Febrace

Criatividade em alta

Estudantes de 20 Estados brasileiros participam da Febrace-
Feira Brasileira de Ciências e Engenharia promovida pela USP

Por Paloma Varón

Os irmãos Wellington, 21, Nickson, 20, e Denys Cabral, 17, não tinham dinheiro para comprar brinquedo na infância. A triste realidade de muitas crianças brasileiras, no caso dos irmãos Cabral, de Goiânia, rendeu-lhes uma habilidade: construir seus próprios brinquedos. Dos brinquedos criados e recuperados do lixo, os irmãos passaram a fazer outras coisas com a sucata que encontravam na rua.

Começaram a fazer os trabalhos da escola com este material e tiveram o talento reconhecido pelos professores. Criaram uma maquete em movimento de um centro de reciclagem, inteiramente feito de sucata, e foram parar na Febrace  – Feira Brasileira de Ciência e Engenharia, onde ganharam vários prêmios e uma passagem para os Estados Unidos, para participarem da Isef (Feira Internacional de Ciências e Engenharia).

Criatividade. Essa é a principal característica dos irmãos Cabral e dos cerca de 300 garotos e garotas que participam da Febrace. A feira, que acontece de 10 a 12 de março e é promovida pelo Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da USP, está em sua segunda edição. Neste ano, foram selecionados 195 projetos apresentados por estudantes de 8ª série ao 3º ano do Ensino Médio de 20 Estados brasileiros. Espera-se um público de 10 mil pessoas.

A Febrace é uma feira anual de Ciências e Engenharia que envolve projetos de alunos de escolas públicas e particulares de todo o Brasil, em diversas categorias. Tem como principal objetivo estimular novas vocações em Ciências e Engenharia através do desenvolvimento de projetos criativos e inovadores e aproximar as escolas públicas e privadas das universidades. Além da feira, acontecerá um evento simultâneo, aberto ao público, o “1° Seminário Brasileiro de Educação para a Criatividade, Inovação e Desenvolvimento Sustentável: Qualidade e Oportunidades para Todos”.

A idade máxima para participação na feira é de 21 anos, limite imposto pela Feira Internacional, para a qual irão os projetos vencedores da Febrace. No ano passado, em sua primeira edição, a feira reuniu 91 projetos de 12 Estados. Destes, seis seguiram para a feira dos EUA. Em 2004, serão nove os projetos que irão representar o Brasil no evento internacional.

Exatas, humanas e biológicas

As ciências contempladas na Feira não se resumem às exatas. As biológicas e as humanas também são reconhecidas e existem prêmios específicos para cada área do conhecimento. Segundo Roseli Lopes, coordenadora geral da Febrace, a exigência é de que os estudantes utilizem uma metodologia científica, entreguem relatórios, tomem nota do processo de criação. “O mais importante é o processo, não importa tanto o resultado final. O aluno aprende muito fazendo”, diz Roseli, que foi jurada da feira norte-americana de 2001 a 2003.

Para ela, a Febrace serve para valorizar a criatividade dos alunos e, com isso, aumentar sua auto-estima. “Nessa faixa etária, o mais importante é adquirir confiança. Eles têm grande capacidade de perceber problemas e procurar soluções criativas. É isso o que a gente estimula”, explica Roseli.

É como a solução encontrada pelos irmãos Cabral para a impossibilidade de comprar brinquedos. “A gente tinha vergonha de fazer brinquedos e outras coisas com o lixo, até o dia que a gente levou um projeto para a Feira de Ciências da escola e o professor gostou. Aí a gente começou a fazer maquetes com movimentos e outras invenções para levar para a escola”, conta Nickson Cabral, que foi, com os irmãos, à Feira Internacional mostrar o seu projeto no ano passado.

“Foi ótimo ter ido aos EUA, conhecemos outros jovens, outras culturas. Os jornais da TV mostraram a gente, o nosso projeto”, conta, empolgado. Os irmãos foram selecionados para esta edição da Febrace, com o projeto de um braço mecânico para recolher resíduos tóxicos em depósitos de lixo.

Para incentivar a criatividade dentro e fora da escola, a Febrace buscou parcerias com entidades de diferentes áreas. Assim, a feira oferece premiações variadas aos participantes. As entidades darão prêmios, com diferentes visões, que podem maximizar o universo do estudante. A Marinha, por exemplo, privilegia projetos que tenham a ver com o mar. Já o Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) vai premiar projetos na área de educação.

“Aqui a gente quebra com a lógica de algumas feiras de ciências feitas nas escolas, em que os alunos simplesmente reproduzem experiências de livros. Queremos que eles criem algo, que experimentem. O país não precisa de uma legião que aperte parafuso igual”, fala. Para ela, o criativo às vezes é discriminado na escola. E existe a pecha do cientista maluco. “Queremos quebrar isso. Os nossos jovens são talentosos e temos que valorizar a sua criatividade”, fala.
Serviço:

Local: Escola Politécnica da USP – Avenida Professor Luciano Gualberto, travessa 3, 380 – Cidade Universitária
Preço: Gratuito
Informações: (11) 3091-5420 / 3091-5430 ou através do site www.lsi.usp.br/febrace

Os sites indicados neste texto foram visitados em 09/03/2004

(CC BY-NC Acervo Educarede Brasil)

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