Idéias do filósofo do ciberespaço

Idéias do filósofo do cyberespaço

Quais são os desafios de se trabalhar em rede? O que constitui uma comunidade virtual? Qual o papel do professor no ciberespaço? Estas são algumas questões abordadas por Pierre Lévy, principal filósofo da cultura virtual contemporânea, durante um encontro realizado em agosto. Além da gravação, o EducaRede passa a disponibilizar aos internautas a transcrição desta conversa, que teve como ponto de partida os Portais Rede Social São Paulo e o próprio EducaRede. Rogério da Costa, professor da PUC-SP, que já trabalhou com Pierre Lévy, mediou o encontro, uma iniciativa da Fundação Vanzolini e do Laboratório de Inteligência Coletiva (Linc).

Rogério da Costa:  O tom deste encontro é a cooperação e a ação humana. Ou seja, como é que se estabelece, de fato, a sinergia entre pessoas; sinergia que pode acontecer, e que esperamos que ocorra, tanto no portal EducaRede quanto no portal Rede Social São Paulo. Bom, vamos dar inicio então ao nosso processo. Com a palavra, Pierre Lévy.

Pierre Lévy:  Em primeiro lugar, gostaria de enfatizar muito firmemente que alguns de vocês têm trabalhado nestes projetos há vários meses e anos, e eu só tive conhecimento deles há uma hora. Então, vocês sabem melhor sobre eles do que eu. A inteligência coletiva está do lado de vocês. Isso é muito importante.

Vou tentar lhes dar algum tipo de retorno sobre eles que, espero, possa ajudá-los. Vocês são educadores que há muitos anos trabalham com a Educação presencial. Acho que essa é uma questão perfeitamente legítima, mas será que é somente um problema relacionado aos professores e à sua experiência pessoal e ao fato de eles não serem tão fluentes em novas tecnologias e de seus alunos usarem melhor essas novas ferramentas? Creio que um fator muito importante são as regras institucionais nas escolas e a cultura geral que prevalece na Educação em geral, na Educação tradicional, não somente presencial ou on–line. Por exemplo, tento organizar os meus alunos em grupos de trabalho para melhorar alguns artigos na Wikipédia. Ou seja, para ajudá–los a trabalhar corporativamente, e acrescentar e melhorar uma memória global do conhecimento, porque esta é a forma como nós iremos trabalhar na sociedade, em empresas, na administração e assim por diante. Então eu queria treiná–los neste tipo de inteligência coletiva, mas não foi possível. Não porque eu não fosse fluente na nova tecnologia; não foi possível porque há regras na nossa universidade que impõem limites, por exemplo, ao proibir que se dêem notas coletivas para os alunos. Como se vê, a forma como algumas instituições trabalham, às vezes, se constitui num obstáculo para a nova maneira de aprender coletivamente e usar essas redes sociais e on–line.

Não tenho certeza de que se deva opor a Educação presencial à on-line, porque nós podemos trabalhar com as mesmas regras fazendo algo no computador que será colocado on–line por exemplo, ou nós podemos ajudar uns aos outros a resolver problemas que nós estamos enfrentando on–line, presencialmente.

Comunidades virtuais

Platéia:  Como criar uma comunidade?
Pierre Lévy: Este é um problema de liderança, um problema político. Como criar um movimento social? Você não cria um movimento social ao criar um portal, o objetivo precisa ser muito atraente. Você precisa de líderes e um sentido compartilhado do que é importante, pois se trata de uma criação cultural, uma criação social. Como nós vivemos hoje na era cibernética, é claro que o suporte técnico dessas novas comunidades está on–line. É a rede, é o espaço cibernético é o ciberespaço; mas o coração, a essência das comunidades sociais, são os objetivos comuns, e isso não muda. Você não constrói uma comunidade como você constrói uma casa, um tijolo sobre o outro, ela precisa crescer.

Uma das diferenças mais importantes entre as comunidades atuais ou do futuro e as comunidades do passado é a forma da memória; porque não há nenhuma comunidade sem identidade, é claro. E não há identidade, uma identidade coletiva, sem uma memória coletiva.Hoje, acho que uma comunidade precisa organizar–se em torno de uma memória comum, e uma das funções principais de cada membro de uma comunidade da Era Cibernética é participar para ajudar o crescimento de uma memória comum e preencher com a fonte de memória. Dou e retiro algo desta memória comum, e nós todos estamos fazendo isso. De certa forma, todos estamos cultivando este valor comum. A comunidade é o círculo, e no centro há a memória comum, o conhecimento comum e cada um de nós está cultivando o que é comum a nós. Você dá e você retira. E quanto mais você dá, e quanto mais as pessoas dão, melhor é a qualidade do conhecimento que você retira de volta. Então essa é a nova regra, digamos.

Na sua apresentação você não falou tanto sobre conhecimento e o que se chama no mundo das empresas de “administração do conhecimento”, mas eu acho que “administração do conhecimento” não deve ser somente privilégio das empresas high tech. Há um corpo de metodologias, instrumentos e experiências que pode ser utilizado também pelos movimentos sociais e pelo setor público e pelo terceiro setor e assim por diante. (E, por falar nisso, aos poucos isto está se tornando uma disciplina acadêmica, muito recente ainda, por isso não está num estágio de muita complexidade).

Talvez eu esteja errado, mas vocês deveriam tentar ir nesta direção e compreender o que é “administração do conhecimento”. Basicamente, “administração do conhecimento” é ajudar as pessoas a pertencer à mesma comunidade e encontrar as informações de que elas necessitam no momento em que elas necessitam, quando a ação exige esta informação ou este conhecimento.  Encontrar as informações, encontrar o conhecimento ou encontrar as pessoas que sabem, ou encontrar as pessoas que têm o know-how. Então, obter visibilidade sobre quem sabe o quê, onde está o conhecimento, não somente em que site, mas onde estão as pessoas que sabem. Com quem eu deveria entrar em contato. Daí há a necessidade de que a comunidade se engaje na tarefa de definir qual é o seu conhecimento essencial, qual é o conhecimento importante para o funcionamento da comunidade. Com muita freqüência, este conhecimento não está nos papéis oficiais ou em manuais: ele vem da prática, de especialistas que têm experiência. Então é importante discutir com estes especialistas e ajudá-los. No vocabulário da “administração do conhecimento” isso se chama explicitação. Explicitar o conhecimento, ou seja, colocar este conhecimento num formato que pode ser usado pelos outros. Podem ser histórias, listas, tabelas, bancos de dados, depende. Mas colocar numa forma pública. E chamar a atenção de todos que tudo que é importante para o objetivo da comunidade ou para o objetivo da rede deve ser colocado numa forma pública e disponibilizado para toda a comunidade.

E a questão da estruturação desta memória comum, deste conhecimento comum, é muito importante, mas não é tão fácil de ser resolvida. Esta estruturação é chamada, no vocabulário da “administração do conhecimento”, de ontologias. Ela pode ter, por exemplo, a forma de uma taxonomia, de rede complexa, a forma de um círculo, etc. Mas ela precisa ter uma estrutura definida para ajudar as pessoas a se orientarem no conhecimento. Se pensarmos nas habilidades dos educadores, elas têm mais relação com a “administração do conhecimento” e com ajudar os outros – os aprendizes – do que com as funções on-line. Trata-se de algo muito mais complexo do que fazer algo funcionar on-line. Infelizmente não estamos indo na direção de uma sociedade menos complexa, mas sim na direção de uma sociedade mais complexa. Vamos ser claros, a tarefa do educador vai se tornar mais complexa. Não se trata só de “como entrar no Orkut?”, mas de como fazer a arquitetura do conhecimento para ajudar a todos a contribuir e a se orientar.

Foi uma surpresa para mim ouvir as três apresentações. Houve uma grande ênfase na comunicação, nas redes sociais e assim por diante. E muito pouca ênfase na memória, no conhecimento, na estruturação e assim por diante. O que não significa que isso tenha de ser organizado de uma forma tão rígida. Isso precisa ser vivo.  Mas quando eu falo sobre a arquitetura do conhecimento, estou pensando mais sobre um tipo de código genético. Cada comunidade pode ser vista como uma espécie de conhecimento, algo vivo, algo que tem a sua própria identidade. Todos somos membros, todos os membros das comunidades são as células desse organismo vivo. Mas eles compartilham o mesmo código genético, a mesma organização do conhecimento, a mesma ontologia. Estas são algumas das idéias que vieram à minha mente enquanto eu estava ouvindo as apresentações.

Sérgio Mindlin:  Na sua visão, como o nível de sofisticação das ferramentas utilizadas influem na dinâmica dos ambientes colaborativos?

Pierre Lévy:  É uma pergunta muito difícil responder, porque o nível de sofisticação não é algo absoluto, ele depende dos objetivos da comunidade, do ambiente, do conteúdo. Não sei responder uma questão tão geral. É preciso que haja uma adequação entre a interface, entre o poder do software e do hardware, a extensão da rede, o objetivo da aplicação. Então é mais uma questão de harmonia, de adequação, de equilíbrio do que, digamos, do máximo de sofisticação. É um equilíbrio qualitativo.

Bruno Aires:  Uma vez que o portal Rede Social esteja estabilizado, uma forma de dar impulso para quebrar com a inércia não seria encontrar atrações para os jovens que são entusiastas da Internet? Quais seriam estas atrações sociais? Que ações sociais falam mais ao jovem internauta numa faixa etária entre 18 e 28 anos?

Pierre Lévy:  Vocês sabem disso melhor do que eu, porque eu não sou um jovem usuário. Mas a gente sabe que compartilhar músicas, arquivos, ou tocar, ou jogar on-line, isso atrai os jovens. Isso a gente sabe.

Escolas que não usam Internet

Maria do Carmo Brant de Carvalho:  Pierre, como você sabe, o EducaRede tem feito um enorme esforço para conquistar professores e conquistar a presença, o uso, enfim, dos conteúdos e especialmente das comunidades virtuais, para o aprendizado maior das crianças e adolescentes. Cinco anos atrás, quando o EducaRede apareceu, ele era o único portal, ou quase o único portal de Educação no Brasil. Para a rede pública, especialmente, era o único. Hoje, cinco anos depois, as secretarias estaduais de Educação e outros grupos mantêm portais disponíveis também para rede pública escolar. Então, gostaria de lhe perguntar duas coisas. Primeiro: como criar um ambiente colaborativo interportais, interprogramas entre os portais que hoje são oferecidos via Internet para as escolas públicas? Como fazer para não caminharmos isoladamente uns dos outros, como acontece hoje? E uma outra questão: o Governo Federal iniciou um programa recentemente que pretende distribuir um computador para cada criança na escola pública. Algumas escolas já receberam esses computadores. Ao mesmo tempo,  aparece na mídia uma reação muito grande contra a Internet, que ela faz mal para a criança, que não é o melhor instrumento educacional para elas, o uso de tecnologias para crianças e adolescentes, que isso, ao invés de ajudar na aprendizagem, complica. Esta reação se disseminou de tal forma que as escolas públicas que já possuem seu computador, quer dizer, os municípios aos quais elas pertencem estão avaliando se é melhor ensinar com computador ou sem computador, entendendo que a Internet não é boa. E com isso, então lhe pergunto: Qual é a importância de toda essa tecnologia para crianças e adolescentes?

Pierre Lévy:  Em primeiro lugar, eu sou a favor dos computadores nas escolas, a favor do acesso livre à Internet, e acesso em alta velocidade. Primeiro, porque é uma fonte extraordinária de conhecimento, é um instrumento extraordinário de comunicação e colaboração; e, finalmente, porque em nossa sociedade os adultos utilizam as ferramentas da Internet no trabalho, o que torna completamente absurdo privar as crianças do equipamento básico que dá suporte a toda tecnologia intelectual de nossa época.

Quanto aos que a criticam, sabemos que eles a querem para si próprios e não para os outros: “A Internet é boa para mim porque eu sou educado, eu tenho razões suficientes e um espírito crítico para usar este instrumento tão poderoso, mas não para os outros, porque os outros são ignorantes e eles vão usar isso para o mal”.Mas você não pode aprender como usar este instrumento tão poderoso para o bem se você não tiver este instrumento nas suas mãos. É claro que serão cometidos erros; é claro que há coisas falsas na Internet; e é claro que há pornografia, crime e tudo mais, como há na sociedade. Mas por causa disso nossas crianças não devem se socializar? Claro que não. Há um lado escuro do ser humano, da mente humana, que pode ser encontrado em todos os lugares, não somente na Internet, mas em todos os lugares.

Para sua primeira questão, isto está ligado ao que você disse: não repetir o que já está sendo feito, o que já foi feito. Para nós, é muito difícil compreender que uma vez que algo já está na rede, está em toda parte. Porque uma instituição já fez isso, nós precisamos fazer a mesma coisa: não! Está na rede, então já está em toda parte. Então, obviamente, todas as instituições que têm os mesmos objetivos precisam colaborar umas com as outras e eliminar tudo o que for uma duplicação da mesma informação.  Isso é só redundância. É claro que é útil acrescentar novas informações se for uma nova informação, mas duas vezes a mesma informação?! Não estamos mais na época das bibliotecas. Na biblioteca de uma escola você precisa ter os mesmos livros que na biblioteca de uma outra escola, mas na Internet você não precisa disso. Mas é claro que essa idéia de pequenas acumulações de memória precisa ser realizada em todos os lugares. É um hábito que está entranhado na nossa cultura há séculos. Só há 15 anos que, subitamente, a memória se tornou global. É global de um ponto de vista técnico, porque há línguas diferentes, diferentes pontos de vista, diferentes tipos de organização de conhecimento. Mas esta multiplicidade não é mais uma multiplicidade local, é uma multiplicidade semântica. Ou, em outras palavras, é uma multiplicidade afetiva, porque nós temos diferentes objetivos, desejos, diferentes interesses, então a nossa memória pode ser organizada de formas diferentes. São diferentes espécies de conhecimento, mas todas essas espécies estão no mesmo ecossistema. Precisamos, então, aprender a viver neste mundo muito estranho em que a memória, quando ela está em algum lugar, ela está em todos os lugares.

Wikipédia

Platéia: Pierre, em vez de apenas promover a capacitação de pessoas para estar on-line, quais estratégias para promover a cultura de rede existem, quais você conhece e em que lugar?. Outra pergunta da platéia: Você pode dar um exemplo de comunidade colaborativa bem-sucedida?

Pierre Lévy: 
Certamente. O mais óbvio exemplo é a Wikipédia. Milhões de pessoas estão atualmente construindo a maior enciclopédia que já foi feita e ela é muitíssimo bem-sucedida. Hoje na Wikipédia, que foi feita em somente alguns anos, você tem mais informação que em qualquer enciclopédia impressa. Ela é muito precisa, muito atualizada, multilíngüe. E aqui a gente volta à questão da cultura e da animação. Há regras muito estritas e rígidas na Wikipédia. A maneira como você escreve um artigo é muito bem definida, e o que é um artigo bom e um artigo ruim pode ser acessado muito rigorosamente, porque você tem os critérios. É preciso ter referências, fatos precisos e datas e assim por diante. O manual para os participantes desta comunidade é muito bem feito e muito preciso. Além disso, há muitas pessoas que estão revisando continuamente a validade das informações que estão ali. E há somente 15 pessoas remuneradas; todos os outros são voluntários, do mundo todo. Então este é um exemplo. Ele é muito bem conhecido, está em todos os jornais.

Rogério da Costa: Pierre, você poderia falar algo sobre as diferenças e semelhanças que você vê entre a Wikipedia e os softwares livres? Há também uma série de regras para os softwares livres…

Pierre Lévy: Ambos são baseados na espontaneidade de muitas pessoas, portanto a maneira de integrar a multiplicidade de espontaneidades é ter regras. Não tem mistério. Mas é baseado numa relação par a par. Em ambos os casos, tanto na Wikipédia como no software livre. Mas você precisa tomar cuidado com o par a par. Todo mundo reconhece que algumas pessoas são mais especialistas do que outras. No mundo do desenvolvimento do software livre ou na Wikipédia, quem escreve um artigo sobre um assunto, escreve porque é um bom especialista neste assunto. E se alguém usa um software, é porque tem muita capacidade e elegância na codificação deste software. Então há   um gosto, uma apreciação das capacidades intelectuais dos outros, não é somente uma anarquia. Há autonomia, há espontaneidade e disciplina. É necessário um equilíbrio entre elas.

Platéia: Você acha que as universidades estão sendo capazes de acompanhar as novas formas de produção de conhecimento e de gestão da inteligência coletiva? Você veria novas formas e lugares de produção do conhecimento socialmente legitimado? Por exemplo, é possível comparar os avanços de uma comunidade de desenvolvimento de software, a própria Wikipédia, com os avanços da produção acadêmica coletiva? Ou seja, a universidade vai perder o seu lugar de excelência?

Pierre Lévy: A Internet foi construída pelos acadêmicos e muitos artigos na Wikipédia são escritos pelos acadêmicos e a gestão do conhecimento é ensinada nas universidades. Existem laboratórios de inteligência coletiva que são parte das instituições acadêmicas, por isso não acho que as universidades estão mais ou menos avançadas na construção desta nova civilização. Os construtores da civilização não são as instituições, na realidade. Há redes transversais de pessoas que compartilham alguns valores comuns e que estão, desculpe dizer isso, promovendo excelência na inteligência coletiva. Isso pode ser encontrado nas ONG’s, nas universidades, nas empresas, na administração pública. Não se trata de jogar uma instituição contra a outra: “Ah, não gosto das empresas, eles trabalham por dinheiro!”; ou “Eu não gosto das universidades, elas não estão no mundo real”, ou coisas assim. Precisamos cultivar uma visão muito aberta para visualizar a relação entre as pessoas e a colaboração.

O resultado você confere abaixo:

Então, é claro, tenho de fazer uma distinção entre habilidades dos professores individuais e a cultura geral, o trabalho de uma instituição. Não podemos separar o que nós somos como indivíduos e o que é a cultura coletiva de uma instituição, porque uma instituição é feita de pessoas. Então todas estas coisas estão interligadas; mas a evolução cultural é lenta.

Mesmo se pensarmos que toda esta nova cultura emergiu muito rapidamente, ela não emergiu rapidamente, ela levou pelo menos 30 anos: da primeira comunidade on–line, que se desenvolveu nos anos 80, e agora, 30 anos depois, estamos vendo os primeiros florescimentos desta cultura da colaboração on–line, das comunidades on–line. Então levou mais do que uma geração. Quem tem hoje 15 anos, quando for um educador, será um membro completamente integrado a esta nova cultura. Embora desejemos criar uma nova cultura, uma nova comunidade, não podemos decidir nada sobre isso, pois ela cresce espontânea e autonomamente. Podemos vislumbrar algo, oferecer instrumentos, encorajar, mas nós não podemos construir isso de fora para dentro, ela precisa crescer de dentro para fora.

E vendo seus os slides (a apresentação do EducaRede), fiquei muito feliz porque você estava dizendo exatamente o que eu dizia 15 anos atrás sobre o novo papel do educador: ajudar os outros a aprender colaborativamente, não somente ensinar e transmitir conhecimento.Eu dizia isso há 15 anos e agora isso se transformou num lugar–comum. O que você disse deve ser repetido sempre. E o trabalho é ótimo, mas demora. Quinze anos atrás quando estava dizendo isso, eu estava muito sozinho, eu me sentia só. Hoje eu sinto que não estou só, mas demora.

Platéia:  Isso acontece em outros países? Como podemos superar essa dificuldade?

Pierre Lévy: Acontece em outros países, sim. O crescimento das comunidades on–line e o crescimento de jovens nestas comunidades são um fenômeno global e o Brasil participa integralmente deste fenômeno. Não é um fenômeno brasileiro, é um fenômeno global e o Brasil é parte desta cultura global emergente. Isso precisa ser muito bem compreendido. Mas a emergência dessas redes sociais muito vibrantes é o resultado de um tipo de processo “darwiniano”.

Há muitas redes sociais emergindo em todos os locais. A maioria das quais não é bem–sucedida, apenas uma minoria consegue expandir–se. Então não é porque há algumas redes on–line muito bem-sucedidas, auto–organizadas, com pessoas interagindo o tempo todo, que ao se criar uma rede social ela também vá funcionar assim. Isso não é verdade. O que podemos fazer é estudar por que ela funciona aqui e não funciona lá. Mas cada rede social é quase como um fenômeno vivo.

Especialmente se nós tivermos objetivos sociais ou objetivos educacionais, o papel dos animadores e dos líderes e das pessoas que proporcionam regras e normas é muito, muito importante. Essas pessoas podem emergir das comunidades espontaneamente – e nós precisamos encorajá–las – ou podem ser pagos por instituições. Mas o seu papel é importantíssimo. Não acredito que haja uma pura espontaneidade quando se fala em atingir tarefas sociais complexas ou em aprendizagem em ambientes escolares. Ela precisa ser organizada. Porque todas as redes que funcionam bem geralmente são movidas pelo divertimento, pelo entretenimento, somente. Há um elemento de diversão, de entretenimento na aprendizagem, mas no ambiente escolar, nem tanto. Para resolver problemas complexos e, às vezes, muito tristes, voltados para a proteção dos jovens e dos adolescentes, elas não podem ser completamente espontâneas.

Platéia: O que esperar de um portal?

Pierre Lévy: Acho que você já sabe a reposta. O portal é só um meio, um instrumento técnico. É claro que há muito mais no que você quer fazer do que só dar um suporte para a ação. A tarefa real é feita pelas pessoas, o portal é só um instrumento técnico.

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

 

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