Gente quer carinho e atenção

Roda de gente que ouve gente

 

Demonstrando ser raridade, a descrição acima foi usada por um participante, para definir as oficinas sobre inclusão desenvolvidas pela jornalista Claudia Werneck; projeto receberá o Prêmio Empreendedor Social Ashoka-McKinsey 2002 no dia 19 de novembro

Por Beatriz Levischi

De blusa azul, calça preta, bota de salto alto (e fino), óculos de oncinha e medalhão com detalhes dourados balançando no peito, a jornalista e diretora-executiva da ONG Escola de Gente, Claudia Werneck, chega ao Espaço Criança Esperança, localizado no Jardim Ângela, em São Paulo, para comandar mais uma oficina sobre inclusão, dedicada a jovens – portadores e não-portadores de deficiências.

Sentados em círculo, adolescentes entre 14 e 18 anos começam a debater o significado da tal palavra, instigados por Claudia: “Inclusão é diferente de exclusão? Vocês já se sentiram excluídos na escola, por causa de nota, por exemplo?” A jornalista explica em seguida que “exclusão” não funciona apenas para os que estão fora da escola, mas também para os que estão dentro dela e não percebem.

A certa altura da discussão, Claudia questiona a presença de uma intérprete de Libras (linguagem de sinais) na oficina, uma vez que não havia surdos na sala: “Faz sentido?”. Faz. Segundo manda o protocolo, todo ambiente público deve ter uma intérprete da Língua Brasileira de Sinais. “E estamos aprendendo com ela”, justifica um dos participantes.

A pergunta que dá seqüência ao trabalho põe a molecada para pensar: “Vocês são gente?”. As respostas aparecem das formas mais variadas: “Em que sentido?”, “Às vezes não..”, “Quem é gente não vive com violência.” Aproveitando o (mau) hábito do ser humano de classificar pessoas, Claudia provoca: “Assassino é gente?”. Um “Não” ressoa em uníssono. “Quer dizer que vira ventilador?”, sorri faceira. Silêncio.

Para Claudia, falar sobre o assunto envolve uma questão de foro íntimo, por isso há tantos tabus. Uma vez convencidos que ninguém ali era ventilador, chegava a hora de olhar um para o outro e descobrir qual a única coisa que, ao ser tirada, faz com que não sejam mais gente. Mil chutes. Nenhum acerto. Gabarito: a diferença. “Cada um de nós é infinitamente diferente e totalmente único, não é privilégio das pessoas com deficiência. A gente chega misturado, embaralhado, desarrumado; não tem dias predeterminados para cada tipo de pessoa nascer. Essa é a manifestação da humanidade sobre a face da Terra. Cada um, além de ser diferente, está diferente a cada dia. O mundo é inspirado na diversidade. Quanto mais pessoas diferentes vierem, melhor; cada uma delas é um desafio”, empolga-se Claudia.


:: Falta convivência

Quem cabe no seu TODOS? em números
  • 1.215 adolescentes capacitados
  • 60% dos participantes nunca conviveram com jovens com deficiência
  • 87 oficinas realizadas
  • 48 ONGs parceiras

A oficina ocorrida na capital paulista integra um levantamento inédito no Brasil, conduzido por Claudia Werneck, que avaliou o quanto o jovem comum pensa no jovem com algum tipo de deficiência (mental, motora, auditiva, visual e física). A resposta é: muito pouco. Motivo: a falta de convivência, principalmente na escola. O estudo faz parte do projeto “Quem cabe no seu TODOS?”, que começou a ser desenvolvido em agosto de 2001 e tem como parceiros financiadores a ONG Save the Children Suécia, Fundação Banco do Brasil e WVA Editora.

As Oficinas Inclusivas foram uma das cinco vencedoras do Prêmio Empreendedor Social Ashoka-McKinsey 2002, na categoria Idéia Inovadora em Mobilização de Recursos, a ser entregue dia 19 de novembro, em São Paulo. Concorreram a este prêmio 220 organizações do Terceiro Setor.

Nove estados: Pernambuco, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Paraná já sediaram as oficinas e os resultados serão divulgados em livro a ser lançado no início de 2002. O objetivo do “Quem cabe no seu TODOS?” é capacitar adolescentes e jovens brasileiros para se tornarem multiplicadores do conceito e da prática de sociedade inclusiva – a sociedade para TODOS, segundo a resolução 45/91, da ONU, assinada em dezembro de 1990. De caráter itinerante, a iniciativa conta com a parceria de ONGs brasileiras que desenvolvem programas de educação para e pela mídia junto a adolescentes. Nas dinâmicas de grupo, os adolescentes têm a oportunidade de refletir sobre o conceito de inclusão, aprendendo a utilizá-lo em suas atividades. Um total de 15% desses adolescentes têm algum tipo de deficiência (física, sensorial, motora e mental). Todos são estimulados a refletir e a discutir o conceito de inclusão a partir de jogos e situações que valorizam a diversidade do grupo, visando a prática da inclusão.

“O conceito de sociedade inclusiva, entretanto, não se refere às reservas de mercado que têm o objetivo de garantir a presença de minorias nas universidades, nos trabalhos, em representações políticas no Congresso. A inclusão propõe uma nova ética que deverá permear todas as relações entre seres humanos”, diz Claudia Werneck.

Os sites indicados neste texto foram visitados em 14/11/2002

 

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)


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