começou a ser implementado, inicialmente com dez alunos monitores (responsáveis pela gestão do projeto) e terminando com sete estudantes, todos da 8ª série: Daiane Ferreira da Silva, Kaliane Santos Oliveira, Karina Paiva da Silva, Naiara Rosa Teixeira, Samuel Monteiro Ramalho, Samuel Campos de Moura, Thiago Costa dos Santos.

Primeiro, foram ao “Clube Mamãe – Associação de Assistência à Criança Santamarense”, que desenvolve atividades extracurriculares, entrevistaram a coordenadora e publicaram no mural da escola todos os cursos profissionalizantes oferecidos pela instituição.

“A Coordenadora informou que muitos alunos da escola realizavam cursos no local e que naquele momento formaríamos uma parceria para divulgar e socializar o desenvolvimento deles”, conta Patrícia, que completa: “Ela também informou que muitos se tornam empregados do Centro”.

E eles não pararam por aí. Foram mais além nas pesquisas, encontrando sites de colocação profissional e estimulando muitos estudantes em idade adequada a fazerem seus cadastros e ainda darem apoio aos interessados na elaboração de seus currículos. Para coroar, fizeram parceria com um tradicional supermercado da região, divulgando vagas disponíveis por meio de um perfil no twitter.

“Resido no bairro desde 1978, quando tinha um ano, o supermercado já estava lá! Minha mãe fazia compras nele e na época eram oferecidos brindes para os clientes assíduos. Até hoje ela tem os pratos que ganhou ao se tornar freguesa”, conta a professora Patrícia. Agora, o supermercado também oferece trabalho a quem precisa.

Aos pais, foram disponibilizadas vagas de açougueiro, repositor, operador de caixa, auxiliar de limpeza, estoquista e manobrista. Mesmo sem os números exatos, Patrícia diz que é possível afirmar que muitos deles puderam voltar ao mercado e recuperar a dignidade que só o trabalho parece conferir a um ser humano adulto.

Para 2010, já conseguiram o compromisso de uma empresa de informática  para ministrar cursos e palestras sobre como fazer currículos e se comportar nas entrevistas de emprego.

Liderança e motivação

A Rede Social Minha Terra propõe

uma série de tarefas e desafios:

• identificar um problema ou situação relacionada à sua escola ou comunidade;
• registrar esse problema em forma de reportagem usando ferramentas e recursos da Web 2.0;
• planejar uma intervenção com vistas a resolvê-lo;
• executar este plano;
• e, finalmente, registrar os resultados em forma de nova reportagem e publicá-lo no ambiente virtual do Minha Terra.

A idéia principal do Minha Terra é transformar a escola numa espécie de “Agência de notícias”, onde os alunos atuem como pequenos repórteres – investigando, pesquisando, produzindo informação e publicando-a na internet.

A Rede Social Minha Terra já começou suas atividades em 2010. Saiba mais.

 

No entanto, nada disso seria possível sem a liderança de uma professora como Patrícia Lopes. Ainda que os alunos tenham sido os grandes protagonistas desta missão, foi ela quem os apoiou na elaboração e realização das ações (com total respaldo da diretora da escola, Benedita Antônia de Andrade, ela faz questão de destacar). Do alto de seus 33 anos, Patrícia já tem ampla experiência na área de educação e informática.

“Escolhi ser professora aos seis anos de idade, no meu primeiro dia de aula na pré escola. Encantei-me com a profissão à primeira vista, vendo a atenção da professora, os cuidados com os materiais, as lições, a vontade de ensinar. Comecei a lecionar aos 15 e concomitantemente fazia cursos de informática. Com isso, fui convidada a dar aulas de informática na escola onde estudava e comecei a fazer uma ponte entre as duas modalidades. Ingressei na Prefeitura de São Paulo e fui designada POIE (Professora Orientadora de Informática Educativa). Sou POIE há oito anos.”

Patrícia tem desenvolvido muitos projetos que ajudam professores e alunos a refletir sobre os temas abordados, utilizando a tecnologia como principal recurso.  Ela começou a atuar no Minha Terra no ano passado, em 2009, mas já havia tido contato em 2007 com o Projeto Memórias em Rede. A filha Gabriela, de 14 anos, sempre comenta sua motivação em participar do Minha Terra e de como em  sua própria casa ela conversa pelo twitter com os alunos monitores sobre as ações a serem realizadas.

Web 2.0 na educação

Sim, porque os alunos da EMEF Professora Isabel Vieira Ferreira utilizaram todos os recursos da web 2.0 oferecidos e estimulados pela equipe gestora do Minha Terra: o Mapa Interativo para a localização e apresentação da equipe; o blog como ambiente de interação diária entre os grupos; o chat como espaço de esclarecimentos e socialização das ações; o Voki para criar o avatar de cada repórter. No Youtube foram publicados os desafios “Pelo celular” e as entrevistas, criando um link direto no Canal Youtube Minha Terra. Na Arquivoteca, foram publicados os registros e, na Galeria, as imagens.

“Já o Twitter foi nosso norteador, utilizado em todas as ações”, conta Patricia. “Inclusive, eu ministrei uma aula de Twitter para POIEs iniciantes na DRESA – Diretoria Regional de Santo Amaro e fiz um manual explicativo sobre como utilizar o microblog, distribuindo a todos os participantes. O manual também foi entregue e socializado em uma das reuniões em DOT- CONAE”.

Para Patricia Lopes, sua experiência na EMEF Professora Isabel Vieira Ferreira tem sido gratificante e está trazendo resultados concretos baseados em pesquisas, reflexões e ações. Ela diz que os alunos monitores foram brilhantes e chama a atenção para a efetividade das intervenções, principalmente para o fato de que propiciaram a melhoria da autoestima dos envolvidos. Serviu também de parâmetro para aquelas pessoas que já não viam possibilidades em suas áreas de trabalho ou que buscavam seu primeiro emprego.

Outros impactos percebidos foram: maior interação entre os alunos monitores e alunos de todos os períodos; desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem mais satisfatório; envolvimento de toda a unidade escolar; interação e parcerias com a comunidade escolar e maior cuidado com o Patrimônio Público. “Ampliei meu campo social e de parcerias por meio de muitos trabalhos coletivos”, diz Patrícia Lopes. E conclui: “Pretendo utilizar as pesquisas, vivências, ações e resultados para o meu futuro mestrado, aprendendo e contribuindo ainda mais para o uso de novas tecnologias como recurso no desenvolvimento da Educação Pública”.

 

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

 

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